A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NO ATENDIMENTO PSICOPEDAGÓGICO
Denise da Silva Araujo

O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. (Fernando Pessoa)

RESUMO: Esse artigo trata da importância do atendimento psicopedagógico partindo da necessidade do sujeito, propiciando momentos lúdicos onde ela possa vivenciar momentos de interação com o meio, desenvolvendo-se psicologicamente e socialmente contribuindo com os eixos de estruturação: afetivos, cognitivos, motores, sociais, econômicos, políticos etc. a cada processo de aprendizagem, bem como das chamadas dificuldades de aprendizagem, que deixam de ser localizada somente no aluno e no professor e passam a ser vistas a partir de um processo maior, com inúmeras variáveis que precisam ser apreendidas com bastante cuidado pelos profissionais da área.

PALAVRAS CHAVE: aprendizagem, jogo, psicopedagogia.

ABSTRACT: This paper discusses the importance of assistance of psychology based on the need of the subject, in leisure where he can experience moments of interaction with the environment, developing psychologically and socially contributing to the axes of structuration: affective, cognitive, motor, social, economic, political etc. Every learning process, and calls learning difficulties, which are no longer located only the student and the teacher and come to be seen to from a larger process, with numerous variables that must be learned with great care by professionals.

INTRODUÇÃO:
A palavra jogo pode ser definida de várias formas, do ponto de vista educacional, segundo ANTUNES, 2003, p.17:
“... essencialmente visam estimular o crescimento e aprendizagem e seriam melhor definidos se afirmássemos  que representam relação interpessoal entre dois ou mais sujeitos realizado dentro de determinadas regras”.

O jogo é ma atividade que pode ser expressiva ou geradora de habilidades cognitivas gerais e específicas. PIAGET (2005) relaciona o jogo com a aprendizagem e o define também com um comportamento que distorce a realidade para servir de papel expressivo no desenvolvimento de certas habilidades cognitivas, mas não gerador da constituição do pensamento na criança.
Através dos jogos a criança pode reviver suas alegrias, seus medos, seus conflitos, resolvendo-as a sua maneira e transformam sua realidade naquilo que desejam, internalizando regras de conduta e valores que orientarão seu comportamento, com uma proposta criativa e recreativa de caráter físico, mental e social. Muitos não valorizam, por exemplo, brincadeiras de faz de conta, que para a criança envolve valores, ela copia o que vê, e aplica de sua forma no brincar.
A criança que brinca está desenvolvendo sua linguagem oral, seu pensamento associativo, suas habilidades auditivas e sociais, construindo conceitos de relações de conservação, classificação, seriação, aptidões visuo-espaciais e muitas outras. (ANTUNES, 2003, p.19)
Ela desenvolve, ainda, sua imaginação, atenção, imitação e memória, além de amadurecer algumas competências para a vida coletiva, por meio da interação e da utilização de regras e papéis sociais. Ao brincar, a criança explora tudo o que pode naquele que lhe é oferecido, questionando ou entrevistando e buscando o que está vivenciando, explorando ao máximo, desenvolvendo-se psicologicamente e socialmente. Trabalha sua comunicação, envolvendo-se com o mundo exterior tendo liberdade de se expressar, se envolver em diferentes situações de que ela resolva. É de forma organizada, que através das atividades lúdicas com as devidas interferências, auxilia no desenvolvimento da experiência decisiva que a criança realiza ao brincar. O trabalho psicopedagógico deve ser estabelecido em função das necessidades da criança.
Segundo PIAGET (In. MOYLES, 2002), o brincar representa uma fase no desenvolvimento da inteligência, marcada pelo domínio da assimilação sobre a acomodação, tendo como função consolidar a experiência passada.
No enfoque psicopedagógico, o processo de aprendizagem da criança é compreendido como um processo abrangente, implicando componentes de vários eixos de estruturação: afetivos, cognitivos, motores, sociais, econômicos, políticos. A cada processo de aprendizagem, bem como as dificuldades de aprendizagem, deixam de ser localizada somente no aluno e no professor e passam a ser vistas a partir de um processo maior, com inúmeras variáveis que precisam ser apreendidas com bastante cuidado pelos profissionais da área.
É fundamental que o processo do atendimento psicopedagógico seja baseado na construção do conhecimento e do saber por parte da criança através dos jogos. O profissional percebe a forma como a criança reage ao objeto, ao brinquedo, porque tal reação não é simplesmente um produto do processo da sua interação com o objeto no momento, mas um produto de sua história pessoal e social. Desta maneira, o atendimento psicopedagógico propicia uma forma mais aprofundada de se trabalhar com a criança, levando e consideração às necessidades específicas de cada um privilegiando a escuta do que está realmente acontecendo naquele momento. Isso porque o sistema simbólico e imaginário da criança é particular, não se devendo lidar com ele a partir de esquemas generalizados.
Veremos a seguir a importância da utilização do lúdico no atendimento psicopedagógico, conhecendo e identificando a influência do mesmo.

DESENVOLVIMENTO:
A Psicopedagogia é uma área de nova atuação no Brasil, visto que tem como objetivo lidar com o processo de aprendizagem e suas dificuldades. Sua ação profissional deve englobar diversos campos de conhecimento (psicologia e pedagogia), de maneira que os integre e sintetize-os.
No Brasil a atuação deste profissional é recente, de forma que iniciou sua organização nos anos 50/60, com a abordagem da psiconeurologia do desenvolvimento humano. Desta forma, os problemas de aprendizagem eram vistos como produtos orgânicos, onde se difundia a idéia de que tais problemas teriam como causa uma disfunção neurológica da qual  não era detectável através de exame clínico, e era diagnosticada como uma “disfunção cerebral mínima” (DCM)
O objetivo da psicopedagogia propõe estudar, compreender e intervir na aprendizagem humana, e a mesma não se restringem aos distúrbios ou as dificuldades de aprendizagem, mas à aprendizagem de modo geral, sendo no seu estado normal ou patológico. Uma área que tem por base a literatura, em autores como Lacan, Mane, Françoise, Pichon-Rivière, dentre outros.
A Psicopedagogia tem se desenvolvido ao longo destes anos, conquistando cada vez mais seu espaço no mercado de trabalho. Atualmente temos a Psicopedagogia Clínica, que tem o caráter curativo. Sua atuação é predominantemente em clínicas e o atendimento é individualizado. Quanto a Psicopedagogia Institucional tem caráter preventivo, e normalmente são realizados em pequenos grupos de alunos, trabalhadores, pessoas em geral, podendo atuar em três campos: empresarial, escolar e hospitalar.
KIGUEL (apud Bossa, 2000, p.48) observa que:
“...tal concepção organicista e linear apresentava uma conotação nitidamente patalogizante, uma vez que todo indivíduo com dificuldades na escola era considerado portador de disfunções psiconeurológicas, mentais e psicológicas.”

No entanto, a crença de que esses problemas eram causados por disfunção neurológica, ou seja, decorrentes de fatores orgânicas, não durou por muito tempo, e passaram a questionar a idéia de que, os problemas de aprendizagem era uma questão do fracasso escolar. Desde então passou a ser um assunto questionável de forma educacional e clínica relativamente intensa, na busca de respostas para os problemas de aprendizagem.
O jogo tem sido utilizado por psicopedagogos tanto no âmbito educacional e clínico como meio de conhecer a realidade do sujeito. Através dos jogos o psicopedagogo pode observar o modo como o paciente manifesta sua criatividade, orientando o diagnóstico e a intervenção das dificuldades de aprendizagem.
A pioneira em utilizar o jogo como técnica de avaliação diagnóstica foi Klein, considerando que esta é uma “via régia do inconsciente, como o são os sonhos nos adultos.” (apude Breneli, 1996, p.169)
Segundo BRENELLI (1996), KLEIN considera o brincar como uma linguagem expressiva e típica da criança, momento em que a mesma revela seus desejos, e suas experiências vividas.
O jogo, além de diagnóstico é um procedimento para a intervenção terapêutica, o que segundo WINNICOTT (apud Brenelli, 1996, p.172) situa-se:
“Numa área intermediária entre a realidade interna do sujeito e a realidade compartilhada do mundo externo aos sujeitos, permitindo que ambas sejam comunicadas.”
 
O jogo é um recurso que infere na estruturação cognitiva e um favorecedor para a construção de raciocínios no processo de intervenção junto a crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, onde o enfoque é a análise dos procedimentos, resolução de situação-problemas, o registro de jogadas que possibilitam a utilização de diferentes sistemas simbólicos, permitindo a reflexão de como os mesmos se estruturam.
É de suma importância aproveitar alguns momentos da hora do jogo e transformá-los em situações problemas, do qual a criança deverá solucioná-los, de maneira que envolva a análise de suas ações. Em muitos casos, essas atitudes colaboram para a melhora do desempenho do paciente. Será por intermédio dessas ações que a criança vai gradativamente percebendo que algumas de suas atitudes são inadequadas, de forma que irá construir outros esquemas de ação, superiores aos adotados anteriormente.
Quando falamos de jogo, referimos a um recurso que permite o desenvolvimento à passagem de níveis superiores. Este instrumento permite tornar os erros observáveis, e a criança tem a oportunidade de exercitar o reconhecimento dos erros e tentar evitar aquele grupo de ações que levam a uma jogada negativa ou até mesmo à derrota. No contexto do jogo, é permitido oportunizar a criança que perde, um suporte do qual a mesma se sentirá desafiada a jogar novamente, aproveitando as boas jogadas e eliminando aquelas que a afastaram da vitória.
O papel do adulto é fundamental quando aplicado o jogo, independente de onde ele aconteça, na sala de aula ou na clínica, pois este é um investigados do modo de pensar da criança, para ajudá-la a compreender os conteúdos escolares e a superar suas dificuldades.
Além de ser um observador da criança, o adulto é o mediador e o avaliador no momento que a criança joga, pois este pode ser pouco interessante em dois casos: se a tarefa solicitada for muito difícil ou impossível de ser realizada, ou o seu contrário, se for fácil, de maneira que a criança fique aborrecida e se torne algo entediante.
O profissional que se propõe em utilizar o jogo como um instrumento de desenvolvimento, deve fazê-lo com freqüência, pois desta forma, favorecerá o hábito de pensar sobre o jogo, o que é uma condição fundamental.
O jogo contribui para o desenvolvimento de uma relação professor-aluno ou paciente-psicopedagogo, onde a base é o respeito, a admiração e o principal objetivo, a aprendizagem. Esta relação estabelecida neste momento lúdico, e a possibilidade que se tem de aprender com o outro.
O uso dos jogos no atendimento psicopedagógico é um recurso importantíssimo tanto para avaliação, como para intervenção em processos de aprendizagem. Numa abordagem que evita atacar o sintoma de frente, o lúdico é o recurso ideal, pois promove a ativação dos recursos da criança sem ameaçá-la. Na psicopedagogia ele é utilizado basicamente para a observação das diversas condutas e para a recuperação, utilizando para isso a ludoterapia.
O psicopedagogo pode conhecer através do jogo quais são as necessidades da criança, como ela se comporta diante de uma dificuldade ou conflito e quais são as suas ansiedades. O jogo é um meio capaz de estimular os desenvolvimentos cognitivos, afetivos, sociais, motores e morais. O psicopedagogo poderá também ajudar a criança a resolver os problemas lhe dando pistas, sem esquecer-se de preservar a autonomia dela.
O jogo com fins psicopedagógico exerce uma influência positiva na evolução da inteligência, sensibilidade e socialização. Brincando e jogando se aprende a viver, pois o valor dele é como um exercício precursor das atividades adultas. Os jogos fazem parte do ambiente natural da criança o que torna possível utilizá-los para que ela aprenda e satisfaça suas necessidades orgânicas e intelectuais. Eles também podem fornecer subsídios importantes a respeito das dificuldades de aprendizagem que a criança possui e ao mesmo tempo ser um meio que auxilie a diminuí-las.
A psicopedagogia tem se destacado como uma forma diferenciada de compreender a aprendizagem e atuar sobre ela, já que ela se interessa e intervém diretamente nesse processo procurando perceber o sentido cognitivo, afetivo, emocional, psicomotor e social da aprendizagem, procurando através da intervenção, proporcionar possíveis dissoluções de dificuldades. Uma das formas diferenciadas e bastante eficazes da intervenção são os jogos, pois através deles as crianças e adolescentes têm a possibilidade de vivenciar situações que lhe permitem refletir sobre os principais meios de conhecimento que abrangem todos os aspectos do desenvolvimento humano.
PAIN (1985), menciona que através do jogo a criança faz diversas experiências, que são peculiares à idade infantil, onde tudo é possível vivenciar de modo fantasioso, onde o impossível pode ser experimentado. O jogo põe em marcha uma série de possibilidades, dentre as quais, a manifestação das crianças de uma maneira espontânea.
Todo o profissional da área de psicopedagogia que trabalha com crianças e adolescentes sente que é indispensável haver um espaço e tempo para atividades lúdicas e assim, melhor se comunicar e permitir mais formas do sujeito se revelar. Empregamos a palavra lúdico no sentido do processo de jogar, brincar, representar e dramatizar como condutas semelhantes na vida infantil.
A relação da atividade lúdica com a aprendizagem é uma ação simples, onde o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu. É na atividade lúdica que se constrói um espaço de experimentação, de transição entre o mundo interno e o externo e é nesse espaço transacional que se dá a aprendizagem. Por essa razão, o lúdico é fundamental no trabalho psicopedagógico. (WEISS, 2004)
No diagnóstico, o uso de situações lúdicas é mais uma possibilidade de se compreender, basicamente, o funcionamento dos processos cognitivos e afetivo-sociais em suas interferências mútuas, no modelo de aprendizagem do indivíduo.
PAIN (1985, p. 51) afirma que:
“A atividade lúdica nos fornece informações sobre os esquemas que organizam e integram o conhecimento num nível representativo. Por isso consideramos de grande interesse para o diagnóstico do problema de aprendizagem da criança, a observação do jogo, e fazemos isto através de uma sessão que denominamos hora do jogo.”

A hora do jogo é adotada no atendimento clínico e institucional, onde é dado um tempo para os jogos (pedagógicos ou livres), para atingir um determinado objetivo, por exemplo: se a criança possui dificuldade de escrita, podemos usar jogos de construção de palavras ou frase de uma maneira lúdica.
Segundo WEISS (2004), a atividade lúdica, auxilia o psicopedagogo na construção de sua forma própria de agir com crianças e adolescentes:
WEISS (2004, p.73) coloca que:
“Com crianças, é indicado um diagnóstico de forma lúdica, onde são utilizados, principalmente, jogos, brinquedo e objetos diversos para auxiliar na representação. É interessante proporcionar espaços lúdicos nas diferentes sessões, alterando com situações formalizadas de testagem e de avaliação pedagógica. Essa alternativa dependerá de cada caso em particular. Já os adolescentes apreciam o uso de jogos de regras, em que possam brincar e ao mesmo tempo desafiar  o psicopedagogo, por isso é interessante separar jogos que exijam bastante raciocínio, atenção, antecipação de situações e diferentes estratégias, utilizando-os no início ou na parte final da sessão. Com facilidade, os sujeitos revelam aspectos que não aparecem nas situações mais formais do diagnóstico, tanto na área cognitiva como na afetivo-social.”

Para WEISS (2004), a atividade lúdica ajuda na aprendizagem, mas é importante cumprir algumas observações, tais como: a tarefa precisa ser adequada com o nível de desenvolvimento da criança e deixar o ambiente bem descontraído, pois a criança percebe que está sendo observada; deixar bem claro para a criança o porquê ela está sendo atendida e para quê, pois muitas crianças identificam o psicopedagogo como um professor especial que vai decidir sobre seu destino escolar. Portanto, antes de dar as instruções é necessário levar a criança à situação atual na qual está com um problema que consiste na dificuldade de aprendizagem, enquanto que o psicopedagogo vai tentar saber por que isto lhe acontece e vai tentar ajudá-la.
Se o jogo tem contribuído para efeitos benéficos para o aprendiz, a psicopedagogia certamente utiliza esse meio para atingir os seus objetivos no processo de aprendizagem. A utilização desse recurso na psicopedagogia exige alguns procedimentos como:
1.a interação do psicopedagogo com a criança, que é muito importante para o andamento do diagnóstico e do tratamento por meios dos jogos;
2.deixar o ambiente bem descontraído para levar a criança manifestar-se de maneira espontânea os seus aspectos sociais, morais, cognitivos e emocionais.

FRIEDMANN (1996), diz que o jogo é muito importante no desenvolvimento da criança porque a liberta de situações difíceis. O que na vida real passa despercebida pela criança porque a liberta de situações difíceis. O que na vida real passa despercebida pela criança, torna-se evidente numa ação no jogo, pois ele cria situações que a criança libera suas emoções que em outras situações ela conseguiria esconder.
Quando a criança se solta no jogo a sua estrutura psicológica com a realidade se altera, pois ele domina e determina o seu comportamento e a deixa livre para manifestar suas ações, que não são ações do próprio jogo em si, mas pelo significado dos seus sentimentos (ansiedade, medo, raiva, frustrações entre outros) que ela carrega.
WEISS (2004), menciona que o jogo é algo inerente ao homem e, por meio dele, revela a sua personalidade integral de forma espontânea. Isso ajuda a obter dados específicos e diferenciados em relação à dificuldade de aprendizagem nos aspectos cognitivos; nas relações vinculares e sua influência no aprende; o caminho usado para aprender ou não aprender.
Muitas coisas podem ser observadas no jogo, o importante é se fixar no vetor, aprendizagem e investigar o que está envolvido nesse processo e sua relação com as dificuldades apresentadas. Ver o que faz, como faz, como organiza esse fazer em suas múltiplas facetas cognitivas, afetivo-sociais e corporais, em suas ligações com o processo pedagógico. É fundamental relacionar o observado com os dados obtidos nos testes e nas entrevistas de anamnese.
Vários aspectos devem ser considerados para a escolha de um jogo na área psicopedagógica. Convém lembrar os princípios que regem o desenvolvimento infantil e os estágios de desenvolvimento de cada criança citados no primeiro capítulo, e os jogos infantis, conforme o nível de entendimento das regras para saber qual jogo utilizar para diagnosticar e tratar dificuldades específicas de aprendizagens.
O psicopedagogo deve propor regras em vez de impô-las, assim, a criança terá possibilidade de elaborá-las, o que envolve tomar decisões. A criança se desenvolve social e politicamente, envolvendo-se na construção ou negociação das regras dos jogos.
Dar responsabilidade para fazer cumprir as regras e motivar o desenvolvimento da iniciativa, agilidade e confiança em dizer honestamente o que se pensa. Essa responsabilidade levanta também a invenção de regras, soluções pelas quais as crianças tornam-se mais inventivas. Permitir julgar qual deverá ser aplicada a cada situação, pois esta é uma forma de promover o desenvolvimento da autonomia em solução de conflitos e contribui também ao desenvolvimento de um forte senso de si mesmo na criança e no aspecto emocional, que também faz parte da autonomia.
FRIEDMANN (1996), coloca que dentre das preocupações do jogo certo para idade certa, está também as características de ser estimuladores da imaginação infantil, possuir força socializadora ajudando no processo de interação grupal, liberar a emoção infantil, ser meios facilitadores no processo da construção do conhecimento e auxiliar na aquisição da auto-estima. Tais características devem ser observadas, indistintamente, em brinquedos e jogos e relacionam-se, essencialmente, com o desenvolvimento infantil.
É muito significativa a quantidade e a qualidade das informações que podem ser destacadas pelo psicopedagogo a partir da observação de um jogo. Um exemplo que ajuda a ilustrar a utilização prática do jogo é a “amarelinha”, que é muito popular entre as nossas crianças. Segundo MELLO (1989), neste jogo a criança está vivenciando estímulos motores, seu raciocínio lógico está sendo solicitado e está experimentando ao mesmo tempo uma relação com as demais crianças que, portanto, possui implicações emocionais e sociais. Durante o desenvolvimento desse jogo é possível obter um diagnóstico não somente do estágio d desenvolvimento motos das crianças que brincam, como também os componentes de ordem cognitiva, afetiva e social.
O jogo pode ter diversas aplicações dependendo do objetivo a se alcançado. Um jogo específico para trabalhar, por exemplo, noções espaciais ou físicas, ou ainda coordenação motora fina, pode ser o jogo de “bolinhas de godê”. Se objetivo foi interação social, o jogo em equipe, como “pega corrente”, pode proporcionar bons resultados, colocando as crianças em situação de liderança. Se o objetivo, porém é desenvolver a verbalização ou fixar a alfabetização ou rima pode-se optar por cantigas, parlendas, fórmulas de escolha entre outros. Se a idéia é desenvolver a criatividade, construir brinquedos ou acessórios que sirvam para brincar é um bom recurso.
O jogo dirigido pelo psicopedagogo, a fim de alcançar seu objetivo específico para uma determinada dificuldade de aprendizagem, deve possuir alguns critérios. Antes de tudo, o profissional deve ser claro e breve na hora de explicar as regras do jogo proposto. É interessante o psicopedagogo participar do jogo, mesmo os jogos individuais como, por exemplo, um quebra cabeça, pois isso ajuda  a exemplificar a explicação verbal. A participação deve se evitada quando as crianças já conseguem brincar sozinhas, isso para o psicopedagogo observe o comportamento da criança. Seu papel, então será o de orientador e observador da criança durante o desenvolvimento do jogo.
Nessa perspectiva, o psicopedagogo é mais do que um orientador, ele deve ser um desafiador, colocando dificuldades progressivas no jogo, como uma forma de avançar nos seus propósitos de promover o desenvolvimento ou para fixar aprendizagens. Esse é o grande papel do psicopedagogo enquanto mediador da aprendizagem e desenvolvimento da criança.
Há três critérios para analisar a utilidade educacional de um jogo segundo FRIEDMANN (1996, p.75):
“1. O jogo deve sugerir algo interessante e desafiante para as crianças. O valor do conteúdo deve ser considerado em relação aos níveis de desenvolvimento das crianças, como já foi mencionado”;
2. Um  bom  jogo deve possibilitar à criança avaliar os resultados de suas ações;
3. A participação da criança de uma maneira motivada é fundamental, pois esta participação se torna ativa e envolvente para ela, desenvolvendo assim a sua atividade mental. A possibilidade de atividade mental está intimamente relacionada com a possibilidade de estar envolvida corporalmente. O contexto do jogo deve ser estimulante para a atividade mental da criança e, segundo suas capacidades ““.

Dependendo de como é conduzido o jogo ativa e desenvolve os esquemas de conhecimento, como observar e identificar, comparar e classificar, conceituar, relacionar e identificar. Também são esquemas de conhecimento os procedimentos utilizados no jogo como o planejamento, a previsão, a antecipação, o método de registro e contagem e outros.
Para CHAMAT (2004, p.35)
“A atividade do jogo é predominantemente assimilativa, pois o sujeito interage com o ovo objeto, de modo a modificar seus esquemas existentes e” fazê-lo seu “. Com a aprendizagem ocorre o mesmo, nos sujeitos que não conseguem jogar, estes possivelmente são muito mais acumulativos do que assimilativos, mostrando aí a dificuldade na aprendizagem.”

Durante o jogo os olhos do terapeuta devem estar bem atentos para observar tantas coisas importantes que estão ocorrendo: assimilação e apropriação da realidade humana, construção de hipóteses, elaboração de soluções para problemas, enriquecimento da personalidade entre outros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para uma criança o jogo é muito mais do que um simples ato de brincar, é através dele que a criança se comunica com o mundo e também se expressa. Para o psicopedagogo, ele constitui um espelho, uma fonte de dados para compreender melhor como se dá o desenvolvimento infantil e quais são suas dificuldades de aprendizagem.
Jogos e brincadeiras não são somente divertimento ou recreação; são atividade naturais e que satisfazem as necessidades humanas. As crianças, muitas vezes, aprendem mais por meio dos jogos do que por métodos tradicionais. Neles as crianças são mais ativas mentalmente, pois essas atividades são compatíveis com o desenvolvimento das crianças, e isso justifica seu uso na área da psicopedagogia e dentro da instituição escolar.
WEISS (2004), afirma que o espaço lúdico durante o diagnóstico traz possibilidade de cura nas dificuldades de aprendizagem, pois brincar é universal e saudável e rompe as fronteiras entre o diagnóstico e o tratamento, uma vez que o próprio diagnóstico passa a ter um caráter terapêutico. A sessão lúdica diagnóstica se difere da terapêutica em alguns aspectos: enquanto o processo de brincar ocorre espontaneamente na sessão terapêutica, na diagnóstica há limites mais definidos e há uma intervenção do psicopedagogo para observar a reação da criança em algumas situações do jogo como: frustrações, desafios, entre outros comportamentos.
Em síntese, os jogos são adequados e muito importantes para o desenvolvimento harmonioso do ser humano. No campo da psicopedagogia, em função dos aspectos que se pretende chegar, que é diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem, os jogos podem ser considerados uma excelente ferramenta tanto na clínica, como na instituição escolar.
O jogo tem um papel fundamental, que deve ser aproveitado num trabalho psicopedagógico e integrado com outras áreas de desenvolvimento e aprendizagem infantil.

Bibliografia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMEIDA, P. N. Educação lúdica: Técnicas e jogos pedagógicos. 9. ed. Loyola: São Paulo, 1974.
ALVES, A. M. P. GNOATO, G. O brincar e a cultura: Jogos e brincadeiras na cidade de Morretes na década de 1960. Psicologia e estudo. V.8 n.1. Maringá Janeiro/Junho 2003.
ANTUNES, C. O jogo e a educação infantil: Fala e dizer/ olhar e ver/ escutar e ouvir. Vozes: Petrópolis, 2003.
BOSSA, N. A psicologia no Brasil: contribuições a partir d prática. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
BRENELLI, R. P. O jogo como espaço para pensar: a construção de noções lógicas e aritméticas. Campinas, SP: Papirus, 1996.
CHAMAT, L. S. J. Técnicas de diagnóstico psicopedagógico. São Paulo: Vetor, 2004.
CONTI, L. D.; SPERB, T. M.; O brinquedo de pré-escolares: Um espaço de Ressignificação culturas. Psicologia: Teorias e Pesquisa. V. 17 n. 1 Brasília Janeiro/Abril de 2001.
FRIEDMANN, A. Brincar: crescer e aprender, o resgate do jogo infantil. Moderna: São Paulo, 1996.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬____. O direito de brincar. 4. ed. São Paulo: Abrinq, 1998.
GAIO, R.; CARVALHO, R.B.; SIMÕES, R. Métodos e técnicas de pesquisa: a metodologia em questão. In: GAIO, R. (org.). Metodologia de pesquisa e produção de conhecimento. Petrópolis, Vozes, 2008.
KISHIMOTO, T. M. (org). Jogo, brinquedo, brincadeiras e a educação. 7. ed. Cortez: São Paulo, 2003.
¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬¬____. Brinquedos e materiais pedagógicos nas escolas infantis. Educação e Pesquisa. V. 27 n. 2 São Paulo Julho/Dezembro 2001.
MALUF, P.; N. Brincar: Prazer e aprendizado. 3. ed. Vozes: Petrópolis, 2004.
MELLO, A. M. Psicomotricidade, educação física e jogos infantis. São Paulo: IBRASA, 1989.
MINAYO, M.C.S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 11. ed. São Paulo, HUCITEC, 2008.
MOYLES, J. R. Só brincar? Artmed: Porto Alegre, 2002.
PAIN, S.. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 1985.
PIAGET, J. A Psicologia da Criança. São Paulo: Difel, 1978.
PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. Rio de Janeiro: 24 ed. Forense Universitária, 2005.
SOUSA, C. P.; MORAES, C. S. V.; CATANI D. B.; VIDAL D. G.; BARROS G. N. M.; SOUZA, M. C.C. C.; HELSDOLF, M. L. S.; PELETTI, N.; PRASCEDES, W.; KISNIMOTO, T. M. História da educação: Processos, práticas e saberes. Escrituras: São Paulo, 1998.
WEISS, L. M.L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 10. ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1985.

Publicado em 01/09/2011

Currículo(s) do(s) autor(es)

Denise da Silva Araujo - (clique no nome para enviar um e-mail ao autor) - Psicopedagoga Clínica e Institucional pela Centro Universitário Adventista de São Paulo
Campus de São Paulo - Diretora do CEI Jd. Mitsutani – Turma da Touca – São Paulo – SP