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SAIA CURTA Diorindo Lopes Júnior
Acho que a primeira vez que a libido bateu à minha porta, arrombou os portões de toda a turma. Foi quando a Flávia Maura veio estudar em nossa classe.
Tínhamos entre nove e dez anos, menos o Veloso, que tinha onze e repetira duas vezes. Estava atrasado na escola e também era um pouco atrasado nessas coisas. Se os joelhos da Nara Leão eram unanimidade nacional, as pernas... digo, a saia de Flávia Maura, mais curta que a das outras meninas, hipnotizou a todos. Não era exatamente linda, mas os cabelos lisos e bastante pretos a tornavam diferentes das outras.
Uma vez, a Mitiko levou-nos umas carambolas do sítio de seu pai. Como sempre, estavam deliciosas, mas o modo como Flávia Maura as levava à boca dava-lhes um toque de sedução e sabor de manjar. Parecia beijá-las cada vez que os mordia.
Era de algum lugar de Mato Grosso, uma fazenda, antes da divisão do Estado. Os pais brigaram e veio com a mãe e um irmão menor para a cidade. Falava de onças e jacarés como animais domésticos, criados no quintal, e contava de pássaros e peixes, comidas e caças que nunca sequer ouvíramos falar. Também mencionava índios que conhecera, suas lendas e rituais, rios e árvores, insetos e ervas medicinais.
Mais que a riqueza de suas histórias, o jeito como as contava, olhando-nos de baixo para cima, às vezes mordiscando o dedo indicador, deixava a todos boquiabertos. E com uma inexplicável e fascinante interrogação: o que estava acontecendo com a gente, dentro da gente? Andávamos até comportados e limpinhos, perfumados e penteados...
Até o dia em que o pai apareceu, fez as pazes com sua mãe e voltaram para algum lugar de Mato Grosso. Nunca mais vimos ou soubemos de Flávia Maura, mas, a partir de então, as outras meninas começaram a também encurtar suas saias. Publicado em 01/02/2005 13:46:00
Diorindo Lopes Júnior - jornalista e autor dos juvenis O Sol em Capricórnio (Atual Editora) e Cesta de 3 (Alis Editora), este indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) como “Leitura Altamente Recomendada”, em 1999
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