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COMO EDUCAR UMA CRIANÇA: OS CAMINHOS APONTADOS POR REICH Juracy Machado Pacífico
Resumo: Este artigo é resultado de uma pesquisa realizada em 2001, por ocasião do Curso de Mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, sobre as idéias educacionais de Wilhelm Reich, médico, psicanalista, nascido em 24 de março de 1897 na Áustria e falecido em 1957 nos Estados Unidos. Ele foi aluno de Sigmund Freud e inicialmente aceita as teorias freudianas, porém, após alguns anos começa a contestá-las. Wilhelm Reich esteve sempre preocupado com a felicidade humana e também foi indiscutivelmente muito coerente em suas teorias. Buscamos neste trabalho refletir as suas contribuições relacionadas à educação.
Palavras-chave: educação infantil, educadores, psicanálise e satisfação pulsional.
1. Introdução
Quando pais e educadores souberem porquê e para quê educam na realidade, quando as autoridades competentes deixarem de acreditar que a sua actuação se guia unicamente para o ”bem da Humanidade”, quando a massa compreender que a relação entre crianças e adultos representa a oposição entre mundos distintos, então – surgirá talvez uma possibilidade de pensar em medidas positivas de educação”.
Wilhelm Reich
Wilhelm Reich não é um autor muito conhecido, porém, apresenta grandes idéias no campo da educação. Sem dúvida suas teorias são valiosas e deveriam ser conhecidas por pais e educadores. Quem ousar ler suas teorias certamente irá perceber que educar é um processo não muito fácil, porém a educação é fundamental para que se possa chegar à felicidade humana. Sabemos, no entanto que as formas de educar poderão influenciar decisivamente na vida do indivíduo. A psicanálise nos mostra que muitos conflitos psíquicos surgem, principalmente nas crianças, e que estes influenciarão o adulto que a criança será no futuro. Reich, por sua vez, procurou, através de suas teorias, refletir sobre formas educativas que são adequadas e outras que são inadequadas ao processo educativo da criança. Desta forma, por sua coerência e preocupação com a saúde das pessoas, vale a pena conhecer suas idéias.
Para a realização do trabalho de campo elaboramos um questionário com perguntas que abordaram as formas educativas definidas por Reich, que, de um jeito ou de outro, acabam sendo práticas autoritárias e tolhedoras. Entregamos o questionário a pessoas de diferentes níveis sociais, econômicos e culturais. Algumas, apenas alfabetizadas, mas sem escolarização. Utilizamos a pesquisa exploratória e aplicamos quinze (15) questionários dos quais resgatamos catorze. Através deste questionário pudemos investigar se as práticas educativas definidas por Reich são comuns ou não, pois a hipótese inicial foi a de que os pais, apesar de desconhecer as teorias reichianas e suas idéias educacionais, a aplicam, procurando educar seus filhos com respeito e coerência, e esta, principalmente no que se refere a questões como grande frustração e satisfação pulsional.
dois.Apresentação dos dados coletados
Sabemos que na parte de exposição dos dados, alguns pesquisadores preferem rechear de percentuais. Optamos por relatar as respostas sem o uso de percentuais, utilizando, na analise, termos como “a maioria”, “grande parte”, “muitos (as)”, etc.
Na parte de identificação dos questionários podemos colher as seguintes características e informações:
Das quinze (15) pessoas que receberam o questionário, uma não o devolveu: dos quatorze, três (03) tem a idade entre 18 e 30 anos; Oito (08) tem a idade entre 31 e 45 anos e; três tem idade superior a 45 anos; cinco (05) pessoas são do sexo masculino e nove (09) pessoas do sexo feminino.
Quanto ao nível de escolaridade:
quatro (04) com Ensino Fundamental Incompleto;
seis (06) possui ensino médio;
um (01) com ensino médio incompleto;
duas (02) possui curso superior;
um (01) com curso superior incompleto.
Perguntamos a eles, se o exagero educativo poderia causar danos à futura personalidade do individuo. As respostas foram as seguintes:
danos psicológicos e de comportamentos;
adultos sem iniciativas diante de eventuais problemas;
adultos revoltados;
pessoas nervosas, frustradas, incapazes de relacionamento com a família no trabalho e na sociedade;
adulto descontrolado, nervoso e, fará o mesmo com seus filhos, inseguro e com personalidade fraca;
adultos neuróticos, psicopatas, violentos, desajustados, homicidas, homossexuais, inescrupulosos, promíscuos e marginais;
adulto revoltado e marginal;
adulto revoltado agressivo e melancólico;
revolta, agressividade, insegurança e timidez;
indivíduos apáticos e revoltados com personalidade violenta;
No que se refere à atitude dos pais, as respostas foram:
falta de diálogo;
insegurança e falta de informação dos pais;
falta de formação dos pais e de compromisso com a educação dos filhos e comodismo;
a falta de informação dos pais;
situação financeira e problemas no dia-a-dia;
o ambiente em que os pais conviveram na infância e a educação que receberam;
pais educados com brutalidade, sofrendo maus tratos e abusos em vários aspectos e que acreditam que para educar é preciso castigar;
influência da educação que receberam juntamente com dificuldades sócio-econômicas e conseqüência da nossa sociedade conturbada;
desemprego, bebida, falta de religião, falta de dialogo;
falta de preparação dos pais e influencia da educação que receberam;
imaturidade, situação financeira miserável e vícios (alcoolismo);
desajustes no casamento, insatisfação profissional, problemas financeiros;
paternidade precoce, desajuste no casamento.
Perguntamos também se a permissividade exagerada no processo educativo da criança poderia causar danos à futura personalidade do individuo. As respostas foram:
adultos alienados sem consciência das dificuldades no meio social;
no futuro será um adolescente sem limites e um adulto egoísta que não respeita as leis sociais;
adulto exigente e imaturo com forte tendência ao suicídio;
poderá gerar adolescentes que não respeitam seus pais;
fabricação de delinqüentes;
pessoas dependentes que não sabem assumir responsabilidades;
oito (08) pessoas concordaram com essa pergunta, mas não justificaram.
E, quando a atitude dos pais, os entrevistados acreditam que os pais agem assim porque:
tem medo de perder o controle dos filhos;
pais inseguros com relação à educação dos filhos;
os pais que foram educados desta maneira;
excesso de amor;
comodismo: é fácil dizer sempre sim; compensação: os pais não tiveram tudo, então dão tudo aos filhos; liberdade: pais que foram educados de forma castradora agem ao contrario com os filhos;
medo de perder o carinho dos filhos e porque foi educado assim como criança;
pais que querem dar aos filhos o que não tiveram na infância;
imaturidade falta de dialogo;
compensar ao filho aquilo que não teve;
despreparo para constituir família;
falta de maturidade para a paternidade;
pais separados;
dedicação excessiva a vida profissional gerando sentimento de culpa (compensam os filhos em tudo o que querem).
Perguntamos então se uma educação que permite tudo em um momento e, em outro, é exageradamente proibitiva, poderia causar danos à futura personalidade do individuo. Tivemos então as seguintes respostas: gerará...
adultos sem capacidade de pensar;
indecisões;
tímidos;
sem poder de discernimento;
adulto sem poder de decisão;
indefinidos sexualmente;
adultos com sentimentos de ódio;
adulto inseguro.
E quanto à atitude dos pais que educaram seus filhos assim, os pesquisadores acreditam que são:
pais inseguros e desinformados;
falta de conhecimento de como educar a criança;
insegurança dos pais;
pais confusos;
pais sem discernimento do que é certo ou errado;
pais sem base educacional;
pais autoritários que não pensam antes de agir;
choque de geração – educar como foram educados;
pais imaturos;
pais separados;
pais que não possuem equilíbrio emocional para superar obstáculos do cotidiano.
Então perguntamos quais das formas educativas que foram apresentadas eles utilizam para educar seus próprios filhos. Os resultados encontrados foram:
doze (12) pais responderam que não utilizam nenhuma das formas apresentadas e;
dois (02) pais responderam que utilizam aquela forma que tanto é exagerada naquilo que proíbe quanto naquilo em que é permissiva.
Aqueles, entre os doze, que não responderam a questão acima disseram que a melhor forma de educar a criança é aquela que:
permite à criança o desenvolvimento dos valores relacionados com as necessidades do seu mundo;
os pais conversam com seus filhos;
se educa com amor, carinho e conversa;
ensina a criança caminhar sozinha, que tolera a criança para que esta possa ser tolerante, estimula confiança e que trata a criança com justiça;
que educa a criança com vigilância e tolerância e que utiliza um pouco de cada coisa, nem violência com proibição de tudo, nem liberdade em excesso;
educa a criança através de diálogo, e acompanha a criança em seus estudos preparando-a para o mundo que vivemos;
educa com equilíbrio, ou seja, utiliza um pouco de cada coisa com limites;
ensina liberdade com responsabilidade – umas palmadinhas de vez em quando faz bem;
corrige a criança com firmeza, mas sem violência.
Sobre a masturbação, obtivemos os seguintes resultados:
das cincos (05) pessoas de sexo masculino que responderam o questionário, apenas uma, a que tem nível superior incompleto, aceita esta prática como algo natural e que não deve ser proibida. As demais, uma com ensino médio incompleto e três com ensino fundamental incompleto, não reconhecem esta prática como algo natural;
das nove (09) pessoas do sexo feminino que responderam aos questionários, cinco (05) acreditam ser a masturbação algo natural porém, três (03) não responderam e uma (01) acredita que a criança deve ser mantida em vigilância para que não cometa esta prática.
Salientamos que as respostas acima apresentadas não correspondem ao número de pessoas pesquisadas, pois algumas delas não responderam a alguns itens e em outros itens, a grafia estava ilegível e não conseguimos compreender e, outras ainda, deram mais de uma justificativa para cada item e nós a colocamos separadamente.
3. Considerações sobre os dados
Percebemos que, mesmo com diferenças de idade e de níveis de escolarização, todos foram unânimes em responder que o exagero educativo pode causar problemas à futura personalidade do indivíduo e, os danos relatados nas respostas são quase comuns a todos. Reich, quanto a esta forma educativa explica que a grande quantidade de frustração, no ato educativo poderá tornar os indivíduos com excelente capacidade de contenção, gerando caracteres impulsivos. Percebemos, através das respostas, que as pessoas estão razoavelmente informadas dos danos psicológicos que podem ocorrer com relação a esta forma educativa.
Quanto ao comportamento dos pais, percebemos que há justificativas variadas, mas duas se destacam: os pais repetindo a educação que receberam e a situação financeira. Reich, quanto a esta questão, diz que uma educação repressora pode ser conseqüência da “patologia do educador”. Aqui, a compulsão a educar pode surgir de conteúdos inconseqüentes do pai-educador. O que seria isso: os pais, diante das manifestações instintivas da criança recordam os seus desejos reprimidos e fazem o mesmo, reprimem também.
Já o fator da situação financeira não é enfatizado por Reich exatamente como responderam, mais é evidente que, quem leu o mínimo de Reich, percebe que sua preocupação com as neuroses, as doenças psíquicas, está voltada para as questões sociais e econômicas também. Não foi de graça que ele filiou-se ao marxismo.
Quando perguntamos aos pais se uma educação permissiva poderia causar danos à futura personalidade do individuo, as repostas foram variadas, embora todos concordassem que sim. Os danos citados, como vimos na exposição dos dados, foram diversos.
Reich diz que nesta forma educativa, com pouca frustração e muita satisfação pulsional, o resultado seria a formação de um adulto sem capacidade de adiar satisfação, ou seja, tudo o que quiser deverá ser satisfeito no exato momento em que desejar. Para a convivência social, esta não é uma boa saída. Nem tudo estará a nosso dispor a qualquer hora e lugar. Tudo tem seu tempo. O próprio Reich diz isso.
Uma mãe de 25 anos, solteira, com três filhos deu a seguinte resposta a essa questão: “Se deixar à criança fazer tudo o que quer, no futuro será um adolescente sem limites e um adulto que não respeita as leis da sociedade e pensará que o mundo existe em função da existência dele”.
Acreditamos que seja por aí, que esta resposta esteja bem de acordo com o referencial reichiano. No que se refere à atitude dos pais permissivos, as respostas, como vimos, não estão muito distantes uma das outras. Boa parte acredita que o pai quer dar ao filho o que não teve. Reich chama isso de desejo de corrigir a própria infância. Suas frustrações infantis geram a vontade de educar, e então, educam desta maneira. Ele acrescenta que certamente o excesso de mimo em nada ajudará a criança no futuro.
Com relação à educação, verificamos que em um momento os pais são altamente permissivos e em outros, altamente proibitivos, com frustrações intensas e traumáticas. As repostas também variaram mas, a essência não mudou; todos acreditam, em se tratando dos extremos, ser uma forma educativa perigosa, pois geraria indivíduos indecisos, sem determinação, inseguros, sem saber o que querem da vida, sem a menor noção de certo e errado e sem capacidade de pensar.
Nesta questão as repostas não são muito (ou quase nada) reichianas, pois Reich acredita que esta forma educativa gera tipos impulsivos e, como vimos, as pessoas entrevistadas acreditam que as crianças se tornaram adultos sem muito rumo.
No que se refere à atitude dos pais, a maioria acredita que os pais agem assim por insegurança por não terem uma forma educativa definida. Agem de uma forma e, de repente, sentem medo de perder o filho (a) e, e agem de outra forma. Pelo que entendemos, esta também não é a tese de Reich. Para Reich esta educação pode ser fruto da compulsão a educar que ele chama de “ambição insatisfeita”. Os pais querem filhos altamente educados, compreensivos, com comportamento adulto. Se estes então, por alguma razão, fazem algo do mundo dos adultos então são recriminados porque ainda são crianças. Podemos ver que Reich tem várias justificativas para as atitudes de pais e educadores.
Quando perguntamos aos pesquisados quais das três formas de educar a criança, apresentadas, eles utilizavam, dois responderam que utilizavam aquela educação em que “em um momento é permissiva e em outro, exageradamente repressora”. Os demais justificaram que utilizam outras formas educativas.
É interessante ressaltar que a grande maioria concorda que a educação deve acontecer com conversa, diálogo e, alguns também apostam na idêntica forma educativa - a quarta forma apresentada em sua obra - a que Reich se refere: harmonizar ritmos e equilíbrio entre grau de satisfação e frustração pulsional, como? Esses pais apostam em umas palmadas de vez em quando. Acreditam que tudo tem seu tempo e nem tudo o que a criança pede pode ser dado, ou permitido. É preciso dosar para que a criança cresça e possa conviver socialmente.
Dado interessante foi o que vimos sobre onanismo. Das cinco (05) pessoas de sexo masculino que responderam o questionário, apenas uma, a que tem nível superior incompleto, aceita esta prática como algo natural e que não deve ser proibida. As demais, uma com ensino médio incompleto e três com ensino fundamental incompleto não reconhecem esta prática como algo natural, visto que não marcaram a alternativa. Interessante é que, com certeza já passaram por isso e passam, mesmo assim não acreditam ser algo natural.
Percebemos então que a falta de informação ainda é grande. As pessoas ainda não têm muita clareza de algumas coisas. Isso é ruim pois, se são pais e, desinformados, se tiverem oportunidade de reprimir a criança, com certeza o farão e, podem estar criando pessoas neuróticas sem a menor preocupação. Embora acreditam na educação com diálogo, etc., entendemos que as questões sexuais ainda precisam de maiores esclarecimentos.
Já, das nove (09) pessoas do sexo feminino que responderam aos questionários, cinco (05) acreditavam ser a masturbação algo natural, porém, três (03) não responderam e uma (01) acredita que a criança deve ser mantida em vigilância para que não cometa esta prática. De acordo com as respostas, as mulheres estão mais esclarecidas que os homens. Porém sabemos que, como próprio Freud diz, a religião às vezes tem forte peso nestas questões, prevalece à idéia de sexo como algo pecaminoso. Mas a essência do que afirmamos fica: as pessoas estão pouco esclarecidas sobre as questões sexuais.
Percebemos que a forma de educação mais adequada só pode ser aquela equilibrada, harmônica e com limites, embora ainda não seja esta praticada pela grande maioria dos pais e educadores. A desinformação por parte dos pais e mães, tanto jovens quanto adultos e de terceira idade também é fator implicante desse fenômeno.
Concordamos com Albertini (1997), professor do Instituto de Psicologia da USP e estudioso de Reich, sobre a importância dos limites na educação onde devemos levar em conta que “(...) a tarefa fundamental, que merece ser continuamente estudada e aprofundada, diz respeito à arte de colocar limites sem anular a expressividade sexual, e, portanto vital, do ser humano. (p. 69)” Referências Bibliográficas:
ALBERTINI, P. Reich: História das idéias e formulação para a educação. São Paulo: Agora, 1994.
___________ A Sexualidade e o processo educativo: uma análise inspirada no referencial reichiano. In: Aquino, JG (Org.) Sexualidade na Escola: alternâncias teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1997, p.53-70.
REICH. W. Os pais educadores: a coação a educar e as suas causas (1926) In: Reich. W. e Schmidt, V. Psicanálise e Educação. Lisboa, Bragança: Livraria Ler, 1975. p.195-217.
___________ Os jardins de infância na Rússia Soviética (1936) In: Conselho Central dos Jardins de Infância Socialistas de Berlim; Shimidt, V; Reich, W. Elementos para uma pedagogia antiautoritária. Porto: Escorpião, 1975, p.39-52.
____________ O Abraço Genital. In: Reich. W. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1982-cap III. Publicado em 03/02/2004 11:12:00
Juracy Machado Pacífico - Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Professora do Curso de Pedagogia da UNIPEC – Faculdade de Porto Velho - Rondônia, ministra as disciplinas Teorias da Aprendizagem e Metodologia da Alfabetização.
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