A literatura científica sobre o apego mostra que este vínculo atua fortemente como promotor do desenvolvimento saudável do bebê. A formação de um vínculo entre o pai e o bebê já desde a gestação, e principalmente no puerpério, permite ao homem uma melhor preparação para o exercício da paternidade. O objetivo desta revisão é conhecer como a literatura científica tem conceituado o apego em homens. A amostra foi constituída por seis artigos científicos, sendo dois de revisão de literatura sobre a paternidade.  Os resultados geraram duas categorias sobre o conceito de apego: 1) a responsabilidade pela provisão material, e 2) a expressão do afeto. Este estudo pode possibilitar futuras intervenções de saúde pública no sentido de promover esse vínculo.

Falar sobre a paternidade é também perpassar por cenários históricos e construtos sociais sobre a definição do ser pai e seus atributos. Por décadas, o conceito de paternidade foi norteado por uma cultura patriarcal rígida que delimitava bem o espaço e o papel do homem e da mulher, àquele cabia os ambientes públicos, e a esta o espaço domestico e criação dos filhos (Zampieri, Guesser, Buendgens, Junckes, Rodrigues, 2012) Após o coito fecundante o papel social do pai estava associado a provisão material, sendo o bom pai aquele que não deixava faltar mantimentos dentro de casa e que dava lições de vida aos filhos (Freitas, Coelho & Silva, 2007). Os deveres estavam preestabelecidos por gerações anteriores e havia poucas possibilidades de exercê-los de outras formas (Oliveira & Silva, 2011).

Desse modo, competia aos pais a autoridade distante, resultando em uma reduzida interação entre pai e filho, sem a preocupação com a higiene intima da criança ou com os cuidados diários, deixando as mães como única referência afetiva infantil. (Oliveira et. al., 2009; Benczik, 2011). Uma das conjunturas preponderante que configurava esse cenário residia no fato de que o homem era a única pessoa que trabalhava fora de casa. A mulher, por sua vez, permanecia no lar, responsabilizando-se pela criação e desenvolvimento afetivo da criança (Oliveira & Silva, 2011).

No entanto, com o ingresso crescente da mulher no mercado de trabalho e na esfera pública, o contexto relacional dos pais é alterado, ocorrem, então, novos arranjos familiares, com significativa mudança nas relações entre homens e mulheres. O pai provedor começa a ser chamado para exercer mais ativamente suas funções junto ao lar e ao(s) filho(s). Com isso, o modelo de família tradicional, no qual o pai é o nível mais alto de hierarquia dá lugar a um pai mais íntimo e sensível (Oliveira & Silva, 2011).

Nesta nova redistribuição dos papéis masculino e feminino, o homem como marido e como pai tem sido o principal alvo de transformação (Freitas, Coelho & Silva, 2007; Oliveira & Silva, 2011; Benczik, 2011; Staudt & Wagner, 2008). Algumas tarefas exigidas anteriormente não perderam o seu valor, como é o caso do sustento da família. No entanto, outras funções foram acrescentadas, como a aproximação afetiva e o diálogo (Freitas, Coelho & Silva, 2007).  Ao seu papel de autoridade é agora adicionado o de fornecedor de carinho, participando, cada vez mais, ativamente da vida das crianças, por meio de brincadeiras e atuando junto a sua educação e formação. Desse modo, aquele pai presente somente nos finais de semana, abre espaço para a construção de um novo modelo (Benczik, 2011).

Esse “novo pai” se constrói na relação com o(s) filho(s) e vem ganhando espaço nas sociedades ocidentais (Benczik, 2011; Staudt & Wagner, 2008; Benítez & Cárdenas, 2010). Ademais, a construção do papel desse pai é recente e permanecerá em estruturação por muitos anos, entretanto, a incipiente literatura sobre o tema aponta para um futuro não competitivo quanto a troca do lugar com a mãe, mas um homem que, no contato com a criança, lida com as reações complexas e ambivalentes até hoje reservadas só a mãe (Oliveira & Silva, 2011; Fonseca, 1997). O conceito de paternidade nasce, então, a partir de uma confluência de inúmeros fatores, isso se reflete na lentidão com que as mudanças no modo de conceber a paternidade acontecem, por não ser algo linear, a construção da nova concepção de pai envolve rupturas e continuidades com o modelo tradicional, perpassando, inevitavelmente, pelo enredo transgeracional dos homens com seus pais. Em virtude disso, os estudos apontam que não uma, mas duas formas vivenciais de paternidade coexistindo atualmente, o pai tradicional, com a provisão demarcando o eixo central, e o novo pai (Zampieri, Guesser, Buendgens, Junckes, Rodrigues, 2012; Freitas, Coelho & Silva, 2007; Oliveira & Silva 2011; Oliveira et. al., 2009; Benczik, 2011; Staudt & Wagner, 2008; Benítez & Cárdenas, 2010; Fonseca, 1997).

Ser pai atualmente não é uma tarefa fácil, e talvez nunca tenha sido. No entanto, no contexto sociocultural e econômico contemporâneo, que dá origem a uma ampla diversidade relacionais entre seus membros, os desafios se colocam de maneira premente. Como se não bastasse, o pai é esquecido, quando comparado com o número de estudos dentro do espectro maternal, de maneira que ainda não é amplamente compreendido e abordado no campo científico (Zampieri, Guesser, Buendgens, Junckes & Rodrigues, 2012; Freitas, Coelho & Silva, 2007; Oliveira & Silva 2011; Oliveira et. al., 2009).

Além disso, o período gestacional e perinatal constituem para o homem e para a mulher etapas de mudanças que trazem consigo incertezas, muitas delas oriundas da aquisição de novos papéis e responsabilidades antes inexistentes, incluindo-se as relacionadas com os(as) filhos(as), com a casa e com os demais membros da família (Freitas, Coelho & Silva, 2007).  Atualmente, essas dubiedades são acentuadas em meio a ampliação das possibilidades de atuação, nesse quadro o homem pode não saber como ocupar seu espaço junto aos filhos e demais membros da família (Oliveira & Silva, 2011).

A literatura tem revelado que os homens estão cientes das novas demandas sociais e vivenciando duas formas de paternidade ao mesmo tempo. Essas duas visões apresentam dois significados que se mostram complementares e, por vezes, antagônicos: pai afetivo, cuidador e educador e o segundo, o pai provedor (Freitas, Coelho & Silva, 2007). Faz-se necessário, portanto, levar em consideração a importância da figura paterna, de seu envolvimento afetivo e de sua saúde mental para o bom desenvolvimento da criança e bom relacionamento com sua parceira (Zampieri et al, 2012; Oliveira et. al., 2009; Silva & Piccinini, 2009).

Nesse sentido, percebendo que a chegada de um filho proporciona transformações na vida do homem, da mulher, do casal e da família, estudar mais dedicadamente a formação do apego paterno atualmente se mostra de grande valia para o auxílio e melhor compreensão do homem, devido a transformações que este vem passando ao assumir a paternidade (Zampieri et al, 2012; Freitas, Coelho & Silva, 2007; Oliveira & Silva 2011; Oliveira et. al., 2009; Benczik, 2011; Staudt & Wagner, 2008; Benítez & Cárdenas, 2010; Fonseca, 1997; Silva & Piccinini, 2009). Com efeito, a produção acadêmica dentro do espectro do apego em pais começaria a crescer, mesmo que tardiamente, a fim de suprir a falta existente devido ao enfoque somente na maternidade.

Diante do exposto, o presente estudo buscou responder à seguinte questão de pesquisa: Qual(ais) o(s) conceito(s) de apego em pais expresso (s) na literatura científica nos últimos dez anos? Dessa forma, objetivou-se analisar artigos científicos da área da saúde, publicados no período de 2005 a 2014, que definiram explicitamente o conceito de apego paterno no texto.

Materiais e métodos

A revisão integrativa é uma metodologia que oferece boa condição para análise de críticas, além de sintetizar o acervo literário de maneira bastante integrada, possibilitando ao pesquisador gerar novas perspectivas sobre o tema (Torraco, 2005).  

A revisão integrativa ocorre diante da relevância de elaborar uma explicitação teórica a respeito do construto sob investigação (Pasquali, 2010). Para isso, realiza-se nesse estudo uma revisão de literatura a respeito das maneiras como o apego paterno tem sido conceituado, a fim de possibilitar o conhecimento das principais formas adotadas para definir o apego nas pesquisas científicas atuais.

Os procedimentos descritos a seguir foram propostos por Mendes, Silveira e Galvão (2008) para realização de revisões integrativas. Assim, foram realizadas as seguintes etapas: 1) identificação do tema e da questão de pesquisa; 2) definição dos critérios para inclusão e exclusão dos estudos; 3) escolha das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; 4) avaliação dos estudos incluídos na revisão; 5) interpretação dos resultados; 6) apresentação da revisão/síntese do conhecimento.

Em primeiro lugar, definiu-se a questão de pesquisa que embasa o estudo, sendo esta: Como o apego paterno é conceituado em estudos indexados em meio eletrônico? 

Em seguida foram escolhidas as bases de dados, descritores e estratégias de busca a serem utilizadas. Portanto, a busca bibliográfica foi realizada no portal de bases de dados eletrônicas Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), na qual foram consultadas as bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), e também na PubMed. Todas essas foram escolhidas conforme a relevância de publicações na área da saúde. Essa etapa de busca ocorreu durante os meses de dezembro de 2014 a janeiro de 2015. Utilizou-se os descritores “apego” e “pai” para o idioma português e “attachment” e “father” para o inglês.

O passo seguinte foi estabelecer os critérios para seleção dos artigos. Assim, como critério de inclusão, foram selecionados artigos publicados nos últimos dez anos (com um corte temporal de janeiro de 2005 a dezembro de 2014) que tenham como idioma português e inglês, cuja população-alvo foi homens adultos, e com uma definição explícita do conceito de apego paterno no texto. Foram excluídos os artigos que não traziam uma conceituação de apego, e que não estavam disponíveis online integral e gratuitamente. Ademais, teses, dissertações e trabalhos fora do corte temporal não foram selecionados. Ainda por cima, artigos que discutiam o conceito de apego em contextos específicos, como a adoção, a infertilidade, e na presença de doenças, síndromes e transtornos específicos na criança ou no pai, também não entraram neste estudo, visto que a formação do apego nesses casos carregam um forte enviesamento em função da vivência da situação.

Após a realização da busca dos artigos, procedeu-se com a leitura dos resumos com o intuito de melhor selecioná-los e de direcionar esforços. Aqueles que atendiam aos critérios de inclusão e exclusão supracitados foram selecionados. Em seguida, dois pesquisadores deram prosseguimento à leitura das produções científica. Ainda nessa fase, caso algum trabalho não explicitasse o conceito de apego paterno seria excluído.

Os dados dos artigos selecionados foram extraídos a partir da utilização de um instrumento de coleta validado por Ursi (2005), capaz de assegurar que a totalidade dos dados relevantes seja extraída, minimizar o risco de erros na transcrição, garantir precisão na checagem das informações e servir como registro. Os dados coletados incluíam: definição dos sujeitos, metodologia, tamanho da amostra, método de análise e conceitos embasadores empregados (no caso, o conceito de apego paterno explicitado no estudo).

As informações extraídas das leituras foram expressas em uma planilha do Excel abrangendo as seguintes informações: Título do artigo, título do periódico, autores, local de publicação, idioma, ano de publicação, instituição sede do estudo, metodologia empregada, amostra e conceito de apego paterno explicitado.

Os resultados oriundos dessa etapa foram analisados por meio da análise de conteúdo. O primeiro passo da análise de conteúdo é estabelecer a unidade de análise – que se refere ao elemento básico de análise, relativo às palavras chave e/ou às proposições sobre determinado assunto. No presente estudo, a unidade de análise estabelecida foi o conceito de apego paterno, que trazia palavras-chave como “apego”, “apegado”...

A segunda fase da análise de conteúdo é determinar as categorias de análises – que se refere à seleção e classificação dos dados. As categorias tratam da identificação dos assuntos abordados nos artigos incluídos nessa revisão de literatura. No presente estudo, as categorias de análises foram estruturadas em um bloco, relativo à Conceituação do Apego e às palavras-chave utilizadas nos discursos presentes nos artigos incluídos nessa revisão.

A terceira e última etapa da Análise de Conteúdo consiste em selecionar uma amostra do material de análise – que trata dos critérios adotados para a seleção dos artigos incluídos nessa revisão. Por exemplo, os critérios de seleção dos artigos a serem analisados foram: ter sido realizada pesquisa com pais e ter o conceito de apego explicitado. Nesta etapa, observou-se que os conceitos de apego explicitados nas entrevistas formaram duas distintas categorias. Chegaram-se a essas duas categorias a partir da aparição de índices similares em discursos semelhantes. Segundo Bardin (2008), “o que caracteriza a análise qualitativa é o fato de a inferência – sempre que é realizada – ser fundada na presença do índice (tema, palavra, personagem, etc), e não sobre a frequência da sua aparição, em cada comunicação individual”.

No procedimento de análise de conteúdo é importante construir uma matriz de tipificação, porque essa é uma ferramenta que auxilia a pesquisa, tornando-a mais rápida e eficiente. O tratamento dos dados, de natureza quali – quantitativa, exige rigor, e para garanti-lo, a mesma categorização na matriz adotada foi realizada por dois avaliadores, para minimizar erros de viés.

No presente estudo, foi a presença de palavras índices que organizaram a formação das categorias.  Na primeira delas, a palavra “responsabilidade” foi o termo índice, caracterizando a definição de apego pelos sujeitos entrevistados como o fato de assumir a responsabilidade de cuidar do filho, financeiramente e educando-o. Em outra categoria de análise, o apego foi definido como a expressão do afeto pelos filhos, tendo como termos índice dessa categoria as palavras “amor” e “carinho”.

Resultados

Considerando a pesquisa somente pelos descritores “apego” e “pai” e seus correspondentes em inglês, foram encontrados 68 publicações científicas na MEDLINE, 46 no PubMed, e 72 na LILACS. Foi realizada uma avaliação que cumpriu rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão já citados. Procedeu-se também supressão das duplicatas, dos artigos não apresentados na íntegra, e cuja temática não contemplava a abordagem desse estudo. Ao final, a amostra dessa revisão foi constituída por seis artigos científicos, O quadro 1 representa as especificações de cada um dos artigos.

files/docs/users/lilianebraga/artigoPsicopedagogia-Quadro1.docx

Os estudos selecionados foram realizados em diferentes países, sendo dois no Brasil, dois no Reino Unido, dois nos Estados Unidos. Com relação ao ano de publicação, esses se encontraram na faixa de 2009 a 2014. Do total, um foi encontrado na base de dados PubMed, dois na LILACS e três na Medline. Todos apresentavam homens adultos como público-alvo. Do total de estudos, dois eram de revisão de literatura sobre a paternidade. 

Pode-se perceber a incipiência de artigos científicos que discutam a paternidade, principalmente na tentativa de compreender a formação do apego, o que seria de alta relevância para a Psicologia, já que vivemos um momento de transição dos papéis sociais da mãe e do pai, em que o pai é cada vez mais convidado a assumir os cuidados com filho.

Após a realização da análise de conteúdo, chegamos a duas categorias de conceituação do apego em pais, presentes na literatura científica analisada. 

Discussão

Classe 1 – Estar apegado é prover financeiramente

Nota-se, nessa classe, a noção de que a provisão financeira e material da família é a forma mais tangível de expressão do afeto pelo filho. Uma vez que o papel do pai é trabalhar para prover o sustento da família, arcando com as despesas da casa e dos filhos, ao cumprir esta função o homem revela o quanto está envolvido nessa relação com o filho. Nota-se também que tal responsabilidade do pai em ser provedor material é direcionada à família como um todo, incluindo esposa e filhos.

Os estudos realizados com homens adultos observaram, nos sujeitos, a visão de paternidade pautada numa preocupação com o futuro, sob o enfoque da provisão material, restringindo as necessidades dos filhos a essas mesmas bases. No estudo de Castoldi, Gonçalves e Lopes (2014), incluído nessa categoria, os pais seguiam modelos tradicionais de paternidade quanto à acessibilidade e à responsabilidade, e suas definições de apego centraram-se no papel de provedor financeiro. Com isso, o exercício da paternidade está atrelado à provisão material dos filhos, o que, para os homens, revela o seu grau de envolvimento com os filhos e com a família.

No estudo de Threlfall, Seay e Kohl (2013), também pertencente a essa categoria, a maioria dos pais relatou ser provedor para seus filhos como um elemento essencial, ou até mesmo um componente fundamental do seu apego paterno. Eles conceituaram isto parcialmente em termos de cumprimento das necessidades materiais de seus filhos: proporcionar um teto sobre suas cabeças, comida para comer, e roupas e sapatos.

Os estudos incluídos nessa revisão de literatura, como o de Katz-Wise, Priess e Hyde (2010) também constataram que o papel de provedor econômico para homens é suportado pela sociedade através de oportunidades de trabalho e salários mais elevados, levando assim os homens a serem mais comprometidos com o papel de provedor do que com a expressão do afeto ou de outros tipos de cuidado.

Esses dados estão em consonância com a literatura científica que trata do tema da paternidade, pois, embora a provisão material não seja a única concepção de paternidade, nem a única forma de expressão do apego, é a mais valorizada socialmente e mais comumente relatada por pesquisas sobre esse tema (Freitas et al., 2009; Hoga & Reberte, 2009; Levandowski & Piccinini, 2006).

É o caso, por exemplo, do estudo realizado por Levandowski e Piccinini (2006) com o objetivo de comparar as expectativas e sentimentos em relação à paternidade entre adolescentes e adultos, em que foram encontrados resultados que revelaram que os pais de ambos os grupos caracterizaram o apego paterno como a provisão econômica e de suporte emocional para a família.

Hoga e Reberte (2009) realizaram um estudo com pais adolescentes e obtiveram resultados semelhantes aos estudos realizados com pais adultos quanto à caracterização do apego como provisão material da família. As autoras citadas constataram que muitos dos seus sujeitos começaram a trabalhar quando descobriram que iriam se tornar pais, revelando que, para eles, a prioridade do momento era prover o sustento da família, sendo essa a principal responsabilidade do pai (Hoga & Reberte, 2009).

A atribuição de provedor financeiro tem o sentido de missão natural da paternidade: o pai se ocupa do sustento da família, enquanto a mãe se ocupa dos cuidados com os filhos (Carvalho et al., 2009; Freitas et al., 2009; Levandowski & Piccinini, 2006).

Culturalmente, a paternidade é associada ao papel de provisão material, caracterizando como um bom pai aquele que não deixa faltar o alimento em casa e dá lições de vida ao filho (Freitas et al., 2007). De acordo com Freitas et al. (2007), para o pai, a primeira responsabilidade social é com o provimento financeiro da família, o que implica dizer que ser pai não é só ter filhos, mas conseguir mantê-los. Isto, então, significaria ser um bom pai, ou seja, aquele que gosta e cuida dos filhos, aquele que não deixa faltar nada para seus filhos.

Sabe-se que as atividades de cuidado são culturalmente associadas ao gênero feminino, e nessa categoria a definição de apego para os pais é descrita quase que exclusivamente limitada à provisão financeira e material da família. Assim, mais uma vez, o trabalho é extremamente valorizado pelo homem como constituinte da identidade masculina adulta, sendo também uma fonte de prestígio diante dos pares (Arilha, 1999; Freitas et al., 2007; Freitas et al., 2009; Levandowski & Piccinini, 2006).

Classe 2 – O apego é cuidado e a expressão do afeto

Observa-se, nessa classe, que a conceituação do apego está também relacionada com a expressão do afeto pelo pai. Nos estudos que compuseram essa classe, a conceituação do apego expressa que estar apegado é dar carinho, amor e atenção aos filhos. Nota-se que, nessa categoria de respostas, os homens definiram o apego a partir da sua participação na educação informal dos filhos, estando presente no dia-a-dia, aconselhando-os quando necessário, respeitando suas decisões e demonstrando carinho e amor em todas essas ações.

O estudo de Genesoni e Tallandini (2009), também incluído nessa categoria, observou um elemento emergente como sendo comum a todos os períodos considerados importantes para a preparação do homem para assumir a paternidade, que foi a importância da qualidade do relacionamento do homem com sua parceira, também indicando que, para estes sujeitos, a dimensão afetiva da relação também compõe a definição de paternidade. Este achado foi muito semelhante ao estudo de Oliveira e Silva (2011), também incluído nessa categoria, que concluiu que dentro da nova perspectiva de paternidade, o apego paterno se constrói durante a relação da díade pai-filho.

O estudo de Ives (2014), pertencente a esta categoria, concluiu que seus sujeitos conceituaram o apego como um relacionamento com ênfase nos aspectos da paternidade masculina que os sujeitos relataram como os mais significativos: as emoções, a expressão de afeto, e a reciprocidade do apego na díade pai-filho.

Pode-se observar, nos estudos incluídos nessa categoria, uma visão de apego paterno que inclui aspectos vinculados ao envolvimento afetivo e ao cuidado no ambiente familiar (Freitas et al., 2009).

O envolvimento paterno é definido não só pela maior participação do pai nas atividades familiares, mas engloba também o comportamento do pai na interação com a criança, nas atividades de cuidado, de recreação, de apoio à esposa, os sentimentos do pai de satisfação com a paternidade e a qualidade da relação com a criança (Silva & Piccinini, 2009).

É o envolvimento paterno que possibilita o surgimento de novas expectativas, atitudes e crenças à respeito do que o pai deve fazer nas relações familiares, emergindo o papel social que tem sido chamado de “Novo Pai” ou “Nova paternidade” (Fonseca, 1997; Meincke & Carraro, 2009; Silva & Piccinini, 2009).

                O “novo pai” participa ativamente em todos os aspectos do cuidado com o filho, como, por exemplo, na alimentação do bebê e, posteriormente, na educação dos filhos em todas as etapas do desenvolvimento (Fonseca, 1997; Meincke & Carraro, 2009; Silva & Piccinini, 2009).

Outro estudo incluído nessa revisão foi o de Threlfall, Seay e Kohl (2013), que concluiu que os sujeitos entrevistados tinham um "provedor", em suas mentes ao conceituar o apego paterno, porém, acreditavam que o apego não se limitava a garantir que seus filhos tivessem bens materiais suficientes. Na verdade, eles acreditavam que parar por aí seria falhar na sua relação com os filhos. Os pais também viram seus filhos como tendo necessidades menos tangíveis, tais como o apoio emocional e educação, que eles viam como sua responsabilidade de fornecer.

Os dados apresentados pelos estudos incluídos nessa categoria de respostas se assemelham aos que foram encontrados na literatura científica sobre paternidade, como no estudo realizado por Freitas et al. (2007) com pais adultos, buscando compreender a vivência da paternidade. Os entrevistados descreveram o apego como num misto entre o a provisão material e novas formas de expressar o apego. Isto ocorreu, segundo a discussão feita pelas autoras, porque os entrevistados eram os provedores financeiros da família, mas tentavam viver a paternidade de forma a romper com o estereótipo do modelo tradicional de paternidade e vivenciar os aspectos afetivos dessa relação (Freitas et al., 2007). 

Observa-se também, nessa categoria de respostas, que o “novo pai” visita o pai tradicional, mas afasta-se dele, construindo um sentido mais amplo para o apego paterno, estabelecendo a importância da construção de vínculos afetivos na relação pai e filho (Freitas et al., 2007). Na conceituação de apego paterno presente nessa categoria, é possível perceber que esta conceituação começa a estar mais focada na qualidade do relacionamento, revelando um tipo de relacionamento mais íntimo e expressivo entre pai e filho, pautado pelo gesto de cuidar – palavra fortemente associada à formação dessa categoria de respostas (Silva & Piccinini, 2009).

Pela importância atribuída às atividades de cuidado, percebe-se que, no conceito de apego em pais presente nessa categoria de respostas, a expectativa de desempenho do pai dá um salto qualitativo, uma vez a relação pai e filho é ampliada para além da provisão material, dando lugar para que haja o envolvimento paterno em atividades comumente associadas à mãe, como acompanhar o desenvolvimento escolar e as atividades de lazer (Freitas et al., 2009).

Analisando de forma geral todas as categorias de respostas sobre o conceito de apego em pais, é perceptível a existência de um movimento dialético que faz emergir reflexões no sujeito a respeito das suas próprias concepções de apego, o que possibilita incorporando às características do pai provedor outras características que valorizam os vínculos afetivos e o cuidado com os filhos. Isto porque o papel do “novo pai” ainda está em construção: de um lado existem as demandas do papel tradicional de pai (de provedor financeiro), e de outro, novas demandas de maior participação e envolvimento (Levandowski & Piccinini, 2006).

Somado à isso, social, histórica e culturalmente a mulher possui mais espaços para falar sobre seus conflitos, além de existir um significativo número de serviços de atendimento e cuidado à sua saúde física e mental, tanto no sistema público de saúde quanto no privado.

Uma das consequências da pouca atenção que se dá a saúde do homem é que ele não possui espaços para falar sobre as situações de conflito, como é, por exemplo, o tornar-se pai. Além disso, culturalmente, é atribuído aos homens a função de manter-se estável emocionalmente e não expressar suas emoções. Todos esses fatores contribuem para o adoecimento dos homens, sendo a depressão paterna a expressão mais atual de todo o cenário descrito acima.

Diante de tudo isso, os achados dessa revisão de literatura apontam para a necessidade de realização de estudos com o público masculino, principalmente de estudos que se dediquem a conhecer a forma como os homens conceituam e vivenciam o apego paterno e as dificuldades que têm encontrado para expressá-lo.

Entende-se que uma revisão de literatura que aponta os principais conceitos de apego paterno existentes na atualidade pode contribuir para uma mudança de prática dos profissionais de saúde que atuam de forma direta ou indireta com o público masculino. Estes profissionais devem ser sensíveis às diferenças sociais e culturais que permeiam a realidade desses homens. Além disso, devem ser capazes de desenvolver projetos específicos e contextualizados, com segurança e ética. Isto exigirá do profissional de saúde um conhecimento sobre os diferentes estilos de vida, condições socioeconômicas, orientações religiosas e gênero, considerando todos esses fatores no contexto do cuidado que oferece.  Acima de tudo, é preciso que haja um entendimento, por parte dos profissionais da educação em saúde, de que a paternagem e a maternagem devem ser responsabilidades da díade homem-mulher e exercidas de forma compartilhada.

Aponta-se ainda, como contribuição dessa revisão de literatura sobre o conceito de apego em pais, a provocação de um pensar crítico dos profissionais de saúde sobre suas práticas, deixando esses profissionais atentos para assuntos como a paternidade, podendo cooperar para a construção de um lugar social para os pais comprometidos com o cuidado aos filhos.

No entanto, a realização dessa pesquisa não esgota a discussão sobre o tema, e deixa algumas perguntas em aberto, como por exemplo, qual seria o comprometimento das Políticas Públicas voltadas para a saúde do homem em discutir a temática da paternidade sob a perspectiva dos homens? Questiona-se também o quanto que a forma como as ações em saúde que abordam a temática da responsabilidade reprodutiva de homens e mulheres sofrem influência do conhecimento prévio dos profissionais envolvidos, resultando em posturas de rechaça e rejeição aos homens que se tornam pais e que desejam participar de todas as etapas, desde as consultas pré-natais até o parto, sendo estas práticas fundamentais à construção do apego. (Perosa & Pedro, 2009).

 

Referências

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Autores

Liliane Pereira Braga: Psicóloga, Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia (PpgPsi) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Professora assistente do curso de Medicina Multicampi do RN da UFRN.  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Eulália Maria Chaves Maia: Professora titular e bolsista de produtividade (CNPq) da UFRN, vinculada ao curso de graduação em Psicologia e orientadora credenciada para Mestrado e Doutorado nos Programas de Pós graduação em Ciências da Saúde e PpgPsi, ambos da UFRN.  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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