Capa do livro
de Sérgio Milliet,
Poemas Análogos,
1927.


Bruno Giorgi,
Retrato de
Sérgio Milliet, 1943.
Col. D. Lourdes
Milliet,
São Paulo.

OH VALSA LATEJANTE…

Oh valsa latejante…

O poema que eu hei de escrever
será nu e simplesmente rude
O poema que eu hei de escrever será um palavrão

Dor recalcada
inveja mesquinha
perversidades impotentes
todo o fracasso e a sub-angústia

O espezinhamento usa batom

Mas tudo ha de jorrar com ele
apertado entre as palmas da mão
é menos doloroso

Oh valsa latejante…

Sérgio Millet  

PARIS

Crepúsculos longos
impressionistas

A luz não cai
escorrega
sobre os patins das nuvens

O Sena foge
levando o gosto da posse.

 

AUTOBIOGRAFIA INACABADA

Vícios de estufa
revanches de sonho
e um dia o milagre do mar.

 

FOTOGRAFIA

Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse…
Assim os negros quando nascem.

Sérgio Millet,
1946