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A PSICOPEDAGOGIA NA INSTITUIÇÃO HOSPITALAR

Raquel Gontijo


Durante o processo, aprendem a lidar com projetos de trabalho, pesquisar, concluir e criticar. Desenvolvem suas estruturas cognitivas e melhoram sua auto-estima.

O trabalho da Psicopedagogia Hospitalar ainda é desconhecido por muitos, como se dá esta atuação na instituição hospitalar?

Na verdade, meu trabalho na rede hospitalar de Minas Gerais não se dá em um hospital geral, mas em uma instituição de saúde mental, um hospital de psiquiatria infantil. Trata-se de uma instituição bem completa que presta assistência à população carente de todo o estado, principalmente das cidades onde não há nenhum serviço de saúde mental. A instituição é composta de Serviço de Urgência, Ambulatório, um setor de Transtornos Invasivos do Desenvolvimento e Oficinas Terapêuticas. Durante alguns anos trabalhei com uma das equipes multidisciplinares do ambulatório, atuando como psicopedagoga em atendimentos tradicionais. Hoje, coordeno os trabalhos das Oficinas Terapêuticas, uma equipe formada por Terapeutas Ocupacionais, Pedagogos, Psicopedagogos e Artesãos. Os pacientes atendidos nas Oficinas Terapêuticas são encaminhados pelo serviço de urgência e pelo ambulatório com queixas de hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, dificuldades em estabelecer relações, baixa auto-estima, etc. Avaliamos os casos e procuramos priorizar o atendimento mais urgente. Nós, psicopedagogos, particularmente atendemos aqueles com maior queixa de dificuldades de aprendizagem. Nosso trabalho consiste em proporcionar aos pacientes a oportunidade de criar, confeccionar e utilizar jogos e brinquedos.

Onde e como a psicopedagogia poderá trabalhar o indivíduo com patologias graves como neuroses ou psicose?

Os pacientes com psicopatologias graves, em sofrimento mental ou em crise se beneficiam muito dos atendimentos nas Oficinas. É um espaço onde podem resgatar seu contato com a realidade, descobrir suas potencialidades e lidar com seus limites. Através das atividades propostas o paciente percebe suas possibilidades de crescer, aprender e conviver em sociedade. Nosso maior objetivo é a reinserção desse paciente na comunidade onde vive. A maioria dos nossos pacientes está fora da escola, ou de alguma forma, excluída dentro dela. Procuramos levá-los a descobrir novas formas de conviver com outras crianças e/ou adolescentes, desenvolver o gosto pelo aprender, pelo fazer bem feito. Durante o processo, aprendem a lidar com projetos de trabalho, pesquisar, concluir e criticar. Desenvolvem suas estruturas cognitivas e melhoram sua auto-estima.

O trabalho em equipe comprovadamente é mais eficaz ao paciente com graves distúrbios, como é visto a prática clínica efetiva realizada com a criança que sofre alguma patologia?

Inicialmente é necessário que se defina uma impressão diagnóstica que norteará o projeto terapêutico do paciente. (Essa impressão diagnóstica pode ser modificada depois de uma maior e melhor observação do caso.) Em geral o psiquiatra faz o controle medicamentoso e os outros profissionais da equipe desenvolvem as intervenções terapêuticas de longo prazo de acordo com a especificidade de cada caso. A mesma criança pode estar em psicoterapia no ambulatório, oficina psicopedagógica e controle psiquiátrico; ou em terapia ocupacional e fonoaudiologia no ambulatório e oficina psicopedagógica. A equipe reúne-se semanalmente para discutir os casos atendidos por ela. Nessas reuniões, os profissionais que compõem a equipe, definem, cada um dentro da sua especialidade, a condução de cada caso. Independentemente da especialidade do profissional, há sempre aquele "eleito" pelo paciente como referência dentro da instituição, o que torna o trabalho em equipe fundamental na saúde mental.

Falar da Psicopatologia da infância, em especial o diagnóstico gera uma grande polêmica, como psicopedagoga o que pode observar nesta sua prática?

Observo uma crescente adequação dos encaminhamentos feitos por profissionais da educação para a clínica de saúde mental. Até alguns poucos anos atrás, as escolas encaminhavam seus alunos para o hospital psiquiátrico devido à pequenas dificuldades específicas de aprendizagem ou indisciplina. Havia um excesso, uma patologização da educação. A escola buscava um diagnóstico que justificasse as dificuldades dos alunos e a isentasse da responsabilidade pelas soluções. Hoje, vejo uma mudança de postura da escola perante as dificuldades dos alunos e também um maior cuidado no diagnóstico por parte dos profissionais da saúde mental. O diagnóstico de uma criança não é fechado, definitivo. É passível de alterações. Mas é importante que seja feito, para orientar a conduta terapêutica. A doença mental existe. É necessário tratá-la. Nós psicopedagogos precisamos perder o preconceito que muitas vezes temos contra o diagnóstico psiquiátrico e assumir o importante papel que temos na recuperação do doente mental. Para que uma criança ou adolescente paciente da saúde mental se re-insira na sociedade em que vive, necessita aprender a aprender ou reaprender a aprender.

A psicofarmacologia ajuda no trabalho psicopedagógico ou atrapalha?

Quando bem administrada, ajuda. Crianças ou adolescentes em sofrimento mental necessitam da medicação para sair da crise e elaborar seus conflitos. A clínica psicopedagógica não alcança resultados satisfatórios se a criança ou adolescente estiver muito desorganizado, em agitação excessiva, agressivo, etc.

Como é lidar com a família de crianças psicóticas? Existe a colaboração?

A família de um doente mental também demanda tratamento. É necessário que seja ouvida e orientada. No antigo modelo de hospital psiquiátrico, a família internava o paciente em crise e ele permanecia no hospital muitas vezes por anos, ou até pelo resto da vida; isolado da sociedade. A família aparecia em dias de visitas, cada vez mais espaçados, até que desaparecia completamente. Hoje, os hospitais psiquiátricos têm modificado sua conduta, evitando internações prolongadas, adotando regimes de alojamento conjunto ou hospital-dia. A família também recebe tratamento para que possa lidar com o paciente de maneira a ajudá-lo na sua recuperação. É muito difícil generalizar a reação de cada família: muitas colaboram, outras não, algumas modificam sua conduta no decorrer do tratamento.

Como você vê a inserção do psicopedagogo em instituições de saúde mental?

Necessária, porém ainda pequena. O papel principal das instituições de saúde mental é promover uma melhor qualidade de vida dos seus pacientes e procurar garantir-lhes uma relação sadia e o mais "normal" possível com a sua comunidade. Para que o paciente psiquiátrico possa se relacionar em sociedade é necessário que aprenda a aprender. E a função do psicopedagogo é exatamente promover a aprendizagem efetiva. Qualquer que seja ela.


Raquel Gontijo - Pedagoga pela UFMG, especialista em Dificuldades de Aprendizagem pela UEMG, pós-graduada em Psicopedagogia clínica pela Escuela Psicopedagógica de Buenos Aires, Aociopsicomotricista Ramain-thiers, Psicopedagoga clínica e coordenadora das Oficinas Terapêuticas do Centro Psicopedagogico da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia - seção Minas Gerais.

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