Psychopedagogy practice possibilities at home: experience reports
Investigar e compreender as várias possibilidades de atuação do psicopedagogo na sociedade atual, permite novos formatos de intervenção com caráter preventivo e/ou remediativo.

Resumo

Investigar e compreender as várias possibilidades de atuação do psicopedagogo na sociedade atual, permite novos formatos de intervenção com caráter preventivo e/ou remediativo. Novas demandas têm levado à prática do atendimento psicopedagógico em domicílio. Nesse contexto o presente artigo relata estudos de caso, contemplando três acompanhamentos de intervenção psicopedagógica em domicílio. O primeiro caso, uma pré-adolescente de 12 anos de idade, estudante do 7º ano, diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade; o segundo caso, uma criança de 10 anos de idade, do sexo feminino, estudante do 4º ano, diagnosticada com Transtorno de Aprendizagem de Leitura e Expressão Escrita – Dislexia; e o terceiro caso, uma criança de 5 anos de idade, do sexo masculino, estudante do último ano da Educação Infantil, sem diagnóstico conclusivo. A análise dos casos permitiu identificar as principais vantagens, como, maior diversidade de informações sobre o ambiente familiar do paciente e as desvantagens, entre elas, diferenças no comportamento do paciente por estar em sua residência. Foi possível concluir que as vantagens foram mais expressivas, em detrimento das desvantagens e destaca-se que este atendimento requer um manejo diferenciado em relação à atuação clínica. Novos estudos devem contribuir para a expansão da temática apresentada.

Atuação psicopedagógica em domicílio: relatos de experiência. 

Sumary

Investigating and understanding the many different possibilities of psychopedagogy practice in the present society allows new preventive and / or remedial intervention formats. New demands have taken the practice of psychopedagogy assistance at home. In this context, this article reports case studies, covering three psychopedagogy intervention assistance at home. The first report concerns a prepubescent 12-year-old student of 7th, diagnosed with Attention Deficit Disorder and Hyperactivity; the second case, a 10-year-old female student of the 4th year, diagnosed with Reading Learning Disorder and Written Expression - Dyslexia; and the third case, a child of five years old, male, final year student from kindergarten without definite diagnosis. The analysis of the cases identified both the main advantages, for, greater diversity of information on the family environment of the patient; as the disadvantages, among them, differences in patient behavior to be in their home environment. It was concluded that the benefits were even greater, to the detriment of the disadvantages, and requires a different management in relation to clinical performance. Further studies should contribute to the expansion of the theme presented.

Introdução

A psicopedagogia é a área que lida com os aspectos relacionados aos processos da aprendizagem e seus bloqueios, porém a identidade desta especialidade ainda não está totalmente definida (MASINI, 2006). Tem como foco atender a necessidade de sujeitos, entre eles, crianças, adolescentes ou adultos que, pelos mais diversos elementos e fatores, podem apresentar alterações em relação à aprendizagem, tendo como principal foco a reeducação ou remediação (RUBINSTEIN, 1992). 

Apesar de décadas de existência, permanecem discussões e embates com os próprios pares, em meio a mal-entendidos ao se referirem sobre fins, locais, modalidades e recursos de atuação. A psicopedagogia apresenta interface com a Psicologia Educacional, Didática e Ensino, Psicoterapia, Psicologia Institucional e Educação Especial, porém deve ser reconhecida com características próprias e relevantes (MASINI, 2006).

O conjunto de tarefas realizadas pelos psicopedagogos pode ser dividido em três eixos: o primeiro consiste na natureza dos objetivos, o qual pode oscilar entre o sujeito e o contexto; o segundo contempla as modalidades de intervenção, que podem ser corretivas ou preventivas e o último abarca o lugar preferencial de intervenção, que se estende da sala de aula até a família (BOSSA, 2007). Estes eixos podem direcionar as ações psicopedagógicas. O primeiro é relativo à natureza dos objetivos, centradas no sujeito quanto às tarefas propostas no decorrer da intervenção e contexto educacional visando os aspectos curriculares e organização. O segundo eixo trata das modalidades de intervenção, sendo corretivas quando se pretende reparar dificuldades apresentadas pelo paciente e preventivas quando o objetivo é prevenir o surgimento de dificuldades de aprendizagem. O último eixo trata do local em que ocorre a intervenção, incluindo a instituição escolar em subsistemas dentro da escola e sistema familiar (COLL, 1989).  Os principais locais de atuação – clínica e institucional – podem extrapolar os espaços convencionais de atendimento, ganhando espaços extraconsultório e extra-institucionais, como é o caso da psicopedagogia domiciliar.

A importância do olhar para o ambiente familiar torna-se ainda maior diante das evidências de pesquisas demonstrando que recursos do ambiente familiar são preditores do desempenho escolar dos filhos. Tais recursos podem incluir o envolvimento direto dos pais com a vida escolar dos filhos desde a infância até o final da adolescência, incluindo participação nas reuniões escolares e acompanhamento de notas; a participação em experiências estimuladoras do desenvolvimento, como passeios e viagens; oportunidades de interação com os pais; disponibilidade de brinquedos e materiais que apresentam desafio ao pensar; disponibilidade de livros, jornais e revistas; acesso a atividades programadas promotoras de aprendizagem; reuniões regulares da família e participação, por parte das crianças, em tarefas domésticas (MARTURANO, 2006).  Adicionalmente, o apoio e a sensibilidade dos pais no ambiente familiar são considerados estímulos importantes para o desempenho cognitivo e acadêmico de seus filhos, uma vez que as experiências que ocorrem durante os primeiros anos de vida entre pais e filhos são cruciais para o desenvolvimento cerebral (OXFORD; LEE, 2011; BERNIER; CARLSON; DESCHÊNES; MATTE-GAGNÉ, 2012).

Considerando a diversidade da atuação psicopedagógica e a escassez de estudos sobre algumas de suas formas, dentre elas o atendimento domiciliar, o objetivo desta pesquisa foi identificar algumas das vantagens e desvantagens desse recurso de atuação psicopedagógica. Acredita-se que essa forma de atuação possa permitir, de modo mais detalhado, a análise e a intervenção sobre os recursos do ambiente familiar. É importante esclarecer que, mesmo em outras formas de atuação psicopedagógica, tais recursos também são considerados e trabalhados, porém o presente estudo pretende refletir sobre as especificidades da observação e da atuação presencial.

Para tanto, foram analisados relatos de experiência de três casos atendidos nesse formato. Em todos os casos, ressaltou-se o ganho que um profissional, bem capacitado, pode obter ao realizar o seu trabalho no domicílio da criança e/ou adolescente com foco na organização pessoal e escolar do aluno. O enfoque mais apropriado para uma intervenção psicopedagógica em domicílio deve ser o modelo preventivo que possui, como objetivo central, fomentar o processo de aprendizagem, prevenir o fracasso escolar e os problemas de aprendizagem em geral (SOLÉ, 2001). O enfoque preventivo baseado em observação e análise de uma situação concreta com caráter clínico prevê adequação dos conteúdos e métodos para que se estabeleçam as melhores estratégias de intervenção e prevenção de outras dificuldades que possam surgir (BOSSA, 2007).

Por se tratar de uma modalidade de atendimento que acontece no ambiente real e familiar do paciente, podem ocorrer tentativas de imposição de suas regras, fato este que pode ser explicado pelo conforto de estar em seu espaço. O atendimento domiciliar deve diferir do atendimento clínico quanto ao manejo destes comportamentos, pois os mesmos podem interferir negativamente se não foram pré-estabelecidos com os familiares. O ideal é explicitar, para a família, todas as regras necessárias para a realização dos atendimentos, entre elas, a importância da delimitação do papel de cada um. Com o paciente devem ser combinados os comportamentos esperados ao longo dos atendimentos, como, por exemplo, local fixo (parte da residência) onde serão realizados os encontros e quais materiais devem estar separados. Vale lembrar que, no decorrer da intervenção, novos objetivos podem ser traçados.

Método

Foram elencados três casos fundamentados na experiência das profissionais, amparados em princípios da Psicologia Comportamental e da Psicopedagogia, que apresentaram diferentes diagnósticos e condutas.

Primeiro caso

 O primeiro caso apresenta refere-se ao atendimento de uma pré-adolescente de 12 anos de idade, do sexo feminino, estudante do 7º ano do Ensino Fundamental II de uma escola particular da cidade de São Paulo, diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. A estudante não possui histórico de repetência e o conteúdo escolar nunca havia sido adaptado para as suas necessidades educacionais. A aluna faz acompanhamento psicológico há um ano.

A progenitora da pré-adolescente pontuou as seguintes queixas: baixo rendimento escolar, desinteresse nos estudos, dispersão, imaturidade e avaliações com respostas incompletas. Conforme o relato da mãe, a pré-adolescente foi avaliada e diagnosticada, por uma psicóloga clínica, de acordo com o DSM-IV – Diagnostic and Statistical Manual of Disorders – IV (APA, 1994) como tendo Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. A partir deste quadro clínico e da própria avaliação psicopedagógica, o atendimento contemplou diferentes estratégias de intervenção, a saber: foco nos principais conteúdos a serem desenvolvidos e requeridos pelo ano escolar em questão, acompanhamento de lições de casa e exercícios extras elaborados pela profissional para fixação do conteúdo abordado nos encontros. Todos os atendimentos realizados foram baseados na estratégia sobre pontos e recompensas de Paulo Knapp (KNAPP; ROHDE; LYSZKOWSKI; JOHANNPETER, 2002).

Com os pais foram realizados atendimentos com o objetivo de orientação em relação à conduta com a filha. Foi sugerido que os mesmos organizassem a rotina da pré-adolescente com horários pré-determinados (alimentação, higiene pessoal, lazer, etc.) afixados em um local onde todos pudessem visualizar, o objetivo principal com tal conduta era amenizar a ansiedade apresentada pela mesma. Também foi sugerida uma revisão das atividades extracurriculares, afinal a pré-adolescente tem muitos afazeres seguidos, o que a deixa com um comportamento agitado e disperso.

Segundo caso

O segundo caso aborda características de uma criança de 10 anos de idade, do sexo feminino, estudante do 4º ano do Ensino Fundamental I de uma escola particular da cidade de São Paulo, diagnosticada com Transtorno de Aprendizagem de Leitura e Expressão Escrita – Dislexia. A estudante reprovou o 4º ano do Ensino Fundamental I em função de dificuldade em conteúdos de ciências humanas e o conteúdo escolar nunca havia sido adaptado para as suas necessidades educacionais. A aluna não frequenta nenhum outro tipo de acompanhamento.

A progenitora da criança pontuou as seguintes queixas: baixo rendimento escolar, imaturidade, avaliações com respostas incompletas e grafia comprometida. A garota foi avaliada e diagnosticada, por uma psicóloga clínica, de acordo com o DSM-IV – Diagnostic and Statistical Manual of Disorders – IV (APA, 1994) como tendo Transtorno de Aprendizagem de Leitura e Expressão Escrita – Dislexia. O atendimento abordou diferentes estratégias de intervenção, com foco no desenvolvimento de grafia, ortografia e no processamento fonológico, além de acompanhamento de lições de casa, quando necessário e/ou requerido pela própria paciente.

Com os pais foram realizados atendimentos com o objetivo de orientação em relação à conduta com a filha. Foi sugerido que os mesmos orientassem a pré-adolescente quando a mesma apresentasse dificuldade para verbalizar alguma palavra ou quando a pronunciasse de forma errada. Também foi ressaltada a importância do treino da leitura da mesma e o quanto seria importante se isso pudesse ser incentivado por parte dos pais na própria residência.

Terceiro caso

O terceiro caso retrata características de uma criança de 5 anos de idade, do sexo masculino, estudante do último ano da Educação Infantil de uma escola particular e bilíngue da cidade de São Paulo, sem diagnóstico concluído. O paciente passou por uma avaliação neuropsicológica, realizada por uma psicóloga, para investigar possíveis alterações em relação ao desenvolvimento cognitivo, pois apresentava, além de dificuldades na fala, queixas em relação à atenção, rendimento escolar e aprendizagem em geral. A avaliação do paciente englobou testes cognitivos e outras testagens com o objetivo de investigar o processo de aprendizagem do mesmo, afinal, vale considerar a não existência de testes pedagógicos normatizados para a idade. A criança também apresentava comportamentos de recusa à realização de atividades formais, o que não foi visível em momentos lúdicos. Em relação às habilidades cognitivas, apresentou boa percepção visual, coordenação motora, comunicação e linguagem, porém não reconhecia nenhuma letra ou número, assim como não conseguia quantificar os objetos. Duas questões chamaram a atenção durante a entrevista de anamnese, a primeira é que ele teve aproximadamente 20 casos de otites até os 3 anos de idade e apresentava 7 graus de hipermetropia no olho direito e 7,5 graus no olho esquerdo, sendo que, do período em que consultou o oftalmologista até o início do uso dos óculos, decorreu mais de um ano. De maneira geral, diversos fatores pareciam contribuir para a dificuldade que o paciente apresentava.

Foi considerada na avaliação neuropsicológica, realizada pela psicóloga, a possibilidade de um quadro de distúrbio de aprendizagem, porém em função da idade do paciente, esse diagnóstico não pôde ser concluído de acordo com os critérios diagnósticos para transtornos específicos de aprendizagem apresentados pelo DSM-IV – Diagnostic and Statistical Manual of Disorders – IV (APA, 1994). Em decorrência, o menino foi encaminhado para atendimento psicopedagógico a fim de minimizar as dificuldades acadêmicas que se apresentavam, além de auxiliar no desenvolvimento das mesmas. Os pais optaram por receber o atendimento em domicílio, pois diziam que a criança se sentiria mais confortável e menos cansada para realizar as atividades propostas. O atendimento teve como foco inicial o desenvolvimento das habilidades cognitivas relacionadas à quantificação, reconhecimento de números e de letras.

Com os pais os atendimentos foram realizados visando, principalmente, orientações e atualizações da intervenção. O contato sempre foi realizado com a mãe do paciente, pois o pai trabalhava no horário que os atendimentos ocorriam. A mãe se mostrou presente e participativa durante todos os atendimentos e solicitações. Foi sugerido que eles organizassem a rotina para que o menino pudesse desenvolver mais independência em suas tarefas, assim como, foram orientados a realizar atividades diversas no decorrer da semana para que colocassem em prática a habilidade trabalhada pela profissional em cada atendimento. Também foi sugerido que caso a dificuldade persistisse eles repensassem o aproveitamento da criança em relação à escola bilíngue, afinal a mesma exige mais dedicação em relação à uma escola monolíngue.

                A partir da vivência das profissionais nos três casos selecionados, foram elencados os pontos em comum entre os atendimentos, os quais foram classificados de forma qualitativa em vantagens e desvantagens desse recurso de atuação da área Psicopedagógica. Foram considerados como pontos em comum as características de atendimento domiciliar que se fizeram presentes nos três casos.

Resultados

Em todos os casos apresentados foi possível notar melhoras em relação à queixa inicial específica a cada um, além de ganhos na organização pessoal e escolar dos pacientes, dentro do que se espera pelo modelo preventivo de atuação psicopedagógica. De forma qualitativa observaram-se alterações positivas no ambiente familiar, como ambiente mais organizado e presença das figuras parentais conscientes das dificuldades enfrentadas pelos filhos em função de cada diagnóstico ou condição que se apresentava.

A partir da realização dos atendimentos em domicílio, retratados com o recorte de três casos psicopedagógicos, em parceria com demais profissionais da área da saúde, neste caso, com os psicólogos que realizaram o diagnóstico de cada caso, foi possível observar alguns pontos que se mostraram positivos (vantagens) e outros negativos (desvantagens) em relação à atuação psicopedagógica nesse ambiente em específico. A seguir apresentam-se esses pontos (Quadro 1) com a finalidade de auxiliar futuros profissionais que visem atuar nessa modalidade de atendimento psicopedagógico.

Quadro 1 – Vantagens e desvantagens do atendimento em domicílio

 

Vantagens do atendimento em domicílio

 

Desvantagens do atendimento em domicílio

1. O paciente está em um ambiente conhecido e adaptado por ele;

 

 1. Ambiente com muitos estímulos distratores;

2. O paciente apresenta rápida empatia com o profissional;

 

 2. Dificuldade de dissociação entre residência como ambiente de descanso e lazer e a nova percepção desse local como educativo e interventivo;

3. Por parte do profissional, brevemente é possível notar padrões de comportamento e de reações do paciente;

 

3. Interrupções que podem acontecer pelos diversos processos envolvidos na dinâmica do ambiente familiar, incluindo telefone, campainha, cachorro, visitas etc.

4. Possibilidade de observar a dinâmica da residência em diversos contextos e acontecimentos;

 

4. Dificuldade de concentração do paciente quando tem a seu alcance diversos objetos de lazer: televisão, videogames, jogos eletrônicos, brinquedos etc.

5. Possibilidade de observação do relacionamento dos responsáveis ou demais cuidadores com o paciente;

   

6. Possibilidade de observação de como o paciente interage com os objetos e pessoas do próprio ambiente familiar;

   

7. Possibilidade de observação de como se estrutura o ambiente familiar e o que ele pode oferecer de estímulo positivo e negativo;

   

8. Possibilidade de observação da rotina diária do paciente.

   

9. O atendimento é mais constante e frequente já que o profissional se dirige até a criança, e não fica na dependência dos responsáveis levarem ou não o paciente ao atendimento.

 

 

 

Discussão

O objetivo desta pesquisa foi identificar as vantagens e as desvantagens do atendimento domiciliar enquanto recurso de atuação da área psicopedagógica, tendo como base relatos de experiência de três casos atendidos nesse formato.

De forma geral, observou-se que o atendimento domiciliar possibilitou observação mais detalhada e, de certa forma, mais diversificada de alguns aspectos relacionados ao local de residência e aos familiares e frequentadores da mesma. Assim, foi possível observar a interação da criança, principalmente com os funcionários da casa e também com os familiares próximos (pais e irmãos); por exemplo, como a criança solicita algo que deseja ao se dirigir aos funcionários da residência; a forma de abordar determinados assuntos, como a necessidade de algum material para a escola ou as notas de avaliações; e mesmo quais são as reações diante do atendimento por parte da criança e dos seus familiares. Possivelmente tais comportamentos não seriam tão facilmente identificados se o atendimento estivesse ocorrendo em situação clínica tradicional.

Observar tais características possibilitou intervenção e orientação mais imediata e específica. Por exemplo, uma pré-adolescente com grande dificuldade de concentração relatou aos seus pais que havia tirado uma nota alta em uma redação (uma crônica), atividade que exige muita dedicação por parte da aluna em função do seu Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Neste momento seu pai comentou que ela poderia ter a mesma nota nas outras atividades, sem reforçar o mérito da referida redação. Diante de tal situação, a profissional pôde destacar a importância do feito para a garota, acrescentando que o esforço por redigir a redação havia proporcionado diversos ganhos além da nota, como, por exemplo, a compreensão de novas ideias e o respeito às normas textuais de uma crônica, afinal tais itens contemplam aspectos de difícil abstração para ela.

Da mesma maneira, o atendimento domiciliar permitiu que os profissionais observassem a forma com que os pacientes lidavam com seu espaço e os objetos nele contidos, por exemplo, em relação à organização do material escolar e não-escolar, à presença de distratores, interrupções, dentre outros aspectos. Um exemplo que pode ilustrar tal fato é uma espécie de “quadro de combinados” que muitas vezes é estabelecido, pela psicopedagoga, no início dos atendimentos, nele constam atitudes que podem ser aceitas ou não no decorrer dos mesmos. Um dos itens se refere à organização do espaço para o atendimento, onde é solicitado, por parte da profissional, que o aluno deixe o material que será utilizado no dia separado e, quando o atendimento ocorre no quarto do mesmo, que os brinquedos estejam guardados. É muito interessante observar o recurso do próprio paciente para se desculpar e/ou se justificar quando algo que foi, previamente, combinado por ele mesmo está fora do devido local. Tal atitude faz com que eles visualizem na prática que os combinados devem ser cumpridos e que a organização é necessária, pois muitas vezes eles notam que misturar brinquedos com objetos de estudo não trazem bons frutos.

Destaca-se, ainda, a possibilidade de trabalhar mais diretamente com os responsáveis pela criança/adolescente. Segundo Marturano (2006), Oxford e Lee (2011) e Bernier, Carlson, Deschênes e Matte-Gagné (2012) as relações familiares influenciam diretamente no desempenho cognitivo e acadêmico dos filhos e a atuação psicopedagógica domiciliar mostrou vantagens quanto à observação da estruturação, dinâmica e relacionamento familiar, possibilitando intervenções mais eficazes neste aspecto. Um exemplo disso foi a orientação realizada a um pai de que não seria benéfico brigar com o próprio filho para que o mesmo fizesse a lição no formato que ele desejava, e que tal situação causava um bloqueio no garoto, pois, ao ver a reação do próprio pai, ele se sentia desvalorizado e não queria executar mais tarefas de casa. O pai foi orientado a ajudar o filho de outra forma, sem apontar os erros de forma pejorativa; assim, aos poucos, o garoto sentiu confiança em prosseguir as tarefas com o auxílio e conselhos da figura paterna.

Por outro lado, algumas desvantagens também foram observadas. Um aspecto importante foi a dificuldade dos sujeitos em diferenciar o uso da residência como lugar de descanso e seu uso como ambiente educativo. Além disso, houve dificuldades decorrentes das interrupções ocorridas (por exemplo, frequentemente havia interrupção por funcionários da casa em função de diversos motivos, entre eles, entregas de mercadorias, aviso da chegada do motorista para levar o paciente para outro local, telefonemas diversos etc.) e da vontade dos próprios sujeitos de interromper o momento psicopedagógico para desenvolver atividades lúdicas não-estruturadas, que incluíam seus próprios recursos de lazer. Porém, entende-se que o próprio momento de intervenção e a necessidade de manter-se focado em determinadas atividades, postergando as atividades de descanso e lazer, também são em si mesmos formativos, pois o psicopedagogo, indiretamente, está acompanhando a criança ou adolescente ao longo da aprendizagem de priorização de atividades e organização do tempo e do espaço.

Assim, essa pesquisa pretende ter contribuído à literatura da área do atendimento psicopedagógico domiciliar, que, por se tratar de uma modalidade de atendimento recente, ainda tem sido pouco explorada. Apesar das limitações do presente estudo, tais como o número restrito de participantes, de acordo com os casos aqui relatados os resultados apontam que as vantagens do atendimento psicopedagógico domiciliar são mais expressivas em relação às desvantagens. Conforme Masini (2006), mesmo com décadas de existência a psicopedagogia ainda não definiu completamente uma identidade para a sua atuação; assim sendo, podemos aferir que o atendimento em domicílio pode fazer parte da atuação psicopedagógica, pois permite um trabalho eficaz, sério e ético, e, mesmo as desvantagens apresentadas podem ser trabalhadas em prol do desenvolvimento das crianças/adolescentes.

Conclusão

Atualmente, lidar com as constantes transformações da educação e da postura dos alunos tem sido um desafio para todos os inseridos no processo de ensino e aprendizagem, além da falta de tempo que alguns familiares relatam para se reunirem com o profissional em consultórios que são, muitas vezes, distantes de suas residências. Um trabalho que possibilita alcançar informações do ambiente familiar do indivíduo e identificar como ele está inserido no mesmo contribui para que o atendimento seja singular e efetivo. Vale ressaltar que novos estudos sobre este recurso de atuação deverão ser desenvolvidos com o objetivo de expandir essa modalidade de atendimento e avaliar, de outras maneiras e com estudos mais bem controlados, a eficácia que tal atuação apresenta.

 

Referências

American Psychiatric Association (APA). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. 4th ed. Washington DC; 1994.

BERNIER, A.; CARLSON, S. M.; DESCHÊNES, M.; MATTE-GAGNÉ, C. Social factors in the development of early executive functioning: a closer look at the caregiving environment. Dev Sci, 2012; 15 (1): 12-24.

BOSSA, N. A. psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas; 2007.

COLL, C. Conocimiento psicológico y práctica educativa. Barcanova: Barcelona; 1989.

KNAPP, P.; ROHDE, L. A.; LYSZKOWSKI, L.; JOHANNPETER, J. Terapia cognitivo-comportamental no transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: manual do terapeuta. Porto Alegre: Artes Médicas; 2002.

MARTURANO, E. M. O inventário de recursos do ambiente familiar. Psicol Reflex Crit 2006; 19(3): 498-506.

MASINI, E. F. S. Formação profissional em Psicopedagogia: embates e desafios. Rev. Psicopedag São Paulo 2006; 23(72): 248-259.

OXFORD, M. L.; LEE, J. O. The effect of family processes on school achievement as moderated by socioeconomic context. J Sch Psychol 2011; 49(5): 597-612.

RUBINSTEIN, E. A. intervenção psicopedagógica clínica. In: SCOZ, B. J. L.; BARONE, L. M. C.; CAMPOS, M. C. M.; MENDES, M. H. Psicopedagogia: contextualização, formação e atuação profissional. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992.

SOLÉ, I. Orientação educacional e intervenção psicopedagógica. Porto Alegre: Artes Médicas; 2001.

 

Autores 

Gabriela Lamarca Luxo Martins

Psicóloga, Especialista em Psicopedagogia, Mestre e Doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - São Paulo, bolsista CAPES-PROSUP. Pesquisadora e integrante do grupo de pesquisa em Neuropsicologia Infantil da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com atuação nos seguintes temas: avaliação e intervenção neuropsicológica cognitiva, ambiente familiar, práticas educativas e funções executivas. Pesquisadora e integrante da equipe Neuropsicologia Infantil da UPM e Psicopedagoga do Instituto de Desenvolvimento Humano (INDH) email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Talita de Cassia Batista Pazeto

Pedagoga pela Universidade Bandeirante de São Paulo (2009), pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011), Mestrado (2012) e Doutorado (2016) em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2012). Possui experiência e realiza atendimento psicopedagógico na área de avaliação e intervenção em dificuldades e distúrbios de Aprendizagem a domicilio. Experiência como professora convidada no curso de pós graduação em Psicopedagogia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Professora no curso de Pedagogia e História da Universidade Anhanguera. Pesquisadora e integrante da equipe Neuropsicologia Infantil da UPM e Psicopedagoga do Instituto de Desenvolvimento Humano (INDH) email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

Camila Barbosa Riccardi León

Graduada em Letras com habilitação em Língua Portuguesa pela UNIVAP, pós-graduada em Ensino e Aprendizagem de Língua Inglesa pela UNITAU, pós-graduada em Psicopedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento pela UPM. Bolsista CAPES-PROSUP. Membro do grupo de pesquisa em Neuropsicologia Infantil da UPM. Dirige seus estudos à área de Psicopedagogia, com ênfase em Psicologia Cognitiva, Neuropsicologia e Neurociência aplicada à Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: avaliação e intervenção neuropsicológica cognitiva, linguagem, transtornos de aprendizagem e funções executivas (autorregulação) email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Karen Ricci 

Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (2010); Graduada em Educação Física pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (2011); Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2014) e Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2016). Tem experiência na área clínica de avaliação e intervenção nos transtornos do neurodesenvolvimento. Parceira da Associação Brasileira de Dislexia. Pesquisadora e integrante da  equipe Neuropsicologia Infantil da UPM. Tem experiência na área clínica de avaliação e intervenção psicopedagógica nos transtornos do neurodesenvolvimento. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Alessandra Gotuzo Seabra

Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1995), mestrado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1997), doutorado (2000) e pós-doutorado (2001) em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é professora do Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É membro da diretoria da ABECiPsi (como presidente), da diretoria do IBNeC-Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento (como vice-presidente) e da diretoria do IBAP-Instituto Brasileiro da Avaliação Psicológica (como presidente passado). É editora do periódico Psicologia: Teoria e Prática e Editorial Area Supervisor do periódico Arquivos de Neuro-Psiquiatria. Vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Distúrbios do Desenvolvimento. Coordena o Grupo de Neuropsicologia Infantil. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Fundamentos e Medidas da Psicologia e Neuropsicologia Cognitiva, atuando principalmente nos seguintes temas: leitura, escrita, funções executivas, consciência fonológica, alfabetização, instrumentos de avaliação e intervenção precoce.