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- ISSN 1808-6225
O SOCIAL E O CULTURAL NA PRÁTICA DOCENTE
Eder Ahmad Charaf Eddine
Resumo: O presente trabalho realiza uma investigação da importância do social e do cultural na prática docente de professores de educação infantil. Percebemos que os professores precisam ter suporte para analisar esse social e cultural em seus alunos. Vigotski destaca que não existe cultural sem social e que é a partir do social que os sujeitos internalizam conhecimentos, papéis e funções sociais. Essas concepções trazem elementos importantes para se pensar o estabelecimento de diretrizes pedagógicas para a educação em geral e para a educação infantil. As concepções teóricas apontam um novo olhar ao papel do educador, enfatizam que é fundamental o acesso das crianças à cultura acumulada historicamente. Tal papel deve envolver a participação ativa da criança no processo do conhecimento.
Palavras chave: Teoria Histórico-Cultural, prática docente, Educação Infantil.
Introdução
Este trabalho traça a relevância do social e do cultural, tanto na formação de futuros pedagogos, que trabalharão na Educação Infantil, quanto na sua utilização em sala de aula. Para tanto, utilizaremos as concepções teóricas da Teoria Histórico-Cultural que destacam a essencialidade do papel da aprendizagem e da educação enquanto forças motoras do desenvolvimento humano.
A referida teoria percebe o desenvolvimento humano como produto das relações e mediações que acontecem no social. Desse modo, seu estudo possibilita reformulações de práticas pedagógicas essenciais para a educação infantil. Práticas estas construídas com base em concepções tradicionais do homem, do desenvolvimento, do papel da educação e do educador (MELLO, 1999).
Segundo Mello (1999, p. 17) “a tese central dos estudos desenvolvidos por Vigotski e seus colaboradores contradiz a concepção, vigente até recentemente entre nós, de que a criança já nasce com um conjunto de potencialidades inatas que as condições de vida e educação vão ajudar a desenvolver”. Para Vigotski (2000), o homem não nasce humano, vai humanizando-se de acordo com a apropriação da cultura que as novas gerações encontram ao nascer. Esta, cultura, por sua vez, é peculiar ao momento histórico em que o indivíduo nasce e ao lugar que ocupa nessa sociedade.
Nesse sentido, todas as relações com mundo, a visão, o olfato, o tato, o pensamento, etc. são produtos da história resultante da apropriação da realidade humana. O homem torna-se humano na medida em que atua sobre a realidade, ou seja, atua no conjunto da produção humana e da natureza que existe fora dele, objetivamente, independente dele, apropriando-se dela e transformando-a.
Vigotski (2000, p. 24) relata que “todo desenvolvimento cultural passa por três estágios: em si, para outro, para si”. Assim, podemos afirmar que o social e o cultural constituem duas categorias fundamentais na obra do autor. Para Sirgado (2000, p. 47),
O termo social, visto que ele é um conceito que qualifica formas de sociabilidade existentes no mundo natural, não permite por si só explicar formas de organização social que extrapolam o campo dos fenômenos naturais, como é o caso da sociabilidade humana. (grifos do autor)
Percebe-se que a existência social humana pressupõe a passagem da ordem natural para a ordem cultural, ou seja, a história do homem é a história dessa transformação, a qual traduz a passagem da ordem da natureza à ordem da cultura.
Desse modo, percebe-se que o cultural é social, ou seja, tudo o que é cultural é social, o social adquire, assim, uma forma mais ampla, “o social é, ao mesmo tempo, condição e resultado do aparecimento da cultura” (SIRGADO, 2000, p. 53).
Para Vigotski (2000, p. 24) “qualquer função psicológica superior foi externa – significa que ela foi social; antes de se tornar função, ela foi uma relação social entre duas pessoas”. A relação social é, aqui, percebida como o apreender do cultural, seguimos o mesmo pensamento colocado por Vigostiski, como uma lei, uma “lei geral: qualquer função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos – primeiro no social, depois no psicológico, primeiro entre as pessoas como categoria interpsicológica, depois – dentro da criança” (VIGOTISKI, 2000, p. 26).
Assim, Sirgado (2000), ao relatar o pensamento de Vigotski, destaca que no lugar de perguntar como a criança se comporta no meio social, precisamos perguntar como o meio social age na criança para criar nela as funções superiores de origem e natureza sociais. O social e as funções mentais superiores são umas das relações que Vigotski estabelece como relação de estudo, aqui cabe discorrermos que outra relação interessante é entre o social e o cultural.
O social para Vigostski tem muitas significações:
1) mais geral – todo o cultural é social; 2) sinal – fora do organismo, como instrumento, meio social; 3) todas as funções superiores constituíram-se na filogênese, não biologicamente, mas socialmente; 4) mais grosseira – significação – os mecanismos dela são uma cópia social. Elas são transferidas para a personalidade, relações interiorizadas de ordem social, base da estrutura social da personalidade. (VIGOTSKI, 2000, p. 26, grifos do autor)
O conceito de cultura compreende-se como um produto, ao mesmo tempo, da vida social e da atividade social do homem (VIGOTSKI, 1997 apud SIGARDO, 2000), a vida social e a atividade social têm que ser compreendida numa matriz teórica, onde encontramos o a cultura entendida como prática social resultante da dinâmica das relações sociais que caracterizam uma determinada sociedade e como produto do trabalho social, nos termos de Marx e Engels.
De acordo com esse pensamento, a cultura é a totalidade das produções humanas, ou seja, da atividade humana.
Nas palavras de Vigotski (2000, p. 27):
Paráfrase de Marx: a natureza psicológica da pessoa é o conjunto das relações sociais transferidas para dentro e que se tornaram funções da personalidade e formas da sua estrutura. Marx: sobre um homem como ‘genus’, aqui – sobre o indivíduo (grifos do autor).
O externo transforma em interno, apropria-se, o homem é um conjunto de relações sociais, encarnado no indivíduo.
A educação infantil e as contribuições de Vigotski
A educação infantil é a atividade com crianças de zero a seis anos, que surge com instituições que esteve relacionado com a criação da escola e do pensamento pedagógico moderno. Historicamente, creches e pré-escolas surgiram juntamente com as escolas e o seu surgimento associa-se ao trabalho materno fora do lar a partir da revolução industrial.
Há a necessidade de aprofundar as questões sobre educação infantil, numa perspectiva mais abrangente, ou seja, compreender a educação infantil como parte da totalidade social e cultural.
Pasqualini (2008) apresenta os resultados de sua pesquisa no mestrado, em que buscou investigar as relações entre desenvolvimento infantil e ensino em obras selecionadas de Vigotski, Leontiev e Elkonin, autores soviéticos vinculados à psicologia de vertente histórico-cultural.
Segundo a autora “por meio de um estudo de natureza teórico-conceitual, buscamos identificar os princípios gerais que regem o processo de desenvolvimento infantil segundo essa vertente da psicologia” (PASQUALINI, 2008, p. 2)
Ao explanar sobre a teoria de Vigotski a autora utiliza-se dos conceitos centrais da obra do autor, como a concepção social do indivíduo, que o desenvolvimento intelectual infantil deveria ser estudado como resultado da assimilação prática da realidade, ou seja, em estreita relação com a atividade prática da criança; os signos, que
Vigotski define os signos como estímulos-meio artificiais introduzidos pelo homem na situação psicológica que cumprem a função de autoestimulação, isto é, constituem meios para dominar a conduta (própria ou alheia) (PASQUALINI, 2008, p. 8)
Relata que são exemplos de funções psíquicas superiores a atenção voluntária e a memória cultural, entre outros.
A autora conclui dizendo que:
Acreditamos ter evidenciado o papel diretivo do adulto na promoção do desenvolvimento infantil e a conclusão de que, para a Psicologia Histórico-Cultural, não é possível se pensar o papel do educador como alguém que apenas estimula e acompanha a criança em seu desenvolvimento. O professor é compreendido como alguém que transmite à criança a experiência social acumulada, explicita os traços da atividade humana objetivada e cristalizada nos objetos da cultura e organiza a atividade da criança, promove o desenvolvimento psíquico. (PASQUALINI, 2008, p. 15).
Oliveira e Freitas (2008) analisam como os significados culturais começam a fazer parte do mundo interno da criança, para isso o presente texto consiste no relato de uma pesquisa que procurou acompanhar um período inicial da vida da criança para observar o acontecer desse processo de internalização dos significados culturais a partir da relação estabelecida com o outro, utilizou a faixa etária de 12 aos 20 meses de vida no ambiente de natação infantil.
Os autores, em suas considerações, relatam o tempo curto da pesquisa e colocam uma questão importante a respeito da teoria desenvolvida por Vigotski:
Durante a experiência do trabalho de campo viemos observando, por um lado, um processo de pré-significação semelhante ao descrito teoricamente por Vygotsky. Mas, por outro lado, estava ficando a sensação de que a união entre as atividades de pensamento e linguagem não aconteceria em um momento determinado como sugeriu o autor russo, mas de forma gradual. Apareceu, nesse sentido, a seguinte questão: será que podemos, mesmo para fins didáticos, reduzir essas complexas funções em linhas de desenvolvimento e ainda afirmar que, em algum momento, elas vão se cruzar? Às vezes, durante esse processo de pesquisa, sentíamos que estávamos esperando um comportamento ou uma espécie de marco divisório que não iria acontecer. (OLIVEIRA; FREITAS, 2008, p. 12).
Garcia (2008) apresenta um relato de uma “pesquisa voltada à busca da superação do modelo tradicional de ensino, fundamentada no estudo da Psicologia Histórico-cultural” (p. 2), onde o autor analisou a “possibilidade de facilitação e potencialização da aprendizagem dos conteúdos escolares a partir da escrita e do diálogo estudante-estudante e estudante-professor em sala de aula” (p.2).
O autor expõe a teoria começando pela compreensão do desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Assim, “seriam funções psicológicas superiores as ações conscientemente controladas, como: a atenção voluntária, a memória ativa, o pensamento abstrato, o comportamento intencional e a formação de conceitos” (GARCIA, 2008, p. 3).
A construção dessas funções superiores decorre, em parte, da transformação das funções elementares, ao longo da história social do ser humano, em sua relação mediada com o mundo, sendo este o principal processo responsável pela internalização de formas culturais de comportamento (GARCIA, 2008).
Expõe que é a partir do social que vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais.
Mello (1999) relata que o bom ensino é aquele que incide sobre o que a criança não sabe. Que a escola de Vigotski contribui para um novo olhar na educação infantil em geral, e para a creche, que mais sofre com as concepções inatistas do desenvolvimento humano. Concepções estas que ainda perpassam as instituições especializadas em educação de crianças de zero a seis anos.
Concordamos com Mello (1999, p. 22) quando diz que “o educador não deve fazer as atividades por e nem para a criança, mas sim fazer com ela: atuando no papel de parceiro mais experiente que atua em colaboração, mas não em lugar da criança”. Como lembra Vigotski (2001), o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da memória, se constroem a partir do exterior, inicialmente a criança precisa experimentar a fala, a memória, a linguagem, junto com o outro para depois essas funções internalizarem em seu pensamento.
[...] fica claro que o papel da instituição de atendimento infantil é dirigir o trabalho educativo para estágios de desenvolvimento ainda não alcançados pela criança. Ou seja, o trabalho educativo deve ser um motor para novos conhecimentos e novas conquistas psíquicas, a partir do nível real de desenvolvimento da criança: de seu desenvolvimento consolidado, daquilo que ela já sabe. [...] O educador deve, portanto, intervir, provocando avanços que de forma espontânea não ocorreriam. (MELLO, 1999, p. 23).
Assim, corroborando com Duarte (2000, p. 79) “a psicologia vigotskiana fornece apoio a uma pedagogia que valoriza a transmissão das formas mais desenvolvidas do saber objetivo produzido pela humanidade”.
Considerações Finais
Percebemos, na realização do presente trabalho, que a teoria Histórico-Cultural desenvolvida por Vigotski é uma teoria que vem ganhando espaço no meio acadêmico, por considerar o social e o cultural e também por ser uma teoria que busca conciliação com a prática.
A presença das idéias da Teoria Histórico-Cultural na educação infantil é importante para romper com concepções que não valorizam a infância, o social e o cultural. Valorizar este social é valorizar o lugar que as crianças devem ocupar, não a considerando como incapazes de aprender ou que estragam tudo. Assim, colocamos os objetos que podem provocar conhecimentos em lugares fora do alcance das crianças, como os lápis, os papéis, os livros, entre outros.
Concluindo, as concepções da teoria histórico-cultural permitem um novo olhar para a educação infantil, uma sólida formação dos educadores, valorizando a aquisição do conhecimento social e historicamente construído.
Bibliografia
Referências
DUARTE, Newton. A Anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco: A dialética em Vigotski e em Marx e a questão do saber objetivo na educação escolar. Educação & Sociedade, Campinas-SP, ano XXI, n. 71, p. 79-115, jul. 2000. Disponível em: <www.scielo.org.br>. Acesso em: 04 jun. 2009.
GARCIA, Daniel Espírito Santo. A importância do diálogo e da escrita no processo de compreensão dos conteúdos escolares: um estudo com base na psicologia histórico-cultural. In: Reunião Anual da Associação Nacional de Pesquisa em Educação, 31., 2008, Caxambu-MG. Anais eletrônicos...Caxambu: ANPED, 2008. Disponível em: <www.anped.org.br>. Acessado em: 14 jul. 2009.
MELLO, Suely A. Algumas implicações pedagógicas da Escola de Vygotsky para a educação infantil. Pro-posições, Campinas, v. 10, n. 1(28), p. 16-27, 1999.
OLIVEIRA, Flávio Garcia de; FREITAS, Maria Teresa de Assunção. Compreensão de significados e internalização na primeira infância. In: Reunião Anual da Associação Nacional de Pesquisa em Educação, 31., 2008, Caxambu-MG. Anais eletrônicos...Caxambu: ANPED, 2008. Disponível em: <www.anped.org.br>. Acessado em: 14 jul. 2009.
PASQUALINI, Juliana Campregher. Desenvolvimento infantil e ensino: a análise históricocultural de Vigotski, Leontiev e Elkonin. In: Reunião Anual da Associação Nacional de Pesquisa em Educação, 31., 2008, Caxambu-MG. Anais eletrônicos...Caxambu: ANPED, 2008. Disponível em: <www.anped.org.br>. Acessado em: 14 jul. 2009.
SIRGADO, Angel Pino. O social e o cultural na obra de Vigotski. Educação & Sociedade, Campinas-SP, ano XXI, n. 71, p. 45-78, jul. 2000. Disponível em: <www.scielo.org.br>. Acesso em: 04 jun. 2009.
VIGOTSKI, Lev S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
VIGOTSKI, Lev S. Manuscrito de 1929. Educação & Sociedade, Campinas-SP, ano XXI, n. 71, p. 21-44, jul. 2000. Disponível em: <www.scielo.org.br>. Acesso em: 04 jun. 2009.
Publicado em 06/07/2012 14:57:00
Currículo(s) do(s) autor(es)
Eder Ahmad Charaf Eddine - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Psicólogo, Mestre em Educação pela UFMS.