A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS INFANTIS
Fernanda Lucia Paulino e Gleicione Aparecida Dias Bagne de Souza

Sumário

A contação de histórias infantis como recurso psicopedagógico

RESUMO
O presente artigo tem por propósito analisar como as histórias podem servir de apoio no consultório pscicopedagógico. Sabemos que as formas tradicionais de leitura e escrita parecem não estar dando conta da aprendizagem das crianças. Por isso, pensou na contação de histórias como uma forma alternativa, e talvez, mais interessante em um diagnóstico pedagógico. O ouvir e contar histórias permite que a criança construa a sua própria história, esta faz com que a criança se desenvolva no meio em que vive buscando sua autonomia e liberdade de fazer sua própria escolha. A contação também proporciona emoções por meio das ilustrações fazendo com que a criança pense e reflita sobre a história que lhe foi contada. O terapeuta tem um papel fundamental para elevar a criatividade da criança criando meios para que ela possa construir a sua própria história.

Palavras-chave: Contação de história. Pscicopedagogia. Diagnóstico.

THE STORYTELLING PSYCHOPEDAGOGUE CHILDREN AS A REMEDY
Keywords:
Storytelling. Psychopedagogue. Diagnosis.
ABSTRACT
The purpose of this paper is to analyze how the stories can assist in the office pscicopedagógico. We know that traditional forms of reading and writing do not seem to be taking account of children's learning. So, thought of storytelling as an alternative and perhaps more interesting in a pscicopedagógico diagnosis. The hearing and telling stories allows the child to build their own history, this causes the child to develop in the environment of their lives seeking autonomy and freedom to make their own choice. The storytelling also provides illustrations of emotions by making the child think and reflect on the story he was told the therapist has a role to increase the creativity of children by creating the means for it to build their own story.

1 INTRODUÇÃO
Sabe-se que a melhor forma de obter conhecimento é através da leitura de bons livros. No mundo tecnológico que vivemos é comum não encontrarmos grandes leitores, pessoas que se deliciem ao ler. Esse é um dos motivos que levam ao empobrecimento do vocabulário e as dificuldades de interpretação de textos. É certo salientar, que para se formarem grandes leitores é preciso viver em um ambiente propício, onde livros, panfletos, revistas, jornais e até uma receita culinária sejam um convite para uma leitura agradável. Como defende Paulo Mendes, (2007) consultor do PNLD “ler é inserir o indivíduo na sociedade, a princípio é preciso identificar o que os alunos já sabem o que eles trazem do seu cotidiano, para ensiná-los a narrar, expor e argumentar”.
O tema proposto objetiva resgatar, pela contação de histórias, a construção da aprendizagem das crianças. As histórias entram na vida das crianças desde pequeninos,quando pai, mãe, avô e avó contam aventuras que as transportam a mundos imaginários. Para formar leitores é necessário contar histórias para as crianças, repeti-las em diversas ocasiões, e despertar o imaginário. Dar asas às emoções, proporcionar momentos de alegria, risos, tranquilidade, raiva e até mesmo de emoções.
O aumento de leitores na sociedade fará com que os déficits negativos de aprendizagem se miniminizem.
Com o intuito de investigar a contação de histórias como sendo uma possível “ferramenta” psicopedagógica, buscou-se autores que defendem a importância dessa arte para o desenvolvimento infantil.

2 O PROCESSO DA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
Um dos maiores pedagogos foi Jesus e o seu método para passar seus ensinamentos, foi por meio das histórias. Ele tinha uma história especial para cada plateia. Suas histórias tinham sempre um fundamento. “Bem-aventurados os que ouvem suas Palavras de esperança!
Que ele seja fonte de inspiração ao espalharmos as histórias, vocês são o sal da terra... a luz do mundo” (MATEUS, cap. 5:1,3,13)
Nem todos têm esse dom, porém é certo salientar que, muitas vezes os pais anseiam que seus filhos sejam criativos, grandes leitores e escritores. Para que isso aconteça é preciso contar histórias corriqueiramente para as crianças. É afetivo e marca uma criança quando ouve uma história contada pelos pais. Nas famílias em que os adultos têm o habito de ler jornais e revistas, as crianças assimilam a ideia de que a leitura é uma atividade gratificante e começam a fantasiarem-se com essa prática. Mesmo a criança não sabendo ler, os adultos contam histórias incitando o imaginário infantil. Abramovich ressalta:

Muitas pessoas se questionam: Como contar histórias? Quais os benefícios dessa prática? Qual a contribuição das histórias para o psicopedagogo? Esses questionamentos e muitos outros ficam atrelados na mente de muitos educadores, pais e outros profissionais da educação, pois ainda não conhecem o valor imenso dessa ferramenta de aprendizado.
Para contar histórias, é preciso gostar dessa prática, entregar-se a ela e mostrar-se ao seu público que se está envolvido no enredo e convidá-lo para o mesmo. Não se pode sair contando história sem se saber qual é a plateia, ou até mesmo sem se ter domínio da história, pois isso o impedirá de dar a ênfase necessária quando assim for pertinente. Abramovichdefende que: “Para contar uma história, seja qual for é bom saber como se faz. Seja qual for a criança, não se pode fazer isso de qualquer jeito, pegando o primeiro livro que se vê na estante” (1997, p. 18).
Os benefícios são muitos, tanto para o contador de histórias, quanto para o ouvinte. O primeiro não tem gastos, pois o recurso mais importante é ele próprio, o contador. É certo salientar que seu corpo precisa estar em sintonia com a voz e com a história para assim incitar mais ainda seu público. Como afirma Lisboa (2010, p. 23). “Você é o recurso mais importante. É por meio de você que ouviremos e viajaremos na história. Seu corpo precisa expressar-se junto com a sua voz”. Outro beneficio é a variedade dos temas que praticamente é inesgotável, basta  ser criativo e adequar as histórias a turma e a seu conteúdo diário, pois há vários aspectos educacionais que podem ser focados e abordados a partir de uma história. Já o ouvinte, esse sim adquire maior vivência. A manifestação dos impulsos emocionais, as reações quanto aos instintos comuns aos seres humanos e o reconhecimento dos fatos e efeitos causados por esses impulsos são exemplos de vida.
A partir do momento em que a escrita passou a fazer parte do cotidiano, tornou se indispensável a leitura, para que possamos nos comunicar e interagir em sociedade. Apesar das tecnologias estarem ocupando cada vez mais espaço no mundo e oferecendo plasticidade a todo instante, torna-se imprescindível que as pessoas se preparem para serem leitoras capazes de interpretar o que a sociedade tecnológica lhe oferece como única solução. Sendo leitores ávidos, serão capazes de fazer a seleção de informações que lhes possibilitem a solução de problemas de sua realidade.

Na medida em que se percebe a importância da leitura, retoma-se ao objetivo de contar histórias, como uma ferramenta para preparar a criança para o desempenho de papéis e tarefas sociais com autonomia. Em sintonia com esse pensamento Zilberman (2003, p. 43), menciona que o ler relaciona-se com o desenvolvimento linguístico da criança, com a formação da compreensão do fictício, com a função especifica da fantasia infantil, com a credulidade na história e a aquisição de saber.
A contação de histórias pode propiciar algo inesperado que faça a criança torna-se grande leitora. Acredita-se que seja válido mencionar aqui alguns direitos da criança leitora. Essa declaração, escrita por Rodriguez, (2000) chama a atenção para o fato de que é essencial e favorável que todos conheçam esses direitos para poder fazê-los prevalecerem. Sendo eles: direito de escolher o que vai ler, de recontar a história do jeito que entendeu, direito de criar suas próprias histórias, de sugerir livros, de dramatizar a história lida, de ler a sua maneira, de começar e abandonar a leitura de um livro, por e em qualquer parte. Não existe apenas um único tipo de interpretação de uma história.
É certo pontuar que muitos educadores não têm a prática de contar histórias. No sentido de sanar a dificuldade desse educador, porque não presenciou isso em sua infância ou não se sente seguro para fazê-lo, porém considera válido o que Coelho (1995, p. 9).afirma sobre essa questão:

Com o objetivo de estimular a contação de histórias nas escolas, para que a criança através da voz que narra, ou seja, do contador de histórias, torne-se um ouvinte pensante e questionador, Amarilha (2006, p. 29) pontua:

Entende-se que o ato de saber ler e escrever é um meio facilitador de comunicação entre as pessoas, portanto, é essencial que se crie e se oportunize aos indivíduos situações que possam desenvolver cada vez mais essa habilidade. Segundo Kuhlthau, a contação de histórias oferece caminhos para que os estudantes se tornem leitores e, por consequência melhores escritores.
 
Mediante esses conceitos aqui mencionados, é certo afirmar que esses pesquisadores demonstram um posicionamento semelhante quanto à contação de histórias para crianças. Eles defendem sua importância para a formação de cidadãos críticos e autônomos.
Como questionado no início do texto, “Qual a contribuição das histórias para o psicopedagogo?” Acredita-se que através das histórias podem-se investigar possíveis causas da não aprendizagem dos alunos. Essa pode ser uma das ferramentas para a complementação de um diagnóstico ou até mesmo para um “quebra gelo” de uma sessão psicopedagógica.
Para entender melhor sobre a função da contação de história na psicopedagogia, precisa-se saber que essa modalidade de ensino tem sua visão delineada para o  aprender e o ensinar. Quando se fala em aprender e ensinar, fala-se em uma aprendizagem significativa, onde o afetivo, o cognitivo e o social andam juntos e visam formar um sujeito que interaja com o mundo. Beauclair entende a psicopedagogia como:

A contação de histórias vem tentar suprir possíveis dificuldades encontradas nos consultórios pscopedagógicos, para direcionar o paciente para uma formação global. Uma história pode vim a calhar com a realidade do paciente, ou com uma situação pela qual ele está vivenciando tanto dentro de sua casa, da escola ou de qualquer outro ambiente. Para iniciar uma sessão, não precisamos ter um ambiente carregado de jogos, de livros sofisticados, precisamos sim, saber interferir na realidade do cliente, oferecendo a ele total confiança. Acredita-se que com uma boa contação de histórias possa suprir tal necessidade. Weiss salienta que:

Piaget, afirma que o jogo simbólico, permite a criança assimilar o mundo na medida do seu eu, deformando-o para atender aos seus desejos e às fantasias. Tendo em vista a contação de histórias, supõe-se que essa técnica de aprendizagem pode também ser uma forma de “jogar” da criança. Pois a história é um jogo simbólico, onde a criança imita , reconta e dramatiza o que o contador de histórias produziu. Porto seguindo a mesma linha de pensamento de Piaget ressalta que: “O jogo tem uma evolução, começando com exercícios funcionais (correr, saltar, jogar) e seguidos pelos jogos simbólicos (imitar, dramatizar)”. (PORTO, 2009, p. 82)
Ao se notar tal importância que o jogo simbólico estabelece na aprendizagem das crianças, torna-se viável acrescer de forma significativa as histórias como uma das ferramentas de diagnóstico pscicopedagógico, pois ela permite a manifestação da imaginação e ao raciocínio da criança. Na sessão “A hora do jogo”, a história pode ser inserida no momento inicial caso a criança tenha algum tipo de bloqueio. Também pode ser introduzida no decorrer da sessão, e após, com a construção de uma história feita pela criança durante a atividade. O exercício da imaginação traz grande proveito às crianças, primeiro porque atende a uma necessidade muito grande que elas têm de imaginar. As fantasias não são somente um passatempo, elas ajudam na formação da personalidade na medida em que possibilitam fazer conjecturas, combinações, visualizações como tal coisa seria dessa ou de outra forma.

Supõe que a contação de historias, pode ser uma peça indispensável no diagnóstico pscicopedagógico. Ela representa um recurso a mais a ser explorado pelo terapeuta em alguns casos. É uma complementação que funciona como situações estimuladoras que provocam reações variadas, às vezes intensas em pouco espaço de tempo.

3 CONCLUSÃO
Nota-se pelo exposto que a história infantil é poderosa ferramenta à aprendizagem, seja através da contação, da leitura ou da expressão corporal por parte do contador e dos seus ouvintes.
Acredita-se que contação de histórias, quando trabalhada de forma adequada, contribui para o trabalho pscicopedagógico (quebra gelo de sessão ou possível diagnóstico) e para o desenvolvimento das habilidades do educando. Quando se valoriza o ato de contar histórias, possibilita-se a criança a viajar pelo seu imaginário e ter uma compreensão de mundo, mesmo não saindo do lugar. Isto facilitará o desempenho de papéis sociais de forma crítica e autônoma.
As crianças sentem um imenso prazer ao ouvir histórias. Elas também aprendem com as histórias sobre outras culturas, conhecem seus valores, modos de ser e viver. Quando uma criança pede repetidamente para que lhe contem uma história, provavelmente, encontrem, nos fatos narrados, acontecimentos que ela já vivenciou. Na escuta das histórias elas também aprendem a distinguir o que faz parte da realidade e o que é da ordem do imaginário. É nesse sentido que se desenvolve a imaginação, inventando e aprendendo que no mundo do “faz de conta”, tudo é possível.
Considerando que o contador de história, através do jogo de expressões, estimule a criança, com espontaneidade, encantamento e o gosto pela leitura, percebe-se que o professor contando histórias, atua como um agente formador de alunos leitores. Supõe se que o psicopedagogo poderá utilizar dessa ferramenta, que é a contação de histórias em suas sessões, onde poderá também convidar o paciente para contar e recontar sua história de vida das mais variadas formas. O contador de histórias deve encantar-se se quiser encantar. Com tal análise, foi possível observar, através das teorias dos autores estudados, que o ato de contar histórias é, sem dúvida, uma atividade que oportuniza ao aluno a realização das tarefas de leitura e escrita com mais qualidade.

Bibliografia

REFERÊNCIAS
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AMARILHA, Marly. Alice que não foi ao país das maravilhas: a leitura crítica na sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006
.BEAUCLAIR, João. Para entender psicopedagogia: perspectivas atuais, desafios futuros. 3. ed. Rio de janeiro:WaK Ed., 2009.
COELHO, Betty. Contar histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1995.
KUHLTHAU, Carol. Como usar a biblioteca na escola: um programa de atividades para a pré escola e ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
LISBOA, Márcia. Para contar histórias - teoria e prática: narrativa, dramatização musica e projetos. Rio de Janeiro: Wak, 2010.
OLIVEIRA, Alaíde Lisboa de. Da alfabetização ao gosto pela leitura. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1991.
PORTO, Olívia. Bases da psicopedagogia: diagnóstico e intervenção nos problemas de aprendizagem. 4. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2009.
RODRIGUEZ, Fernando Vásquez. Quem conta encanta. Tradução Beatriz Dusf e Iraides Coelho. Bogotá: Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, 2003. (Suplemento publicado pelo CERLALC no Boletim El Libro)
WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia clínica: uma visão diagnostica dos problemas de aprendizagem escolar.Rio de Janeiro : Lamparina, 2008.
VÁSQUEZ, Fernando Rodriguez. Declaração dos direitos da criança leitora (e algumas disposições sobre as crianças e a literatura). Literarte, ano 1, n. 6, p. 1-4, 2000. (Declaração apresentada na Área de “Lectoescritura”, Santa Fé, Bogotá, 27 de agosto de 1993. Publicado em Boletim El Libro.) Disponível em: < www2.estacio.br/graduação/pedagogia/literate/Literarte06/artigos.htm> Acesso em: 23 out. 2011
ZILBERMAN Regina. A literatura Infantil na Escola 11 ed. São Paulo: Global, 2003.

Publicado em 25/02/2012

Currículo(s) do(s) autor(es)

Fernanda Lucia Paulino e Gleicione Aparecida Dias Bagne de Souza - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Fernanda Lucia Paulino: Pedagoga. Pós graduação em Psicopedagogia
Gleicione Aparecida Dias Bagne de Souza: Doutora em Educação. Professora do Unis/MG