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INVEJA É MESMO UMA BELA... PORCARIA! Diorindo Lopes Júnior
Aprendi com um livro-reportagem, O Mal Secreto, do jornalista Zuenir Ventura, que a inveja é o mais abjeto dos pecados capitais, o mais inconfessável, o que poucos admitem. Reconheço que me vi retratado em algumas situações nele relatadas.
Viajei no tempo uns trinta anos, quando Dudu ganhou uma bicicleta azul num álbum de figurinhas.
Creio que já falei de Dudu: baixinho, gordinho, bastante leso e que fazia a barba desde os onze anos.
Todo mundo já ouvira falar de alguém que ganhara boneca, bola de futebol, fogão e até geladeira, televisão e carro – prêmios que só saíam em outras cidades e para um conhecido de um parente distante.
Então, de repente, Dudu ganha uma bicicleta comprando alguns pacotinhos de figurinhas como qualquer um de nós comprava. Por que o Dudu, logo o Dudu? O baixinho e gordinho bastante leso que ninguém queria no time e nenhuma garota queria namorar, por quê?
Seu Alceu era ligado à milicaiada que dava as cartas no país e cuidou para que a bicicleta do filho chegasse em uma semana, no máximo dez dias. Na verdade, levou uns vinte dias, período em que, despeitados, tratamos de colocar os mais inusitados defeitos na bicicleta – que só sabíamos pelo material de propaganda do álbum de figurinhas.
A estrutura parecia frágil. Espelhinho retrovisor e farolete cromado, hum, não sei não... Os pedais não agüentariam uma subida puxada até o clube. As manoplas machucariam as mãos. Os freios davam pinta de arrebentar na primeira brecada. No lugar da garupa, “ridícula!”, deviam botar logo um cestinho, como nas bicicletas de meninas. Dudu não tinha pernas pra se equilibrar naquela, melhor o pai dele comprar um capacete. Ou fazer um seguro, porque a roubariam. Isso se ele não a quebrasse antes.
Chegou o dia e a maioria encontrou alguma coisa para fazer na estação de trem. Seu Alceu abriu a caixa e, ali mesmo, montou a bicicleta azul. Dudu não cabia em si, não sabia se ria ou chorava, ficava andando em volta do pai, perguntando e perguntando, mostrando pra gente detalhes que todo mundo já tinha até se cansado de olhar e babar.
A bicicleta, mais do que linda, era mesmo bastante resistente e moderna. Para nós, Dudu chegou a crescer uns vinte centímetros quando a montou. E, pior: não caiu e nem a quebrou, como desejávamos.
A partir daquele dia passamos a evitá-lo. Não pegava bem sermos vistos montados em nossas velharias enquanto ele se esbaldava com sua possante. Saíamos antes para ir ao clube ou resolvíamos ir a pé, quando ele chegava a tempo. Chegou a nos oferecer emprestada para “uma voltinha”, mas a maioria recusou, não nos interessávamos por novidades e estávamos satisfeitos com o desempenho das nossas.
Alheio à nossa inveja, Dudu continuou com suas peripécias em cima de seu prêmio e, para fustigar nosso despeito, nunca mais levou um tombo. Como, antes, vivia se esborrachando na bicicleta velha. Publicado em 03/09/2004 11:35:00
Diorindo Lopes Júnior - jornalista e autor dos juvenis O Sol em Capricórnio (Atual Editora) e Cesta de 3 (Alis Editora), este indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) como “Leitura Altamente Recomendada”, em 1999
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