Di Cavalcanti, Retrato de Dona Pina Ferrignac, 1917. Col. Renato Magalhães Gouveia, SP.

Era um porão alto na praça da República. Alguns quadros de Di Cavalcanti, um busto de Brecheret e o gordo anfitrião Oswald de Andrade a descobrir gênios nos amigos. Di ainda era magro, mais caricaturista do que pintor e em busca de um tipo que, mais tarde, levaria ao de suas mulatas com tanta sensualidade pintadas. Quando ocasionalmente se lançava à pintura, empregava uma técnica impressionista a serviço de seu expressionismo natural. Davam-se bem os dois inquietos de 22, piadistas ambos e mordazes. E generosos também, e atentos a todas as novidades artísticas e políticas. Os freqüentadores do porão eram tão diferentes de gestos e temperamentos que só mesmo a personalidade mais do que complexa, surrealista, de Oswald os podia reunir num mesmo local. Di comparecia às vezes, porém vivia mais no Rio do que em São Paulo. Encontrava-o também no apartamento de Guilherme de Almeida onde o grupo era mais homogêneo. Depois perdi-a de vista e só o fui rever em Paris, na Rotonde, ou nos cafés de Barbés-Rochechouart, bairro em que eu residia. E ocorria irmos parar na pensão de Brecheret, Avenida du Maine, ao lado do atelier de Brancusi.

Sérgio Milliet


Di Cavalcanti, Desenho à nanquim, Década de 20, Col. Joseph Brandt, SP.

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Di Cavalcanti, Dois dos desenhos da série Fantoche de Meia Noite, 1922. Col. Renato Magalhães Gouveia, SP

…do Carnaval carioca tirei o amor à cor, ao ritmo, à sensualidade de um Brasil original.; do bairro de São Cristóvão a permanência do romanesco, o familiar gênero Machado de Assis, a preocupação política aprendi nas charges do velho "Malho"; no nordeste de meus parentes paraibanos e pernambucanos vinha meu aventurismo, minha ousadia que aumentara depois do contacto com a zona agrícola do interior de São Paulo, revelação da existência de um Brasil de colonização italiana, industrializando a produção cafeeira, criando cidades.

Di Cavalcanti


Di Cavalcanti, Praia de Maria Angu, 1942. Col. Medici, SP.


Di Cavalcanci, Cinco Moças de Guaratinguetá, 1930. MASP.

O academismo idiota das críticas literárias e artísticas dos grandes jornais, a empáfia dos subliterátos, ocos e palavrosos, instalados no mundanismo e na política, e a presença morta de medalhões nacionais e estrangeiros emprestando o ambiente intelectual de uma paulicéia que se aprestava comercial e industrialmente para sua grande aventura progressista, isso desesperava nosso pequeno clã de criaturas abertas a novas especulações artísticas, curiosas de novas formas literárias, já empregadas de novas doutrinas filosóficas.

Di Cavalcanti