Lasar Segall, Retrato de Mário de Andrade, 1927.

O MOVIMENTO MODERNISTA - Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espirito nacional. A transformação do mundo com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática européia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais, bem coma o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os progressos internas da técnica e da educação, impunham a criação de um espirito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. lsto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal. Há um mérito inegável nisto, embora aqueles primeiros modernistas... das cavernas, que nos reunimos em torno da pintora Anita Malfatti e do escultor Vitor Brecheret, tenhamos como que apenas servido de altifalantes de uma força universal e nacional muita mais complexa que nos. Força fatal, que viria mesmo. Já um critico de senso-comum afirmou que tudo quanto fez o movimento modernista, far-se-ia da mesma forma sem o movimento. Não conheço lapalissada mais graciosa. Parque tudo isso que se faria, mesmo sem o movimento modernista, seria pura e simplesmente... o movimento modernista.

Mário de Andrade



ODE AO BURGUÊS

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam o "Printemps" com as unhas!

Mário de Andrade.




Mário de Andrade com os professores do Conservatório Musical de São Paulo.

... Sua ação no campo da música não é uma ação a mais, encidopedicamente juntada às outras; é, antes, uma visão específica, par isso profundamente una, daquele poderoso espirito. É o que se comprova na notável "Oração de Paraninfo", em que ele coloca a problemática da formação escolarizada do músico no contexto sócio-cultural em que se realiza; na "Pequena História da Música", em que os parágrafos finais, eminentemente críticos, de diversos capítulos, dão ao estudo de certos momentos históricos insuspeitada dimensão estética e filosófica; na "Música de Feitiçaria no Brasil" em que, indo muito além do exame dos fatos e documentos musicais, entra profundamente na psicologia e na mentalidade mágica do primitivo; em "Música, doce Música", reafirmação do seu alto sentido de solidariedade humana; em "O Baile das Quatro Artes", coletânea de artigos e conferências, numa das quais, "Atualidade de Chopin" (aula inaugural), estuda profundamente, em plano filosófico, o artista criador e a obra de arte; em "Evolução Social da Música Brasileira" (temos em vista a edição de 1939), em que traça um esquema claríssimo do processo estudado, determinando com segurança os passos iniciais e as etapas finais a que eles hão de conduzir.

Caldeira Filho.
‘O Estado de S. Paulo’, 25,2,65