A indisciplina é um dos problemas com os quais a escola se depara e para o qual busca solução há muito tempo.

Sumário

A indisciplina é um dos problemas com os quais a escola se depara e para o qual busca solução há muito tempo. A teoria construtivista de Piaget pode servir como suporte psicopedagógico para o esclarecimento de algumas questões relevantes a este respeito, permitindo que os docentes pensem em formas criativas de resolução dos conflitos advindos da dificuldade de alguns alunos em lidar com as regras no dia a dia da sala de aula.

Disciplina é um tema muito controverso. A controvérsia surge porque cada época, cada cultura em determinado momento histórico, tem um conceito diferente a respeito deste assunto.

Inicio, pois, tentando exemplificar o que entendo por disciplina: “a possibilidade que o ser humano tem de escolher uma norma a seguir, no curso de suas ações interpessoais.” [1]

Nas escolas, com relação à disciplina, geralmente não há muito problema no nível da educação infantil e das séries iniciais do ensino fundamental; parece-me que as dificuldades em relação às normas e regras a serem seguidas começam a surgir nas últimas séries, aumentando gradativamente no ensino médio.

Fico pensando no porquê de tal situação. Vocês já se fizeram esta pergunta? Como psicopedagoga, meu papel é o de possibilitar que as pessoas se façam perguntas. Acredito que somente através das perguntas que fazemos a nós mesmos podemos encontrar respostas para situações antigas e promover mudanças.

A resposta que me dou a esta questão, encontrei nas explicações de Piaget a respeito da formação do juízo moral na criança.

Antes de qualquer coisa, é preciso que se estabeleça uma relação entre disciplina e moral. Se entendermos disciplina pela possibilidade de escolha entre normas ou regras a serem seguidas, convenhamos que essa escolha passe por critérios de moral, pois estamos constantemente decidindo entre o que é bom ou ruim aceitável ou não segundo consensos culturais pré-estabelecidos e vivenciados historicamente.

Piaget considera a moral como um sistema de regras e acredita que a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras. Sendo assim, estabelece vinculação entre regra e moral e salienta a importância que o respeito às regras exerce no desenvolvimento da moralidade, entendida como o sentimento de partilhar costumes coletivos, socialmente aceitos e consensualmente aprovados.

Na sociedade ocidental a moral tem raízes nos ensinamentos e nos exemplos ditados pelo cristianismo. A moral cristã é baseada em preceitos de fraternidade, amor ao próximo e igualdade entre os homens. No início dos tempos modernos a Revolução Francesa contribuiu para a consolidação destas ideias, com a propagação do lema: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” que vai servir de parâmetro para a reorganização da modernidade.

Entretanto, a moral ocidental cristã assim como a moral revolucionária moderna, não impediu a propagação de regras, de leis, de costumes sociais profundamente dissonantes, tais como a escravidão na América colonial portuguesa e espanhola, as duas grandes guerras mundiais, o massacre dos judeus em campos de concentração, os milhões de famintos da África atual, a corrupção e toda sorte de crimes. Por quê? Porque a moral não reside no ato de o homem seguir regras determinadas socialmente, mas no princípio subjacente às suas ações.  Ela é individual e não coletiva e, para que uma ação tenha um substrato moral, tem que estar de acordo com um princípio que o sujeito acredite ser universal.

Assim, um aluno que furta objetos de seus colegas, pode deixar de fazê-lo por dois motivos: medo da punição imposta pela escola ou compreensão de que o furto não é uma ação moralmente correta, pois não tem um fim em si mesmo, sendo um meio espúrio de  conseguir um benefício.

É preciso, portanto, que a noção de moral seja construída em cada ser humano no decorrer de sua existência e, nessa construção, a escola desempenha um papel fundamental.

Quanto à importância que o respeito às regras exerce no desenvolvimento da moralidade, volto à Piaget: se este pesquisador fez alguma referência à Educação em seus trabalhos, foi neste aspecto. Para ele, a educação tem por objetivo a construção de uma moral autônoma, a consecução da autonomia de cada ser humano.

É necessário, contudo, entender bem o que ele quis dizer com isso: em meu ponto de vista, ele ressalta a importância das relações sociais na construção humana, sobretudo no que diz respeito ao senso de justiça. Significa que deve haver um caminho na relação da criança com as regras; esse caminho inicia-se com a fase de anomia, passando pela heteronomia em direção à autonomia.

Tais termos são usados indiscriminadamente em nossas escolas? Como se dá esse desenvolvimento? Para responder a essas questões torna-se necessário entender o significado etimológico dessas palavras: o sufixo ”nomia” comum as três, vem do grego - nomos - que significa regras. Assim, quando se fala de anomia, pela presença do prefixo “a”, infere-se um estado de ausência que existe, por exemplo, no bebê recém-nascido que não conhece as regras da sociedade e não sabe o que deve ou não fazer, dependendo integralmente das decisões do outro.

O prefixo “hetero” significa -vários- e isso leva à compreensão da heteronomia como um estado em que a criança já percebe a existência de regras, mas sua fonte é variada; ela sabe que existem coisas que podem ou não ser feitas, mas quem determina isso são os outros, geralmente os adultos.

Finalmente vem a autonomia, significando que o sujeito já sabe que existem regras para viver em sociedade, mas a fonte dessas regras está nele próprio, como sugere o prefixo “auto”.

No meio escolar fala-se muito em autonomia. Se formos ler os objetivos gerais da maioria das escolas, vamos encontrar este termo, sem dúvida alguma. Entretanto, não há, muitas vezes, um entendimento acerca deste conceito, gerando interpretações duvidosas:

Muitos entendem que as regras estão no interior do sujeito e julgam que o autônomo é aquele que faz o que quer, de acordo com suas próprias ideias. Parecem esquecer-se do sufixo, ”nomia”, que indica a presença de regras.

Se há regra é preciso que haja um acordo entre as partes envolvidas; é necessário que o sujeito leve o outro em consideração.

Muitos professores acreditam que a autonomia de seus alunos será alcançada deixando-os "livres" para decidirem que regras seguirem, descambando para a permissividade. Para Piaget, autonomia não é isso: é um estado de consciência de nível moral e intelectual.

No primeiro, há a possibilidade de escolher entre o que é certo e o que é errado, sob o ponto de vista das ações individuais. No segundo, há a capacidade de escolher entre o que é verdadeiro ou falso, sob o ponto de vista do conhecimento.

O sujeito que age com autonomia é aquele no qual a norma está em si próprio e, por isso, tem a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. O que o diferencia do sujeito da anomia é que, enquanto a ação deste tem por princípio suas necessidades mais primitivas, o primeiro age levando os outros e seus direito em consideração, baseando suas ações em princípios de universalidade e justiça.

Entre esses dois sujeitos fica aquele da moral heterônoma, que age de acordo com os outros. A fonte de regras é externa a ele e quem sabe o que é certo e errado, por exemplo, são os pais, os professores, Deus etc. Estes, geralmente, são formados por escolas que supervalorizam as regras, que baseiam suas relações em sistemas de obediência e compensações, em prêmios e castigos.

Volto então ao tema da disciplina. Penso na maneira como o defini no início deste artigo: possibilidade de escolha; relaciono-o com o conceito de autonomia proposto por Piaget.

Tento responder àquela pergunta inicial: por que os problemas de disciplina vão aumentando na escola à proporção que as crianças vão crescendo e a escolaridade progride? A meu ver, a resposta é clara: na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental a criança vive a moral heterônoma. Ela acredita que quem sabe o que é certo e errado são os mais velhos e não ela própria. A moral heterônoma é uma moral de obediência. Ela obedece, porque não é capaz de duvidar que o outro possa não ter razão. Ela obedece porque fica presa neste único ponto de vista e não é capaz de articular outro. Desta forma, não há indisciplina, há respeito às regras.

Porém, a obediência não é fruto de uma decisão e o respeito às regras passa pelo medo da sanção que pode advir do adulto ou da instituição e não por uma compreensão racional ou por uma introjeção da moral cultural.

Nas últimas séries do ensino fundamental e no ensino médio a criança e o adolescente começam a descobrir que os adultos nem sempre têm razão. Começam a construir uma moral individual e a questionar as regras estabelecidas. A escola e os professores geralmente ficam perplexos e perdidos. Como não há, na maioria dos casos, uma compreensão verdadeira da autonomia, caem em atitudes inadequadas: uns assumem a postura da autoridade, que exige obediência e respeito unilateral; outros assumem a postura do “laissez faire” e geram no aluno uma reação de rebeldia, de indisciplina, até de destrutividade.

Quando a escola e os professores compreendem o verdadeiro sentido da autonomia, assumem uma postura democrática, de respeito mútuo, de cooperação e constroem desde cedo o caminho da disciplina como possibilidade de escolha individual a partir da compreensão do lugar do outro na sociedade, da dissociação de pontos de vista, das sanções por reciprocidade – estabelecimento de relação direta entre a falta cometida e a penalidade sofrida - e do respeito pelas regras como fruto de um consenso que fundou e mantém a sociedade em permanente evolução, como um contrato que assinamos desde o momento em que desejamos fazer parte da comunidade humana.

Bibliografia

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BERGAMIN, Maria D.B. Socialização e Consciência Social. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília: Instituto de Psicologia da UNB, v. 46, n. 3/4, p. 57-76, 1994.

DOLLE, Jean-Marie. Para Compreender Jean Piaget: Uma iniciação à psicologia genética piagetiana. Trad. Maria José J. G. de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. 202p.

GIMENES, Beatriz Piccolo. O Jogo de regras nos Jogos da Vida: sua função psicopedagógica na sociabilidade e na afetividade de pré-adolescentes. São Paulo, Vetor, 2000.

GOULART, Íris B. Piaget: Experiências básicas para utilização do professor. Petrópolis: Vozes, 1985.

LIMA, Lauro de O. A Construção do Homem Segundo Piaget: Uma teoria da educação.  2.ed. São Paulo: Summus, 1984. 152p. (Novas buscas em educação, 18).

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MACHADO, Nilson J. Epistemologia e Didática: As concepções de conhecimento e inteligência e a prática docente. São Paulo: Cortez, 1995. 320p.

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POLITY, Elizabeth. Dificuldades de Ensinagem. Que História é essa? São Paulo, Vetor, 2002.

ZACCARO, Yeda M.P. Elementos Antropológicos em Jean Piaget: Uma pesquisa baseada na tese sobre o desenvolvimento moral. Porto Alegre: Veritas, 1982.

Autor

Júlia Eugênia Gonçalves: mestre em educação, psicopedagoga , membro do Conselho Nacional da ABPp, presidente da Fundação Aprender/Varginha,Mg; coordenadora pedagógica do EducEAD  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


[1] Segundo o enfoque da teoria sobre a moral desenvolvida por Jean Piag

 

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