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ERASMO, CICARELLI O OS MAMUTES

Jorge Claudio Ribeiro

Entre 1977 e 1985, período em que editei o jornal Porandubas, ocorreu a invasão do campus Monte Alegre (em 1977) e o incendiamento do Tuca, um dos templos da resistência à ditadura (em 1984). Coincidentemente(?), ambos os fatos aconteceram no dia 22 de setembro. Ao registrar esses eventos, e essa fase da PUC-SP, nossa equipe mergulhou no imenso caudal de memória da comunidade universitária, produzindo materiais que ainda são referência e constantemente retomados, como ocorreu agora, nos 30 anos da invasão. Estávamos conscientes de que o jornalismo contribui para alimentar a memória de sociedades e indivíduos.

Tanto na invasão, como no incêndio, reagimos com agilidade. Menos de uma semana após a invasão, eu e Roberto Barreiro já tínhamos feito uma edição especial. Mas nosso chefe, Pe. Edênio, determinou que aguardássemos uns dias para distribuir os exemplares. “Não queremos mais gente presa, ou nova invasão, certo?”, alertou. Empilhados na redação, os fardos pareciam cachorrinhos, ansiosos para correr pelo campus. Na moita, aos poucos soltamos as coleiras.

Em 1984, logo após o incêndio do Tuca, integrando a campanha de reconstrução, lançamos a 2ª edição de um Porandubas especial, um “jornalivro” com 20 páginas e super-tiragem de 30 mil exemplares sobre “Morte e Vida Severina”, encenada pelos estudantes da PUC-SP; publicado inicialmente em 11 de setembro de 1980, após meses de entrevistas, esse jornal comemorava os 15 anos da estréia da peça. Houve uma 3ª edição em 2005, para lembrar os 40 anos da data. Um vibrante site com material sobre “Morte e Vida...” e seu processo foi elaborado pela APT e pode ser acessado em www.pucsp.br/mvs.

Todos os anos, em setembro, a turma do Porandubas, (que foi integrada por Edison M. Almeida, Paola Patassini e Maurício Gonçalves) editava material alusivo a esses dois eventos – nossa intenção era informar as sucessivas gerações de calouros. Foram marcantes as entrevistas de Erasmo Dias (que, imagine, lamentou ter invadido) e a das moças queimadas, bem como as reportagens sobre a “Des-invasão Cultural” e a “Evasão Cultural” promovidas pelo grupo De Corpo Inteiro. A coleção do jornal está conservada na Biblioteca Central e na ACI, para consultas.

A recuperação de memória se estendeu no Museu de Rua, resultado de nossa parceria com a Profª Yvone Avelino e equipe, e com o arquiteto Júlio Abe. Eram 30 grandes painéis fotográficos enfocando as figuras e momentos mais importantes da história da PUC-SP. O Museu ficou em exposição no campus por uns treze anos, até que o descaso redundou em sua depauperação. No entanto, as matrizes ainda existem, com o arquiteto.
Dirigi o filme sobre a invasão, intitulado “Não se cala a consciência de um povo” (1979), e o vídeo “TUCA Videobra” (1984), sobre o incêndio e a trajetória do teatro. Ambos re-trabalham material de arquivo cedido pelas emissoras de TV, tendo sido a montagem final feita na Verbo Filmes e na TV Globo. Duas fitas em VHS fazem parte do acervo da Videoteca e são usados por professores e estudantes.

Dois fatos interessantes nesse processo. O primeiro é que parte da narração de “Não se cala...” coube a José Dirceu, então apenas um advogado formado pela PUC-SP e ex-diretor do 22 de Agosto. O outro fato envolveu minha perseguição às imagens do exato momento da invasão. Essas reportagens hibernavam em algum arquivo de televisão, em meio a centenas de rolos. Eu já fora chamado à direção da Globo para pegar as cenas, mas foi rebate falso: provavelmente, de tão bem guardado/escondido, o tesouro desaparecera (lembra do final de “Os caçadores da arca perdida”?). Pois certo dia, na TV Bandeirantes, procurando uma passagem aleatória do movimento estudantil, para fazer uma passagem no vídeo do incêndio, surpreso, deparo-me com as imagens que há anos procurava. A etiqueta do rolo nem correspondia ao conteúdo precioso...

E o que Cicarelli tem a ver com isso? É que graças à cena de amor da modelo na praia (que impulsionou um site de vídeos), hoje o ódio do coronel no campus pode ser assistindo por VOCÊ.
É que a TV PUC acaba de colocar no Youtube o “Não se cala a consciência de um povo” e também “Tuca Videobra”. À semelhança de ossos de mamute que emergem na tundra siberiana descongelada, importantes memórias renascem do passado desta Universidade, para ajudá-la a repensar a si e a seu futuro. Bastam três cliques.
PS- Hélio Campos Melo, um dos fotógrafos da invasão, informa que não tem mais os filmes das fotos que, por sinal, são uma das jóias da coroa da ACI. Isso torna urgente sua digitalização e mesmo colocação à disposição no site da PUC-SP. Por definição, a memória continua...

Publicado em 05/08/2008 11:52:00


Jorge Claudio Ribeiro - Professor, Doutor Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC/SP

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