O desenvolvimento deste artigo se deu em observar algumas práxis lúdicas possíveis de se desenvolver no ambiente hospitalar, tais como, Biblioterapia, Brinquetoteca e as Atividades de Lazer e Recreação.

Resumo

O desenvolvimento deste artigo se deu em observar algumas práxis lúdicas possíveis de se desenvolver no ambiente hospitalar, tais como, Biblioterapia, Brinquetoteca e as Atividades de Lazer e Recreação. O objetivo do estudo foi demonstrar algumas possibilidades de se desenvolver trabalhos lúdicos dentro do ambiente hospitalar, a fim de, contribuir com tais informações para futuros profissionais que desejam trabalhar com essa temática em ambientes hospitalares. Concluímos que, por meio dessas atividades, mas também, outras que aqui não foram citadas, poderemos sim, melhorar e alegrar a vida de pessoas em ambientes hospitalares por meio de atividades lúdicas.

Palavras-chave: Criança. Hospital. Ludicidade.

1. INTRODUÇÃO

A criança no ambiente hospitalar, mesmo diagnosticada com uma doença grave, não deixa de ser criança, por isso, sente necessidade e prazer em brincar e divertir-se. Estando impossibilitada pela enfermidade e por outras limitações, o gosto e o interesse pelas atividades recreativas são mantidas, podendo assim, tornar as atividades lúdicas um momento de superação de suas dificuldades. Essa situação nos instiga a discutir sobre as possibilidades de desenvolver práticas lúdicas nesse espaço, de forma a aliviar, ocupar, minimizar e enriquecer o cotidiano das crianças no período de convalescença. No entanto, o que melhor para ocupar o tempo ocioso de uma criança no ambiente hospitalar do que com atividades lúdicas?

A palavra lúdico vem do latim ludos e significa brincar. Neste brincar, estão incluídos os jogos, brinquedos, divertimentos e é coerente também o comportamento daquele que joga, que brinca e que se diverte.  Pode-se relacionar o lúdico ao prazer, pois não está preso a um tempo definido. Podemos também, nos apoiar nas atividades recreativas, pois por meio delas, é possível desenvolver as atividades lúdicas. A palavra recreação significa recrear, reproduzir, renovar. “A recreação, portanto, compreende todas as atividades espontâneas, prazerosas e criadoras, que o indivíduo busca para melhor ocupar seu tempo livre” (GUERRA, 1996, p. 17).

Neste contexto, a realização de atividades lúdicas no ambiente hospitalar apresenta-se como uma possibilidade de atenção à criança e seus anseios possibilitando a ela, usufruir das atividades especificadas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado, Resolução n° 41 de Outubro de 1995: “Art. 9 - Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do curriculum escolar durante sua permanência hospitalar”.

“Embora havendo uma disseminação de cuidados especiais de humanização, acarinhamento e sensibilidade dispostos no exercício da equipe de saúde, nas internações ou atendimento ambulatorial; em alguns hospitais, a criança passa, ainda, a ser um número, uma patologia, um protocolo médico, de que é esperado uma negação de sua humanização em nome da objetividade científica” (ORTIZ; FREITAS, 2005. p. 28).

Para muitas pessoas, há uma incompatibilidade entre esses temas, o que dificulta a implementação de projetos interdisciplinares que ampliem as possibilidades de vivência do lúdico nos hospitais. No entanto, nas últimas décadas, esta realidade vem sendo questionada, na tentativa de modificar a atmosfera pouco lúdica que vigora nesses espaços, como foi constatado nos trabalhos de Pimentel (1999), Wou (2000) e no trabalho realizado pelos Doutores da Alegria, grupo que atua em alas infantis de hospitais. Apesar disso, principalmente no âmbito da Educação Física e do lazer, são poucos os trabalhos que têm se dedicado ao tema. Wou (2004) destaca que “são programas muito interessantes, aplicados nos hospitais para pacientes infantis, os quais possibilitam a interação de uma lógica diferenciada em relação ao tratamento”. Apesar disso, principalmente no âmbito da Educação Física e lazer, há poucos profissionais, acadêmicos ou mesmos voluntários que se dedicam a trabalhar nessa área.

No entanto, nossos esforços aqui, foram por meio de revisão bibliográfica, que diz respeito ao conjunto de conhecimentos humanos reunidos nas obras e que tem por base fundamental a de conduzir o leitor a determinado assunto, tema, produção, coleção, armazenamento, reprodução, utilização e comunicação das informações coletadas para o desempenho da pesquisa (FACHIN, 2001), com o objetivo de, demonstrar algumas possibilidades de se desenvolver trabalhos lúdicos dentro do ambiente hospitalar, a fim de, contribuir com tais informações para futuros profissionais que desejam trabalhar com essa temática em ambientes hospitalares.

2. DESENVOLVIMENTO

Vejamos algumas atividades que podem ser desenvolvidas no ambiente hospitalar:

2.1 Biblioterapia

Segundo (SEITZ, 2005, p. 84) “Como atividade de lazer, a leitura proporciona tranquilidade, prazer, reduzindo a ansiedade, o medo, a monotonia, a angústia inerentes à hospitalização e ao processo de doença”. Ao utilizarmos leituras de contos, histórias infantis, relacionado a histórias com movimentação do contador, sons e interações com as crianças, poderemos transformar este momento de contação de história em um ambiente de leitura lúdica.

“A prática biblioterapêutica com pacientes internados em Clínicas Médicas demonstrou ser útil no processo de hospitalização, tornando a hospitalização menos agressiva e dolorosa. Quando o paciente lê, cria um universo independente, como se mergulhasse em um mundo novo de aventuras e fantasias. Essa viagem provoca um desligamento dos problemas, das angústias, do medo e das incertezas, proporcionando um alívio das tensões emocionais, contribuindo para o bem-estar mental do paciente” (SEITZ, 2005, p. 84).

Vasquez (1989, p. 123) estudou o uso da biblioterapia com 20 pacientes de uma Instituição de idosos, e afirmou que “a biblioterapia mostrou-se eficiente para o aumento do equilíbrio psicológico das pessoas idosas institucionalizadas”. Seria interessante ressaltar, que a atividade de lazer é algo que nos libera do estresse hospitalar, no sentido de que, apenas em lermos um belo livro, nos faz pensar e refletir sobre o assunto, tirando de nossos pensamentos o anseio, a dor, e de não saber o que virá no dia seguinte, pois, quando estarmos em período de convalescença no hospital, podemos nos sentir desanimados, desmotivados.

2.2 Brinquedoteca

As brinquedotecas nos hospitais do Brasil atualmente estão se tornando uma realidade. A lei nº 11.104 (SANTIAGO, 2007) tornou obrigatória a instalação de brinquedotecas nos hospitais brasileiros. Esta lei surgiu a partir dos movimentos de humanização nos hospitais e simboliza que a inclusão do brinquedo neste ambiente, tem sido concebida como parte da assistência e da terapêutica às crianças e aos adolescentes hospitalizados.

A brinquedoteca instiga o brincar, o imaginar, o criar e o mudar, mudar a situação, o estado que estamos passando, vivendo e vivenciando no momento em questão. A dor, a solidão, a tristeza? Esses e outros sintomas de doenças que estão ao redor, mas com as atividades da brinquedoteca, saímos do real e vamos para o brincar.

Brincar esse, que para Bruner (1986), citado por, Vectore (2003), acredita que o ato de brincar permite ao ser humano condições ótimas para explorar e desenvolver habilidades mais complexas e aponta cinco funções fundamentais da brincadeira, que são: 1) redução das consequências relativas aos erros e fracassos, sendo uma atividade que se justifica por si mesma; 2) permissão da exploração, da intervenção e da fantasia; 3) imitação idealizada da vida; 4) transformação do mundo, segundo os nossos desejos; 5) diversão.

As atividades lúdicas por meio do brincar em uma brinquedoteca, pode ser um momento mágico para as crianças, local em que elas, brincam, imaginam, fantasiam e viajam em seus interesses brincantes.

“Com o transcorrer das ações lúdicas cotidianas, os pacientes já começaram a reconhecer os benefícios e modificaram seus padrões comportamentais, principalmente na questão do movimento e da afetividade” (DE PAULA; FOLTRAN, 2007, p. 03). Ainda conforme o autor supracitado, a brinquedoteca representa um espaço pequeno no ambiente hospitalar, contudo, apesar das dificuldades referente a esse processo, as questões de atitudes do brincar têm demonstrado o papel e a relevância da brinquedoteca como recurso que otimiza a recuperação das crianças internadas.

“A brinquedoteca é um espaço onde os pacientes aprendem a compartilhar brinquedos, histórias, emoções, alegrias e tristezas sob a condição de hospitalização. Ela também permitiu uma aproximação entre pais e filhos, e possui várias representações: é um espaço lúdico, terapêutico e político, pois além de garantir o direito da criança poder brincar, divertir-se, também é um espaço de formação de cidadania” (DE PAULA; FOLTRAN, 2007, p. 02).

A importância que as atividades lúdicas têm no ambiente hospitalar, no sentido da convivência com a descontração e a felicidade que as ações proporcionam, é uma maneira de manter a mente mais saudável. Em ambientes hospitalares, a utilização de brinquedos e brincadeiras nas atividades lúdicas, busca oportunizar momentos descontraídos, prazerosos e agradáveis que visam a proporcionar a aproximação das crianças com a realidade em que vivem fora de seu contexto habitual.

2.3 Atividades de Lazer e Recreação

O método de trabalho do clown (palhaço) interfere positivamente na realidade hospitalar. Não vê importância alguma no diagnóstico, pois, o diagnóstico não reflete certamente o estado real do indivíduo. Por mais doente que uma criança esteja, existem ali uma essência que quer brincar (PIMENTEL, 2003).

O hospital por ser um ambiente silencioso e calmo onde visivelmente não acontecem atividades recreativas, entendemos que é possível realizar atividades, como se refere Aguirre et al., (2003, p. 47) “A recreação é independente da residência habitual, ou do tempo de permanência na mesma. Inclui tantos residentes como visitantes”.

Segundo Sikilero (1997), citado por, Carvalho et al. (2004), a recreação terapêutica constitui-se em um elemento facilitador para a elaboração de ansiedade por parte das crianças que se encontram internadas ou em tratamentos em instituições hospitalares, através do favorecimento de oportunidades, mediante utilização de exercícios físicos e mentais que possibilitam a promoção de aceitação por parte das crianças, da situação muitas vezes de desconforto e estranheza referente a esse ambiente.

“A recreação terapêutica vem proporcionar, desta forma, a estimulação de capacidades e funções da criança, amenizando momentos desagradáveis da hospitalização, tornando-os construtivos e potencializando o quanto possível a energia criativa presente na infância, preservando o princípio básico de saúde integral” (SIKILERO, 1997, citado por, CARVALHO et al., 2004, p. 09).

Entretanto, reforçando com Cavallari e Zacharias (2004, p. 15), “A recreação é o fato, ou o momento, ou a circunstância que o indivíduo escolhe espontânea e deliberadamente, através do qual ele satisfaz (sacia) seus anseios voltados ao seu lazer”. Os autores supracitados defendem que a prática da recreação busca leva o praticante a um estado psicológico positivo, através das atividades recreativas, que levam alegria aos pacientes. E Adams (1999) relata que a brincadeira e o riso que a acompanha são grandes remédios dentro de um hospital.

Neste sentido, citamos o estudo de Leão Junior, Almeida e Baez (2008), que teve como objetivo, utilizar atividades recreativas como forma de contribuir para a melhora na recuperação dos pacientes internados, em uma Ala Pediátrica de um Hospital no Estado do Rio Grande do Sul. Umas das questões realizadas com 30 crianças, era a seguinte: A recreação ajuda você a se sentir melhor? Observamos que em 57% dos pacientes pesquisados responderam que ficam felizes, pois são motivados a participar das atividades.

Para Samulski (1995), a motivação é caracterizada como um processo ativo, intencional e dirigido a uma meta, o qual depende de fatores pessoais (intrínsecos) e ambientais (extrínsecos). Assim, a motivação possui uma determinante energética (nível de ativação) e uma de direção de comportamento (intenções, interesses, motivos e metas).

Segundo o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado, Resolução n° 41 de Outubro de 1995: “Art. 7 - Direito de não sentir dor, quando existam meios para evitá-la”. Sendo assim, Cavallari e Zacharias (2004) defendem a prática da recreação que busca levar o praticante a estados psicológicos positivos, através das atividades recreativas pois eles trazem alegria aos pacientes. Adams (1999) destaca que a brincadeira e o riso que a acompanham são grandes remédios dentro de um hospital.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atividades lúdicas possuem vários objetivos, além de estimular e favorecer as ações psicomotoras e sendo fonte de prazer, motivando, criando, proporcionando estímulos e sensações de bem estar tanto físico quanto mental, deve ser realizada pelo ato de proporcionar uma ação embasada em um ou mais objetivos pré-determinado.

Devem-se buscar estímulos para o desenvolvimento da sensibilidade para com a criança enquanto sujeito atuante, podendo proporcionar uma vivência mais agradável neste ambiente diferenciado, prevenindo e/ou reduzindo a possibilidade de traumas devido o próprio tratamento que é realizado decorrente a sua patologia.

Concluímos assim, que por meio dessas atividades, mas também, outras que aqui não foram citadas, poderemos sim, melhorar e alegrar a vida de pessoas em ambientes hospitalares por meio de atividades lúdicas.

 

REFERÊNCIAS

ADAMS, Patch. O amor é contagioso. 11ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 1999.

AGUIRRE, Rafael Sanjuanbenito; SIMON, Maria Fernanda Gómez; DI SANTO, Silvia; PÂNTANO, Liliana; GRUNEWALD, Luis. Recreação e turismo para todos. Caxias do Sul: Educs, 2003.

CAVALLARI, Vinícius Ricardo; ZACHARIAS, Vany. Trabalhando com recreação. 7ª ed. São Paulo: Ícone, 2004.

DE PAULA, Ercília Maria Angeli Teixeira; FOLTRAN, Elenice Parise. Brinquedoteca hospitalar: direito das crianças e adolescentes hospitalizados. Revista Conexão UEPG, Vol. 3, No 1, 2007.

DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE HOSPITALIZADOS. Brasil Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Resolução n° 41 de Outubro de 1995 (DOU 17/19/95), 1995.

VASQUEZ, Maria do Socorro Azevedo Felix Fernandez. Biblioterapia para idosos: um estudo de caso no lar da Providência “Carneiro da Cunha”, 1989. Dissertação (Mestrado em Biblioteconomia) - Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal da Paraíba. 1989.

FACHIN, Odilia. Fundamentos de metodologia. 3ª ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

GUERRA, Marlene. Recreação e lazer. 5ª ed. Porto Alegre: Sagra: DC Luzzatto, 1996.

ORTIZ, Leodi Conceição Meireles; FREITAS, Soraia Napoleão. Classe hospitalar: caminhos pedagógicos entre saúde e educação. Santa Maria: Editora UFSM, 2005.

PIMENTEL, Juliano Gomes de Assis. Lazer: fundamentos, estratégias e atuação profissional. Jundiaí: Fontoura, 2003.

PIMENTEL, Rafaela Garcia. Universo lúdico no hospital: perspectivas da recreação dentro do ambiente hospitalar infantil com base no processo sócio-histórico-cultural. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Anais... Caderno 2. v. 21, n. 1, p. 761-767, set, 1999.

SAMULSKI, D. Psicologia do esporte: teoria e aplicação prática. Belo Horizonte. Imprensa Universitária UFMG, 1995.

SANTIAGO, Renato. Termina prazo para construção de brinquedotecas em hospitais. 2007. Folha de São Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u113304.shtml>. Acesso em: 17 jun. 2014.

SEITZ, Eva Maria. Biblioterapia: uma experiência com pacientes internados em clinica médica. 2005. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.11, n.1, p. 155-170, jan./jul., 2006.

CARVALHO Carine; VIEIRA Juliana; RIBAS Kátia e PIMENTEL Mariana. A importância do brincar: uma perspectiva em torno de pacientes infantis com câncer. CienteFico, Salvador, ano IV, v. I, jan/jun. 2004.

VECTORE, Celia. O brincar e a intervenção mediacional na formação continuada de professores de educação infantil. Revista de Psicologia da USP. São Paulo, v. 14, n. 3, 2003.

WOU, Ana Elvira. O clown visitador de crianças hospitalizadas: medicamento lúdico. Licere, Belo Horizonte, v. 3, n. 1, p. 35-45, 2000.

WOU, Ana Elvira. Atividades recreativas em hospital: humanizando relações no tratamento infantil. In: SCHWARTZ, Gisele Maria. Educação Física no ensino superior: atividades recreativas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A., 2004.

LEÃO JUNIOR, Cleber Mena; ALMEIDA, Cássia Arias; BAEZ, Marcio Alessandro Cossio. Experiências lúdicas no hospital: atividades físicas e recreativas na ala padiátrica da santa casa de caridade da cidade de Uruguaiana-RS. Revista Científica JOPEF, Editora Korppus, Curitiba. Volume 1 | Número 3 | Ano 03, 2008.

 

Autores

Cleber Mena Leão Junior. Mestre em Ensino (UNESPAR). Especialista em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino (UTFPR). Especialista em Educação Física Escolar (PUCPR). Graduado em Educação Física (PUCRS). Maringá, Paraná, Brasil. www.cleberjunior.com.br

Tatyanne Roiek Lazier-Leão. Mestre em Educação Física (UEM). Especialista em Educação: Métodos e Técnicas de Ensino (UTFPR). Graduada em Educação Física (UNIGUAÇU). Maringá, Paraná, Brasil. www.clubedosrecreadores.com