Como se sabe, a trajetória da educação na história no Brasil não é nada simples.

Resumo

O presente artigo objetiva uma reflexão crítica acerca da atuação do psicólogo escolar na área da Educação realizada atualmente e sobre as contribuições das Diretrizes Curriculares para com o curso de Psicologia, considerando os desafios encontrados e as mudanças que foram e podem ser realizadas para aumentar a qualidade de seu trabalho. Seguir-se-á por meio de uma análise crítica demonstrando a operacionalidade e necessidade de um profissional de Psicologia Escolar no contexto escolástico. Para que o objetivo se cumprisse, foram realizadas pesquisas e leituras acerca dos conteúdos que compreendem a proposta deste trabalho, com o respaldo e supervisão da Professora Doutora da disciplina de Psicologia Escolar do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, na cidade de Lorena, SP. Pode-se concluir que a Psicologia Escolar conceituar-se-á nas instituições escolares sob uma nova ótica, de como tal profissional colocará em prática seu conhecimento e sob qual estratégia, transformando construtivamente e atendendo às necessidades do âmbito escolar.

Palavras-chave: Educação, Psicologia Escolar, Escola.

Introdução

            Inicialmente, a Psicologia apresentava uma forte característica clínica, com predomínio do atendimento individual e um caráter remediativo em suas ações (MEC, 1996). Conforme os anos passavam e a sociedade se transformava, tornou-se cada vez mais evidente a necessidade de uma nova ciência psicológica, que fosse mais dinâmica e inovadora, além de suprimir as demandas de atendimento das minorias sociais.

            Tais mudanças são acompanhadas pela conscientização de que a atuação do psicólogo pode ocorrer em diferentes âmbitos, já que os indivíduos estão em todos os tipos de instituições e podem apresentar as mais diversas questões psicológicas, seja de cunho familiar, social, profissional, entre outras.

            Dentre as diferentes áreas com que a psicologia se compromete, a Educação é uma das mais importantes, pois através desta são adquiridos não só os conhecimentos necessários para uma formação profissional, mas valores morais e éticos, dentre outros aspectos que contribuem para preparar os indivíduos para a vida em sociedade (Bock, 1999).

            A atuação do psicólogo no ambiente escolar, assim como nos demais, tem também uma contribuição positiva das Diretrizes Curriculares, (Campos e Jucá, 2003), que demanda a formação de um profissional capaz de refletir criticamente e desenvolver ações que se adéquem às necessidades e transformações recorrentes na área educacional. Assim, tal atuação mostra-se essencial na construção de uma educação mais efetiva e de qualidade.

Um breve relato do quadro histórico educacional brasileiro

            Como se sabe, a trajetória da educação na história no Brasil não é nada simples. A proposta do presente artigo não é dar enfoque para uma narrativa histórica e especificamente de alguns fatos, todavia é importante atentar-se para alguns fatos os quais influenciaram diretamente a respeito de como se encontra a educação brasileira na atualidade.

Na época do Brasil Colônia os Jesuítas chegaram com a missão de evangelizar os povos indígenas, ou seja, conseguir adeptos da fé católica, e somente a classe dominante tinha educação média.

“A educação superior na colônia era exclusivamente para os filhos dos aristocratas que quisessem ingressar na classe sacerdotal; os demais estudariam na Europa, na Universidade de Coimbra. Estes seriam os futuros letrados, os que voltariam ao Brasil para administrá-lo.” (RIBEIRO, 1993, p.15)

            Posteriormente ao marco histórico da Companhia de Jesus, há a reforma feita por Marquês de Pombal, este administrava Portugal e fez uma reforma na educação brasileira tirando a educação da igreja e colocando-a à a favor do estado.

“As reformas pombalinas causaram uma queda no nível do ensino e os reflexos desta reforma são sentidos até nossos dias, visto que temos uma Educação voltada para o Estado e seus interesses.” (RIBEIRO, 1993, p.16)

            Em 1834 houve o ato institucional que segundo Ribeiro (1993) descentralizou a responsabilidade educacional. O ensino primário e médio e a legislação e controle dos mesmos caberiam às províncias e o ensino superior era exclusivamente função do poder central de promovê-lo.

        Conseguinte há também diversas reformas na educação, mas nada soluciona de fato os problemas “pedagógicos” e educacionais. Através do contexto histórico que o Brasil viveu em relação à educação, percebe-se que um fator crucial na história foi o de a educação tradicional manter-se sem ter sido abalada significativamente.

            Contudo, no fim do séc. XIX surge a Escola nova, onde segundo Ribeiro (1993) os pioneiros dessa educação defendiam o ensino leigo, universal, obrigatório e gratuito e principalmente a reorganização do sistema escolar sem questionamento do capitalismo excessivamente dependente. Todavia também enfatizam a respeito da importância do Estado na educação e desta na reconstrução nacional.

            Muitas outras reformas vão surgindo e o quadro educacional brasileiro não têm melhorias significativas. Hoje a educação é um direito de todos mas nem todas as pessoas usufruem deste direito. Importante é que a história deve ser  conhecida e a educação deve ser estudada para progredir, e não regredir.

“Quando se faz propostas educacionais, é necessário que se conheça toda a História percorrida até nossos dias, para que se crie a partir dos resultados dos trabalhos que foram desenvolvidos até o presente, para que os erros cometidos não se repitam, e os aceitos de outrora sirvam de base para que se amadureçam as propostas educacionais” (RIBEIRO, 1993, p. 28).

Psicologia – dos primeiros passos à atualidade

            A psicologia surgiu, inicialmente, como um ramo da filosofia, sendo que a natureza humana era estudada mediante a especulação, intuição e generalização. Segundo Cambaúva, Silva e Ferreira (1998), esta surge como ciência ao reconhecer a instância individual do homem na sociedade, a qual precisa ser padronizada e normatizada devido a fatores de caráter social, político e econômico. Ainda de acordo com estes mesmos autores, embora a subjetividade seja reconhecida com o advento do Liberalismo, baseado em princípios como liberdade e igualdade, o próprio indivíduo é capaz de perceber que estes nem sempre se concretizam, gerando uma crise na subjetividade que precisa ser solucionada, processo que seria então realizado pela psicologia.

            Outro fato histórico que marca o nascimento da psicologia científica é a criação do Primeiro Laboratório de Psicologia Experimental proposto por Wilhelm Wundt (1832-1920) no ano de 1875 na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Tal proposta traz métodos científicos para a análise e compreensão de experiências acerca da consciência, então objeto de estudo da ciência psicológica.

            Na realidade histórica da psicologia no Brasil, as ideias psicológicas estão presentes desde a época colonial, seja na educação que era proposta pelos Jesuítas ou em obras consagradas em áreas como medicina, teologia, entre outras, como afirma Massimi (1986/1987; 1990), nas quais se encontram preocupações voltadas para a compreensão e controle do comportamento dos indivíduos. Durante a República Velha, conhecimentos e métodos considerados próprios da área psicológica, como testes psicológicos, passam a ser também utilizados (ESCH e JACÓ-VILELA, 2001).

            Muito do desenvolvimento da psicologia deu-se, também, para suprir às necessidades da Educação, tanto resolvendo problemas quanto atendendo à demanda da formação de professores. “Antecipando a lei que a regulamentou, algumas faculdades de Filosofia inauguraram cursos básicos de psicologia (...), sempre com o intuito de atender uma demanda crescente de especialização nessa área do conhecimento, que já vinha servindo de suporte a muitas práticas cotidianas encontradas em diversos locais e sob a responsabilidade de diversos profissionais” (CRUCES, 2006, p.20).

            Ainda segundo a autora, após o reconhecimento da profissão, visava-se a atuação do psicólogo como predominantemente clínica, característica que passou a ser criticada nos anos 70, devido às limitações que apresentava. A ampliação da atuação desse profissional para outros âmbitos tem acontecido de forma gradual, acompanhada de novos métodos e novas competências a serem adquiridas, contribuindo para o desenvolvimento de um trabalho mais abrangente e mais acessível aos diversos seguimentos da população que necessitam de seus serviços.

            Há também diversas reformas educacionais e em 1934 Criam-se os Conselhos Nacional e Estaduais de Educação. Nestes conselhos é determinado uma verba específica para se aplicar ao ensino e finalmente há um reconhecimento da Educação como um direito de todos.

Psicologia escolar: transitando em seus caminhos

        Para tratar de psicologia escolar é necessário conhecer o breve histórico da educação. Há muito tempo se sabe que o ser humano não nasce pronto e incluso dentro de uma determinada cultura, isto é, ele é apresentado a esse meio por terceiros; ensinado a viver em sociedade e obter uma cultura regional. Existem registros extremamente antigos que mostram como a era educacional se expandiu gradativamente, desde a Grécia antiga onde os sábios e famosos filósofos passavam seus conhecimentos aos jovens até os dias de hoje com escolas espalhadas pelo mundo (Antunes, 2008).

        Essas escolas serviram de grande acréscimo para o meio social, pois formando indivíduos através delas é que se consegue equilibrar a cidadania, tornando-se assim uma necessidade do povo de muita importância. Como foi dito anteriormente, nos dias atuais existem várias instituições destinadas à escolaridade da população, sendo esta infantil, jovem e adulta, desta forma, o estudo da ciência enriqueceu, e com base nisso sabemos que a Psicologia faz parte da ciência. Este estudo de ciências humanas foi sendo aplicado em tantas áreas que surgiu até mesmo um para a situação das escolas; Psicologia da Educação ou Psicologia Escolar.

        No final do século XIX o Brasil passou uma mudança com a Proclamação da Republica, não só abolindo a escravidão e a promulgação da Constituição de 1892, mas sim observando que no exterior uma nova ciência foi adquirida; a Psicologia. Com isto, médicos e educadores da época procuraram os estudos para uma compreensão maior do comportamento humano, tendo base nos métodos de ensino americanos e europeus. De início, os estudos no Brasil sobre esta ciência eram apenas de pesquisas básicas, nada tão abrangente. Com o passar dos anos, o interesse pelo conhecimento das ciências humanas foi crescendo junto à mudança da sociedade brasileira, o povo buscava por uma modernização mais justa e livre, esse movimento exigiu novos projetos dentro da educação, propondo a realização de ideias para a “Escola Nova” para a população. Desta maneira, a psicologia começou a ingressar nesses princípios, tendo em 1920 reformas de ensino.

        As reformas se iniciaram assim que os laboratórios de psicologia foram inaugurados, no início do século XX, foi observada uma forte relação entre a Psicologia e a Educação. Logo, foi descoberto que ambas poderiam ser consolidadas uma vez que na Europa e Estados Unidos já havia a Psicologia Educacional. Entretanto, foi no ano de 1930 que a Psicologia começou a se estabelecer como uma profissão propriamente dita no país, tendo atendimento clínico e intervenções na organização de trabalho. Em seguida, também adentrou na área da educação graças à criação dos Serviços de Orientação Infantil nas Diretorias de Educação do Rio de Janeiro e de São Paulo e da Clínica do Instituto Sedes Sapientiae, onde era possível atender crianças com dificuldades na aprendizagem dentre outras ações no alcance do profissional. Porém, críticas radicais caíram sobre a Psicologia Escolar na década de 1970, pois buscavam por um método mais pedagógico que não fosse reducionista ou que estimulasse o preconceito por conta das rotulações dos problemas intelectuais dos alunos encontrados em testes.

        Outro fato bastante criticado foi o atendimento dentro das escolas que mais se assemelhavam com a forma clínica, pois esta não só focava apenas nas patologias como também não entrava de acordo com o que era necessário, já que as ações do psicólogo escolar deveriam ser tratadas em coletividade na instituição. Desta forma, o psicólogo escolar baseou-se em novas maneiras de trabalho junto à Pedagogia para que sua função com professores e alunos melhorasse.

        No entanto, apagar a imagem de um atendimento clínico dentro das escolas não teve tanto âmbito como se esperava, muito pouco foi realizado para que fosse possível apagar essa visão destorcida da Psicologia da Educação.

        Nos dias atuais ainda é possível encontrar a maneira clinica de atendimento dentro de algumas escolas, uma atuação errônea na determinada área já que foi fortemente rejeitada e criticada, mas é encontrada também uma participação mais abrangente do profissional, de forma a usar sua observação no ambiente escolar para reconhecer a realidade deste e das pessoas que o frequentam para abrir o assunto em dialogo até chegar a uma solução dos problemas; não se baseando apenas em rótulos ou características intelectuais dos estudantes (FRANCHINI e PONTEL, 2015).

    Do Passado ao presente: Atual perfil do Psicólogo 

        Tendo em vista que a formação do psicólogo, antigamente, pairava sobre uma perspectiva clínica, ressalta o documento realizado pela Comissão de Especialistas de Ensino de Psicologia (MEC, 1996, pp. 2-3), ao refletir sobre a atuação deste profissional:

Justaposição de diferentes concepções e métodos, sem a desejável integração dos conhecimentos que poderia instrumentalizar a atuação profissional ou o desenvolvimento de estudos e pesquisas; (...) [a expectativa é que] o psicólogo a ser formado deveria ser um profissional cuja atuação ocorreria principalmente na clínica, a partir de uma formação centrada no conhecimento das disciplinas científicas que possibilitam o conhecimento da personalidade e da psicopatologia.

        O conjunto de disciplinas limitava a atuação do psicólogo, onde testes, classificação e clínica eram o que abarcavam a Psicologia da época, que era incorporada ao modelo médico, como dito, cuidando da saúde mental por meio de uma perspectiva remediativa, mantendo seu foco na doença, e não na prevenção.

        A pretensão de se sobrepujar a este panorama valeu-se a partir da década de setenta, quando análises disponíveis sobre a formação e a prática do psicólogo contribuíram para que se crescesse e se afirmasse a consciência de que era necessário construir uma “Psicologia alternativa”, que pusesse em novas bases a relação entre profissão e a sociedade (CAMPOS & JUCÁ, 2003).

        Já havia indícios de que era necessário considerar as contradições da sociedade, tais como seus contextos trabalhistas, políticos, ideológicos, ambientais, isto é, questões e princípios oriundos do coletivo. E à medida que se precisava de profissionais com domínio de conhecimento e prática para trabalhar nestas novas realidades, necessitou-se reconstruir a visão que se tinha de Psicologia, até então.

        Visto que da população emergiam-se novas demandas que careciam de novas competências para serem compreendidas e que o contexto sócio histórico e econômico se transformava continuamente, tais competências também teriam de ser redimensionadas.

        Segundo Mello, 1996; Siqueira, 2001; Yamamoto, 1996; Yamamoto, Siqueira & Oliveira. 1997, o grande perceptível resultado deste processo foi o nascimento de novas áreas de formação e atuação para se trabalhar em Psicologia.

        Sob as perspectivas de Campos & Jucá (2003):

Os diferentes levantamentos acenavam com um panorama em que os novos espaços – notadamente do setor público de saúde e educação – pareciam requerer dos psicólogos um compromisso com os grupos sociais que tradicionalmente não tinham acesso aos seus serviços. Depois, constatavam uma transformação da área clínica em área da saúde, em face do aumento do número de profissionais que, muito embora desenvolvendo atividades clínicas, o faziam em outros locais que não o consultório particular (CRP-6, 1995).

        Com seguimento ao novo rumo da Psicologia, pouco a pouco, é deixada para trás a visão clínica que ao psicólogo era associada, isto é, atribuindo ao sujeito o problema, por uma faceta diagnóstica, classificatória e remediativa. Quando a Psicologia é introduzida aos hospitais, e posteriormente em postos de saúde, creches etc., ela se reestrutura sob uma ótica questionadora, indagando as variáveis sociais contextualizadas grupal e individualmente, contando com um profissional que avalie o sujeito regido de sua complexidade e subjetividade, já não mais se delimitando ao anterior contexto médico e classificatório.

        Vale ressaltar que investigações sobre a atuação do psicólogo demonstram que cerca de 10% dos psicólogos em atuação trabalham em psicologia escolar/educacional (YAHAMOTO, 2012; BASTOS & GONDIM, 2010). A atuação deste profissional incumbir-se-á de um olhar sensibilizado às demandas e emergências sociais que compõem a instituição escolar.

        Na busca pela compreensão acerca de como o psicólogo pode atuar dentro de qualquer instituição, é preciso que se desprenda de fatores concretos e se entenda que a realidade pode ser multifacetada e que será preciso ser vista por meio de diferentes perspectivas, pois muitas das queixas enunciadas nem sempre estarão apenas associadas à realidade da instituição, mas sim, também poderão ser de cunho familiar, histórico-social e de outros fatores psicológicos que surgirem do grupo ou indivíduo, pois segundo Vasconcelos (2002):

Pensar sistemicamente é pensar a complexidade; (ampliando o foco de observação, vendo sistemas de sistemas e contextualizando o fenômeno) a instabilidade (acreditando nos processos de auto-organização e tendo o homem sempre como um sujeito em constantes modificações) e a intersubjetividade (adotando o caminho da “objetividade”, reconhecendo-nos como parte integrante do sistema e atuando na perspectiva da co-construção das soluções.

        No decorrer das décadas deu-se luz a uma Psicologia compromissada com o social e educativa, detentora de uma perspectiva que ultrapassa limites clínicos e experimentais, uma Psicologia preventiva, cujo manejo se dá em compreender fenômenos a fim de propor maneiras de intervenção em inúmeros e diferentes níveis preventivos. Trata-se de promover a concepção crítica de um indivíduo integral em um contínuo desenvolvimento, pertencente a um contexto físico-social que se encontra em incessante movimento e transformação. Fala-se em uma colaboração oriunda deste profissional por meio de um refinado olhar interpessoal acerca de si próprio e do que o circunda, com o objetivo de conceber a relevância em que sua legítima atuação implica, entendendo as demandas psicossociais, realizar pesquisas e se comprometer a enfrentar desafios que lhe surgirão diante de possíveis intervenções ao longo do caminho, fazendo com que, como afirma Andrada (2005),

O Psicólogo Educacional crie um espaço para escutar as demandas da escola e pensar maneiras de lidar com situações que são cotidianas. Precisa criar formas de reflexão dentro da escola, com todos os sujeitos (alunos, professores e especialistas) para que possa trabalhar com suas relações e paradigmas.

        Assim, a Psicologia, na condição de se construir social e comprometidamente, não pode isentar-se de uma contribuição de uma educação assegurada que atenda
às necessidades da população. Portanto, segundo Campos & Jucá (2003), é importante que se reflita acerca de como a formação oferecida tem sido suficiente para instrumentalizar e impulsionar tal profissional ao desenvolvimento de uma práxis competente, para compreender e atender às demandas das instituições ou em qualquer outra diretriz. A identificação das expectativas relacionadas à atuação profissional do psicólogo escolar é fundamental para a implementação de ações que estejam de acordo com as necessidades sociais da educação (PRUDENCIO, et al., 2015, p. 144).

        Não se trata apenas de lidar com questões manifestas, mas em saber identificar as latências que se encontram no interior de toda instituição escolar. É preciso dar luz às representações sociais que na escola se encontram para compreender suas queixas e defasagens. Se o ponto de partida deve ser o coletivo, deste modo, é preciso que estenda tal aproximação a uma linguagem representativa.

        A linguagem representativa vai se fundar na inserção deste profissional no grupo, favorecendo o estabelecimento do vínculo, para posteriormente identificar o mal estar da instituição escolar, por meio de trocas relacionais que trarão à tona a captação pelo psicólogo da verdadeira demanda do grupo em questão. São as representações sociais que abordam o que clama aquele grupo e do que ele carece.      

     Estar dentro de uma instituição escolar é necessariamente abraçar também suas patologias e os poderes que lá estão constituídos, o que pode ser muito desafiador, visto que se podem colocar autoridades e regimes à berlinda e a mudança pode parecer assustadora.

        Segundo a perspectiva de SOUZA (2010, p. 136):

Além de compreendermos a escola como produtora e produto de relações histórico-sociais, consideramos que para aprender minimamente a complexidade da vida diária escolar, precisamos construir procedimentos e instrumentos de aproximação com esse espaço tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho para nós. Assim, enquanto pesquisadores, temos nos aproximado da escola por meio de um método de trabalho que prioriza a convivência com seus participantes, de forma que as vozes daqueles que são comumente silenciadas em seu interior possam se fazer presentes enquanto participantes, de fato, da pesquisa.

        Após um pincelar pela trajetória da Psicologia e pelo trajeto do profissional de Psicologia Escolar, este item debruçar-se-á em uma reflexão acerca da atuação deste profissional nas escolas, encadeada no que dizem as Diretrizes.

O que propõem as Diretrizes Curriculares para o psicólogo?

       Segundo Campos & Jucá (2003), as Diretrizes são concebidas por um importante progresso em associação ao Currículo Mínimo que antigamente vigorava, onde por meio de uma trajetória sócio histórica, elas reestruturam a visão que se tem do profissional de Psicologia, dando luz e possibilidades à formação de psicólogos detentores de competências e habilidades.

       Acreditam Campos & Jucá (2003),

[...] que o ponto de partida para se planejar a implantação das Diretrizes Curriculares deve ser o profissional, a ênfase em um aperfeiçoamento constante e o desenvolvimento de posturas de agilidade, criatividade, independência, tomada de decisão.

       A formação do perfil de um profissional de Psicologia Escolar dar-se-á como uma questão multifacetada, relacionada a questões particulares e sociais do mesmo e de como a profissão é reconhecida socialmente. A implantação das Diretrizes requer a construção de um perfil crítico e comprometido com a transformação das condições sociais e de trabalho que permeiam o contexto escolar e educacional, articulando-se coletivamente e defendendo a utilidade das intervenções como suporte ao reconhecimento social da profissão (CAMPOS & JUCÁ, 2003).

       O psicólogo escolar é um agente de mudanças dentro da instituição, onde funciona como um elemento catalizador de reflexões, um conscientizador dos papéis representados pelos vários grupos que compõem a escola. (ANDALÓ, 1984).

       Ao observar o atual perfil doeste profissional, seguir-se-á do ponto de que o mesmo estará inserido em um contexto resultado de questões histórico-culturais misturadas à sua própria história, crenças e valores pessoais.

      Os importantes desafios do psicólogo escolar serão de transformar a instituição em que ele se encontrar, buscando desvendar o sentido oculto do discurso explícito dos educadores e de todos os outros membros, subsidiando-se de técnicas, instrumentos e estudos para dar um novo significado a tal contexto. Portanto, cabe a este profissional aperfeiçoar seu modo de observação antes de qualquer tomada de decisão interventiva; assim como facilitar as relações interpessoais no ambiente educativo, desenvolvendo-se paralela e juntamente aos demais membros da instituição da qual fizer parte, agindo sempre dentro de um modelo educacional e não clínico, e principalmente, ser detentor de um olhar coletivo. Araújo (2003, p.72) ressalta: "Defende-se [...] que a identidade profissional do psicólogo escolar receba o suporte de uma capacitação continuada em serviço, com o foco no desenvolvimento de competências específicas que visem a uma atuação mais segura, sistematizada e fundamentada na instituição escolar". E sempre por meio de uma disposição em colocar-se como sujeito atuante e participativo.

    Deste modo, é iminente que um curso de graduação em Psicologia, orientado pelo perfil de um profissional desenhado pelas Diretrizes Curriculares, considere os aspectos subjetivos e intersubjetivos presentes nas escolhas, contingências e opções que se colocam aos sujeitos, e que se redefinam na história de seu tempo (ARAÚJO, 2003; MARINHO-ARAUJO, 2005b).

     Principalmente, sobre o que propõem as Diretrizes ao novo perfil do psicólogo escolar, este precisará dominar a técnica para se tornar competente e realizar trocas com os pares de sua profissão assim como de outrem; conhecer as representações sociais que da comunidade emerge, penetrar e estabelecer uma relação para que se quebrem regimes e/ou regras anteriores que foram impostas inadequadamente, assim como criar outras novas, renovando os sentidos. Deve-se evitar pensar em um profissional cuja função é curativa, isto é, de frente com o adoecimento, em contrapartida, um dos desafios passa a ser entender que os profissionais de Psicologia devam estar em todas as instituições, inclusive as escolares, com uma missão preventiva, promovendo a saúde mental por meio de intervenções precoces, isto é, desvelando-se para que o problema não chegue, de fato, a acontecer; para que o mal-estar não se perfaça.

     Todas as questões mencionadas direcionarão o caminho do profissional desde o início de sua formação, articulando seus saberes com a práxis no decorrer desta trajetória, em várias circunstâncias, sejam elas nos estágios, nas ênfases e, até mesmo, no núcleo comum. Desta forma, propulsionando o profissional a investir em sua educação continuada, aprimorando sua prática, enxergando novos problemas e assumindo novos desafios, para assim garantir a própria saúde mental e competências como sujeito empreendedor.

    Segundo Dias (2010), uma abordagem de competências realça o que o estudante aprende por si, o próprio aprender, a construção individual do conhecimento por meio da interação. Preconiza o saber enquanto ferramenta de obtenção de competências, veem-se os conteúdos enquanto pontes para a elaboração das mesmas. Considera o método pedagógico e a aprendizagem, superando a dicotomia teoria-prática e enraizando os valores educativos da escola do século XXI (Costa, 2004). Com o intuito de elucidar e complementar o que o termo competência abarca, ressaltam Campos e Jucá (2003):

[...] uma competência não se define apenas em termos de prontidão para o desempenho de uma ação, mas, antes, constrói-se no cotidiano, nas situações do dia-a-dia que exigem dos seus atores a identificação dos conhecimentos pertinentes e a mobilização de recursos, configurados em uma postura ativa e eficaz diante dos desafios ou problemas.

 

    Como defende a União Europeia, a competência é uma combinação de conhecimentos, capacidades e atitudes adequadas ao contexto (ESTELLA & VERA, 2008). Para Perrenoud (1999), uma competência traduz-se na capacidade de agir eficazmente frente certo tipo de situação, respaldada em conhecimentos, mas sem se limitar a eles.

    Segundo algumas perspectivas:

A competência integra e coordena um conjunto de esquemas (de percepção, pensamento, avaliação e ação) que sustém inferências, antecipações, transposições analógicas, generalizações, probabilidades, recolha de informação pertinente, tomada de decisão. A competência integra, assim, raciocínios, decisões conscientes, inferências, hesitações, ensaios e erros para se ir automatizando e constituindo-se num esquema complexo (PEREIRA, 2005).

        Ao olhar o contexto escolar, segue-se do ponto de que a escola é concretizada em questões histórico-culturais. Ela forma é formada diariamente por meio de um vasto e denso emaranhado de circunstâncias sociais, interesses pessoais e grupais, alinhada a questões estatais e locais. As particularidades de uma instituição escolar encadear-se-ão sempre às suas vertentes constituintes e sob os sistemas políticos que fora instaurada. Há um grande trabalho pela frente acerca de o que se deve fazer para promover saúde mental nesses contextos e como conseguir um melhor direcionamento não somente aos alunos, mas a todos ali inclusos. Como complementa Dias (2010):

A escola que defende uma perspectiva construtivista parte dos conhecimentos prévios dos alunos e leva-os a construir o seu conhecimento, a encontrar valores morais, seja através da criação de oportunidades de trocas de pontos de vista ou da expressão de opiniões. Considera o sujeito aprendente, os seus objetivos e possibilidades de aprendizagem, utilizando o conflito cognitivo e sócio cognitivo, a descoberta, a procura, a curiosidade, a pesquisa, como formas de aprendizagem e de construção de regras. Gera sentimentos de competência, promovendo autoimagens positivas.

       O perfil do Psicólogo passa a ser construído ao longo do curso e das novas propostas das Diretrizes, com comprometimento competente e histórico com as demandas sociais. O contato com a teoria e a prática facilitará a construção de habilidades e competências, para tal é preciso que o profissional construa o conhecimento para aplicá-lo, como confirmação de seu saber. É preciso a inserção ativa e interativa de um sujeito consciente de seu papel. E com a formação em torno das competências, considera-se, portanto, um bojo de meios mobilizadores na construção deste profissional – históricas, econômicas, políticas, culturais e sociais - criando-se um espaço para ação e prática para o aperfeiçoamento do próprio perfil, de posturas criativas, ágeis, independentes e autênticas, isto é, a autonomia na tomada de decisão. Se antigamente atribuía-se ao sujeito o problema, hoje se sabe que o problema é construído conjuntamente.

        Para Tardif (2002), construir competências pressupõe “considerar de forma preponderante a dimensão histórica da vida pessoal e profissional”. Na elaboração de competências, que o profissional aprende gradualmente, os saberes cruciais para exercer sua profissão de forma significativa; ressignificando convicções, representações e certezas sobre sua prática, mesclando conhecimento e superação das adversidades que influem nas transformações das competências ao longo do tempo (ARAÚJO, 2003; MARINHO-ARAÚJO, 2005ª). É, portando, com base neste direcionamento que se orienta a formação do psicólogo escolar por meio das propostas das Diretrizes, abrangendo sistematicamente questões de cunho cognitivo, comportamental, psicológico e social. 

Conclusão

    Por meio desta produção foi possível observar os acontecimentos históricos principais da Educação brasileira, sendo este um assunto importante no âmbito da  Psicologia Escolar. A conquista de um espaço de atuação da Psicologia na educação possibilitou, em nosso país, uma amplitude de pesquisa na área e de trabalho profissional, visto que na Europa e nos Estados Unidos da América a Psicologia já havia saído de um contexto clinico para um contexto mais amplo.

     Nessa perspectiva de análise, os objetivos e propostas de atuação e do perfil do Psicólogo Escolar passam a sofrer alterações ao longo do tempo para melhor responder às novas demandas e desafios do trabalho educacional. As Diretrizes Curriculares para a formação do psicólogo delineiam muito claramente esse novo perfil, atribuindo, prioritariamente ao Psicólogo Escolar a função de agente de mudanças dentro do espaço educativo.

    Para que o psicólogo escolar possa exercer essas novas atribuições com competência, ética e comprometimento,  ele necessita  conhecer também o contexto  de entorno da escola, com um olhar mais direcionado à prevenção da saúde mental, em detrimento de uma atuação mais remediativa, como ocorria no passado . As demandas sociais aumentaram, e este profissional necessita voltar-se para a construção de novos conhecimentos e de novas práticas.

    Por fim, pôde-se concluir que este trabalho possibilitou ampliar o conhecimento e reflexão sobre a trajetória da Psicologia e da Educação em nosso país e no mundo. A interdependência entre Psicologia e Educação  ainda hoje é uma área de estudo e trabalho a ser aprofundada. É necessário que o diálogo entre essas duas ciências sejam constantes e respaldados por novos conhecimentos teóricos, pela realização de pesquisas inter e transdisciplinares, pelo envolvimento das categorias profissionais a elas agregadas e pela formação dos novos psicólogos e educadores. O que faz e pode fazer o psicólogo na escola, certamente dependerá desse diálogo.

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Autores

Antônia Cristina Peluso de Azevedo Dutora em Psicologia pela PUCCAMP; Professora Universitária - Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade: Lorena; Orientadora.

Heydi Souza Rodrigues e Mira Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade: Lorena.

Rafaella Silva Azevedo Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade: Lorena.

Thatiane Christine Guimarães de Almeida Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade: Lorena.

Vitória Baptista Vieira Siqueira da Silva Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Unidade: Lorena.

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