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PRINCÍPIOS PSICOPEDAGÓGICOS NA EDUCAÇÃO TRANSVERSAL DO TRÂNSITO - ASPECTOS INTRODUTÓRIOS Aparecida de Cássia Mendes de Freitas
Sumário O texto em pauta objetiva apresentar aspectos introdutórios da Psicopedagogia relacionados á áreas emergentes no contexto educacional como a Educação para o Trânsito, que atualmente agrega em cursos específicos de especialização áreas de conhecimento como a Psicologia e a Psicopedagogia. Sustenta o desenvolvimento dessa perspectiva de estudo e intervenção o reconhecimento desse fenômeno de mobilidade humana marcado pela contingências da pós-modernidade; a rapidez compulsória para vencer distancias no menor tempo possível tem gerado síndromes sociais de caráter psicológico e necessidade de intervenção de processos educacionais que facilitem a mobilidade humana automotiva de forma educada e saudável, considerando que a estrutura de um sistema de transito de um país ou de uma localidade reflete o nível de civilidade dessa mesma cultura.
A reflexão acerca da contribuição dos fundamentos, técnicas e estratégias da Psicopedagogia na Educação para o Trânsito no Brasil, demanda inicialmente a abordagem de temas básicos que antecedem e perpassam o estudo e a aplicação de leis e valores ao Sistema de Trânsito Brasileiro.
A primeira questão para análise refere-se no nosso entendimento, a primeiramente refletir sobre o próprio conceito de Educação, e nessa tarefa, vamos apelar para fundamentar a nossa compreensão, para o sentido etimológico da palavra Educação que, segundo o Dicionário Aurélio(versão on-line,1999), significa: “Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social”. Vale questionar nesse momento, qual a amplitude e efetividade desse conceito de acordo com as premissas legais do País?
Segundo a Constituição da República Federativa do Brasil (Capítulo III; Seção I) nos artigos abaixo citados.
Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; O recurso à letra da lei verifica que se encontram contemplados as questões fundamentais que dizem respeito à perspectiva de realização da cidadania em relação a uma formulação em princípios gerais. Porém, o próprio conjunto da Legislação brasileira ainda guarda contradições com os princípios expressos na Constituição, e a realidade educacional vigente no País. (PCNS, temas Transversais,1999).
Sob essa perspectiva é licito questionar qual o nível de contribuição real oferecido pelos programas educacionais, tendo o espaço escolar como o cenário para a construção da formação cidadã que transcenda o ensino burocrático e repetitivo (prática histórica) e transforme pensamentos igualmente repetitivos em consciências criativas que atuem na promoção e transformação social.
É na família e na escola que o individuo inicia seu aprendizado de valores que nortearão sua convivência social e determinarão seus atos como agente ativo desse processo. Esse primeiro aprendizado é normalmente marcado por uma série de incoerências próprias de sociedades onde a discriminação se faz presente enaltecendo valores capitalistas na perspectiva do ter em detrimento do ser. Os valores repassados ao individuo retratam esses aspectos da sua identidade social e ainda dos valores que norteiam as práticas da sociedade moderna onde; competição, agressividade, ostentação, poder e força (às vezes bruta) estão presentes em todas as práticas sociais., sem muitas preocupações em relação ao processo que as pessoas utilizam para galgar valorizados estágios sociais, afinal o comando é do imediatismo.
A citação dos PCNs(1998) no compêndio sobre temas Transversais, nos parece bastante pertinente e esclarecedora pois retrata muito bem essa situação;” Se a escola deve ter como função a formação da cidadania e se esta ganha seu sentido pleno num contexto democrático, é fundamental verificar que situação que existe hoje no Brasil. As leis que regem as ações do povo brasileiro apontam efetivamente na direção da cidadania? Mais ainda, que atitude tem os indivíduos diante delas? A educação que se oferece nas escolas capacita de fato os indivíduos para atuar critica e construtivamente?(PCNs/SEF,1998,p.57). Perpassa a educação acerca de temas Transversais como à vivência no trânsito, a construção de suportes educacionais oficiais inseridos nas políticas públicas visando o letramento especifico ao tema, articulado interdisciplinarmente e com significado ampliado, que favoreça a formação holística do cidadão; intelectual, afetiva e social construindo segurança e qualidade de vida no respeito ao direito de ir e vir de todos. A PSICOPEDAGOGIA NA EDUCAÇÃO PARA O TRÃNSITO Faz-se necessário para melhor dimensionamento do tema em pauta apresentar aspectos conceituais dessa área de atuação interdisciplinar atualmente em franco desenvolvimento principalmente nas áreas da psicologia e da pedagogia, alias, sua base remonta principalmente a essa duas ciências.
“ Psicopedagogia é um estudo que se constrói a partir de dois saberes e práticas, quais sejam a pedagogia e a psicologia. O campo dessa mediação recebe também influências da psicanálise, da lingüística, da semiótica, da neuropsicologia, da psicofisiologia, da filosofia humanista-existencial e da medicina.
“A Psicopedagogia, como disciplina que estuda e trabalha com a aprendizagem humana, oferece um campo de intervenção, cujos limites são amplos, o próprio processo humano de aprendizagem é um fenômeno complexo, que envolve múltiplos fatores e desafia qualquer tentativa de explicação a partir de um discurso cientifico único. Diferentes abordagens teóricas contribuem com seus enfoques para a construção de um referencial que explique esse processo e sustente práticas que tornem compatíveis as demandas sociais e o desenvolvimento dos indivíduos” (Rubinstein,1999). A Psicopedagogia é um campo de conhecimento e atuação em Saúde e Educação que lida com o processo de aprendizagem humana, seus padrões normais e patológicos, considerando a influência do meio – família, escola e sociedade – no seu desenvolvimento, utilizando procedimentos próprios.
Segundo BOSSA(2000), a Psicopedagogia se ocupa da aprendizagem humana, que adveio de uma demanda – o problema de aprendizagem, colocado num território pouco explorado, situado além dos limites da Psicologia e da própria Pedagogia – e evoluiu devido à existência de recursos, ainda que embrionários, para atender essa demanda, constituindo-se, assim, numa prática. (Schroeder,2007). Vale ressaltar ainda como característica relevante da Psicopedagogia a função de disciplina mediadora no desenvolvimento de aprendizagens humanas contribuindo com técnicas para a constatação de estilos cognitivos para aprender, motivação, leitura, escrita, dificuldades de aprendizagem, memória significativa, dinâmica emocional, afetividade, percepção, processos de atenção e outros aspectos inerentes à capacidade de desenvolvimento de um processo de aprendizagem satisfatório e significativo.
A literatura geral especifica nos indica que várias teorias acerca do funcionamento psíquico afirmam que nós nascemos com uma tendência inata para a aprendizagem. Nesse sentido, basta lembrarmos que iniciamos nosso processo de aprendizagem bem cedo. Aprendemos a mamar, falar, andar, pensar e um milhão de outras coisas que vão garantir nossa sobrevivência e nos caracteriza como humanos. De acordo ainda com BOSSA(1996),” dizem ainda as teorias que a curiosidade é também uma característica que surge bem cedo em nossa vida. Por volta dos três anos já somos seres curiosos, capazes de construir as primeiras hipóteses a respeito da nossa existência. Logo, a aprendizagem e a construção do conhecimento são processos naturais espontâneos na nossa espécie e, se não estão ocorrendo, certamente existe uma razão, pois uma lei da natureza esta sendo contrariada. É preciso então identificar a causa dessa falha para que a vida possa seguir seu curso normal.” Na Psicopedagogia, o fundamental é conhecer e compreender o processo de aprendizagem o qual julgamos como ponto de partida definir a partir de nossos referenciais teóricos o que vem a ser aprendizagem para daí podermos aplicar a partir das nossas concepções os conhecimentos e técnicas compatíveis. Em qualquer definição certamente estará claramente implícito o reconhecimento de um sujeito aprendente inserido em um contexto sócio-cultural, que se utiliza tanto da objetividade(inteligência), quanto da subjetividade(desejo) para aprender. Na perspectiva de Sara Pain(1985), o processo de aprendizagem ainda engloba as estruturas orgânicas e corporais. Se a aprendizagem envolve esses componentes, é para eles que devemos olhar e orientar nosso trabalho. Os aprendizes querem aprender imediatamente. È difícil ensinar-lhes que lidar com o processo na aprendizagem, independe do tempo cronológico. Para construir um saber, é necessário um tempo de ver, um tempo de compreender e um tempo de concluir, nada tem a ver com o tempo cronológico. Dentro de uma instituição, corre-se contra o tempo. São programas a cumprir e metas a serem alcançadas para atender posteriormente às melhores universidades que permitem o sucesso profissional. Onde está o saber? Onde está o sabor (prazer) de saber/ O mestre partilha seu gosto pelo saber? Há espaço e tempo para que o mestre expresse seu prazer pelo saber/ O que se presencia é o tempo cronológico, como um rolo compressor perseguindo as pessoas.(Pain,1985) Como diz Calligaris(1995) “Uma boa educação implicaria deveres, débitos para com as instâncias simbólicas de autoridade que nos impõe os limites que abrem para nós o campo do desejo. Não será essa crise de autoridade vivida na sociedade de forma geral, a responsável também pela ausência de desejo por parte do aprendiz? É uma queixa comum tanto do professor como dos pais: “Ele não se interessa por nada, está apático”. VASCONCELOS (2002) defende que o objeto de estudo da Psicopedagogia é tanto o sujeito no âmbito individual, como em grupo, o que implica dizer que as relações envolvam a aprendizagem e a socialização de saberes múltiplos.
A Psicopedagogia utiliza várias técnicas na consecução desse objetivo de avaliar e ampliar a aprendizagem humana através de exames de inteligência, exames de desenvolvimento de linguagem, avaliação de percepção visual e desenvolvimento motor, avaliação de rendimento acadêmico, avaliação de ajuste social-emocional, avaliação comportamental, avaliação de auto-conceito, nível de desenvolvimento das habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico. A perspectiva de avaliação envolve crianças, adolescentes, adultos e pode ser direcionada a desenvolvimento de aprendizagem formal ou informal, contemplando indivíduos em processo normal de desenvolvimento ou vivenciando processos atípicos de aprender e apreender a realidade. Concluindo, esse breve ensaio teve como objetivo apresentar uma visão geral das áreas de conhecimento e técnicas que subsidiaram a construção dessa área de conhecimento que é a Psicopedagogia com vistas a fortalecer a sua inserção em áreas de caráter interdisciplinar como a educação para o Trãnsito. A referida modalidade de educação constitui-se atualmente num importante segmento de educação social já que trata da inserção civilizada do indivíduo num processo de locomoção urbana cada vez maior e mais sofisticado que agrega para obtenção desse nível de civilidade conhecimentos de varias áreas e fontes legitimando a Psicopedagogia como uma parceira adequada na estratégia de mediação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ALCHIERI,João Carlos(org.).Comportamento Humano no Trânsito. São Paulo. Casa do Psicólogo:2003. BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil: Contribuições a partir da prática.2ª ed. Porto Alegre: Artmed:2000 CALLIGARIS,C. Três conselhos para educação das crianças. In Educar-se uma criança. Associação Psicanalítica de Porto Alegre:1995. MARTINS, João Pedro. A educação de Trânsito-Campanhas educativas nas escolas.São Paulo. Autêntica: 2000. PAIN,S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem.Artmed.Porto Alegre:1985. Parâmetros Curriculares nacionais: 3º e 4º ciclos: apresentação dos temas transversais. Secretaria de educação Fundamental-Brasilia: MEC/SEF:1998. RUBINSTEIN, Edith(org.) Psicopedagogia – uma prática, diferentes estilos. São Paulo. Casa do Psicólogo: 1999. Publicado em 03/04/2008 14:35:00
Aparecida de Cássia Mendes de Freitas - Psicóloga Escolar, Especialista em Psicopedagogia, Mestre em Educação pela
Universidade Federal da Paraíba, Professora Universitária do Departamento de
Psicologia do UNIPÊ, Consultora em Psicologia Escolar e Psicopedagogia.
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