O presente trabalho consiste em uma revisão da literatura acerca da interface do aleitamento materno com a situação nutricional infantil e apresenta uma relação de bibliografias existentes nos acervos das bases de dados Medline, Lilacs e PubMed.

Resumo

O presente trabalho consiste em uma revisão da literatura acerca da interface do aleitamento materno com a situação nutricional infantil e apresenta uma relação de bibliografias existentes nos acervos das bases de dados Medline, Lilacs e PubMed. Tem como objetivo analisar a interface do aleitamento materno com a situação nutricional infantil por meio da comparação do tempo e dos tipos de amamentação utilizadas; relação do estado nutricional das crianças de acordo com o tipo e tempo da amamentação praticada; e identificação de possíveis alterações nutricionais, já que hipóteses vêm sendo levantadas para explicar o motivo pelo qual o aleitamento materno pode proteger a criança contra a obesidade. Os mecanismos de proteção vão desde a composição específica e única do leite humano até a influência de fatores ambientais e comportamentais, como nível socioeconômico, escolaridade materna e padrão alimentar. Os resultados dos estudos encontrados nos faz concluir que, além de todos os benefícios já bastante estudados e conhecidos do aleitamento materno, agrega-se mais um, que é a proteção contra o sobrepeso e a obesidade durante toda a infância. Há, portanto, uma relação positiva entre o tempo de aleitamento materno e o estado nutricional infantil. Contudo, os desenhos dos estudos apresentam como limitações metodológicas o fato de que não foram controladas outras variáveis que poderiam interferir nessa associação, como peso da criança ao nascimento, ingestão energética atual, nível de atividade física da criança, escolaridade da mãe e IMC materno. Apesar dos resultados dos estudos terem apontado uma estreita relação entre aleitamento, sobrepeso e obesidade, ressalta-se que outros estudos mais aprofundados devem ser realizados para se chegar a um resultado conclusivo que aponte de forma mais completa todos os benefícios do aleitamento. Os mecanismos, potencialmente envolvidos, ainda precisam ser esclarecidos, por isso a importância de continuar a pesquisa na área.

Palavras-chave: aleitamento materno, alimentação infantil, nutrição infantil

Introdução

    O leite materno é reconhecidamente o alimento mais completo e adequado para a criança, tanto no período neonatal, como na fase de lactente. Este não só respeita as necessidades metabólicas do lactente (colostro, leite maduro), permitindo o seu crescimento mais harmonioso, como também se adapta à relativa insuficiência digestiva e imaturidade renal do recém-nascido e protege-o da excessiva permeabilidade intestinal a macromoléculas (FERREIRA, 2005).

    A amamentação exclusiva no período de seis meses até dois anos de vida ou mais é uma das principais práticas de promoção à saúde, pelo fato do leite materno possuir todos os nutrientes que o bebê necessita para o seu desenvolvimento e crescimento saudável, proporcionando o bom desenvolvimento da criança, protegendo contra infecções, doenças respiratórias, doenças crônicas não-transmissíveis e malformação da arcada dentária, além de todos os benefícios que oferece à mãe e ao bebê, também seria uma possível estratégia na prevenção da obesidade infantil e de certas patologias (NEJAR et al 2004).

    Oferecer à criança outros alimentos além do leite materno antes do sexto mês de vida pode tornar a criança mais vulnerável a diarréias, a infecções respiratórias e gastrintestinais e a desnutrição, levando ao comprometimento do crescimento e desenvolvimento adequados. Tem-se demonstrado, ainda, que a introdução precoce de alimentos aumenta a morbimortalidade infantil como consequência de uma menor ingestão dos fatores de proteção do leite materno (SIMON, SOUZA E SOUZA, 2003).

    A maioria dos estudos que avaliaram a relação entre obesidade em crianças maiores de três anos e tipo de alimentação no início da vida constatou menor frequência de sobrepeso/obesidade em crianças que haviam sido amamentadas. Na revisão da OMS sobre evidências do efeito do aleitamento materno em longo prazo, os indivíduos amamentados tiveram uma chance 22% menor de apresentar sobrepeso/obesidade (DEWEY, 2003),

    É possível também que haja uma relação dose/resposta com a duração do aleitamento materno, ou seja, quanto maior o tempo em que o indivíduo foi amamentado, menor será a chance de ele vir a apresentar sobrepeso/obesidade. Entre os possíveis mecanismos implicados a essa proteção, encontram-se um melhor desenvolvimento da auto-regulação de ingestão de alimentos das crianças amamentadas e a composição única do leite materno participando no processo de “programação metabólica”, alterando, por exemplo, o número e/ou tamanho das células gordurosas ou induzindo o fenômeno de diferenciação metabólica. Foi constatado que o leite de vaca altera a taxa metabólica durante o sono de crianças amamentadas, podendo esse fato estar associado com a “programação metabólica” e o desenvolvimento de obesidade (HAISMA et al., 2005).

            Recentemente vários estudos vêm demonstrando os agravos significativos quando a amamentação não acontece. Na fase inicial da vida, o leite humano é indiscutivelmente o alimento que reúne as características nutricionais ideais, com balanceamento adequado de nutrientes, além de favorecer inúmeras vantagens imunológicas e psicológicas importantes na diminuição da morbidade e mortalidade infantil. Diante do exposto, o presente trabalho tem como objetivo analisar a interface do aleitamento materno com a situação nutricional infantil; por meio da comparação do tempo e dos tipos de amamentação utilizadas; relação do estado nutricional das crianças de acordo com o tipo e tempo da amamentação praticada; e identificação de possíveis alterações nutricionais.

    Muitas hipóteses vêm sendo levantadas para explicar o motivo pelo qual o aleitamento materno pode proteger a criança contra a obesidade. Os mecanismos de proteção vão desde a composição específica e única do leite humano até a influência de fatores ambientais e comportamentais, como nível socioeconômico, escolaridade materna e padrão alimentar (SIQUEIRA; MONTEIRO, 2007).Sendo assim, o objetivo do estudo foi analisar o período de aleitamento materno com o peso de recém-nascidos.

Referencial Teórico

    A lactação é uma das maneiras mais eficientes de se atender aos aspectos nutricionais, imunológicos, psicológicos e ao desenvolvimento de uma criança no seu primeiro ano de vida. O leite materno possui características bioquímicas ideiais para o crescimento e desenvolvimento da criança. Por meio do leite materno o bebê recebe o aporte necessário para um bom desenvolvimento, sendo uma prática saudável tanto para mãe quanto para o filho (SALIBA et al., 2008).

    Segundo Campestrini (2006), a substituição do leite materno por leite artificial faz com que ocorra um aumento do número de óbitos de crianças, em torno de 1,5 milhões a cada ano, no mundo; a grande maioria por diarreia, já que em muitos lugares não há água potável para o preparo das mamadeiras, a higiene é precária e/ou falta noções de higiene. A solução para diminuir esse número de óbitos é simples, somente, o incentivo ao aleitamento materno.

            Em virtude da crescente conscientização da importância da amamentação exclusiva e da falta de padronização quanto à sua definição, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu que uma criança é considerada em aleitamento materno exclusivo quando ela recebe somente leite de peito, diretamente da sua mãe ou de um banco de leite, ou extraído, e nenhum outro líquido ou sólido, exceto gotas ou xaropes de vitaminas, suplementos vitamínicos ou medicamentos. É considerado aleitamento materno predominante quando existe a administração de outros líquidos como água, chás e sucos de frutas, mas não outros leites e alimentos sólidos (WHO, 2008).

    A Organização Mundial da Saúde(OMS), enfatiza que é muito importante conhecer e utilizar as definições de aleitamento materno adotadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e reconhecidas no mundo inteiro(WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2007). Assim, o aleitamento materno costuma ser classificado em:

Aleitamento materno exclusivo – quando a criança recebe somente leite materno, direto da mama ou ordenhado, ou leite humano de outra fonte, sem outros líquidos ou sólidos, com exceção de gotas ou xaropes contendo vitaminas, sais de reidratação oral, suplementos minerais ou medicamentos.

Aleitamento materno predominante – quando a criança recebe, além do leite materno, água ou bebidas à base de água (água adocicada, chás, infusões), sucos de frutas e fluidos rituais.

Aleitamento materno – quando a criança recebe leite materno (direto da mama ou ordenhado), independentemente de receber ou não outros alimentos.

Aleitamento materno complementado – quando a criança recebe, além do leite materno, qualquer alimento sólido ou semi-sólido com a finalidade de complementá-lo, e não de substituí-lo. Nessa categoria a criança pode receber, além do leite materno, outro tipo de leite, mas este não é considerado alimento complementar.

Aleitamento materno misto ou parcial – quando a criança recebe leite materno e outros tipos de leite.

          A composição do leite materno é quantitativa e qualitativamente adequada às necessidades fisiológicas e nutricionais da criança nos primeiros seis meses de vida. Seu precursor, o colostro, permite a adaptação do recém-nascido e sua transição bem sucedida da vida intra-uterina para a vida pós-natal. Outra vantagem do leite materno é a proteção que este confere à criança, devido não só à pureza e ausência de contaminação, mas também pela existência de anticorpos específicos contra agentes infecciosos, alguns fatores capazes de inibir certos microorganismos e fatores antimicrobianos não específicos, além de proporcionar um meio gastrintestinal impróprio para o desenvolvimento de microorganismos patogênicos (AKRÉ, 1989).

        Segundo Van Odjik e col. (2003) tem-se associado à introdução precoce da alimentação complementar com o desenvolvimento de doenças atópicas. A amamentação exclusiva também parece proteger contra o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo I. Foi descrito que a exposição precoce ao leite de vaca pode ser importante determinante desta doença e pode aumentar seu risco em 50%.

        O aleitamento materno é considerado um dos pilares para a promoção e proteção da saúde das crianças. A superioridade do leite humano como fonte de alimento e de proteção contra doenças faz com que, especialistas do mundo inteiro, recomendem a amamentação exclusiva por seis meses e complementando até, pelo menos, o final do primeiro ano de vida (KUMMER et al., 2005).

    Por ser o único alimento que garante qualidade e quantidade ideais de nutrientes para o bebê, nos primeiros anos de vida, o aleitamento materno exclusivo até os seis meses é recomendado para qualquer criança e complemento até pelo menos um ano de vida, uma vez que é, nutricionalmente, adequado, protegendo a criança contra infecções, diarreia e doenças respiratórias. Além dos benefícios que oferece para a mãe e ao bebê, o leite materno seria mais uma estratégia para a prevenção da obesidade infantil garantindo um bom estado nutricional (BALABAN; SILVIA, 2004).

    De acordo com Hediger (2001), é possível que os lactentes alimentados no seio materno desenvolvam mecanismos eficazes para regular sua ingestão energética e a alimentação com a mamadeira. Tais mecanismos poderiam, por exemplo, favorecer o desenvolvimento de sobrepeso por promover uma ingestão excessiva de leite ou prejudicar o desenvolvimento dos mecanismos de auto-regulação.

  Dados recentes revelam que a obesidade infantil está aumentando no Brasil, principalmente, nas camadas mais pobres da população, uma medida preventiva que está sendo explorada, por meio de estudos, simples e de baixo custo, seria a promoção do uso exclusivo do aleitamento materno até os seis meses de vida, sendo que o leite materno segundo estudos epidemiológicos possuiria um efeito protetor contra a obesidade infantil (VIUNISK, 2000).

    Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde reconhece que o aleitamento materno seria uma boa medida na prevenção da obesidade infantil. É possível que o leite materno influencie no desenvolvimento de um receptor de sabor e, assim, fortaleça a preferência por alimentação de baixo valor calórico para o resto da vida. O aleitamento materno é uma das experiências nutricionais mais precoces do recém-nascido, dando continuidade à nutrição iniciada na vida intrauterina. As propriedades nutricionais do leite materno diferem qualitativa e quantitativamente das fórmulas infantis. Estão presentes no leite humano vários fatores bioativos como, por exemplo, hormônios de crescimento que vão atuar sobre a diferenciação e a manutenção funcional de órgãos específicos, afetando vários aspectos do desenvolvimento (WAGNER, 2002).

É fato que bebês que recebem aleitamento materno ganham menos peso que aqueles que recebem alimentação de outras fontes não naturais, durante o primeiro ano de vida. Bebês alimentados de forma diferente da natural têm níveis circulantes de insulina mais elevados no sangue, como resultado do teor mais elevado de proteínas que estão presentes na fórmula infantil que, por sua vez, poderão estimular um depósito maior de gorduras. Portanto, a alimentação com a mamadeira, por exemplo, poderia favorecer o desenvolvimento do sobrepeso por promover uma ingestão excessiva de leite e/ou prejudicar o desenvolvimento dos mecanismos de autorregulação. Durante o ato de amamentar, a criança desenvolveria um mecanismo de autorregulação da quantidade de leite ao ingerir pela mamadeira, pois o nível de gordura contido no final da mamadeira é maior que o do início, assim, sinalizando ao bebê o término da mamada. Por esse motivo, lactantes alimentados no seio materno desenvolvem mecanismos para regular a ingestão energética durante a alimentação com a mamadeira (SIMON et al., 2009).

Metodologia

    Trata-se de um estudo exploratório, do tipo revisão de literatura especializada, com base nas bases de dados de publicação recentes no âmbito do Brasil e Região Nordeste.

            Os dados serão coletados durante o mês de janeiro/20015, por meio de acesso das bases bibliográficas (Medline, Lilacs, PubMed) em acesso a editoriais de periódicos especializados a exemplo de Revista de Saúde Materno-Infantil do IMIP, Jornal Brasileiro de Pediatria, Revista de Saúde Pública da USP, e Revista de Nutrição da PUCAMP, Cadernos de Saúde Pública da FIOCRUZ. Serão utilizados os descritores “aleitamento materno”, “alimentação infantil”, e “nutrição infantil” como elementos de critérios de seleção de publicações que constem esses termos em seus títulos ou como objetivo específico de análise direta.

Resultados e Discussão

            Foram localizados 26 artigos nas buscas. Destes, 13 foram excluídos mediante a análise dos resumos. Vale ressaltar que existem poucos estudos, até o momento, sobre a relação da situação nutricional com a história de aleitamento materno. As diferenças metodológicas entre os estudos dificultam, de certa forma, a comparação entre eles.

            Partindo para a discussão dos resultados dos estudos encontrados, observemos o que Nascimento et al. (2009) verificou em sua pesquisa. Esse autor associou o tempo de aleitamento ao estado nutricional infantil, o que mostra a importância do aleitamento para o desenvolvimento e crescimento saúdavel das crianças. Podemos constatar na tabela 1, o grande número de crianças eutróficas que receberam leite materno em período superior a 6 meses seguindo recomendação da Organização Mundial de Saúde. Essa recomendação foi adotada em março de 2001, embasada em uma revisão sistemática da literatura sobre a duração ótima do aleitamento materno exclusivo, embora, nesse estudo, tenha se pesquisado o tempo de aleitamento materno, porém não aleitamento materno exclusivo (CARVALHO; TAMEZ, 2002).

Tabela 1 - Teste Associação Qui-quadrado, com 5% de significância.

Estado nutricional                                          Tempo de aleitamento

 

                                                      Inferior a 6 meses   Igual ou superior a 6 meses   Total

Obesidade                                                  22                           1                                   23

 Sobrepeso                                                   7                           1                                    8

Eutrófico                                                      0                          44                                  44

Baixo peso                                                  2                            0                                    2

Total                                                           31                           46                                 77

Disciplinarum Scientia. Série: Ciências da Saúde, Santa Maria, v. 10, n. 1, p. 19-30, 2009.

    Estudo realizado por Kramer et al. (1985) publicou os resultados de um corte prospectivo realizado com 462 crianças, no qual verificou-se que o tempo de aleitamento materno era um dos determinantes do peso e do IMC aos 12 meses de idade. Em uma segunda publicação, relataram que o efeito protetor do aleitamento materno persistiu quando essas crianças foram, novamente, avaliadas aos 24 meses. Em um estudo de corte transversal, realizado por Hediger et al. (2001), com 2.565 crianças americanas entre 3 e 5 anos de idade, foi observado que as crianças que haviam recebido aleitamento materno apresentavam uma menor prevalência de risco de sobrepeso, em relação àquelas que nunca haviam sido amamentadas. Contudo, os autores não observaram o efeito protetor com relação ao sobrepeso. Variáveis de confusão, como peso ao nascer, etnia e IMC materno, foram levadas em consideração.

    Em um estudo de corte transversal realizado por Liese et al. (2001), com 2.108 crianças de 9 a 10 anos de idade, provenientes de duas cidades alemãs, foi verificado uma menor prevalência de sobrepeso entre as crianças que receberam aleitamento materno, mesmo após o controle realizado por meio de variáveis de             confundimento, como nacionalidade, número de irmãos e classe socioeconômica.

    Por meio desses três estudos, foi constatado que existe uma possível relação entre a obesidade e o aleitamento materno. Foi verificado que é possível que o aleitamento materno reduza os dois extremos, tanto sobrepeso quanto baixo peso, confirmando o que foi constatado por Balaban e Silva (2004). Contrariando os resultados obtidos por Oswald Callaghan et al. (1997) que não observaram a associação entre duração do aleitamento materno e prevalência de obesidade aos 5 anos de idade em uma coorte prospectivo com 4.062 crianças na Austrália. Diversas variáveis foram levadas em consideração, tais como IMC, escolaridade e renda dos pais, peso ao nascimento e idade gestacional.

    Resultados de outros estudos (ZIEVE et al., 1992) também não apontaram associação entre duração do aleitamento materno e adiposidade aos 4 anos de idade, medida por meio do IMC e da soma das pregas tricipital e subescapular, em um estudo com 331 crianças. Peso ao nascimento, etnia, classe socioeconômica e medidas de adiposidade materna (IMC e soma das pregas cutâneas) foram analisados, nesse estudo. As medidas de adiposidade materna foram os principais determinantes de adiposidade nessas crianças.

    Em relação ao estado nutricional, dos 23 obesos, 21 (91%) foram amamentados em um período inferior a seis meses e 2 (9%) em período igual ou superior a seis meses.

    Dos 8 sobrepesos, 7 (87,5%) foram amamentados em período inferior a seis meses, e 1 (12,5%) no período igual a seis meses. Já no grupo dos 44 classificados como eutróficos, 100% receberam leite materno em período igual ou superior a seis meses mostrando, significativamente, a importância do efeito protetor do aleitamento materno sobre o estado nutricional infantil, pelo motivo da maior parte das crianças que receberam leite materno em algum período da vida apresentarem um estado nutricional adequado a seu peso, idade e estatura. Das duas crianças que apresentaram baixo peso, ambas foram amamentadas menos de seis meses, sendo que uma nunca recebeu leite materno e outra recebeu somente durante 1 mês.

    Estudo de corte transversal com 9.357 crianças alemãs entre 5 e 6 anos de idade encontrou uma prevalência de obesidade de 4,5% entre as crianças que nunca haviam sido amamentadas e de 2,8% entre aquelas que receberam aleitamento materno. Um efeito dose-dependente foi observado para a duração do aleitamento materno, com prevalência de obesidade de 3,8% para as que receberam aleitamento materno exclusivo por 2 meses, 2,3% para 3 a 5 meses, 1,7% para 6 a 12 meses, e 0,8% para mais que 12 meses. Resultados semelhantes foram observados com relação à prevalência de sobrepeso. Após ajuste para potenciais fatores de confusão, o aleitamento materno permaneceu como um fator de proteção contra obesidade e sobrepeso (VONKRIES et al., 1999).

    Um estudo de revisão apontou um risco no mínimo duas vezes maior de obesidade na idade adulta em crianças obesas em relação às não-obesas e relataram que cerca de um terço dos pré-escolares e metade dos escolares obesos tornam-se adultos obesos (SERDULA et al., 2006).

    Estudo mostrou que crianças que não recebiam leite materno possuíam risco aumentado de mortalidade por doenças respiratórias, em torno de 3,6 vezes mais chances de diarreia, risco de 14,2 vezes maior e por outros tipos de infecções 2,5 vezes, quando comparadas às que recebiam leite materno sem complementos (VENÂNCIO et al., 2002).

    Os resultados apresentados, aqui, demonstram que quanto maior o tempo de exposição ao aleitamento materno mais saudável é o estado nutricional das crianças em idade pré-escolar, porém, os mecanismos, potencialmente, envolvidos ainda precisam ser esclarecidos.

    O aleitamento materno envolve diversos aspectos, entre os quais, a quantidade de alimento ingerido, a composição desse alimento (tanto do ponto de vista de nutrientes, quanto de fatores bioativos), a época de introdução de alimentos sólidos, o desenvolvimento dos mecanismos regulatórios da ingestão alimentar, assim como aspectos comportamentais associados à relação mãe-filho e à formação do hábito alimentar da criança (BALABAN; SILVA, 2004).

    A hipótese de que o leite materno possuiria efeito protetor sobre o sobrepeso e a obesidade infantil possui evidências a seu favor, no presente estudo, uma vez que constatou-se que quanto maior o tempo de amamentação mais saudável é o indivíduo, resultando em uma melhor qualidade de vida. Porém, o tempo do desfecho e a não-inclusão de outras variáveis trazem níveis de confundimento quando relacionado a outros estudos apresentados em artigo de revisão realizado por Balaban e Silva (2004).

Considerações Finais

    Os resultados dos estudos aqui abordados, nos faz concluir que, além de todos os benefícios já bastante estudados e conhecidos do aleitamento materno, agrega-se mais um, que é a proteção contra o sobrepeso e a obesidade durante toda a infância. Há, portanto, uma relação positiva entre o tempo de aleitamento materno e o estado nutricional infantil.

    Contudo, os desenhos dos estudos apresentam como limitações metodológicas o fato de que não foram controladas outras variáveis que poderiam interferir nessa associação, como peso da criança ao nascimento, ingestão energética atual, nível de atividade física da criança, escolaridade da mãe e IMC materno.

    Apesar dos resultados dos estudos terem apontado uma estreita relação entre aleitamento, sobrepeso e obesidade, ressalta-se que outros estudos mais aprofundados devem ser realizados para se chegar a um resultado conclusivo que aponte de forma mais completa todos os benefícios do aleitamento. Os mecanismos, potencialmente envolvidos, ainda precisam ser esclarecidos, por isso a importância de continuar a pesquisa na área.

Referências

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BALABAN, G.; SILVA, G. Efeito protetor do aleitamento materno contra a obesidade infantil. Jornal de pediatria, Campinas, v. 80, n. 1, p.7-16, 2004.

CAMPESTRINI, S. Súmula de aleitamento materno. Curitiba: PUCPR, 2006.

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Hediger ML, Overpeck MD, Kuczmarski RJ, Ruan J. Association between infant breastfeeding and overweight in young children. JAMA. 2001;285(19):2453-60. DOI:

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Autores:

Janecléssia Andrade de Albuquerque, graduada em Nutrição (Universidade Federal da Paraíba)

Edson Meneses da Silva Filho, fisioterapeuta, mestre em Ciências da Reabilitação (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

Jéssica Andrade de Albuquerque, psicóloga, mestre em Psicologia Social, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social (Universidade Federal da Paraíba)

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