 |
JOGOS NA EDUCAÇÃO E NO CONSULTÓRIO
Márcia Bertoldi |
A escolha dos jogos será definida pelas dificuldades específicas de cada criança, e é neste momento que podemos lidar com as mesmas.
Qual a importância
dos jogos no processo educativo?
A infância se caracteriza pelo
brincar. É através do brincar que a criança constrói sua aprendizagem acerca do
mundo em que vive, da cultura em que está inserida. Os jogos são uma fração, uma
pequena parte desta atividade de brincar da criança. Os jogos, pela sua
estrutura, representam situações em que a criança tem de enfrentar limites. Não
somente os limites das regras a serem respeitadas, mas também seus próprios
limites que devem ser superados para que a criança possa ter êxito. Permitem
ainda que a criança crie ou modifique as regras, de comum acordo com seus
parceiros, propiciando o desenvolvimento de sua autonomia moral.
Que tipos de jogos
são utilizados terapeuticamente?
A variedade é
inesgotável. Abrange tanto os jogos individuais, onde a criança tem de superar
seus próprios limites, quanto os jogos cooperativos ou competitivos. Podem ser
jogos de mesa ou jogos de computador. Podem ainda ser jogos tradicionais como
bolinhas de gude, 5 Marias ou amarelinha. Cada um tem suas possibilidades
educativas, o que invalida a classificação entre jogos educativos ou não. Aliás,
os ditos “jogos educativos” são os menos adequados, pois são na realidade
materiais didáticos um pouco mais atraentes. Não possuem normalmente as
características que possibilitam o uso terapêutico no trabalho psicopedagógico,
que estão ligados à construção de um cenário lúdico, de desafio, distante da
realidade escolar tão impregnada de sentimentos negativos para a criança com
dificuldades.
O que os jogos podem
trabalhar na criança com problemas de aprendizagem?
Os jogos possibilitam à criança aprender de forma prazerosa,
num contexto desvinculado da situação de aprendizagem formal. Facilitam também o
vínculo terapêutico, fundamental para que qualquer processo tenha êxito. Através
da aprendizagem do próprio jogo, do domínio das habilidades e raciocínios
utilizados, a criança tem a possibilidade de redimensionar sua relação com as
situações de aprendizagem, com seu desejo de buscar novos conhecimentos. Tem
também a oportunidade de lidar com a frustração do não saber, com a alternância
entre vitórias e derrotas. Estas mudanças na percepção de si mesmo e do objeto
de conhecimento podem ser estendidas às situações de aprendizagem formal, na
medida em que se restabelecem o desejo e a confiança da criança na sua
capacidade de aprender.
A escolha dos jogos será definida pelas dificuldades
específicas de cada criança, e é neste momento que podemos lidar com as mesmas.
Existem jogos que trabalham a linguagem, como por exemplo o Jogo da forca,
Palavras cruzadas, Risk, Jogo do pato. Outros trabalham com
números, como Compre bem, Banco imobiliário. Outros trazem
informações sobre diversos temas como Perfil. Existe ainda uma variedade
enorme de jogos que exigem estratégia, domínio espacial, verificação de
hipóteses, tomadas de decisões. Os jogos de computador são muito bons, e a
diversidade de temas é inesgotável, variando de jogos de linguagem, raciocínio,
simulações de realidade.
Eu acredito que não exista uma área de dificuldade de
aprendizagem para a qual não possamos utilizar o recurso dos jogos.
Hoje as brincadeiras
infantis limitam-se aos condomínios ou escola, dado o medo das famílias da
violência. Ainda observamos que brinquedos e jogos são industrializados.
A criança de hoje, é menos criativa, menos sociável do que a criança de
antigamente?
Não vejo que haja uma diferença
quantitativa na capacidade criadora e na sociabilidade das crianças atuais. Todo
ato humano é criativo. Cada criança é única no seu desenvolvimento, na forma de
se relacionar com o meio. Isso é criatividade. A forma como esta criatividade se
expressa varia conforme o contexto sócio-cultural em que a criança se situa. Se
hoje uma criança de classe média não inventa um brinquedo a partir de uma caixa
de sapatos, ela inventa um com Lego. A liberdade de ação e de pensamento
outorgadas às crianças atuais, pela família, sociedade e escola faz um
contraponto com a existência de jogos industrializados e com a permanência da
criança em locais aparentemente protegidos. E se por um lado, o medo da
violência prende as pessoas em ambientes criados artificialmente, por outro, as
possibilidades de contato são ampliadas nas diversas atividades e grupos de
interesse dos quais as crianças participam. O que deve ser considerado é a forma
como estes contatos se dão, pois de fato falta às crianças o convívio em um
grupo sem a presença organizadora do adulto. Talvez isso tenha influência no
desenvolvimento da iniciativa e da autonomia desta geração, mas não podemos hoje
ainda avaliar.
Crianças com algum
tipo de problema neurológico ou motor utilizam jogos especiais?
Os jogos devem ser escolhidos de acordo com as habilidades
das crianças. Assim, se houver a necessidade de jogos desenvolvidos
especialmente para determinada criança, é fundamental que isto seja observado.
Na grande maioria dos casos, no entanto, podemos somente ter a preocupação de
selecionar os melhores recursos existentes, adaptando regras e formas de
utilização. É fundamental no entanto que possamos olhar a criança além do seu
diagnóstico. A escolha de jogos para um adolescente que dispõe de um raciocínio
intuitivo, pré-operatório, por exemplo, é muito diferente da escolha dos jogos
para uma criança de seis anos com a mesma capacidade lógica. Os interesses e o
conhecimento do mundo destes dois sujeitos são completamente diferentes, apesar
da forma de pensamento que os une.
Os educadores estão
adotando atividades lúdicas nas escolas? Em que matérias?
Posso falar da realidade de
Curitiba, que é a que conheço mais de perto. Observo um número cada vez maior de
escolas aonde os jogos vêm sendo utilizados sistematicamente, dentro da sala de
aula ou mesmo como uma aula à parte. Isso se nota principalmente com o xadrez,
reconhecido por favorecer o desenvolvimento do raciocínio lógico. Algumas
escolas ainda fazem um uso mais tímido dos jogos, limitando-os a facilitador de
certos conteúdos, principalmente na matemática. Outra já dispõe de salas com
professores especializados que possibilitam um uso mais abrangente dos jogos.
Quais são as
vantagens de se utilizar o jogo em sala de aula?
São vantagens muito semelhantes às obtidas no trabalho
clínico, mas com um caráter notadamente preventivo. A criança que tem seus
primeiros contatos com a aprendizagem de forma lúdica, provavelmente vai ter a
chance de desenvolver um vínculo mais positivo com a educação formal, vai estar
mais fortalecida para lidar com os medos e frustrações inerentes ao processo de
aprender. Mas, para que os jogos cumpram seu papel dentro da escola, o professor
deve realizar as intervenções necessárias para fazer deste jogo uma
aprendizagem. Como nos diz Lino de Macedo, “as aquisições relativas a novos
conhecimentos e conteúdos escolares não estão nos jogos em si, mas dependem das
intervenções realizadas pelo profissional que conduz e coordena as atividades”
(Macedo, Petty & Passos. Aprender com jogos e situações-problema. Porto
Alegre: Artes Médicas Sul, 2000)
Publicado em 21/03/2003 12:42:00
Márcia Bertoldi - Psicopedagoga, formação com prof. Jorge Visca; Mestre em Psicologia - Universidade de Waterloo (Canadá); Pedagoga - Universidade Federal do Paraná;
Psicopedagogia clínica - Clínica Psiccampus (Curitiba);Professora de pós graduação da PUC - Pr (Curso de Psicopedagogia); Professora de pós graduação da Famec - Pr (Psicopedagogia)
Conselheira eleita da ABPp.
Clique aqui: Normas
para Publicação de Artigos
|