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“O DESERTISMO ESCOLAR”
Angela Cristina Munhoz Maluf |
O desertismo escolar é a escola subjetivamente considerada como um deserto, isto é, como um local onde a criança encontra um vazio afetivo, uma ausência total de relações. Neste caso, a escolaridade não se realiza, as noções ensinadas atingem um espírito que não está apto a recebê-las porque se sente estranho a tudo quanto se diz na escola. Acabamos de verificar o desertismo ligado a tudo o que diz respeito ao grupo de companheiros numa atmosfera escolar que torna impossível o recurso pessoal da criança ao educador. Vejamos o que sucede quando o desertismo provém do educador e do próprio ambiente de ensino. Neste caso chamado “escolasticismo” por FREINET, a própria escola torna-se um meio patogênico. As condições do desertismo escolar são numerosas. Em primeiro plano encontramos, uma população excessiva nas classes, pátios de recreios limitados e geralmente sem decoração recreativa. As classes com mais de 40 alunos são freqüentes hoje em dia; as crianças são obrigadas a sair por turnos para o recreio por não caberem todas juntas num pátio que é demasiado pequeno. O regulamento de uma escola normalmente constituído por uma lista interminável de proibições, torna-se então draconiano a fim de manter a disciplina indispensável. O rigor da autoridade aumenta em progressão geométrica com o número de alunos. O ritmo e a qualidade do ensino diminuem na mesma proporção. Os educadores encontram-se num verdadeiro dilema entre a necessidade de ensinar todos os alunos e os imperativos de um programa sobrecarregado ao qual não se pode subtrair-se.
A solução na maioria das vezes adotada, e que é inevitável neste caso, é a inflexibilidade da autoridade e da disciplina. Tende para situações que podem parecer delirantes, mas que infelizmente, são ainda as que se verificam em certas classes de muitos países. Há lugares que braços são cruzados, mãos vão sobre a cabeça, em outros, a necessidade de ameaçar com medidas repressivas particularmente graves todos os fomentadores de desordem; chega-se assim uma verdadeira chuva de punições, e compreende-se que deste modo à relação pessoal entre o educador e cada educando, assim como entre os próprios educandos, seja completamente esquecida ou impossível, uma vez que silenciar se torna a principal importância. Deve-se a FREINET, iniciador e infatigável fomentador do movimento pedagógico da Escola Moderna, e a estigmatização vigorosa destes defeitos da escola tradicional e o por em prática novos métodos, após a tornarem-na mestra da vida e de socialização que, aliás, é sua verdadeira finalidade. Num clima de “escolasticismo” o nervoso e a irritação do educador vão aumentando, o que agrava ainda mais o seu autoritarismo. Deve acrescentar-se também a influência dos problemas pessoais dos educadores no que diz respeito ao seu gosto pelas medidas repressivas ou às suas aptidões punitivas. Quero salientar o “desertismo” nas escolas no que diz respeito a vivencia de uma relação afetiva pessoal, os educandos sofrem de uma distancia entre o mundo real e o mundo escolar. A vida na escola em si, apenas ocupa uma parte considerável (as crianças passam ali as melhores horas do dia) em que a vida parece vazia neste sentido e onde, pelo contrário, reina a ansiedade. Para agravar o problema, os exercícios escolares são a maior parte das vezes artificiais, isto, é não estão inseridos na vida quotidiana e apresenta-se aos educandos como abstrações que elas são obrigadas a resolver sem perceber o significado. Os estímulos (medo de notas baixas ou de punições) são em si próprios artificiais e destrutivos. O resultado é o medo do educador, geralmente agravado pelo medo dos pais, cujas reações são idênticas às dos educadores no que diz respeito ás más notas que o educando também não encontra em casa a consolação de que necessitava. Surge o desinteresse pelas matérias, que provoca um atraso escolar, que por sua vez se torna grave na medida que exclui o educando desta pequena sociedade que ela deveria integrar. Inúmeros atrasos escolares não têm outra origem senão num condicionamento este que se realizou nos primeiros anos de vida do educando. Este atraso atingirá especialmente os educandos que por motivos caracterológicos ou orgânicos não podem seguir imediatamente o ritmo da classe e sofrem mais do que outros com a ausência de relações.
Não há duvidas que o educando, desde os primeiros anos de vida, tem necessidade de segurança, sentimento a todo o respeito insubstituível, ainda que somente para ele poder aprender e estar disponível perante as noções novas que lhe são propostas.
Não existe nos educandos quase nada para que vibrem e harmonize-se com as exigências íntimas do seu ser. Este universo desértico provoca nos educandos, inibição, isolamento e por vezes revolta, vista nas expressões diretas na própria escola (brigas, indisciplina, etc).
A escola, cuja função é a socialização, não atinge neste caso a sua finalidade.
O que há de mais abstrato na escola, que as relações dos educadores com os educandos, e mesmo dos educandos com os companheiros de classe, é, sobretudo os conhecimentos que educadores pretendem passar aos educandos. Bibliografia
DEWWEY. J-Democracia e educação. São Paulo: Cia. Ed. Nacional-1936.
FREINET.C-Pedagogia do bom-senso. Lisboa: Moraes - 1967.
LIMA, ELVIRA.C -.S - Estudo do papel das interações sociais entre crianças no processo de construção de conhecimento da criança na escola. São Paulo: Edusp, 1991. Publicado em 05/04/2004 11:47:00
Angela Cristina Munhoz Maluf - Ms. em Ciências da Educação,docente de graduação e pós-graduação,psicopedagoga, especialista em Educação Infantil e Especial, escritora, palestrante e consultora de projetos.
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