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VALE A PENA ... E MUITO
Cecília G. M. Faro |
No final do dia de uma sexta-feira minha turma de segunda-série ainda trabalhava concentrada e com vontade, o que é muito bom...
Em determinado momento, meu aluno Rafael, simpático e falante, que estava trabalhando encantado com a nova lapiseira que ganhou do pai na véspera, veio reclamar que não conseguia encontrá-la.
Num primeiro momento, pedi que deixasse de lado este assunto e se concentrasse na aula, que considerava mais importante. Acontece que, havia um burburinho entre os alunos, algo no ar que me fez mudar de idéia e dar mais atenção a este assunto.
Ultimamente alguns objetos têm “sumido” na nossa sala, talvez este fosse um bom momento para desvendar o mistério.
Paramos a aula e todos começaram a ajudar a procurar a lapiseira do Rafael.
Nada... Pedi que cada um procurasse na própria mochila e depois escolhesse um amigo para ajudá-lo a procurar, assim, todos colaboravam e ninguém seria exposto.
Penso que nestes momentos a exposição, pode potencializar o problema. Meu intuito era de resolver e não fortalecer esta situação.
De repente o pequeno Henrique muito tenso com o olhar assustado e seu corpinho tremendo, disse:
-Ci eu encontrei a lapiseira do Rafael, no meio dos livros da prateleira!!
Imediatamente um dos meninos da classe, começou a acusá-lo. Compreendo que seja natural, em se tratando de um grupo de crianças com idade entre 7 e 8 anos. Porém, intervi, explicando que não era justa a acusação sem provas.
-Obrigada, Henrique, por ter encontrado a lapiseira do Rafael.
Foi o que me limitei a dizer, em seguida, liberei a turma, pois já passava da hora da saída.
Na hora desconfiei que havia alguma coisa estranha, mas não podia e nem queria afirmar nada ao grupo.
Na verdade, não sabia exatamente como resolver esta situação sabia apenas que naquela hora o pequeno Henrique precisava mais de carinho do que de qualquer repreensão.
Todos já tinham ido embora, mas Henrique ainda terminava de juntar seus materiais, propositalmente ou não ele ficou para o final, o que foi bom, pois era importante que conversássemos. Aproximei-me e percebi que ele continuava com o corpinho tremendo e o olhar assustado... Não sabia exatamente o que ia dizer, mas sabia que tinha algo ali, além das palavras, que devia ser esclarecido.
-Meu amigo, eu não quero que fique com medo de nossa conversa, não estou brigando com você, mas preciso saber direitinho o que aconteceu e preciso também que você confie em mim...
Dizendo isto, sentei numa das cadeirinhas bem perto dele.
-Você achou legal a lapiseira do Rafael, queria uma igual àquela?
Olhou bem nos meus olhos e afirmou com a cabecinha e os olhos grandes mareados de lágrimas...
Foi então que resolvi dar a ele não minha experiência de anos de sala de aula, nem a lição de moral de um adulto nem a bronca de quem busca o que considera justo, mas apenas o carinho... Coloquei-o no meu colo e ele me abraçou com tanta força que senti de perto cada parte do seu corpinho tremer...
O que a nós, como educadores, mais que professores, devemos fazer num momento como este? Não sei, mas resolvi deixar as teorias de lado e ouvir meu coração.
Penso que nós, que temos o privilégio de trabalhar com gente, gente pequena, que nos tem como referência, não podemos deixar só a razão falar, e foi o que procurei fazer naquela hora, deixei meu sentimento falar.
-Meu querido, eu compreendo que a lapiseira o encantou e que às vezes a gente tem vontade de ter algo que nem sempre podemos, mas você pode ter uma lapiseira também...
Abri meu estojo de professora que sempre é bem equipado, peguei 3 lapiseiras e disse:
- Escolha uma destas para você!
Seus olhinhos mudaram de expressão... Henrique mostrou-se surpreso, sorriu, escolheu uma lapiseira azul e até parou de tremer.
Naquele momento fiquei feliz em ter escutado meu coração... Acho que o surpreendi. Penso que ele esperava uma repreensão e não o que eu fiz. Coloquei uma etiqueta com o nome dele e disse:
-Agora esta lapiseira é sua!!
Parecia feliz e logo guardou nas suas coisas.
-Agora me diga, você gostou da SUA lapiseira?
Afirmou, movendo com firmeza a cabecinha.
-Se alguém tirá-la de você, como vai se sentir?
-Eu não vou gostar, vou ficar bravo, pois você me deu e ela é minha...
-Pois é meu amigo, mas foi o que você fez com seu colega Rafael. Ele ganhou este presente do pai dele, estava todo feliz. Você pegou sem que ele permitisse ou soubesse. Quero que com isto, você possa compreender que esta não é a maneira correta de agir. Da mesma forma que você se chateia quando alguém tira algo seu, o outro também se aborrece.
Você pode falar a respeito dos desejos às pessoas que lhe querem bem, com seus pais, familiares ou comigo. Desta vez foi possível satisfazê-lo outras vezes, talvez não seja, ai, então você deve lutar para conseguir o que quer utilizando os seus recursos, o quanto é capaz.
Ele me olhava todo o tempo, com aqueles olhos grandes e tão expressivos. Estava sério e francamente, não posso afirmar que entendia todas as minhas palavras, mas certamente compreendia do que eu falava.
-Ci, eu nunca vou esquecer do que falou. Não vou mais fazer isto, prometo. Obrigado pela lapiseira!
Deu mais um abraço bem apertado, desta vez sem tremores e foi embora sorrindo...
Pois é, nestas horas é que eu penso...Neste mundo onde tudo muda tão depressa, a ciência tão moderna, não foi capaz de inventar nenhuma pílula que cure tantas feridas, com tanta eficiência como a pílula do AFETO...
Agora, diga... vale a pena ou não vale? Para mim vale e muito. Ainda acredito no que faço, ainda tenho orgulho de ser uma educadora.
Neste mundo onde a honestidade, a ética e os valores estão tão fora de moda, penso que nós professores temos uma importante responsabilidade, pois também interferimos como formadores nas opiniões dos nossos alunos.
Se acreditarmos que, em cada turma que passar por nós, seremos capazes de plantar uma boa semente, certamente estaremos contribuindo para que este nosso país comece a ser povoado por homens que tenham como conduta um sentimento antigo chamado RESPEITO, mas que a sua falta, torna a vida mais difícil.
Sou daquelas que acredita na missão e na capacidade do ser humano em fazer da vida, algo que realmente valha a pena de se viver. Quero conservar isto dento de mim, para poder passar para meus alunos, valores que embora “fora de moda” certamente formam o alicerce de uma sociedade mais justa.
OBS – Os nomes dos alunos foram alterados Publicado em 31/03/2006 15:37:00
Cecília G. M. Faro - Psicopedagoga formada pela PUC-SP com especialização em dislexia; Pedagoga atuando na rede particular,no ensino Fundamental desde 1976
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