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PSICOLOGIA AMBIENTAL E SUA CONEXÃO COM A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Márcio Balbino Cavalcante


Resumo
Desde o surgimento da espécie humana na Terra, as formas de modificação e apropriação em relação a natureza se intensificaram e ocasionaram diversos impactos ambientais na construção do espaço geográfico. A situação vigente requer um trabalho interdisciplinar, que faça uso de estratégias dinâmicas e se ampare numa visão holística, para assim proporcionar conhecimentos, habilidades e criticidade aos indivíduos, sensibilizando-os para a importância da natureza como meio à perpetuação da vida. A Psicologia Ambiental, disciplina que teve sua origem na década de 1960, tem como objetivos analisar, explicar e fornecer informações capazes de identificar as condições envolvidas na congruência pessoa-ambiente e no bem estar e, portanto, ajudar a tomada de decisões em questões ambientais, pode ter na Educação Ambiental uma fiel aliada na busca constante de mudanças efetivas diante da atual fase ambiental em que vive nosso planeta.

Palavras-chave: Psicologia Ambiental, Educação, Educação Ambiental.

ABSTRACT
From the appearance of the human species in the Earth, the modification forms and appropriation in relation to nature intensified and they caused several environmental impacts in the construction of the geographical space. The effective situation requests an interdisciplinary work, that he/she makes use of dynamic strategies and seek protection in a vision holística, for like this to provide knowledge, abilities and criticidade to the individuals, touching them for the importance of the nature as middle to the perpetuation of the life. The Environmental Psychology, disciplines that had his/her origin in the decade of 1960, has as objectives to analyze, to explain and to supply information capable to identify the conditions involved in the consistency person-atmosphere and in the good to be and, therefore, to help the socket of decisions in environmental subjects, he/she can have in the Environmental Education a faithful one allied in the constant search of effective changes before the current environmental phase in that he/she lives our planet.  
 
Words - key: Environmental psychology, Education, Environmental Education. 

Introdução
Desde o surgimento da espécie humana na Terra, as formas de modificação e apropriação em relação a natureza se intensificaram e ocasionaram diversos impactos ambientais na construção do espaço geográfico. O advento do hábito sedentário levou o homem a desenvolver novas habilidades tecnológicas necessárias a edificações de casas, manejo do solo, uso do fogo, produção de tecidos e vestuários; ferramentas de trabalho; o transporte; a roda; a tração animal; o aproveitamento de energia; dentre outras.
Como sabemos, em aproximadamente duzentos anos de industrialização do planeta, a produtividade de bens materiais e seu consumo se deu de forma bastante acelerada, ocorrendo uma considerável degradação do meio ambiente, comprometendo a qualidade de vida da população. Nesse sentido, a crise ecológica que destrói o planeta Terra, põe em risco a sobrevivência da diversidade dos sistemas vivos, incluindo aí o próprio homem. A maioria dos problemas ambientais do planeta provém de um certo estilo de cultura adotado pela nossa sociedade. Este estilo desconsidera a interdependência existente na natureza, como ilustra a afirmação de Guatarri (1997, p. 07) na sua obra “As três ecologias”,

O Planeta Terra vive um período de intensas transformações técnico-científicos, em contrapartida das quais engendram-se fenômenos de desequilíbrios ecológicos, que se não forem remediados no limite, ameaçam a implantação da vida em sua superfície. Paralelamente a tais perturbações, os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração.

Neste sentido, Morin (2001), na obra “Terra-Pátria”, propõe a reformulação do pensamento para a compreensão da crise planetária que se instalou na Terra. Nesse contexto observa que as civilizações dispersas do planeta estão vivendo um momento de necessidade de interdependência em todos os aspectos e é preciso, então, que se consolide a fraternidade que surge com a conscientização da importância dessas inter-relações entre a comunidade humana e o cosmo. Fala ainda da era planetária em que vivemos e a sua agonia, do cartão de identidade terrena, dos objetivos terrestres e da responsabilidade do ser humano na transformação da Terra-Pátria que deve iniciar-se pela transformação do pensamento e de atitudes frente à interdisciplinaridade e a conexão entre ramos do conhecimento afins. 
Assim, apontamos a necessidade de se promover a integração entre a Psicologia Ambiental e a Educação Ambiental como primeiro passo a ser dado, quando se deseja mobilizar pessoas para ações relacionadas à ética e a cidadania ambiental. Para isto, faz-se necessário promover um conhecimento capaz de educar e formar cidadãos conscientes de suas responsabilidades individuais, em relação à preservação e conservação do ambiente global, e assim promover o que Morin denomina de “cidadania terrestre”.

2. A Conexão Possível entre a Psicologia Ambiental e a Educação Ambiental
A situação vigente requer um trabalho de Educação Ambiental, que faça uso de estratégias dinâmicas e se ampare numa visão transdisciplinar, para assim proporcionar conhecimentos, habilidades e criticidade aos indivíduos, sensibilizando-os para a importância da natureza como meio à perpetuação da vida.
Tem razão também Morin (2000a), quando afirma que uma lógica da complementaridade nos faz pensar para além das excludências e distinções. Essa lógica supõe o intercâmbio entre diferentes áreas de conhecimentos, sobretudo quando se trata do meio ambiente, tema que por si próprio demanda vários enfoques e disciplinas.
A Psicologia Ambiental, disciplina que tem sua origem na década de 1960, tem como objetivos, segundo Moser (2003, p. 01), “analisar, explicar e fornecer informações capazes de identificar as condições envolvidas na congruência pessoa-ambiente e no bem estar e, portanto, ajudar a tomada de decisões em questões ambientais”, pode ter na Educação Ambiental uma fiel aliada na busca constante de mudanças efetivas diante da atual fase ambiental em que vive nosso planeta.  Desse modo, os cuidados com o planeta deve ser uma preocupação de profissionais de todas as esferas, em especial de educadores, no sentido de (re)educar ambientalmente os cidadãos terrestres. 
Para a mesma autora, buscar as condições de congruência entre indivíduo e ambiente é uma tarefa integrada para a Psicologia Ambiental. Esta relação significa, uma unidade harmoniosa e sustentável entre o bem-estar e a qualidade de vida dos seres vivos, humanos ou não, com o ambiente terrestre, tarefas cada vez mais difíceis e desafiadoras pelo estágio atual da nossa sociedade pós-moderna, caracterizada principalmente pelo processo de globalização.

2.1. A busca de uma consciência ecológica: uma perspectiva histórica
Relatamos aqui um breve histórico da preocupação humana com as questões ambientais a fim de situar o leitor na linha do tempo do ambientalismo do final da década de 60 até os dias atuais. Encontros, Conferências e Tratados mundiais foram realizados para discutir os problemas ambientais do planeta e apontaram para o desenvolvimento da Educação Ambiental e sua interação com outras áreas ambientais como estratégia de preservação e conservação da natureza.
Todos sabem que há muito tempo encontramos alterações ambientais e movimentos que defendem a preservação da natureza e a melhoria da qualidade de vida. Assim, os movimentos ambientalistas têm contribuído para o surgimento e desenvolvimento da Educação Ambiental.
A obra da jornalista Ranchel Carson (1962), intitulada “Primavera Silenciosa” fermentou ainda mais as discussões acerca da questão ambiental no mundo inteiro. Nela Carson aborda a perda da qualidade de vida em várias partes do planeta, causada, sobretudo pela crescente queda da qualidade ambiental, produzida pela ganância dos lucros a qualquer custo, por meio da exploração predatória.
Em 1968 foi realizada, em Roma, uma reunião de cientistas dos países desenvolvidos para discutir o consumo, as reservas de recursos naturais não renováveis e o crescimento da população mundial até meados do Século XXI.     As conclusões do “Clube de Roma” deixam clara a necessidade urgente de se buscar meios para a conservação dos recursos naturais e controlar o crescimento da população, além de se investir numa mudança radical na mentalidade de consumo e procriação. Seus participantes observaram que: “o homem deve examinar a si próprio, seus objetivos e valores. O ponto essencial da questão não é somente a sobrevivência da espécie humana, porém, ainda mais, a sua possibilidade de sobreviver sem cair em um estado inútil de existência”.  
Um dos méritos dos debates e das conclusões do “Clube de Roma” foi colocar o problema ambiental em nível planetário, e como conseqüência disso, a Organizações das Nações Unidas – ONU – realizou em 1972, em Estocolmo, na Suécia, a primeira Conferência Mundial de Meio Ambiente Humano.  Para Zeppone (1999, p.17),“A Conferência gerou a declaração sobre o meio ambiente que reconheceu o desenvolvimento da Educação Ambiental como elemento crítico para o combate à crise ambiental no mundo”.
No ano de 1992, realizou-se no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, a Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento - Rio 92, a Cúpula da Terra culminou na articulação de tratados, acordos e convenções para a sustentabilidade da vida na Terra. Como resultado apresentou-se um plano de ação para o presente século, visando o equilíbrio e o respeito a vida, batizada de “Agenda 21”, esta carta contém compromissos assumidos em relação ao ambiente, constituindo-se como estratégia de sobrevivência a todos os seres vivos.           Nos vinte anos que separam as conferências mundiais de Estocolmo e do Rio de Janeiro houve uma considerável mudança na concepção de meio ambiente. Na primeira se pensava basicamente na relação homem e natureza; e na segunda o enfoque é pautado pela idéia de desenvolvimento econômico. Essa mudança se fará sentir nos discursos, projetos e práticas que se autodefinem como sendo Educação Ambiental, mostrando a sua criatividade e importância, por outro lado temos práticas muito simplistas que refletem ingenuidade, oportunismo e confusão teórica, conceitual e política.
Em 2002, a Rio +10, Conferencia realizada na África do Sul, comemorou os 10 anos da Rio 92, e recentemente a Conferência das Partes – COP 8 (2005), realizada em Curitiba, Brasil, deixaram claro que a natureza é finita, limitada e que funciona dentro de um sistema interdependente e que precisa de cuidados para manter seu equilíbrio natural (CAVALCANTE, 2002, p. 03).

2.2. Psicologia Ambiental: o comportamento humano x ambiente como objeto de estudo
A Psicologia Ambiental tem como ponto de interesse aspectos da relação comportamento humano e seu ambiente, considerando tanto o ambiente cultural, construído de acordo com as necessidades humanas quanto o ambiente natural. Algumas das características da Psicologia Ambiental são:

• Visão contextualizada do comportamento humano;
• Questão ambiental como interesse de estudo;
• Influência teórica e metodológica da Psicologia Social;
• Temas interdisciplinares;
• Possibilidades de "Pesquisa-ação".

Para a psicologia Ambiental o efeito do ambiente sobre o comportamento humano não é analisado de forma  isolada ou unidirecional, ao contrário, considera-se o contexto em que ele ocorre importante para a sua analise. Enfatiza-se a relação recíproca entre o ambiente o comportamento humano, ou seja, tanto o ambiente influencia o comportamento, quanto é influenciado por ele.

A unidade de análise da Psicologia Ambiental é o relacionamento indivíduo-ambiente, e só se pode estudar essa relação através do exame de cognições e comportamentos que ocorrem em situações do mundo real. Fatores físicos e sociais estão entrelaçados vinculados em seus efeitos sobre percepção e comportamentos dos indivíduos (Altman; Rogoff, 1987, citado por Moser 2003).

Neste sentido, o estudo da inter-relação entre ambiente e indivíduo, geralmente exige um trabalho interdisciplinar entre especialistas de diversas áreas do conhecimento. Dependendo do tema, pode-se trabalhar conjuntamente com arquitetos, engenheiros, biólogos, planejadores urbanos, geógrafos, professores, biólogos, antropólogos, etc.
Para Moser (2003, p. 01), “a questão ambiental, atrelada à Educação Ambiental, parece ter sido, e continua a ser, um dos estopins do interesse pela área. Por tudo o que temos observado, vivido e protagonizado, a demanda social no Brasil atual se dirige para a área do ambientalismo e da intervenção”.        Considerando tanto o fato de ser interdisciplinar, quanto de ser ampla nos assuntos que trata, a psicologia ambiental não utiliza uma abordagem metodológica única. O que determina a escolha da metodologia é a situação-problema.
No contexto da psicologia ambiental, o  trabalho é orientado para um problema ou visa ajudar na resolução de algo prático. O modelo utilizado freqüentemente é o da pesquisa-ação, no qual o psicólogo ambiental tenta contribuir para a união teoria-prática. A participação, avaliação e percepção dos usuários nos ambientes é sempre considerada como base para análise. A dinâmica das relações pessoa-ambiente só pode ser comprometida através de estudos sistemáticos de representação social, ou seja, a relação das pessoas com seu ambiente é fundamental para entender parte dos comportamentos humanos.         

3. Conclusão
A Psicologia Ambiental, assim como a Educação Ambiental, ou melhor, a sua interação, pode contribuir para a efetiva mudança de atitudes, comportamentos, como também, para a análise da relação indivíduo-ambiente dentro do atual estágio ambiental que vivemos.             Dessa forma, na perspectiva adotada neste trabalho, a cooperação entre estas duas vertentes do conhecimento ambiental, compreende a concretização da transformação das relações entre todos os atores da sociedade, a partir da possibilidade de criar novos padrões de organização espacial e coletiva construídos ao longo do tempo no espaço geográfico. Enfim, estas práticas devem se constituir um processo contínuo, no qual os indivíduos e comunidades envolvidas tomem consciência da possibilidade de um colapso ecológico e adquiram conhecimentos, valores, habilidades, experiências e determinação que os tornem aptos a agir, individualmente e coletivamente, tendo como princípio básico o respeito a todas as espécies de vida e dentro dos princípios que rege a natureza.

4. Referências Bibliográficas
BRASIL. Secretária de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos - temas transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998.
CARSON, Raquel. Primavera silenciosa. Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1962.
DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental: princípios e práticas. 4 ed. São Paulo: Gaia, 1994.
DIEGUES, Antônio Carlos S. O mito moderno da natureza intocada.  São Paulo: Hucitec, 1998.
CAVALCANTE, Márcio Balbino. Educação Ambiental: Uma alternativa para a sustentabilidade. In: IV Semana de Geo-História, 2002. Guarabira: CH/UEPB, 2002.
GUATTARI, Felix. As três ecologias. 6. ed. Campinas: Papirus, 1997.
LEFF, Enrique. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável. In: REIGOTA, M. (org.) Verde cotidiano: o meio ambiente em discussão. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
MARIANO NETO, Belarmino. Geografia: textos, contextos e pretextos para o planejamento ambiental. 1ª ed. Guarabira: Gráfica São Paulo, 2003.
MORIN, Edgar. Complexidade e transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 2000.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do futuro. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2000a.
MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. 2.ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
MOSER, Gabriel. Examinando a congruência pessoa-ambiente: o principal desafio para a Psicologia Ambiental. Estudos de Psicologia. 8 (2), 331-333, 2003.
SAHTOURIS, Elisabet. A dança da Terra. Sistemas vivos em evolução: uma nova visão da biologia. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1998.
ZEPPONE, Rosimeire Maria Orlando. Educação ambiental: teorias e práticas escolares. Araraquara: XM, 1999.

Publicado em 24/08/2007 17:41:00


Márcio Balbino Cavalcante - Professor e Consultor na área de Educação e de Meio Ambiente. É graduado em Geografia - UEPB; Pós-graduado  em Ciências Ambientais - FIP/PB; Coordenador de Projetos Educacionais da Secretaria Municipal de Educação do município de Passa e Fica - RN. Professor de Geografia e Ciências na Escola Estadual Sen. João Câmara, Passa e Fica - RN.

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