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FÊMEAS DA MESMA FAMÍLIA Diorindo Lopes Júnior
Eu me lembro como se fosse hoje do dia em que Cláudia Lia chegou na cidade, de trem. Fui buscá-la.
Por conta do trabalho de meu pai, praticamente eu havia crescido na estação, e isso me credenciava a acompanhar Denise na recepção à prima. Denise nunca foi de me dar mole, mas era pintar qualquer probleminha para correr à minha casa. Contou-me da beleza da prima, “a jóia mais preciosa da ala nobre da família bem-situada na vida”, tinha dezenove anos e estava de casamento marcado com um ricaço quatrocentão.
Vinha ficar uns quinze dias, passar o carnaval no clube e ia embora no sábado de Aleluia.
Estranhei. O que levava uma jovem bonita e de bem com a grana a viajar de trem? A estação da cidade já mostrava a corrosão provocada pela decadência do trem, vencido pela concorrência de montadoras ávidas por desenvolver o transporte rodoviário e o descaso de um governo incompetente – o da ditadura.
Estranhei também a frugalidade da bagagem: frasqueira e uma mala que mais parecia mochila. Pesada, sim, mas muito pouco para uma moça com tantos e tamanhos predicados. Lembro-me de ter me pedido para conferir os horários dos trens e de seus dedos sublinhando o corujão diário das 4h20 da madrugada.
Denise não me convidou para nenhuma das festas que fizeram para Cláudia Lia, com direito a fotografia na coluna social. Só voltei a vê-la no carnaval. Disse que sabia que eu tinha dezessete anos, mas meu pai me liberava o carro e gostaria de dar umas voltas comigo no salão. Requisitada pela rapaziada, escapava e vinha me buscar, mas nossas voltas no salão se resumiam a duas ou três, íamos para o bar, pedia Fanta com vodka e danava-se a falar de viagens, filmes e sonhos.
Às vezes, beijava a ponta dos dedos e os levava à minha boca. Sorria maliciosa e eu ia à lua sem foguete.
Na última noite, quis que eu fosse encontrá-la do lado de fora. Passava das duas, pediu-me que a levasse até a casa de Denise. Entrou e saiu em menos de dez minutos, já sem a fantasia e com calça jeans. Ia para a estação, “pegar um trem para qualquer lugar”.
De lá, “qualquer lugar”, iria para o Rio começar a vida realmente. Passara meses juntando dinheiro para os primeiros meses. O noivo quatrocentão que se lascasse, a família também, tinha deixado um bilhete para a tia e isso bastava.
Ela se chamava Cláudia Lia, não era uma vaca premiada e não estava à venda.
Os beijos na ponta dos dedos e levados à minha boca nos bailes não se fizeram verdade durante a espera na plataforma. Anotou meu endereço, mas não escreveu. Sequer me abanou a mão pela janela.
Denise e a família nunca mais falaram de Cláudia Lia, como se ela nunca houvesse estado na cidade, sido musa daquele carnaval. Denise andou desconfiada de que eu sabia muito mais do que negava, mas logo arrumou um namorado e me esqueceu.
Penso que foi melhor.
Ser usado por duas fêmeas da mesma família, sem levar nada em troca – um reles beijo que fosse, me pareceu um pouco demais. Publicado em 11/04/2005 16:19:00
Diorindo Lopes Júnior - jornalista e autor dos juvenis O Sol em Capricórnio (Atual Editora) e Cesta de 3 (Alis Editora), este indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) como “Leitura Altamente Recomendada”, em 1999
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