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ADOÇÃO: A TRAMA AFETIVA ENTRE MÃE E FILHO Maria Lucia Putini Barsuglia
A adoção, muitas vezes, é uma solução satisfatória para a família que não pode conceber o seu filho biológico, por um lado; e, por outro; para a criança que por algum motivo não pôde ser cuidada por sua mãe biológica e por isso necessita de alguém que faça esse papel. Quando há esse encontro parece que tudo se acertou e a adoção, em si, passa a ser uma solução que proporciona a ambos os lados possibilidades de superar essas dificuldades e encontrar situações de vida mais satisfatórias. Mas, na prática, nem tudo parece ser tão simples assim. Existe uma fase de adaptação entre a mãe e seu filho adotivo, fase que será determinada pelo histórico de vida dessa criança antes da sua chegada à nova família. Qual foi o espaço de tempo entre a separação da mãe biológica e o seu encontro com a mãe adotiva, por quantos lares ou instituições a criança passou até se dar à adoção, com que idade se separou de sua mãe biológica; essas são questões importantes que indicarão o grau de dificuldade de adaptação ao novo lar e, ainda, serão indicativos de como se dará o desenvolvimento da personalidade da criança e a sua forma de se relacionar com o mundo. Um crescimento bem integrado depende ao mesmo tempo das disposições inatas da criança e da adequação de seu ambiente familiar. A situação de adoção representa para a criança uma “marca”, devido à separação de seus pais biológicos num período inicial da vida. Muitos autores têm se dedicado ao estudo da importância dos primeiros relacionamentos da criança e denominam de “privação da mãe” a situação na qual a criança tem prejudicada a oportunidade de estabelecer, nos primeiros anos, uma relação complexa, rica e compensadora com a mãe. Quanto maior o intervalo entre a separação da mãe natural e sua adoção definitiva, maior o estado de privação. A mãe originalmente satisfaz todas as necessidades do feto através de seu corpo e, após o nascimento continua a fazer o mesmo por outros meios. Sua ausência é sentida como um perigo, pois a criança não tem mais certeza de que suas necessidades serão satisfeitas e pode ficar exposta a mais intensa angústia. A criança adotiva é uma criança que foi separada da mãe geralmente no período inicial da vida. Muitas vezes, teve que ficar na mão de várias pessoas estranhas ou instituições até chegarem aos pais adotivos, e podemos imaginar que, por isso, precisa de um tempo maior para se adaptar a eles. A criança adotiva, ainda pequena, deve acomodar-se ao contato de um ritmo corporal desconhecido, à linguagem ou sinais de outro corpo, enquanto que o vínculo corporal anterior é definitivamente perdido. Supõe-se que essa descontinuidade inicial seja à base de uma maior sensibilidade dessas crianças diante de situações de separação e um medo exacerbado de serem abandonadas. Por outro lado, existe a necessidade da mãe adotiva adaptar-se à sua criança recém-chegada. O estado especial de gravidez prepara a futura mãe para receber seu filho. Nesse período parece haver uma crescente sensibilidade que atinge seu apogeu com o nascimento; momento em que há uma verdadeira comunhão entre ambos. Esse estado é o responsável pela intuição materna e pela possibilidade da mãe dar significados às necessidades do seu bebê. A mãe adotiva não passou por essa experiência e, portanto terá que ser paciente e sensível para que possa desenvolver essa capacidade de “entendê-lo sem palavras” e ajudar seu filho a se sentir compreendido e contido. A mãe adotiva pode suprir as necessidades básicas da criança à medida que se estabelece entre elas uma relação íntima, calorosa, regular e constante. É plenamente possível. O laço entre pais e filhos não depende somente de um vínculo biológico, mas de uma possibilidade de ligação psíquica profunda que inclui continência, sincronicidade e sintonia. Para isso, seria muito importante que pais adotivos, de modo geral, pudessem ser orientados por profissionais qualificados. Com isso, poderiam proporcionar melhores condições para um bom desenvolvimento de seus filhos; além de terem maior percepção de seus próprios medos e anseios na condição de pais. Publicado em 03/02/2004 11:18:00
Maria Lucia Putini Barsuglia - Psicóloga Clínica CRP 06/35199-1
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