A leitura é importante na formação do cidadão, pois, desperta o imaginário, o faz refletir, pensar, concordar ou discordar, ter uma posição perante o que lê. Mas para ter alunos leitores é necessário desde cedo disponibilizar, ou melhor, proporcionar o contato entre livros e alunos.

Resumo

A leitura é importante na formação do cidadão, pois, desperta o imaginário, o faz refletir, pensar, concordar ou discordar, ter uma posição perante o que lê. Mas para ter alunos leitores é necessário desde cedo disponibilizar, ou melhor, proporcionar o contato entre livros e alunos. No presente artigo propõem-se investigar e analisar se ocorre e como ocorre o incentivo a leitura por meio de histórias em quadrinhos no espaço escolar, como ela acontece, tendo em vista a formação de alunos leitores. Quanto à metodologia utilizada na pesquisa foi qualitativa do tipo estudo de caso, em que utilizamos como principal fonte de coleta de dados a observação, as conversas informais e questionários com professores e alunos. A pesquisa teve como base teórica autores, como: Carlos Rodrigues Brandão, Bernard Charlot, Paulo Freire, Regina Zilberman, Maria Helena Martins, Antonio Chizzotti, além da lei 9.394/96 - LDB (Lei de Diretrizes e Bases) e os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) do Ensino Fundamental. Tem por objetivos: caracterizar as histórias em quadrinhos como recurso de ensino e reconhecer na literatura pedagógica aspectos favorecedores à utilização das histórias em quadrinhos na escola. A metodologia para a investigação pautou-se em levantamento bibliográfico sobre a temática. Entre os resultados encontrados estão: a utilização das histórias em quadrinhos nos espaços escolares requer do professor compromisso com o fazer pedagógico e o domínio do conteúdo a ser trabalhado, além da criatividade em utilizar os quadrinhos para auxiliar na aprendizagem.

Introdução

Vivemos em uma sociedade em que a leitura é de suma importância em nossas vidas. A leitura é importante na formação do cidadão, pois, desperta o imaginário, o faz refletir, pensar, concordar ou discordar, ter uma posição perante o que lê. Mas para ter e ser leitor é necessário, desde cedo disponibilizar, ou melhor, proporcionar o contato entre livros e alunos.

Ao formar o leitor a escola e a família têm o dever de propor ao aluno vários tipos de leituras, que além de aumentar o conhecimento de mundo, contribui para a formação de sentidos, de maneira que o leitor possa “viajar” por outras épocas, culturas e lugares. A escola pode criar novas maneiras para que a leitura faça parte do cotidiano do aluno, tornando essa prática um hábito saudável ao longo de sua vida.

Histórias em quadrinhos podem ser um recurso utilizado no incentivo a leitura, pois, oferece vários atrativos, como ilustrações, personagens e histórias engraçadas, que prende a atenção do aluno, fazendo com que se faça tanto uma leitura da escrita quanto uma leitura visual dos desenhos, proporcionando até mesmo a construção da própria história. As figuras das histórias em quadrinhos podem desenvolver a criatividade do aluno, permitindo a este, fazer sua própria leitura de mundo, associando os desenhos com sua realidade, facilitando assim a produção de texto e consequentemente melhorando a sua escrita.

A presente pesquisa teve por objetivo investigar e analisar se ocorre e como ocorre o incentivo a leitura por meio de história em quadrinhos no espaço escolar, como ela acontece, tendo em vista a formação de alunos leitores.

As histórias em quadrinhos se propagaram pelo mundo inteiro, tornando-se um meio de comunicação em massa, com vasta variedade de gêneros para atender seus leitores. Mas houve uma época que as histórias em quadrinhos foram rejeitadas tanto por professores como pais, por serem consideradas um material inadequado para a aprendizagem das crianças e jovens.

A introdução das histórias em quadrinhos (HQs) na educação aconteceu de forma bastante restrita, utilizadas inicialmente nos livros didáticos para ilustrar textos complexos. Com o tempo, foi sendo observada a boa aceitação entre os alunos e as pesquisas mostraram benefícios de sua utilização nas salas de aula como apoio pedagógico as diversas disciplinas (VERGUEIRO, 2010).  

O ensino com as histórias em quadrinhos justifica-se pelo fato deste material estar presente no cotidiano dos alunos. De acordo com Oliveira (2007), as HQs fazem parte de materiais pedagógicos usados em escolas, visando despertar a criatividade, provocar a sensibilidade, a sociabilidade, o senso crítico e a imaginação criadora, pois possui uma linguagem simples, curta é apresentada em quadros coloridos.  

O compromisso dos professores com o aprendizado dos alunos é essencial e entre as diversas possibilidades de materiais disponíveis, está à utilização das histórias em quadrinhos. Entre os resultados possíveis estão o incentivo à leitura e ampliação do vocabulário do aluno. Em face ao exposto, elegeu-se como problema deste trabalho: como as histórias em quadrinhos podem auxiliar no desenvolvimento escolar?

Este trabalho realizou levantamento bibliográfico sobre a temática. De acordo com Moroz e Gianfaldoni (2006), o levantamento bibliográfico consiste na seleção de obras referentes ao assunto, como índices bibliográficos, documentos, periódicos as dissertações de mestrado e teses de doutorado, entre tantos outros escritos.

Moroz e Gianfaldoni (2006, p. 31) enfatizam que:

 

“[...] a realização do levantamento bibliográfico consiste na seleção de obras que se revelam importantes e afins em relação ao que se deseja conhecer. É claro que está seleção não pode ser caótica, sobe pena de dificultar a localização das deferidas obras, bem como sua própria seleção e organização. O levantamento bibliográfico como qualquer outra etapa da realização de um trabalho cientifica, é fruto de uma atividade metódica.” (MOROZ e GIANFALDONI, 2006, p. 31).

 

Este trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro, fundamenta-se nas histórias em quadrinhos como incentivo para leitura, abrangendo sua didática e metodologia de ensino, caracterização das histórias em quadrinhos.

 O segundo capítulo faz uma análise as histórias em quadrinhos na escola, e seu uso.

 O terceiro, e último capítulo, apresenta língua e discurso: sob a perspectiva da análise do discurso, os gêneros do discurso: sob a ótica bakhtianiana e Histórias em quadrinhos: trajetória e ensino.

A Educação com vias de transformação do ser humano e da sociedade precisa estar intimamente vinculada aos valores das civilizações antigas e, evidentemente, as que perduraram ate os dias atuais. Valores estes que ajudam a moldar o caráter de nossas crianças e torna a nossa sociedade mais humana.

Neste contexto, este estudo tem o intuito de realizar reflexões e analisar as contribuições da utilização das histórias em quadrinhos na prática pedagógica escolar.

Histórias em quadrinhos como incentivo para leitura

Didática e metodologia de ensino.

A didática é a área da Pedagogia que se preocupa com o ensinar.

Segundo Libâneo (1994, p.52):

“[...] didática define-se como mediação escolar dos objetivos e conteúdos do ensino, a didática investiga as condições e formas que vigoram no ensino e, ao mesmo tempo, os fatores reais (sociais, políticos, culturais, psicossociais) condicionantes das relações entre docência e aprendizagem. Ou seja, destacando a instrução e o ensino como elementos primordiais do processo pedagógico escolar, traduz objetivos sociais e políticos em objetivos de ensino, seleciona e organiza os conteúdos e métodos e, ao estabelecer as conexões entre ensino e aprendizagem, indica princípios e diretrizes que irão regular a ação didática [...].” (LIBÂNEO, 1994, p.52).

Neste mesmo sentido Haydt expressa que (2008, p.13):

“[...] a didática é uma seção ou ramo específico da pedagogia e se refere aos conteúdos do ensino e aos processos próprios para a construção do conhecimento. Enquanto a pedagogia pode ser conceituada como ciência e a arte da educação, a didática é definida como ciência e a arte do ensino.” (HAYDT, 2008, p.13).

O termo didática surgiu com o significado de arte de ensinar. A tentativa de evitar o monopólio do saber para poucos deu ênfase à novas possibilidades explicando que o indivíduo era capaz de compreender o mundo que o cerca (HAYDT, 2008). A didática, portanto, auxiliaria o aluno a aprender melhor, oferecendo diversidade ao ensino.

A didática e as metodologias específicas das disciplinas, apoiando-se em conhecimentos pedagógicos, são disciplinas que orientam a ação docente partindo das situações concretas em que se realiza o ensino. (LIBÂNEO, 1994, p. 33). Cabe ao professor, ao definir suas práticas pedagógicas, preocupar-se com metodologias, recursos e estratégias que, articulados com as atividades em sala de aula tornem possível o crescente processo de aprendizagem dos alunos. Outro aspecto importante e que:.

“[...] o professor deve compreender e aprender que sua didática faz parte de um todo, base teórica, ações práticas, visão crítica e política, organização e planejamento, etc., e que essas dimensões devem caminhar juntas, pois a caracterizam e visam um significado real ao seu corpo, norteando seu trabalho.” (BARABEL, 2007, p. 14).

Portanto, ensinar e aprender consiste em um único processo e a metodologia de ensino é aspecto que deve ser considerado. Libâneo expressa que:

“[...] a metodologia compreende o estudo de métodos, é o conjunto dos procedimentos de investigação das diferentes ciências quanto aos seus fundamentos e validade, distinguindo das técnicas que são a aplicação específicas dos métodos. A metodologia pode ser geral (ex., métodos tradicionais, métodos ativos, métodos da descoberta, método de solução de problemas etc.) ou específica, seja a que se refere aos procedimentos de ensino e estudo das disciplinas do currículo (alfabetização, matemática, história etc.), seja a que se refere a setores da educação escolar ou extraescolar (educação de adultos, educação especial, educação sindical etc.).” (LIBÂNEO 1994, p. 53).

E importante o professor compreender que ensinar e aprender caminham juntas está ação são importantes para a prática pedagógica do professor, pois exercem um papel importante que podem nortear seu trabalho em sala de aula. O professor pode seguir os mais variados métodos de ensino e oferecer a seus alunos uma diversidade experiências de aprendizagem, por isso ensinar e aprender e um processo que enfatiza a relação de professor e aluno (HAYDT, 2008).

Nesse sentido, o ensino está centralizado no professor, em suas capacidades de instruir, comunicar conhecimentos, guiar, orientar, etc. O ensino é uma ação deliberada e organizada. Ensinar é a atividade pela qual o professor, através de métodos adequados, orienta a aprendizagem dos alunos. (HAYDT, 2008, p.12).  Em vista disso, propiciar aos alunos aulas mais atrativas não e tarefa fácil para os professores. Assim podemos encontrar nos quadrinhos elementos bastante úteis que podem ser utilizados na prática educativa, assim percebe-se que as HQs podem trabalhar concomitante com as varias disciplinas, tornando facilitadores no processo de ensino e aprendizagem. (ARAÚJO, COSTA e COSTA, 2008).  As estratégias que o professor utiliza para atingir os objetivos de aprendizagem podem incluir diferentes recursos (informática, histórias em quadrinhos, audiovisuais, entre outros), tais recursos são chamados de métodos didáticos, técnicas pedagógicas ou metodologias de sala de aula. Ao utilizar as HQs na educação importante mencionarmos que:

“[...] sua aplicação como recurso pedagógico, não existem regras para a sua utilização no âmbito educativo, mas é preciso ter um pouco de conhecimento e criatividade por parte do professor para uma melhor aplicação deste instrumento educativo na sala de aula, sem falar que a seleção do material é de inteira responsabilidade sua. O docente deve ter um planejamento, conhecimento e desenvolvimento de seu trabalho nas atividades que utilizarem as histórias em quadrinhos, independente da disciplina ministrada e, buscar estabelecer objetivos que sejam adequados às necessidades e as características do corpo discente da sala de aula, visto que isto é fundamental para a capacidade de compreensão dos alunos e de conhecimento do conteúdo aplicado [...].” (ARAÚJO, COSTA e COSTA, 2008, p. 33).

Compreender os componentes da ação didática e metodologia de ensino é essencial para o trabalho do docente, para a mediação do conteúdo aos alunos. Portanto durante sua intervenção em sala de aula o professor deve:

“[...] por meio de sua interação com a classe, ajudar o aluno a transformar sua curiosidade em esforço cognitivo e passar de um conhecimento confuso, sincrético, fragmentado, a um saber organizado e preciso.” (HAYDT, 2008, p.57).

É neste contexto que as histórias em quadrinhos devem ser consideradas. Embora a exploração didática das histórias em quadrinhos no ensino tenha começado de forma tímida, pois eram vistas com desconfiança pelos professores, uma vez que acreditavam que eram responsáveis pela delinquência juvenil além de não estimularem a imaginação e a leitura, tais pontos de vistas já foram suficientemente superados com pesquisas sobre o assunto confirmando as vantagens das mesmas em sala de aula (OLIVEIRA, 2005).

Caracterização das histórias em quadrinhos

A linguagem dos quadrinhos teve sua propagação através de jornais, como entretenimento barato, mas ganhou grande destaque mundialmente com produções de super-heróis. Tornou-se um meio de comunicação de massa cada vez mais popular entre os leitores jovens. Segundo Cirne, (1970, p. 45):

“[...] os quadrinhos nasceram dentro do jornal — que abalava (e aba-la) a mentalidade linear dos literatos, — frutos da revolução industrial... e da literatura. Seu relacionamento com a televisão seria posterior — que o esquema literário que os alimentavam culturalmente seria modificado, mas não destruído. Em contradição dialética, os quadrinhos (e o cinema) apressariam o fim do romance, criando uma nova arte — ou um novo tipo de literatura — tendo o consumo como fator determinante de sua permanência temporal.” (Cirne, 1970, p. 45).

Mendonça (2002), enfatiza que com o passar do tempo as HQs foram ganhando estabilidade e alcançaram sucesso com publicações especializadas, denominadas gibis. Nos dias atuais ainda há publicações em jornais, mas encontram-se também em outros tipos de veículos, tais como gibis que atendem os mais diversos leitores, revistas voltadas ao lazer das crianças, além de ganharem espaço na mídia televisiva em formato de desenho animado e publicações voltadas como informativo de empresas pública e privadas.

No Brasil, o primeiro gibi de expressão foi O Tico-tico, no Rio de Janeiro, em 1905. Acredita-se que foi o início dos quadrinhos infantis, pois trazia em seu bojo contos, curiosidades, poesia, datas históricas e textos informativos como aponta Penteado (2008). As publicações não eram inteiramente dedicadas a um personagem como os gibis atuais, mas reuniam diversas expressões culturais, com ênfase na literatura, abrindo um generoso espaço da arte que começava a se firmar no país (MAGALHÃES, 2005).

A partir tais iniciativas, as histórias em quadrinhos não pararam de crescer. Se antes tinham influência de outros países nos traços quadrinistas, ganharam autonomia e se tornaram inesquecíveis às crianças e adultos. Maurício de Souza é um exemplo bem sucedido dos quadrinhos brasileiros.

Para entendermos melhor, é possível definir histórias em quadrinhos como enredos narrados quadro a quadro, por meio de desenhos e textos, que utilizam o discurso direto, característico da língua falada em um gênero textual bem aceito entre os estudantes. Para Vergueiro (2007, p. 24), os quadros ou vinhetas constituem a representação, por meio de uma imagem fixa de um instante específico ou de uma determinada ação e acontecimento.

Eisner (1999, p. 41) aponta que:

“[...] nas histórias em quadrinhos, existem na verdade dois quadrinhos‘ nesse sentido: a página total, que pode conter vários quadrinhos, e o quadrinho em si, dentro do qual se desenrola a ação narrativa. Eles são o dispositivo de controle da arte sequencial. (EISNER, 1999, p. 41).

Para que a compreensão da linguagem das HQs seja ampliada, é preciso conhecer os elementos que formam este repertório. Os termos e conceitos das HQs são: balão, requadro, onomatopéias, linhas cinéticas, metáfora visual, cores (SANTOS, 2003).

O requadro é a moldura que circunda os desenhos e textos de cada quadrinho ou vinheta. Parte da linguagem não verbal dos quadrinhos, o requadro, limita o espaço onde se colocam objetos e se passam as ações (SANTOS, 2003). Mas o formato da vinheta pode assumir outros entornos menos convencionais como, circulares, formato de um labirinto e vinhetas onduladas entre outros, dependendo do autor ou do espaço físico utilizado para produzir a história (RAMOS, 2010).

Os balões são convenções gráficas onde são inseridos a fala ou pensamento do personagem. Geralmente são indicados por um contorno-linha que o envolvem, podendo haver variações dependo do contexto da história.

As onomatopéia assim como os balões, dão vida as HQs de uma forma dinâmica, pois o ruído, nos quadrinhos, mais do que sonoro, é visual, porque, diante do papel em branco, os desenhistas estão sempre à procura de novas expressões gráficas. O efeito de um “buum” ou de um “crash” (CIRNE, 1970, p. 23) e sempre expressivo.

Ramos (2010) fala que atualmente há uma variedade muito grande de onomatopéias, mas é certo que a incidência delas irá variar de autor e história. Linhas cinéticas indicam o movimento dos personagens ou a trajetória de objetos em plena ação, tais como automóveis e outros meios de locomoção, balas que saem de pistolas, pedras atiradas por alguém, etc. (SANTOS 2003).

As cores também são muito importantes para a linguagem dos quadrinhos, pois grande parte das informações são expressadas através das cores. O Incrível Hulk e o Lanterna verde, por exemplo, caracterizam-se pela cor verde. O tempo é elemento essencial nos quadrinhos. De maneira geral são recursos utilizados para movimento do personagem dentro dos quadrinhos, ideia de ação, tempo transcorrido, sucessões de acontecimentos (Ramos, 2010). Por exemplo, como no quadrinho abaixo Cebolinha tenta tira uma foto de Mônica e passa um grande tempo até que a ação seja efetivada. Reforçando as ideias apresentadas, as histórias em quadrinhos podem ser consideradas arte sequencial de imagens, desenhos, textos e cores que transmitem ao leitor uma história ou acontecimento, cujo objetivo principal é:

“[...] a narração de fatos procurando reproduzir uma conversação natural, na qual os personagens interagem face a face, expressando-se por palavras e expressões faciais e corporais. Todo o conjunto do quadrinho é responsável pela transmissão do contexto enunciativo ao leitor. Assim como na literatura, o contexto é obtido por meio de descrições detalhadas através da palavra escrita. Nas HQs, esse contexto é fruto da dicotomia verbal / não verbal, na qual tanto os desenhos quanto as palavras são necessárias ao entendimento da história [...].” (EGUTI, 2001, p. 45).

A arte sequencial foi a denominação que Eisner deu as histórias em quadrinhos em sua pesquisa. Nogueira (2007 p. 1) é quem nos auxilia na apresentação da arte sequencial:

“[...] a arte sequencial – como é classificada a História em Quadrinhos -, é muito valorizada, especialmente em países europeus, como a França e a Bélgica, onde editoras especializaram- se na sua publicação, na forma de álbuns cartonados, alguns com encadernações de luxo. Com gêneros variados, as estórias atingem a pública de todas as idades. As histórias em quadrinhos com temas históricos, por exemplo, são um grande sucesso. Elas são ambientadas nos mais variados contextos, desde a antiguidade (como Alix, Asterix e Papyrus), passando pela Revolução Francesa (Dampierre), apenas para citar alguns exemplos. Os temas abordados também envolvem questões sociais atuais, como discriminação racial, pobreza e desigualdade, além de política e organização econômica.” (NOGUEIRA, 2007, p. 1).

A arte sequencial pode ser entendida como geradora de vários temas que podem ser trabalhados em diferentes contextos da sociedade, do mais sofisticado ao popular, atendendo as diversas classes.

Vale destacar também que é possível contar histórias somente com as imagens, sem ajuda de palavras, mas é preciso ter uma lógica na sequência das imagens para alcançar sua finalidade. (EISNER, 1999, p.16).

As histórias em quadrinhos também são leituras lúdicas pela junção das imagens com conteúdos dos textos, possibilitando uma melhor compreensão do assunto narrado. Almeida expressa que:

“[...] a educação lúdica integra uma teoria profunda e uma prática atuante. Seus objetivos, além de explicar as relações múltiplas do ser humano em seu contexto histórico, social, cultural, psicológico, enfatizam a libertação das relações pessoais, técnicas para as relações reflexivas, criadoras, inteligentes, socializadoras, fazendo do ato de educar um compromisso consciente intencional, de esforço, sem perder o caráter de prazer, de satisfação individual e modificador de sociedade.” (ALMEIDA, 1998, p. 31-32).

Esta junção de imagem e texto é muito importante para os HQs, pois as informações presentes em cada quadro deve transmitir ao leitor a compreensão da mensagem.

Neste mesmo sentido Araújo, Costa e Costa (2008, p. 30), apresentam a ideia de que:

“[...] a mensagem das histórias em quadrinhos é transmitida ao leitor por dois processos: por meio da linguagem verbal – expressa a fala, o pensamento dos personagens, a voz do narrador e o som envolvido – e por meio da linguagem visual – no qual o leitor interpretará as imagens contidas nas histórias em quadrinhos. Unindo estes dois processos, chega-se ao escopo que o enunciado verbal pretende transmitir ao leitor.” (ARAÚJO, COSTA e COSTA 2008, p. 30).

As HQs não podem somente serem vistas como material de leitura infantu- juvenil. A linguagem vai além dos quadrinhos. A informação empresarial com a implantação de novos sistemas internos por exemplo; os cuidados com acidentes de trabalho; em projetos sociais das empresas; nos serviços públicos em campanhas de saúde e de educação; na área publicitária explicando o produto venda ou buscando agregar valor ao produto; quadrinhos para profissionais liberais apresentarem de seus serviços, etc. (LOVETRO, 2011).

Finalizando é preciso que o leitor decodifique as imagens e interprete as ideias expressadas nas histórias, de modo que nesse processo de comunicação reconheça o significado e o impacto emocional das imagens. (EISNER, 1999). Esta alfabetização é necessária, é importante que a pessoa decodifique os dois códigos (visual e o verbal) presentes nas múltiplas mensagens das HQs. A apropriação desta linguagem amplia o horizonte educativo das pessoas e favorece a construção e consolidação de muitos conhecimentos.

As histórias em quadrinhos na escola

Trabalhar histórias em quadrinhos no campo escolar é uma forma significativa e dinâmica para os alunos lerem, escreverem, criarem, pesquisarem, dramatizarem sobre a vida (INÁCIO, 2003). A importância das histórias em quadrinhos nas escolas é tratada por Araújo, Costa e Costa (2008, p. 29) quando anunciam que:

“[...] os quadrinhos podem ser utilizados na educação como instrumento para a prática educativa, porque neles podemos encontrar elementos composicionais que poderiam ser bastante úteis como meio de alfabetização e leitura saudável, sem falar na presença de técnicas artísticas como enquadramento, relação entre figura e fundo entre outras, que são importantes nas Artes Visuais e que poderiam se relacionar perfeitamente com a educação, induzindo os alunos que não sabem ler e escrever a aprenderem a ler e escrever a partir de imagens, ou seja, estariam se alfabetizando visualmente.” (Araújo, Costa e Costa, 2008, p. 29).

Neste sentido as pesquisas estão mostrando os benefícios das histórias em quadrinhos na escola.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) reafirmam a importância da escola na formação de indivíduos competentes para a sociedade: [...] é necessário que a escola garanta um conjunto de práticas planejadas com o propósito de contribuir para que os alunos se apropriem dos conteúdos de maneira crítica e construtiva‖ (BRASIL, 1997, p. 33).

De acordo com os PCNs, as HQs deverão estar estão inseridas nos conteúdos de temas transversais que tratam de questões sociais (saúde, orientação sexual, cultura, meio ambiente e ética). Organizadas em diversas linguagens, as histórias em quadrinhos viabilizam diferentes contextos e produzem informações vinculadas aos temas sociais (BRASIL, 1997). É um material rico para trabalhar os conteúdos transversais, pois tem boa aceitação entre alunos e pode render outras produções do conhecimento mais interessantes a cada faixa etária.

A importância da presença das HQs em sala de aula é destacada por Vergueiro (2010), quando trata que a sua utilização é bem ampla, cabendo a criatividade de cada professor para tratar de assuntos complexos de uma forma lúdica e descontraída.

A percepção que as histórias em quadrinhos poderiam ir além do entretenimento e serem usadas de modo eficaz na educação foram registrados por Vergueiro (2010, p. 17), citado a seguir:

“[...] as primeiras revistas de quadrinhos de caráter educacional publicadas nos Estados Unidos, tais como True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics, editadas durante a década de 1940, traziam antologias de histórias em quadrinhos sobre personagens famosos da história, figuras literárias e eventos históricos [...].” (Vergueiro, 2010, p. 17).

O autor, em suas pesquisas afirma os benefícios das HQs para os professores trabalharem em sala de aula, pois as HQs auxiliam os alunos a ampliar a compreensão de conceitos e enriquecer vocabulário, obrigando o leitor a pensar na informação, tem caráter globalizador e também podem ser utilizados em qualquer nível escolar. O próprio autor explicita:

“[...] há varias décadas, as histórias em quadrinhos fazem parte do cotidiano das crianças e jovens sua leitura e muito popular entre eles. A inclusão das HQs na sala de aula não e objeto de qualquer tipo de rejeição por parte dos estudantes, que, em geral, as recebem de forma entusiasmada, sentindo-se, com sua utilização, propensos a uma participação mais ativa nas atividades em aula. As histórias em quadrinhos aumentam a motivação dos estudantes para o conteúdo das aula, aguçando sua curiosidade e desafiando seu senso crítico.” (VERGUEIRO, 2010, p. 21).

Ainda segundo Vergueiro (2010), ao trabalhar as HQs o professor ao selecionar o material a ser utilizado em sala de aula levar em conta os objetivos, a temática, a linguagem e o desenvolvimento intelectual do aluno. De uma maneira geral o importante desta seleção é considerar as características dos diversos ciclos escolares. Assim, o autor faz algumas considerações para cada faixa etária: Pré-escolar é muito importante cultivar o contato com a linguagem das HQs, incentivando a produção de narrativas breves em quadrinhos, sem pressioná-los quanto a elaboração de textos de qualidade ou a cópia de outros modelos; Nível Fundamental: Da mesma forma, começa aos poucos a identificar características específicas de grupos e pessoas, podendo ser apresentada a diferentes títulos ou revistas de quadrinhos, bem como ser instada a realizar trabalhos progressivamente mais elaborados, que incorporem os elementos da linguagem dos quadrinhos de uma forma mais intensa; Nível Fundamental (5º a 9º Ano): os alunos tem mais consciência da sociedade que os rodeiam. Têm a capacidade de identificar detalhes das obras de quadrinhos e conseguem fazer correlações entre eles e sua realidade social. As produções próprias incorporam a sensação de profundidade, a superposição de elementos e a linha do horizonte, fruto de sua maior familiaridade com a linguagem dos quadrinhos; Nível Médio: e uma fase de mudanças de personalidade não aprova qualquer tipo de material, muitas vezes questionam o que e oferecido em sala de aula. Nas produções próprias, buscam reproduzir personagens mais próximos da realidade, com articulações, movimentos e detalhes de roupas que acompanham o que veem ao seu redor .

Diante do exposto, estes são alguns exemplos de como o professor pode trabalhar as HQs em cada nível escolar e não um roteiro a ser seguido, vale a criatividade de cada professor ao manusear este material.

É importante também que o professor se familiarize com a linguagem deste meio, conhecendo seu devido valor, pois:

“[...] na utilização de quadrinhos no ensino, é muito importante que o professor tenha suficiente familiaridade com o meio, conhecendo os principais elementos da sua linguagem e os recursos que ela dispõe para representação do imaginário; domine razoavelmente o processo de evolução histórica dos quadrinhos, seus principais representantes e características como meio de comunicação de massa; esteja a par das especificidades do processo de produção e distribuição de quadrinhos; e, enfim, conheça os diversos produtos em que eles estão disponíveis.” (VERGUEIRO, 2010, p. 29).

Penteado é quem reforça a ideia de que:

“[...] como alguém que constrói, concordando ou discordando do autor, sua interpretação numa relação de diálogo íntimo com aquilo que lê. Tal relação vincula-se a um determinado nível de autonomia, em que o aluno percebe que o texto não é a representação absoluta de uma verdade.” (PENTEADO, 2008, p. 5).

Luyten (2011) e Santos (2003), afirmam que as HQs utilizadas na escola, trazem grandes benefícios, o emprego das imagens com textos articulados aos conteúdos estudados, permite tornar conteúdos complexos mais claros para os alunos.

Umas das possiblidades em sala de aula é a utilização das HQs no ensino da língua portuguesa, pois possibilitam trabalhar a adequação/inadequação da gramática normativa, instigando o aluno a analisar os diálogos, percebendo se está adequada ou inadequada a escrita naquele contexto (VERGUEIRO, 2010).

As HQs no ensino de geografia, não ficam restritas somente pelas paisagens, mas é importante ressaltar que a leitura do texto e imagem solicitam algumas habilidades necessárias para leituras de mapas, como os símbolos utilizados nas legendas dos mapas, de reconhecimento universal e vários autores as utilizam nas HQs. (VERGUEIRO, 2010).

Um exemplo de experiência bem sucedida aconteceu no Colégio Estadual Padre Manuel da Nobrega em Umuarama - PR. Este trabalho foi feito por Marjory Cristiane Palhares com objetivo de utilizar HQs no ensino de História, dentro do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), durante os anos de 2008 e 2009. O estudo foi realizado com alunos do 5º ano. Primeiramente foram escolhidos os quadrinhos que atendessem a esse enfoque. Foram escolhidos Piteco e personagens inspirados nos homens da caverna e, Papa Capim, personagem de um menino índio que vive na Amazônia, ambos de Maurício de Souza. Para a realização da proposta foi feito a implementação de um acervo das HQs escolhidas. Em sala de aula, rodas de leitura articularam a leitura com o conteúdo trabalhado sobre os períodos pré-histórico. Houve também, dinâmicas de oralidade e produção textual. O resultado foi satisfatório uma vez que a maioria dos alunos conseguiu associar o conteúdo estudado e apresentar as semelhanças entre os personagens das história em quadrinhos e os homens pré-históricos, que é possível aprender História com histórias em quadrinhos (PALHARES, 2009).

Os aspectos acima demostram que é possível realizar um trabalho consistente com as histórias em quadrinhos. Mas é preciso ter cuidado ao utilizar as HQs na educação escolar.

Ao utilizar este material como apoio didático nas diversas áreas, há que cuidar para que não se torne monótono.

Vergueiro (2010, p. 27) expressa que:

“[...] uma valorização excessiva das histórias em quadrinhos pelo professor, principalmente no momento de sua utilização – como se elas dessem a resposta desejada para todas as dúvidas e necessidades do processo de ensino, também acaba sendo pouco produtiva, pois coloca o meio em uma posição desconfortável frente às outras formas de comunicação. Os quadrinhos não podem ser vistos pela escola como uma espécie de panaceia que atende a todo e qualquer objetivo educacional, como se eles possuíssem alguma característica mágica capaz de transformar pedra em ouro. Pelo contrário, deve-se buscar a integração dos quadrinhos a outras produções das indústrias editorial, televisiva, radiofônica, cinematográfica etc., tratando todos como formas complementares e não como inimigas ou adversárias na atenção dos estudantes [...].” (VERGUEIRO, 2010, p. 27).

De acordo com Araújo, Costa e Costa (2008, p. 8) é importante que a história em quadrinho:

“[...] na escola se mostre presente e crescente nos dias de hoje, é importante mencionarmos que o docente deve tomar cuidado com a sua aplicação como recurso pedagógico e, que não existem regras para a sua utilização no âmbito educativo, mas é preciso ter um pouco de conhecimento e criatividade por parte do professor para uma melhor aplicação deste instrumento educativo na sala de aula, sem falar que a seleção do material é de inteira responsabilidade sua. O docente deve ter um planejamento, conhecimento e desenvolvimento de seu trabalho nas atividades que utilizarem as histórias em quadrinhos, independente da disciplina ministrada e, buscar estabelecer objetivos que sejam adequados às necessidades e as características do corpo discente da sala de aula, visto que isto é fundamental para a capacidade de compreensão dos alunos e de conhecimento do conteúdo aplicado.” (ARAÚJO, COSTA e COSTA, 2008, p. 8).

Entre os problemas com as HQs estão as ―imagens muito chamativas, distraindo o aluno, HQs com excesso de texto nos balões dificultando a leitura e, consequentemente, a assimilação do conteúdo. (LUYTEN, 2011, p. 25).

Outro problema destacado, partindo do pressuposto de que as HQs são grande atrativo para os jovens, é a adaptação de obras literárias para os quadrinhos. Há autores que indicam que este pode ser um problema pois:

“[...] enxergar as adaptações como negócio não significa que o produto seja de má qualidade. Ao contrário: os trabalhos vêm se aprimorando a cada novo álbum. Do lado pedagógico, sugere que o aluno não tem capacidade ou não tem maturidade para ler as obras originais, ou que é preciso facilitar obras literárias para esse aluno [...].” (RAMOS, 2009, p. 1).

É importante destacar que sem o direcionamento correto das HQs em sala de aula, não haverá nenhum benefício pedagógico, os alunos somente terão um olhar de entretenimento sobre o material.

Assim, para que o incentivo da leitura tenha um papel fundamental para o leitor, cabe a escola a responsabilidade de fazer projetos de formação de leitores. As indicações legais mostram que:

“[...] assumir a tarefa de formar leitores impõe à escola a responsabilidade de organizar-se em torno de um projeto educativo comprometido com a intermediação da passagem do leitor de textos facilitados (infantis ou infanto-juvenis) para o leitor de textos de complexidade real, tal como circulam socialmente na literatura e nos jornais; do leitor readaptações ou de fragmentos para o leitor de textos originais e integrais.” (BRASIL,1997, p. 70).

Ainda em relação a contribuição das HQs na formação do leitor, quando incentivadas pela família na infância, podem desenvolver o prazer pela leitura e sua continuidade no período adulto. Bari e Vergueiro (2007, p. 18) em pesquisa feita em sala de aula, admitiram que:

“[...] quase a totalidade dos alunos manifestou ter lido continuamente histórias em quadrinhos durante a infância: alguns prosseguiram essas leituras de modo regular na adolescência, enquanto outros mudaram de interesses. Em geral, aqueles que desenvolveram o gosto pela leitura ou tiveram a sua continuidade na adolescência prosseguem com ela no período adulto, após a escolarização média. Existe, também, um grupo significativo de alunos que gosta de ler quadrinhos, mas o faz de forma esporádica ou descontínua [...].” (BARI e VERGUEIRO, 2007, p. 18).   

A participação da família contribuiu para que este incentivo não ficasse restrito somente ao âmbito escolar.

De acordo com Silva (2009), para ter bons resultados na formação de leitores competentes, a escola deve possuir uma biblioteca com um acervo compatível ao usuário e que esteja integrada com o trabalho pedagógico em consonância com as áreas de conhecimento.

Sabe-se que é importante salientar o papel das bibliotecas nas escolas, e a respeito disso os autores afirmam que

“[...] paulatinamente, educadores e profissionais da informação estão abraçando as iniciativas de constituir acervos e práticas pedagógicas enriquecidos de ludicidade e com hibridização de linguagens e suportes, das quais as histórias em quadrinhos têm participado com frequência cada vez maior.” (BARI e VERGUEIRO, 2011, p. 2).

Os mesmos autores completam a ideia:

“[...] felizmente, a leitura escolar pode contar com este atrativo revolucionário: o das histórias em quadrinhos. A linguagem híbrida das histórias em quadrinhos suaviza os primeiros contatos com a leitura, sendo também igualmente interessante para leitores em diferentes níveis de letramento. Isso facilita a troca de informações e o estabelecimento de uma cultura leitora entre estudantes, que eventualmente inclui professores e bibliotecários. Os enredos possíveis, sem limitações, constroem mundos de imaginação que têm muito a ensinar aos leitores, por meio de analogias com a realidade, recriações das já consagradas lendas e mitologias presentes nas diferentes culturas, agora inseridas de elementos gráficos que ajudam a estabelecer identificação de personagens e ciclos de enredo.” (BARI e VERGUEIRO, 2011, p.3).

Para a seleção e aquisição das HQs nas bibliotecas escolares o Brasil conta com autores como ― Maurício de Sousa, Ziraldo e outros, que inclusive aprofundaram o compromisso com a sociedade em relação ao uso paradidático e a contemplação cultural e social brasileira.

O Ministério da Educação através do Programa Nacional de Bibliotecas (PNBE) criou várias práticas de leitura que estão sendo levados para as escolas, dentre elas as histórias em quadrinhos e jornais, envolvendo projetos educacionais de professores e alunos (BRASIL, 1997).

Porém, Bari e Vergueiro argumentam que as escolas precisam se adaptar a:

“[...] novo ambiente demanda que os bibliotecários, principalmente os bibliotecários escolares, se municiem intelectualmente para a atuação com histórias em quadrinhos, preenchendo, com esforço e iniciativa individuais, as lacunas deixadas por sua formação profissional.” (BARI e VERGUEIRO, p. 24, 2007).

A HQ, atualmente não tem mais conotação de ― gibizinho. Sua importância cresce a medida que facilita a compreensão de um assunto.

Lovetro (1995, p. 2) é quem relata:

“[...] executei um trabalho para o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, que completava 120 anos de vida e precisava falar ao público jovem, explicando seu atual funcionamento, seus cursos e ainda contar sua história. Eu e uma equipe fizemos uma revista de 32 páginas com uma história de fundo que expunha todos estes itens. Foram impressas 400 mil revistas e encartadas numa edição do jornal O Estado de S. Paulo. Para a empresa/escola foi o suficiente para atingir seu público alvo, gastando menos que um comercial de TV e com maior eficiência.” (LOVETRO, 1995, p. 2).

Assim, a utilização das HQs nos espaços escolares requer do professor compromisso com o fazer pedagógico e domínio metodológico do conteúdo a ser trabalhado com os alunos, além da criatividade e ousadia para utilizar os quadrinhos na medida certa para auxiliar a aprendizagem dos alunos.

Considerando que as HQs podem ampliar as formas de leitura, conforme já apresentado anteriormente, enfatizo a ideia do professor utilizar das mesmas como recurso auxiliador do ensino e até mesmo como recurso didático que pode propiciar, após incentivo inicial, o aprofundamento do tema.

O uso das histórias em quadrinhos no ambiente escolar

Quando refletimos acerca do ensino/aprendizagem eficaz de Língua Portuguesa, nos deparamos com diversos assuntos e prováveis caminhos a serem seguidos, ora com enfoque na oralização, ora na produção textual, dentre outros. Contudo, apesar da imensa variedade conteudística e seus respectivos enfoques, percebemos que não há, em muitos casos, o desenvolvimento de atividades que contemplem uma abordagem teórica – no sentido de serem constantes no plano de curso e/ou de aula – das histórias em quadrinhos (doravante HQs).

Percebemos, através de experiências como discentes e em situação de estágio, durante a observação de aulas ministradas, que as HQs não são trabalhadas no âmbito escolar ou, em outros casos, a abordagem, quando realizada, é superficial e embasada em conhecimentos e informações de senso comum ou exercícios mecanicistas, como a proposição, por exemplo, de atividades que contemplem apenas a grafia correta de palavras ou questões sobre o enredo já dado nos quadrinhos.

Em outras palavras, as atividades que são propostas, em geral, não são trabalhadas sob a perspectiva crítica e reflexiva, a qual proporcionaria ao discente momentos crítico-reflexivos acerca dos efeitos de sentidos propostos em determinadas HQs.

Por conseguinte, para abordarmos a temática proposta, o uso das histórias em quadrinhos no contexto escolar, é necessário previamente – tentarmos – definir as concepções de língua, texto e discurso, com embasamento teórico nas linhas de pesquisa do Texto e do Discurso e da Análise do Discurso de linha francesa.

Com base nos postulados que seguem abaixo, analisaremos as histórias em quadrinhos selecionadas no decorrer da regência, pois em conformidade com nossos intuitos docentes, a Análise do Discurso, tem por objetivo compreender como o discurso, o “texto funciona, como ele produz sentidos” (ORLANDI, 2002, p.70).

O que pretendemos não é demonstrar apenas que os quadrinhos/texto veiculam determinadas ideologias, humores, críticas, dentre outros, mas sim conduzir, também, à percepção da maneira como estes, materializados nas histórias em quadrinhos, são produzidos e, principalmente, observar seus decorrentes reflexos na/pela sociedade.

Portanto, a partir das trocas de experiências esboçadas na pesquisa, o nosso intuito é, também, fazer com que os docentes possam perceber e valer-se da heterogeneidade dos gêneros discursivos, com o objetivo de alçarmos uma educação de qualidade, a qual seja responsável pela formação de alunos e alunas capazes de ler, compreender, interagir com o seu mundo, sua sociedade, com os seus semelhantes ou não, de maneira crítica e reflexiva.

Destarte, a pesquisa realizada é em caráter qualitativo, a qual, de acordo com Lüdke e André (1986), possui as seguintes características: 1 - “tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento”, ou seja, os(as) alunos(as) inseridos em seu ambiente cotidiano de sala de aula ; 2 - “os dados coletados são predominantemente descritivos”; 3 - “a preocupação com o processo é muito maior do que o produto”, pois o que se almeja é o ensino/aprendizado crítico e reflexivo de língua portuguesa, o qual se estenderá para os diversos âmbitos (extra)escolar;  4 - “o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador”, ou seja, são considerados os diferentes pontos de vista – heterogeneidade constitutiva do sujeito e do discurso, em especial do alunado ao expressar suas concepções durante as aulas, pois o ensino é visto também como aprendizado para o docente; estabelecimento de uma relação dialógica; 5 - “a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo”, portanto, no início há questões ou focos de interesse muito amplos, os quais no final se tornam mais diretos e específicos. No início a regência era embasada no ensino/aprendizado de Língua Portuguesa em geral, e diante das eventuais carências observadas, foi dado enfoque na questão da percepção da produção dos efeitos de sentido, correlacionados à materialidade linguística e à exterioridade, presentes nas diversas histórias em quadrinhos.

Língua e discurso: a perspectiva da análise do discurso

Para analisarmos os diversos discursos contidos nas pretensas histórias em quadrinhos, é necessário definirmos o que vem a ser discurso. Dentre as várias concepções de discurso, devido à polissemia do termo em nossa sociedade, ora visto, no dicionário Aurélio, como “peça oratória proferida em público” ou “exposição metódica sobre certo assunto”. Ora concebido por diversos teóricos, segundo Coracini (2007), em A celebração do Outro, como “unidade interfrástica (HARRIS); realização concreta e individual da língua (SAUSSURE), lugar de emergência da subjetividade do enunciador que deixa, no texto, marcas de seu envolvimento com o que enuncia (BENVENISTE)”; adotaremos a definição traçada pela chamada Análise do Discurso de linha francesa – doravante AD.

Iniciada por volta da década de 60, na França, a Análise do Discurso, segundo Maldidier (2003, p. 22), teve sua fundação em torno do linguista Jean Dubois e do filósofo Michel Pêcheux, os quais partilhavam convicções sobre a luta de classes, a história e o movimento social, e para tal objetivo político a Linguística oferecia meios para sua abordagem, devido à autonomia da linguagem e a cientificidade conferida aos estudos a partir do estruturalismo de vertente saussureana.

O filósofo Althusser também valeu-se da Linguística para comprovar que as ideologias têm existência material e por conseguinte “não devem ser estudadas como ideias, mas como um conjunto de práticas materiais que reproduzem as relações de produção (MUSSALIM, 2001, p. 103); tem-se então o denominado materialismo histórico, o qual enfatiza a materialidade da existência.

Por conseguinte, se a ideologia deve ser estudada em sua materialidade, a língua – através da Linguística, dentro da concepção da teoria do discurso, na qual componentes linguísticos e socioideológicos se convergem – se apresenta como o lugar privilegiado em que a ideologia se materializa. Fato este que caracteriza a afirmação feita por Mussalim (2001, p.105), segundo a qual, para Pêcheux, a Análise do Discurso se constituiu através de “uma ruptura epistemológica, que coloca o estudo do discurso num outro terreno em que intervêm questões teóricas relativas à ideologia e ao sujeito”.

No que tange à gênese da Análise do Discurso, encontramos sustentáculos, no que Pêcheux (2006, p.45) denomina como “o efeito subversivo da trilogia Marx-Freud-Saussure” como desafio intelectual. Em outras palavras, no materialismo histórico, no estruturalismo e na psicanálise. Contudo, apesar de possuir em sua constituição tais contribuições a AD questiona alguns pressupostos formulados por tais campos disciplinares, vejamos com maior afinco essa assertiva.

Em relação ao viés estruturalista, de acordo com Teixeira (2000), a AD, desde o seu surgimento, define-se como uma disciplina preocupada em contemplar o que está excluído da abordagem saussureana (aquele que escuta, o sujeito e a exterioridade), ou seja, trazer elementos que permitam pensar a intervenção da exterioridade no próprio objeto língua.

Portanto, no que se refere à concepção de língua, para a Análise do Discurso, de maneira indireta, pois esta mais nega do que propõe características, “a língua não é transparente” (POSSENTI, 2009, p.360), pois ao pronunciarmos nosso discurso tem-se a ilusão de que os enunciados e os seus consequentes efeitos de sentido são óbvios e o eventual interlocutor interpretará esses enunciados de maneira unívoca, o que não condiz com a realidade; não há uma relação clara e uníssona entre “palavra-mundo”, fato este que justifica grande parte dos mal-entendidos, das corriqueiras expressões: Eu não quis dizer isso, Não foi isso que eu disse, Você entendeu errado, e outros.

Ou seja, a linguagem é aberta à polissemia, à falha, a inúmeras interpretações e ao equívoco. Ela serve “para comunicar e para não comunicar” (ORLANDI, 2002, p.21). Tem-se, então, uma linguagem que se materializa por meio de enunciados, mas que também diz não dizendo, o que caracteriza os não-ditos, pois, muitas das vezes, é possível compreendermos outros efeitos de sentido por trás de determinados ditos.

Sob a ótica marxista, constante na gênese da AD, tomamos conhecimento de que o homem faz a história e que esta, também, não lhe é transparente, por conseguinte temos a inserção do fator historicidade na análise do discurso, ou seja, ter-se-á a conjugação da língua com a história na produção de sentidos, pois aquela só faz sentido através de sua inserção na história.

E, da vertente psicanalítica lacaniana, através da releitura de Freud realizada por Lacan, há o deslocamento da noção de homem para a de sujeito, o qual é clivado, heterogêneo, afetado pela não transparência da língua e da história e funciona pelo inconsciente e pela ideologia.

Contudo, é válido ressaltar, em consonância com Teixeira (2000), que a psicanálise lacaniana não se apresenta como uma região a mais, ao lado das outras que constituem o quadro epistemológico da análise do discurso – materialismo histórico, linguística e teoria do discurso –, mas sim um atravessamento deste quadro, com o intuito de reconhecer que a teoria psicanalítica da subjetividade afeta os campos supracitados. E é no denominado “efeito-sujeito” que a psicanálise irá intervir. Nesse caso, o sujeito é tomado como efeito, sujeito produzido pela linguagem, tomado numa divisão constitutiva.

No que tange ao lugar, ao chamamento da vertente psicanalítica lacaniana, Teixeira (2000) salienta que esta não busca ser a complementação em relação à linguística ou à teoria do discurso, mas sim, em consonância com Leite (apud Teixeira, 2000), trata-se de pensar “na afetação de um discurso por outro, configurando o avanço teórico de um campo em função de sua exposição ao saber do outro”.

Portanto, em linhas gerais, de acordo com Orlandi (2002, p. 20), mesmo compartilhando destas áreas do conhecimento – Linguística, Marxismo e o atravessamento pela Psicanálise –, a Análise do Discurso, tal como é concebida no Brasil, a qual trabalha sujeito, história e língua, “não o é de modo servil”, pois a AD interroga “a Linguística pela historicidade que é deixada de lado”, questiona o Materialismo perguntando pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, “considerando a historicidade trabalha a ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvida por ele”.

Quanto ao seu objeto de estudo, a Análise do Discurso, como se infere pelo seu próprio nome, analisa o discurso, o qual é caracterizado pela palavra em movimento, pelo “efeito de sentidos entre locutores” (PÊCHEUX apud ORLANDI e LAGAZZI-RODRIGUES, 2002, p.14), fruto das relações de linguagem entre os sujeitos e os sentidos. É importante frisar o porquê da terminologia “efeito”, pois não se tem o mesmo sentido, ou melhor, um sentido fixo e imutável em todas as ocasiões, e sim, o contrário, há um sem-número de realizações de efeitos de sentido.

Outro ponto de suma importância, na AD e para esta pesquisa, é a noção bakhtiniana de dialogismo. Para Bakhtin (1997, p.123) “a interação verbal constitui (..) a realidade fundamental da língua” e, consequentemente, o ser humano não possui existência fora das relações que o ligam ao outro. E, a partir dessa acepção tem-se a teoria da dialogização interna do discurso, a qual se refere ao fato de que todo discurso está ligado a um outro anterior, pois reproduzimos, reiteramos discursos anteriormente proferidos, dentre os quais alguns foram “esquecidos”, mas são repetidos, ora os reforçando ora os alterando.

Em linhas gerais, “o dialogismo é a condição do sentido do discurso” (BARROS, 1994, p. 2), pois somente através do estabelecimento de tais relações dialógicas que se tornará possível a construção de determinados efeitos de sentido. Contudo é válido ressaltar que tal noção – dialogismo – será citada, por vezes, no presente trabalho como interdiscurso.

Nomenclatura esta introduzida para designar ‘o exterior específico’ de uma formação discursiva – noção tomada de empréstimo a Michel Foucault, a qual “não é um espaço estrutural fechado, pois é constitutivamente ‘invadida’ por elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras FD) que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais” (PÊCHEUX, 1990, p.314), portanto a FD autoriza o que pode e deve ser dito em um dado momento sócio histórico, pois como afirma Maldidier (2003, p.52), a formação discursiva “é totalmente pega pela história, referida a uma relação de forças”.

Já com relação à concepção de sujeito, para a Análise do Discurso, este cumpre funções não por decisão própria – pragmática –, mas “por injunção de classe ou grupo e de ideologia e proferem os enunciados que 'podem e devem dizer'” (POSSENTI, 2009, p. 364).

Ou seja, não há um sujeito intencional, mas sim um sujeito com a ilusão de ser intencional, o que remete aos esquecimentos, propostos por Pêcheux (apud ORLANDI, 2002, p. 34-35) que resultam da ilusão de que o sujeito é origem do seu dizer, logo dirá o que quiser (esquecimento nº 1 - ideológico) e de que aquilo que ele diz só pode ser aquilo, e consequentemente, tem-se a ilusão de que há uma relação direta entre pensamento, linguagem e  mundo, (esquecimento nº 2 – enunciação).

Portanto, o sujeito não é o dono do seu dizer e/ou vontade, mas sim um organizador e transmissor de outros dizeres, discursos, os quais são constituídos por e pelas ideologias, pois “todo dizer é ideologicamente marcado” e “é na língua que a ideologia se materializa” (ORLANDI, 2002, p. 38). Ou seja, em consonância com Bakhtin (1995, p. 41), os dizeres, as palavras “são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios”.

Em síntese, diante das assertivas expostas, tanto “o sujeito quanto o discurso são afetados pelo inconsciente e pela ideologia” (POSSENTI, 2009, p.364). Em outras palavras, o sujeito e, consequentemente, seus discursos são atravessados pelo inconsciente – inconsciência da heterogeneidade que os constitui, da não-origem e não-controle sob seus discursos – e pelas ideologias – as quais lhe condicionam e lhes são inerentes.

Contudo, pode-se afirmar que a Análise do Discurso rompe com a concepção de sentido como projeto do autor; com a de um sentido originário a ser descoberto; com a concepção de língua como expressão das ideias de um autor sobre as coisas; com a concepção de texto transparente, sem intertexto, sem subtexto e com a noção de contexto cultural dado como se fosse uniforme (POSSENTI, 2009, p. 360).

E será com base nesses aspectos que analisaremos as histórias em quadrinhos selecionadas no decorrer do estágio, pois é possível visualizarmos nestas que a língua é polissêmica e opaca (não-transparente), tem-se um autor que dirá sempre mais, menos ou outra coisa em relação ao que quer dizer (em virtude dos efeitos da ideologia, do inconsciente) e as condições de produção são compostas de ingredientes contraditórios, os quais lhe são inerentes. (POSSENTI, 2009).

Gêneros do discurso: sob a ótica bakhtianiana

Para discutirmos a noção de gênero proposta por Bakhtin é preciso, previamente, compreendermos o que se define por enunciado.

De acordo com Bakhtin (2003, p.300), “o enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva e não pode ser separado dos elos precedentes que o determinam tanto de fora quanto de dentro, gerando nele, atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas”. Deste modo, o enunciado é visto como “real unidade da comunicação discursiva, porque o discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso” (BAKHTIN, 2003, p. 274). Portanto, o termo enunciado refere-se ao que já foi dito, passível de um sem-número de realizações, mas será diferente a cada enunciação da frase, ou seja, o novo (momento da enunciação – o aqui e agora) e o historicamente marcado (já ditos), os quais se completam para a produção de dados efeitos de sentido.

Por conseguinte após a breve explicação do que se entende por enunciado, partamos para a noção de gênero do discurso.

Segundo Bakhtin (2003, p. 262), gêneros do discurso são “tipos relativamente estáveis de enunciados”, ou seja, os gêneros são dinâmicos e possuem características/formas predominantes, as quais variam sócio historicamente, de acordo com os objetivos almejados, o lugar social e o papel do falante, que irá “adequá-lo” de acordo com suas necessidades, pois em consonância com Koch (2009, p. 54).

“(...) como qualquer produto social, os gêneros estão sujeitos a mudanças, decorrentes não só das transformações sociais, como oriundas de novos procedimentos de organização e acabamento da arquitetura verbal, como também de modificações do lugar atribuído ao ouvinte.” (KOCH, 2009, p. 54).

Portanto, o que constitui um gênero não são seus aspectos formais, mas sim “sua ligação com uma situação social de interação” (RODRIGUES, 2005 p.164), a qual encontra-se sujeita à variações, pois se a língua varia, os gêneros também variam, adaptando-se e renovando-se, daí o porquê de serem relativamente estáveis.

Para Bakhtin (2003, p. 263), em Estética da criação verbal, os gêneros do discurso se dividem em primários (simples) e em secundários (complexos – romances, dramas, pesquisas científicas e outros), os quais durante o processo de formação “incorporam e reelaboram diversos gêneros primários”, fator este que demonstra a extrema heterogeneidade dos gêneros discursivos.

Contudo, diante de tais assertivas, seria possível falarmos no gênero história em quadrinhos? Para tal, é necessário conhecermos previamente alguns aspectos sócio-históricos sobre estas.

Histórias em quadrinhos: trajetória e ensino

As histórias em quadrinhos floresceram nos Estados Unidos, no final do século XIX, devido à ambientação propícia ao seu surgimento como comunicação de massa – evolução da indústria tipográfica e o surgimento de grandes cadeias jornalísticas.

Após a Segunda Guerra Mundial houve a popularidade de HQs com o aparecimento de heróis fictícios no conflito bélico e, com o final da mesma, novos gêneros surgiram – terror e suspense –, os quais deram continuidade à popularidade entre os adolescentes e adultos.

Durante o período de pós-guerra e início da Guerra Fria, Fredric Wertham, psiquiatra alemão, em seu livro intitulado Seduction of the Innocent (Sedução do Inocente), em 1954, associou a leitura de HQs a casos patológicos de jovens e adolescentes problemáticos (RAMA e VERGUEIRO, 2008), obra que causou um rebuliço no país e influenciou a campanha para a censura das publicações.

Por conseguinte, apesar da imensa popularidade, entre crianças, jovens e adolescentes, a leitura das histórias em quadrinhos passou a ser estigmatizada pelas camadas ditas “pensantes”, “cultas” da sociedade, pois acreditava-se que:

“Sua leitura afastava as crianças dos objetivos “mais nobres” – como o conhecimento do “mundo do livros” e o estudo de “assuntos sérios” –, que causavam prejuízos ao rendimento escolar e poderia, inclusive, gerar consequências ainda mais aterradoras, como o embotamento do raciocínio lógico, a dificuldade para a apreensão de ideias abstratas e o mergulho em um ambiente imaginativo prejudicial ao relacionamento social e afetivo de seus leitores.” (RAMA e VERGUEIRO, 2008, p. 16).

No Brasil, em consonância com Vergueiro, as histórias em quadrinhos, até a virada do último século, eram interpretadas como leitura de lazer e, por isso, superficiais e distanciadas do conteúdo para a realidade do aluno. Para tal, dois argumentos eram muito utilizados: geravam “preguiça mental” nos alunos e os afastavam da chamada “boa leitura”. Argumentos estes desprovidos de embasamento científico, os quais demonstravam um desconhecimento acerca da área (HQs). Logo, diante de tal posicionamento, era inviável o uso dos quadrinhos em sala de aula.

Atualmente, é perceptível uma mudança de posicionamento com relação aos quadrinhos, através do reconhecimento e da inserção deste gênero na LDB – Lei de Diretrizes e Bases – da educação, no PNBE – Programa Nacional Biblioteca na Escola (apud VERGUEIRO e RAMOS, 2009) – e nos PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais.

Nos PCNs, as histórias em quadrinhos encontram-se inseridas nos gêneros discursivos “adequados para o trabalho com a linguagem escrita” (2000, p.128) e são vistas como fontes históricas e de/para pesquisas sociológicas, caracterizadas como dispositivos visuais gráficos que veiculam e discutem aspectos da realidade social, apresentando-a de forma crítica e com muito humor.

Já no PNBE 2009 (apud VERGUEIRO e RAMOS, 2009), as HQs repassadas às escolas, são adaptações do gênero literatura e direcionadas não apenas para o ensino fundamental, mas também para o nível médio. Contudo, mesmo diante de tal “reconhecimento” em nível nacional do uso dos quadrinhos em sala de aula e sua inserção recorrente em livros didáticos – exemplo observável nos livros de Cereja e Magalhães (2005) para ensino médio – e vestibulares, ainda é perceptível, muitas vezes, de maneira tácita, ora um receio por parte dos docentes em trabalhá-las durante as aulas, ora um despreparo para abordar a temática.

Portanto, o presente estudo tem como objetivo central fornecer subsídios teóricos, devidamente elucidados, para a aplicabilidade das HQs no ensino/aprendizagem de Língua Portuguesa, com o intuito de demonstrar a eficácia da inserção destas no meio educacional para contribuir na formação de alunos críticos-reflexivos de seus papéis sócio-históricos e ideológicos, pois segundo Freyre, as histórias em quadrinhos não são boas nem más, “depende do uso que se faz dela” (apud GONÇALO JR., 2004, p.157).

Para tanto, tentaremos definir o que são histórias em quadrinhos e quais são suas principais características. Will Eisner (2001, p.38) utiliza o termo arte sequencial para descrever as histórias em quadrinhos. Para ele a função fundamental da arte dos quadrinhos (tiras ou revistas) é:

“Comunicar ideias e/ou histórias por meio de palavras e figuras, envolve o movimento de certas imagens (tais como pessoas e coisas) no espaço. Para lidar com a captura ou encapsulamento desses eventos no fluxo da narrativa, eles devem ser decompostos em segmentos sequenciados. Esses segmentos são chamados de quadrinhos.” (WILL EISNER, 2001, p.38).

Para McCloud (2005, p.05), as histórias em quadrinhos são “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada destinadas a transmitir informações e/ou produzir uma resposta no espectador”.

Atualmente, é possível observar certa dificuldade em definir precisamente o que é história em quadrinhos, principalmente quando comparadas/relacionadas às tiras cômicas, charges, cartum e outros que lidem com a temática humorística que vinculem imagens e texto verbal. Portanto, para a inserção o uso das HQs no meio educacional – sala de aula – é de suma importância estabelecer o que é e o que não é história em quadrinhos.

É muito comum ver nas HQs uma forma de literatura, devido às adaptações de romances para os quadrinhos, e sua consequente, forma de disseminação no âmbito escolar, por exemplo, através do PNBE.

De acordo com Ramos (2009, p.17):

“Chamar quadrinhos de literatura (...) nada mais é do que uma forma de procurar rótulos socialmente aceitos ou academicamente prestigiados (...) como argumento para justificar os quadrinhos, historicamente vistos de maneira pejorativa, inclusive no meio universitário.” (RAMOS, 2009, p.17).

E, diante de tal assertiva o autor propõe que “quadrinhos são quadrinhos”, os quais possuem linguagem autônoma e vale-se de mecanismos próprios para representar seus elementos narrativos – espaço da ação dentro de um quadrinho; tempo da narrativa, visualizado através de um quadrinho com o seu anterior; personagens e suas falas representadas por balões; dentre outros.

Portanto, após verificarmos que quadrinhos e literatura são linguagens distintas, que abrigam diversos gêneros, pode-se estabelecer, em consonância com Ramos (2009) algumas “tendências” do que venha a ser considerado HQs: a - diferentes gêneros utilizam a linguagem dos quadrinhos; b - há a predominância da sequência; c - podem apresentar personagens fixos ou não; d - a narrativa pode ocorrer em um ou mais quadrinhos; e- em muitas das vezes, o rótulo, o formato e o veículo de publicação constituem elementos que agregam informações ao leitor, orientando a percepção do gênero em análise; f - uso de imagens desenhadas ou fotografias.

Após elencar tais aspectos, Ramos – a partir da noção de hipergênero elaborada por Maingueneau, como sendo categorizações que permitem “formatar” o texto, ou seja, funcionariam como um rótulo que daria coordenadas para a formatação textual de vários gêneros que compartilhariam diversos elementos – define quadrinhos como um hiper gênero, o qual é considerado como um grande rótulo que agrega diferentes outros gêneros – “tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2003) –, com suas devidas peculiaridades.

Portanto, dentro deste hiper gênero (HQs) têm-se os seguintes gêneros: a charge caracterizada como um texto de humor que aborda algum fato ou tema ligado ao noticiário; o cartum que ao contrário da charge, não é vinculado a um fato do noticiário, o humor advém de situações corriqueiras e cotidianas; a tira cômica, a qual é caracterizada por textos curtos, com personagens fixos ou não, que criam uma narrativa com desfecho inesperado no final, atrelado ao humor; as tiras seriadas, as quais, como o próprio nome indica, cada tira traz um capítulo diário interligado a uma trama maior e a tira cômica seriada que usa elementos próprios às tiras cômicas, como o desfecho inesperado e cômico, mas ao mesmo tempo a história é produzida em capítulos.

Já as caricaturas e as ilustrações, por não possuírem narrativa, não são consideradas como gêneros dos quadrinhos.

Contudo, é importante frisar que, no presente trabalho, é feita a diferenciação entre a charge e a história em quadrinhos, pois esta perdura pela narratividade e estruturação de seus elementos constitutivos, portanto não há o envelhecimento temático. Já a charge devido à vinculação aos noticiários, encontra-se situada sócio historicamente em um dado momento e, por conseguinte, sua temática envelhece, propiciando por vezes a não compreensão de dados efeitos de sentido, devido ao não acesso ao contexto de produção da charge.

Nas histórias em quadrinhos há um entrelaçamento de escrita – “informação percebida. É preciso conhecimento especializado para decodificar os símbolos abstratos da linguagem” (McCLOUD, 2005, p.49) e imagens – “informações recebidas”, sem necessidade de educação prévia, é instantânea, as quais se complementarizam no auxílio à interpretação linguística-semântica-social-ideológica dos quadrinhos submetidos à análise.

Destarte, as HQs são compostas de linguagem verbal, textualmente impressa, e de linguagem não-verbal, desenhos das personagens, as quais estão relacionadas à concepção de enunciado, pois em ambas – linguagens verbal e não-verbal – parte-se dos já ditos anteriormente, passíveis de reconhecimento durante o momento da enunciação. Tem-se o “novo” – período de enunciação, o qual se correlaciona com o já enunciado – historicamente marcado, promovendo assim dados efeitos de sentido.

No que tange à forma, os quadrinhos são constituídos “por meio de uma imagem fixa, de um instante específico ou de uma sequência interligada de instantes, que são essenciais para a compreensão de uma determinada ação ou acontecimento” (RAMA e VERGUEIRO, 2008, p. 35), portanto tem-se ações contínuas, sequenciadas uma às outras, em um dado recorte temporal, as quais refletem determinado momento sócio-histórico.

Portanto, a configuração geral das histórias em quadrinhos apresenta uma “sobreposição de palavra e imagem”, as quais exigem que o leitor exerça as suas habilidades interpretativas visuais (regências da arte) e verbais (leitura) mutuamente, pois a leitura das HQs “é um ato de percepção estética e de esforço intelectual” (EISNER, 2001, p. 08).

A escolha do corpus utilizado no contexto escolar foi motivada por dois aspectos em especial: as HQs são conhecidas pela maioria dos discentes, pois encontram-se presentes no cotidiano deles, e pelo fato de que:

“A inclusão das histórias em quadrinhos na sala de aula não é objeto de qualquer tipo de rejeição por parte dos estudantes, que, em geral, as recebem de forma entusiasmada, sentindo-se, com sua utilização, propensos a uma participação mais ativa nas atividades de aula. As histórias em quadrinhos aumentam a motivação dos estudantes para o conteúdo das aulas, aguçando sua curiosidade e desafiando seu senso crítico.” (RAMA e VERGUEIRO, 2008, p. 21).

Por conseguinte, com essa assertiva ao nosso favor, a maior receptibilidade por parte do(as) alunos(as), associado à desvinculação de possíveis preconceitos com relação ao uso das histórias em quadrinhos em sala de aula, nos torna possível aproveitar o abrangente repertório linguístico-sócio-ideológico das HQs e as aliarmos à docência.

É válido ressaltar, porém, que mesmo não sendo considerada literatura (romance, poesia e outros), o uso das HQs em sala de aula não visa ao detrimento daquela em favor desta, o que se almeja é o uso concomitante de ambos (literatura e HQs) e demais gêneros discursivos, devidamente abordados durante a formação de discentes críticos-reflexivos.

Pretende-se, também, em consonância com Gilberto Freyre fazer das histórias em quadrinhos uma “ponte para a leitura de livros” (GONÇALO JR., 2004, p. 157) e demais gêneros.

Deste modo, através dos pressupostos teóricos elencados até o presente momento e de uma “atitude dialógica que permite que os conceitos sejam extraídos do corpus” (BRAIT, 2003, p.27), nos propomos a demonstrar a análise das histórias em quadrinhos realizada em sala de aula e demonstrar os resultados obtidos com suas respectivas metodologias.

Considerações finais

O presente trabalho buscou informações relevantes sobre as histórias em quadrinhos na educação escolar, através de autores da área especifica. A temática proposta para este estudo pautou-se em compreender como as histórias em quadrinhos podem auxiliar no desenvolvimento escolar e ainda caracterizar este recurso reconhecendo seu benefício para o ensino.

Em relação ao tema abordado optou-se pela pesquisa bibliográfica, através de análises da literatura específica, procurando refletir aspectos das histórias em quadrinhos, bem como seu aproveitamento na escola. Por meio desta pesquisa foi possível ver que a exploração das histórias em quadrinhos começou lenta, pois temiam que pudesse haver rejeição na utilização nas escolas. Educadores e pais consideravam este recurso como inadequado para a educação. Tais pontos de vistas foram superados com pesquisas que comprovaram seu benefício na escola.

É possível definir as HQs como arte sequencial, pois a história é narrada quadro a quadro através de sequência de acontecimentos ilustrados. Posso concluir que, trabalhar este material em sala de aula, pode explora a leitura, a escrita e a pesquisas. Exercitando a criatividade de forma prazerosa e divertida. Neste sentido as pesquisas em torno do assunto estão cada vez mostrando os benefícios das HQs. Porém e importante o conhecimento do professor sobre o assunto, pois ao selecionar HQs para trabalhar em sala de aula, deve considerar as características da faixa etária, adequando este material ao desenvolvimento intelectual do aluno.

Atualmente os quadrinhos não estão mais presentes em revistas especializadas, mas ganhou espaço em outros segmentos como concurso e vestibulares, fazendo que o candidato reflita sobre o assunto proposto, pois muitas somos condicionadas a memorizar sem refletir sobre o conteúdo estudado. Além disso posso dizer que escrever sobre as HQs foi de suma importância para minha formação, com este estudo pude compreender melhor através dos questionamentos e estudos realizados e assim quebrando certos preconceitos sobre o material.

Essa pesquisa proporcionou-me entender um pouco mais sobre como a leitura é trabalhada no espaço escolar, e perceber que os gêneros textuais são ferramentas utilizadas pelos professores. Observamos que a utilização dos gêneros textuais estão presentes no planejamento da escola, oportunizando ao aluno maior variedades de textos, e assim favorecendo a atração pela leitura.

Histórias em quadrinhos podem ser um recurso utilizado no incentivo a leitura, pois, oferece vários atrativos, como ilustrações, personagens e histórias engraçadas, que prende a atenção do aluno, fazendo com que se faça tanto uma leitura da escrita quanto uma leitura visual dos desenhos, proporcionando até mesmo a construção da própria história. As figuras das histórias em quadrinhos podem desenvolver a criatividade do aluno, permitindo a este, fazer sua própria leitura de mundo, associando os desenhos com sua realidade, facilitando assim a produção de texto e consequentemente melhorando a sua escrita.

Acreditamos que o caminho para a construção de uma sociedade mais justa, de oportunidades distribuídas com equidade, depende em parte de indivíduos com uma boa capacidade de interpretação, e esta em muito depende de bons leitores. Neste contexto, percebemos o quanto torna-se importante a preparação de leitores, que busquem sempre se informar, e essa responsabilidade está dividida entre pais, escola, professores e sociedade em geral, que devem trabalhar em conjunto.

Referências

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Autores:

Aline de Fátima Rodrigues, Pedagoga

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Jéssica Andrade de Albuquerque, Psicológa

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Edson Meneses da Silva Filho, Fisioterapeuta 

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