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EDUCAÇÃO DE RUA: (IM)POSSIBILIDADES DE INCLUSÃO

Jacyara Silva de Paiva

UM CENÁRIO SE ABRE

 

O fenômeno da pobreza, da exclusão, apesar de não ser novo em nosso país, agrava-se a cada dia tornando as pessoas cada vez mais miseráveis do que suportariam ser, e é obvio, que nesse processo perverso, uma minoria dominante determina quem são os excluídos: justamente aqueles que os sustentam (SAWAIA et al., 2001).

Nesse cenário de injustiça e prenhe de complexidades, crianças e adolescentes iniciam o caminho doloroso da exclusão. Essas crianças “invadem” o espaço público, se fazendo ver e sentir a quem quer que passe. Parecem – e aparecem – ainda se multiplicar, trazendo consigo primos, vizinhos, amigos e irmãos, confundindo-se às vezes com a própria paisagem.

Do ponto de vista jurídico, a criança e o adolescente se constituem, ao menos no discurso, como “sujeitos de direito”. A Constituição Brasileira, o Estatuto da Criança e Adolescente corroboram esse pensamento, ao menos no papel, na comovente “poesia das letras” – no imaginário ou no ideal – existe a criança e o adolescente empobrecidos como sujeitos de direito.

Os meninos e meninas, que fazem das ruas seu lar, são parte desse cruel retrato de exclusão social, representam vidas postas à margem, quase sempre vistos como chagas sociais. Uma ferida que não ousamos enxergar, pois é parte integrante do nosso próprio ser, mas que, num mecanismo de defesa, negamos, ignoramos...

No que se (re) fere a escolarização das crianças e dos adolescentes empobrecidos, seria impossível negar a importância da educação formal nas diferenças sociais, na exclusão social, que existe desde o início do Brasil colônia, e hoje, com a globalização, perpetua a crueldade. Numa realidade no mínimo complexa, a escola que inclui é a mesma que exclui, a escola que faz desaparecer o sonho é a mesma que ainda se constitui como palco de esperança e de espera para os excluídos.

Passado mais de um século de escravidão carregamos ainda suas chagas sociais e as suas feridas, que se manifestam por meio da discriminação racial, do desemprego, da injustiça e da criança e do adolescente negros e pobres, que deveriam estar na escola e encontram-se na rua, representando ora com resistência, ora com resiliência o papel de não cidadão, de inexistentes para as agendas de políticas sociais. Nesse processo desumano de exclusão, estão inseridas as crianças e adolescentes de e na rua, que às vezes parecem ter nascido das entranhas da “grande mãe rua” que as (a) colhe.

Chegamos ao final do século XX com um sistema de educação formal que para alguns estudiosos é precário (Leite, 1991), com a exclusão crescente nas camadas populares, praticamos paradoxalmente uma inclusão excludente, na qual as crianças e os adolescentes de rua passam quase que invisíveis. Eles não entram nem mesmo em dados estatísticos, ninguém na escola reclama sua falta.

Uma política de atendimento baseada na exclusão, na ideologia silenciosa que nega às massas populares, aos desvalidos socialmente uma educação inclusiva, contribui assim, para a chegada das crianças e adolescentes às ruas.

A rua não pode mais continuar sendo uma instituição para excluídos, alicerçada pela negação da cidadania, esta fase precisa ser ultrapassada, e só o será com a participação efetiva da escola, quando esta enxergar o menino e menina que estão nas ruas como alunos que precisam retornar à escola.

 

A VIDA NAS RUAS...

A rua é o lugar onde se perde, lugar de vazios, sem intimidades, lugar da impessoalidade, lugar de todos e de ninguém. As crianças e os adolescentes quando chegam às ruas carregam consigo a dor de várias perdas: a perda de uma casa, da família e aos poucos das lembranças, das datas, do nome, perde-se até mesmo o silêncio, pois em meio a tanto barulho, fica difícil ouvir a si mesmo.

Nas ruas vamos encontrar dois grupos de crianças e adolescentes. O primeiro grupo é formado pelos meninos trabalhadores, que vêm à rua tirar seu sustento e retornam ao lar. Numa sociedade onde o trabalho pouco enobrece o homem, crianças e adolescentes são obrigados a contribuir com o orçamento doméstico, abandonando estudos e brincadeiras para assumir funções inadequadas e insalubres, para essas crianças “trabalhar é preciso, brincar não é preciso...”

Também são chamados de meninos de rua, todavia possuem vínculos familiares; fazem vendas de balas, flores, vigiam carros para ajudar a família com dinheiro. Sua estadia na rua é apenas circunstancial, motivada pela miséria que os ronda. É um grupo que possui um ordenamento jurídico próprio, são vistos com certa benevolência pela comunidade e pelos policiais, mas nem por isso não estão expostos à situações de violência e de exploração. Fazem uso de drogas, porém de maneira leve, sempre às escondidas para não perderem o crédito com a comunidade; as meninas não raro começam a se prostituir.

Um outro vínculo que possuem é com a escola, no entanto pouco a freqüentam, porque usam seu tempo livre para o trabalho. Normalmente, não passam de ano e a escola é algo insignificante para eles, não representa nenhum prazer. E assim, o que se percebe é um vínculo fragilizado pelos fatores supracitados, a escola não cumpre seu objetivo.

O outro grupo compõe-se dos meninos que não trabalham, vivem de esmolas ou pequenos furtos, são também chamados meninos de rua, é como se fossem mesmo filhos da rua; vivem em bandos, que acabam por substituir a família, são os não cidadãos, que sobrevivem de maneira quase desumana.

A droga é sua companheira constante, é nela que encontram alento para suas perdas. Os lugares de dormir são variáveis de acordo com a situação. Marquises, praças, viadutos (conseguem dividir seu espaço com ratos). Sua relação com a polícia é um tanto antagônica, ao mesmo tempo em que a repelem, procuram sempre se abrigar próximos da mesma. Seu figurino é composto de várias roupas guardadas no próprio corpo, que funciona como uma espécie de guarda-roupa.

A comida adquirida por meio da mendicância ou acordos com restaurantes, ou por doações feitas por fieis de várias denominações religiosas, não é guardada, a comida é sempre dividida e consumida de uma só vez, o tempo é vivido por eles de forma única, numa lógica muito diferente da vivida pela burguesia. O hoje e o momento marcam suas ações, compreender o significado do amanhã é algo extremamente complexo para eles, o que importa é o agora.

A sexualidade é vivida muito precocemente, ativa, intensa e não se furtam em praticar sexo em qualquer lugar onde tenham vontade, as meninas são sempre mais exploradas, pelos próprios meninos do grupo e pelos transeuntes, caso não tenham “protetor”. O risco da contaminação pela AIDS é irrelevante para eles.

Geralmente, antes de ser menino (a) ou adolescente de rua, esse (a) foi menino (a) e adolescente na rua. As idas e vindas de casa, o uso cada vez mais freqüente da droga, vai fazendo com que o mesmo modifique aos poucos sua condição de menino na rua para menino de rua.

 

PEDAGOGIA SOCIAL DE RUA

Diante de todo esse contexto, a pedagogia social de rua surge como uma alternativa para as crianças e adolescentes que se encontram nas ruas. Se a escola não consegue mantê-las por entre seus muros, a pedagogia social ultrapassará os muros da escola para alcançá-las nas ruas.

A pedagogia social é uma disciplina pedagógica ou, se preferir, uma das ciências da educação (MERCES, 2003). A educação social, portanto está inserida na ordem da prática, dos fenômenos e dos processos. A pedagogia social de rua traz a visão dos significados sociais que grupos diversos manifestam em suas diferenciadas situações.

O objetivo da pedagogia social de rua, não é manter a criança na rua, mas educá-la para que esta possa optar pela “desrualização”, esta é de certa forma uma contra-pedagogia que busca irromper uma nova cultura, que parta do cotidiano daqueles que elegem forçosamente a rua como morada.

A pedagogia social é, portanto uma espécie de pedagogia especial que tem por objetivo a educação social, dirigidas a sujeitos em condições sociais conflitantes e por esta razão possuem necessidades educativas especiais. É enfim, uma pedagogia dirigida aos necessitados socialmente, que tem sua cidadania adulterada, intervém de maneira empática nesse processo nos espaços não escolares, não formais, praticando uma escuta empática dentro do contexto sócio-histórico em que o educando encontra-se inserido. A pedagogia social tem como objetivo o desenvolvimento humano intermediado pela prática educativa, seus destinatários são os indivíduos ou grupos em situação de conflito social.

A pedagogia social de rua por possuir especificidades, ainda é muito incompreendida, pois assume uma postura aberta, diferenciada de educação, o processo educativo acontece em espaços não formais dirigidos a grupos especiais, que em sua grande parte não são considerados como cidadãos possuidores de direitos pela sociedade que os cerca.

 

O PAPEL DO EDUCADOR SOCIAL

Falar do papel social em meio a pedagogia social e tudo que se desvela na rua é falar da diversidade de realidades sociais, de situações complexas envolvendo não só o educando, mas também instituições, competências administrativas públicas e privadas, no âmbito municipal, estadual e federal.

Em meio a toda essa complexidade, em meio à rua, está o educador social, aquele que precisa fazer um trabalho que seja ao mesmo tempo político, ideológico e pedagógico, ele tem diante de si, as praças, as marquises como imensas salas de aulas.

Possui dentro de si o sonho de criar um mundo diferente e isso se reflete através de sua pedagogia de rua, através de sua presença afinada, é a pessoa em quem os educandos podem confiar, a quem os educandos possam procurar para obter respostas para as suas dúvidas (FREIRE, 1989).

O educador social é exatamente aquele que acolhe e acolhe porque necessariamente escuta, porque se impregnou do cotidiano dos educandos para melhor compreendê-los, ele identifica-se com o educando sem perder sua individualidade, sem perder a diferença que deve existir entre educador e educando.

O educador social tem o papel de orientar a aprendizagem a partir do saber do educando, todo seu planejamento é feito a partir daquilo que escuta desses meninos e meninas, com o objetivo do desenvolvimento de suas potencialidades. Ajudar o educando a refletir sobre o mundo, sobre os possíveis meios de deixar a condição de marginalizados constitui-se num dos objetivos de ser educador social. “O educador social de rua é, pois, um profissional que facilita ao outro ‘crescer para”. (PINEL, 2002)

O educador apoiado na pedagogia social enfrenta o desafio da diversidade partindo da experiência do educando, sua ação educativa parte do saber do educando, ajudando-o a desvelar criticamente o mundo onde vive chegando as suas próprias conclusões e decisões. O vínculo entre educador e educando, é essencial para o processo ensino-aprendizagem na rua.

REFERÊNCIAS

1.ALMEIDA, José Luiz Vieira de. Tá na rua: representações da prática de educadores de rua. [s.l.] Xamã, 2001.

2.CARREIRA, Alessandra Fernandes. As crianças e adolescentes de rua no Brasil. Revista do CREIA,1999.

3.CEDES. Cadernos Cedes 38. A fala dos excluídos. 1. ed. Agosto/1996.

4.BRASIL. Constituição(1988). Constituição [da] República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. 

5.BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília: Ministério da Criança/Projeto Minha Gente, 1991.

6.FENELON, Gracia. Meninas de rua: uma vida em movimento. Goiânia, CEGRA / UFG, 1992.

7.GRACIANI, Maria Stela Santos. Pedagogia social de Rua: uma análise e sistematização de uma experiência vivida. 3. ed. São Paulo: Cortez / Instituto Paulo Freire, 1999.

8.GREGORI, Maria Filomena. Viração: Experiências de meninos nas ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

9.JUSTO, Carmem Sílvia Sanches. Ao meninos fotógrafos e os educadores: Viver na rua e no Projeto Casa. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

10.LEITE, Ligia Costa. A razão dos invencíveis: meninos de rua – o rompimento da ordem (1554-1994). Rio de Janeiro: Editora UFRJ / IPUB,1998.

11.LEITE, Ligia Costa. A magia dos invencíveis. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.

12.______. Meninos de rua: a infância excluída no Brasil. São Paulo: Atual 2001.

13.LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

14.______. A descoberta do mundo. Rio de janeiro: Francisco Alves, 1992.

15.MATTA, Roberto da. O que é o Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

16.OLIVEIRA, Walter Ferreira de. Educação social de rua: As bases políticas e pedagógicas para uma educação popular. Porto alegre: Artmed, 2004.

17.PINEL, Hiran. Educadores de rua; michês (rapazes que se prostituem). Educação (especial) de rua e a prevenção contra as DST/AIDS; uma compreensão frankliana do ofício no sentido da vida. São Paulo: IP-USP, 2000.

18.______. Educação especial: conceitos básicos contextualizados. [s.l.] Labor-Psi, 2003.

19.______. Supervisão ao Educador Especial de rua com base na “escuta empática”. [s.l: s.n., 199-. 26p.]

20.REVISTA CEAP. As meninas e a rua. n. 3. mar.1993.

21.ROMANS, Mercê. Profissão educador social. Trad. Ernani Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2003.

22.SCHLIEMANN, Analúcia Dias. Na vida dez na escola zero. 7. ed. São Paulo: Cortez, 1993.

23.TELLES, Vera da Silva. Pobreza e cidadania. 34. ed. São Paulo: USP, 2001.

24.UNICEF. Meninos e Meninas de rua: políticas integradas para a garantia de direitos / Paica-rua (org). São Paulo: Cortez, 2002

25.UNICEF / SAS / FUNABEM. Paulo Freire e os Educadores de Rua. Projeto alternativas de atendimento aos meninos de rua. 2. ed., 1987.

26.______. Projeto alternativas de atendimento a meninos de rua. Outubro 1986.

Publicado em 19/10/2005 08:36:00


Jacyara Silva de Paiva - Mestranda em Educação, sob orientação do Professor Doutor Hiran  Pinel. Pedagoga. Advogada. Bacharel em Teologia. Educadora Social trabalhando nas ruas e obras sociais junto a meninos e meninas que estão ou estavam nas ruas(PPGE/UFES).

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