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Desafio à
Modernidade
Concretamente, a
Semana de Arte Moderna consistiu na realização, durante três dias do mês de fevereiro
de 1922, de uma série de manifestações culturais, em que se alternaram conferências,
concertos, recitativos, bailados e uma exposição de artes plásticas. Uma intenção,
porém, um pensamento comum presidia tais manifestações e nelas se revelava, não apenas
pelo conteúdo substancial, mas ainda em assomos de irreverência e mesmo de público
escândalo. Elas consistiam, ostensivamente, num protesto. Pela veemência do tom, num
desafio.
E alicerçava-o um
ideário que, embora um tanto vago, fluido, disperso e jungido a retumbantes
exterioridades, e que nem mesmo teria, por si, a virtude de uma concordância unânime no
seio dos manifestantes - a certos aspectos efetivamente vigorava e dava ao pequeno grupo
de insurrectos a necessária homogeneidade.
Existia, sem
dúvida, um denominador comum. Em linhas gerais, o que se propugnava era a
"reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional".
Era, pelo menos,
isso o que, anos mais tarde, viria dizer Mário de Andrade, um dos prógonos principais do
movimento:
'A transformação
do mundo com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática européia
de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas
internacionais, bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os
progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de um
espírito novo
e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. lsto foi o
movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo
principal.'
"A Semana
marca uma data, isso é inegável", afirma o mesmo escritor. Essa data é,
certamente, a do inicio do movimento modernista, como fato coletivo; numa palavra, como
"movimento" - pois que "a pré-consciência primeiro, e em seguida a
convicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se
definindo no sentimento de um grupinho de intelectuais paulistas". Esse grupinho era
o daqueles "primeiros modernistas... das cavernas, que nos reunimos (é sempre Mário
de Andrade quem fala) em torno da pintora Anita Malfatti e do escultor Vitor
Brecheret...". E, realmente, foi a exposição insurrecional de Anita Malfatti, em
1917 - a primeira a deflagrar a polêmica entre arte moderna e arte acadêmica ou
passadista que teve o condão de congregar o diminuto número de vozes até então
dispersas. Mário da Silva Brito disse a palavra exata e feliz: Anita Malfatti for o
estopim do modernismo. Daí por diante, aos poucos, extravasando dos limites da cidade e
se comunicando a outras áreas do País, notadamente a Capital (que era o Rio de Janeiro),
o diminuto grupo se ampliou a ponto de tornar-se um... pequeno grupo. Esse pequeno grupo
realizou, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna de 1922.
Fundamentalmente, o
que desejavam os rebeldes era "passar a limpo" o País, acertar-lhe o passo, num
esforço para inseri-lo na contemporaneidade universal vigente, sem o sacrifício das
peculiaridades características, de seus legítimos valores, através de uma tomada de
consciência, em profundidade, da realidade nacional e sua possível projeção no campo
artístico, cultural e até mesmo político, como seria inevitável.
No setor especifico
das artes plásticas, que é o que mais de perto nos interessa, "o Brasil
emperrara", na acertada expressão de Lourival Gomes Machado:
'Os adeptos dum
critério histórico duro e esquemático ficariam desapontados com a descrição do
período que cobre os trinta anos finais do século dezenove e os dois primeiros decênios
do século vinte. As mudanças não são poucas nem (leves na estrutura econômica: elas
deram assunto a todo um ciclo de estudos contemporâneos. A história política registra a
correspondente acomodação da organização do poder. Mas as produtos culturais
estagnam-se irremediavelmente.
A história de cada
artista pode reduzir-se a idêntico gráfico fundamental: há sempre de início um ímpeto
moço, cheio de promessas, que sempre acaba levando à substituição dos temas
supostamente alegóricos ou mitológicos pelo assunto nacional e sempre dando ao aprendiz
a ânsia de ir à Europa para de lá trazer algo novo. Mas, e sempre também, o preço
dessas duas liberdades, alforria mínima e
de pequena significação, é a submissão da expressão à dura disciplina formal que
leva todos a pintarem igual, dentro dos mesmos limites e tendendo às mesmas aparências.
A liberdade criadora só encontra passagem na tíbia sublimação da boêmia, também
convencional e um pouco acadêmica.'
Em sucintas linhas,
Carlos Cavalcanti assinala que "os pintores brasileiros, na sua maioria e por todo um
século, tornaram-se herdeiros da missão (francesa) de 1816. São todos neoclássicos ou
acadêmicos, com maiores ou menores acentos de personalidade...".
Realmente, não
tivemos sequer, como prática generalizada, o lmpressionismo, o qual, provocando a
reação corretora de Cézanne, iria constituir o binômio do qual deriva toda a série de
formulações da arte moderna, a começar pelo Cubismo.
O fato, mais
estranho se nos afigura quando pensamos que o movimento inaugurado nos salões do
fotógrafo Nadar, no Boulevard des Capucines, datava de 1874... É bem verdade que tivemos
algumas incursões a esse campo, embora tímidas e experimentais, como as do grande Elyseu
Visconti, e as de um ou outro artista menor. lsso, porém, não invalida a afirmativa de
que no Brasil não se cumprira a etapa essencial do lmpressionismo, como vestibular de
admissão a todas as tendências da arte contemporânea, pelo menos como premissa aos
ensinamentos de Cézanne. Tivemos, isso sim, alguns artistas que fizeram algumas telas
impressionistas, mas não tivemos, como fato aceito e generalizado, o lmpressionismo. Ora,
se ele datava de 1874, se depois dele, e em conseqüência dele, tantas concepções de
arte se sucederam, pode-se por aí avaliar quão longo havia de ser aquele acertar do
passo a que se propunham os rebelados de 1922.
A presente
exposição comemorativa da Semana de Arte Moderna de 1922 em três partes se distribui:
as antecedentes, a Semana, e as conseqüências. Na primeira, procurou-se realçar a
personalidade de alguns artistas que, como o já mencionado Elyseu Visconti, podem ser
considerados verdadeiros precursores do movimento a ser comemorado. No mesmo caso, como
informação, estaria Lasar Segall com a sua exposição de 1913. A segunda parte se
restringe àqueles artistas que participaram efetivamente das manifestações de 1922. E a
terceira inclui algumas das personalidades exponenciais, que se projetaram no cenário
artístico do País, revelando uma filiação, ainda que mais remota em certos casos, ao
movimento modernista. A par dessas personalidades, as manifestações de caráter coletivo,
que se revezaram em sucessão, como o Clube dos Artistas Modernos (CAM); a Sociedade
Pró-Arte Moderna (SPAM); o Salão de Maio e a Família Artística Paulista. No bojo de
tais movimentos surgiram expressões individuais de grande ressonância posterior, na
crônica das artes visuais que se praticam no Brasil. Como que um facho de entusiasmo e de
fé foi passado de mão a mão, nessas manifestações em grupo, todas contribuindo para
que, em São Paulo, se criasse o ambiente receptivo ao advento de dois museus, de grande
significado e atuação: o Museu de Arte, criado por Assis Chateaubriand em 1947, sem
dúvida o mais importante museu da América do Sul; e o Museu de Arte Moderna, cujo
animador principal foi Francisco Matarazzo Sobrinho, e que tem a seu crédito o
lançamento, em 1951, da 1ª Bienal de Arte Moderna, em chão americano.
No escopo de
permitir uma reconstituição aproximada dos fatos e do ambiente social, ecológico,
cultural, político, e até mesmo mundano, na superficialidade de certos costumes
vigentes, procurou-se introduzir vários elementos, alguns de caráter utilitário ou
meramente iconográficos, em busca da sincronia dentro de um contexto histórico geral.
lsto facilitará, sobretudo às novas gerações, o "sentir" os fatos, antes
mesmo de compreendê-los e a maneira mais eficiente de os assimilar.
Talvez, não se
chegue nunca a um consenso unânime na conceituação da Semana de Arte Moderna de 1922 e
sua validade na evolução do pensamento e das artes no Brasil. Em sã consciência,
porém, de nossa parte, não poderíamos negar a procedência das afirmativas de Ruben
Navarra, quando vê nela, no movimento que ela oficialmente inaugurou, a "lição de
liberdade no espírito e na pesquisa plástica, convertendo essa lição em ponto de
partida para uma realização contra o convencionalismo da visão pictórica, indo ao
encontro de uma imagem mais sincera da realidade nativa". E o que, em outras
palavras, em seu campo de especialização, sentencia Wilson Martins:
'A atmosfera que (o
modernismo) criou foi a contribuição característica, mais relevante do que as suas
obras: a prova está na sensação de liberdade criadora que instaurou definitivamente na
literatura brasileira.'
No terreno das
artes plásticas, violar os cânones de um academismo, acomodatício e estiolante, e
quaisquer outras imposições de escola, deixou de constituir um sacrilégio, para
tornar-se um vezo comum. Inspira-o, no fundo, um sentimento: o da liberdade, que só ela
é fecunda. A liberdade como regra e não como exceção.
A Semana logrou
atingir os seus objetivos primordiais: "o direito permanente à pesquisa estética; a
atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma
consciência criadora nacional."
Na formulação de
Mário de Andrade, de quem transcrevemos o texto retro, é a fusão desses três
princípios fundamentais que caracteriza a realidade que o movimento modernista impôs.
Paulo Mendes de Almeida
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