Desenho, 1917. Col. Georgina Malfatti, SP

Desenho, 1917. Col. Georgina Malfatti, SP

Desenho, 1917. Col. Georgina Malfatti, SP

A Estudante, 1918. MASP.

Figura, 1917. Col. Georgina Malfatti, SP

Desenho, 1917. Col. Georgina Malfatti, SP

PARANÓIA OU MISTIFICAÇÃO? ( A propósito da Exposição Malfatti).

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.

A outra espécie é formada dos que vêem anormalmente a natureza e a interpretam à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.

Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra.Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso & Cia.

Nenhuma impressão de prazer ou de beleza denunciam as caras; em todas se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar e muito desconfiado de que o mistificam grosseiramente.

Monteiro Lobato,
‘Idéias de Jéca Tatú’.

 

E eis aonde Anita Malfatti está agora. Achou de novo a mão perdida e principia, depois do turtuveio longo e tão dramático, um período novo de criação. Na primeira fase, quando a alegria forte e bem enganosa da primeira mocidade lhe deu essa coragem, um pouco afoita, de procurar a dramaticidade e o terrível, ela fôra máscula e os seus quadros trágicos e misteriosos. A Estudante Russa, o Homem Amarelo, a Onda nasceram cheios dessa disponibilidade pro sofrimento, que os sensitivos corajosos descobrem nas sombras projetadas à luz pelos seres e elementos.

Mário de Andrade