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AVALIAÇÃO DA LEITURA

Mônica de Sá Ferreira


A leitura envolve a integração de múltiplos fatores relacionados à experiência do indivíduo, habilidades e funcionamento neurológico. A maioria dos indivíduos com dificuldades de leitura experimentam uma variedade de problemas com a linguagem que origina uma função cerebral alterada e secundariamente, fatores emocionais e do ambiente podem ter um efeito prejudicial no processo de aprendizagem em cada uma delas (COMMITTEE ON CHILDREN WITH DISABILITIES,1998).

O ato de ler compreende desde a decodificação dos símbolos gráficos até a análise reflexiva de seu conteúdo, portanto, para que possamos avaliar a leitura é necessário oferecermos textos pequenos mas completos cujo tema desperte a atenção e o interesse do indivíduo sob teste. Com crianças podemos utilizar livros de história ilustrados ou até mesmo regras de jogos, charadas e desafios. Com adolescentes e adultos podemos trabalhar também com crônicas e reportagens de jornais e revistas, deixando para que ele escolha o de seu maior interesse.  A leitura deve ser realizada em voz alta e em voz baixa e a compreensão avaliada por meio da reprodução oral da história lida (reconto) e por meio da resposta a questões de múltipla escolha. A compreensão da leitura requer capacidades cognitivas, como a elaboração de inferências, e lingüísticas, como conhecimento do vocabulário, da sintaxe, entre outras (Braibant, 1997).

Além dos textos deve ser avaliada a leitura em voz alta de palavras isoladas (familiares e não-familiares) e pseudopalavras (formadas por uma combinação de fonemas ou grafemas que não existem no léxico de uma língua).

Durante a leitura em voz alta devemos observar a velocidade utilizada, entonação, pontuação, os erros (trocas, acréscimos, omissões), as atitudes (apontar, grifos, vocalização), movimentação da cabeça e ocular e a capacidade de concentração.

Segundo o Modelo Cognitivo de Dupla-Rota (Ellis, 1995; Hillis & Caramazza, 1992), a leitura se processa em dois níveis: lexical e fonológico.  Ambas as rotas de leitura iniciam com o sistema de análise visual, que tem as funções de identificar as letras do alfabeto, a posição de cada letra na palavra, e agrupá-las.

A Rota Fonológica utiliza o processo de conversão grafema-fonema, envolvendo a procura de pronúncias para palavras não-familiares e pseudopalavras de uma forma serial, traduzindo letras ou grupos de letras em fonemas, através da aplicação de regras. As representações fonêmicas armazenadas ativam as formas fonológicas das palavras que, por sua vez, levam à ativação das representações semânticas e ortográficas correspondentes.

Na leitura por Rota Lexical, geralmente utilizada por leitores adultos, as representações de milhares de palavras familiares são armazenadas em um léxico de entrada visual, que é ativado pela apresentação visual de uma palavra. Isto é seguido pela obtenção do significado a partir do sistema semântico (depósito de todo o conhecimento sobre os significados de palavras familiares) e, então, a palavra pode ser articulada. Pessoas que utilizam apenas esta rota têm pouca ou nenhuma dificuldade em pronunciar palavras familiares, entretanto, encontram muita dificuldade com palavras relativamente não-familiares e pseudopalavras.

No processo de identificação de palavras, o uso da Rota Lexical permite acesso mais rápido ao léxico mental por ser um procedimento de acesso direto ao significado à partir da estrutura gráfica. Ao contrário, a Rota Fonológica é um procedimento seqüencial, ao menos no início do desenvolvimento da leitura, e, portanto, mais lento do que o anterior. Sendo assim, uma hipótese seria que o uso preferencial da rota lexical levaria a uma maior velocidade de leitura textual e, como conseqüência, uma melhor compreensão de leitura. Quanto mais rápida for a identificação de cada palavra, maior a capacidade da memória de trabalho consagrada às operações de análise sintática, de integração semântica dos constituintes da frase e de integração das frases na organização textual, processos importantes para a compreensão da leitura.

Além do automatismo na identificação de palavras, para compreender um texto é necessário empregar conhecimentos e estratégias que vão mais além da mera combinação de significados lexicais individuais, é necessário elaborar uma representação mental do conteúdo proposicional das mensagens.

A compreensão de um texto não se resume à capacidade de memória, mas também à capacidade de inferir fatos que não são apresentados explicitamente no texto (Brandão & Spinillo, 1998). Segundo Parente, Capuano & Nespoulous (1999) no reconto devem ser avaliadas as inferências (comentários sobre fatos pertinentes a história), interferências (modificação do significado das proposições da história por associação) e reconstruções (introdução de proposições que relatavam fatos não presentes na história original).

A avaliação da velocidade da leitura deve ser realizada dividindo o número de palavras do texto pelo tempo, expresso em minutos. Desta forma teremos o resultado Ppm (palavras lidas por minuto). Os segundos devem antes ser transformado em décimos de segundos, dividindo-os por seis, considerando apenas a parte inteira.

Com esse roteiro teremos uma análise cognitiva da leitura do indivíduo, compreendendo melhor suas características de leitura para, então, pesquisar as possíveis causas, encaminhando-o, se necessário, a outros profissionais e propor intervenção.

Rafael, 9 anos (3a série) foi encaminhado pela escola por apresentar dificuldades em interpretar textos, resultando em um baixo desempenho em Português, História, Ciências e em Matemática, no que se referia a enunciados de problemas. Lendo um pequeno texto sobre a história de uma raposa que para não se perder na floresta deixa rastros de pipoca pelo chão, demonstrou leitura basicamente pela rota fonológica, pois sua decodificação era silábica em muitas palavras e lenta, comprometendo a memória de trabalho e a formação de imagens mentais que representassem o texto lido. Essa análise foi constatada pelo desempenho na leitura de palavras familiares, não – familiares e pseudopalavras. A velocidade de leitura foi quase a mesma, não demonstrando os efeitos de lexicalidade e de freqüência. Sua compreensão oral é eficiente, não demonstrando déficits intelectuais.

Ficou prejudicada, também, a compreensão do texto lido, revelada por meio da dificuldade em responder a perguntas que necessitavam de inferências.

Diante desse retrato, Rafael foi submetido a testes que avaliam a função auditiva (audiometria e testes de processamento auditivo central) além de um teste de consciência fonológica e teste de linguagem (vocabulário). Como resultados apareceram dificuldades de memória auditiva, de consciência fonológica no nível fonêmico e vocabulário reduzido para a idade.

Um trabalho com o objetivo de desenvolver a consciência fonológica, a linguagem oral, as habilidades auditivas de memória seqüencial e a velocidade de leitura foi proposto.

Referências Bibliográficas:

Committee on Children with Disabilities, American Academy of Pediatrics (AAP), American Academy of Ophthalmology (AAO), American Association for Pediatrics Ophthalmology and Strabismus (AAPOS). Learning disabilities, dyslexia, and vision: A subject review. Pediatrics 1998; 102:1217-1219.

Hillis, A. E. & Caramazza, A. (1992). The reading process and its disorders. Em D. I. Margolin (Org.), Cognitive neuropsychology in clinical practice (pp. 229-261). New York, Oxford: Oxford University Press.

Ellis, A. W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: Uma análise cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas.

Braibant, J. (1997). A decodificação e a compreensão: Dois componentes essenciais da leitura no 2º ano primário. Em J. Grégoire & B. Piérart (Orgs.), Avaliação dos problemas de leitura: Os novos modelos teóricos e suas implicações diagnósticas (pp. 167-187). Porto Alegre: Artes Médicas.

Parente, M. A. M. P., Capuano, A. & Nespoulous, J. (1999). Ativação de modelos mentais no recontar de histórias por idosos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 12(1), 157-172.

Brandão, A. C. P. & Spinillo, A. G. (1998). Aspectos gerais e específicos na compreensão de textos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 11, 253-272.

Publicado em 05/08/2004 16:49:00


Mônica de Sá Ferreira - Fonoaudióloga, Especialista em Audiologia, mestranda em Fonoaudiologia. Professora da UNIPAC/ JF – MG.

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