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A IMPORTÂNCIA DA PSICANÁLISE NA EDUCAÇÃO
Davy Litman Bogomoletz |
Na Europa e na América do Norte, os conhecimentos derivados da psicanálise vêm sendo usada na educação, por exemplo, já há um bom tempo, e ela não é tão rechaçada quanto aqui Davy, por que a psicanálise para quem lida com educação?
Não é um tratamento, voltado para as doenças, pouco tendo a ver com o que se
passa entre professores e alunos?
Eu poderia dizer que não é bem assim. Posso fazer
uma analogia com a medicina. Sabemos que ‘medicina’ significa uma série de
técnicas capazes de lutar contra um grande número de doenças. Mas em que se
baseia a medicina? Principalmente em dois conjuntos de conhecimentos, um chamado
anatomia, e o outro, fisiologia. Por um lado, a anatomia é fundamental não só
para a cura de doenças, mas também para a educação física, a reabilitação,
o esporte, a fisioterapia, etc. Não sei que usos tem a fisiologia fora da
medicina, mas creio que a nutrição tem nela uma base fundamental para poder
funcionar. Assim, nem só de doenças vive o conhecimento sobre o corpo humano.
A psicanálise é constituída de duas partes: As teorias
sobre o funcionamento humano em termos psicológicos, e as técnicas de
tratamento. Da mesma forma que a anatomia e a fisiologia, conhecimentos
fundamentais, dão uma base sólida a todas aquelas especialidades acima
mencionadas, o conhecimento psicanalítico também fornece fundamentos para uma
série de atividades, tais como a educação, a psicologia (individual e
social), agora a psicopedagogia, etc.
Por que, então, tanta dificuldade para a aceitação
da psicanálise em situações não patológicas?
O problema é que numa sociedade fechada como era a
nossa até poucas décadas atrás, o conhecimento do que se passa nos bastidores
da consciência era tido como perigoso, porque quanto mais fechada a sociedade,
maior o teor de preconceitos usados contra o outro e de disfarces para melhorar
a própria imagem, e a psicanálise questiona tudo isso. Na Europa e na América
do Norte, os conhecimentos derivados da psicanálise vêm sendo usada na educação,
por exemplo, já há um bom tempo, e ela não é tão rechaçada quanto aqui.
E por que Winnicott, e não outro teórico da psicanálise?
A resposta aqui é uma continuação da idéia
anterior. É que Winnicott, sendo a terceira geração na história da teoria
psicanalítica (as primeiras, óbvio, eram Freud e Melanie Klein), já encontrou
muitos caminhos abertos, a teve como ir mais adiante. Até então a psicanálise
lidava basicamente com doenças e técnicas de tratamento. Embora Freud
dissesse, por exemplo, que o Complexo de Édipo era universal e funcionava como
base para a personalidade, independente de doenças ou não, sua preocupação
era principalmente com as patologias causadas por esse complexo. E Melanie
Klein, embora usasse o brinquedo como técnica de tratamento, não parou para
discutir o brincar em si mesmo, como manifestação normal da criança.
Winnicott, além do mais, foi pediatra por 40 anos, além
de psicanalista, e teve um contato muito prolongado com um número enorme de
crianças que só estavam doentes fisicamente, e podiam ser consideradas
psicologicamente saudáveis. Esse contato com as crianças que não tinham
qualquer comprometimento psicológico o convenceu, creio eu, de que a psicanálise
não podia restringir-se à compreensão da doença psíquica, precisava ir além
e tentar entender o funcionamento da mente humana sem a interferência da doença.
Atualmente há tentativas de aplicar também as teorias de
Lacan, por exemplo, à situação da criança e da aprendizagem, mas não sou
especialista em teoria lacaniana, de modo que não posso falar muito sobre isso.
O que você vê como o ponto mais importante da
abordagem de Winnicott para a questão da educação e da aprendizagem?
Esse é um tema interessante. Eu poderia dizer, para
ficar num único aspecto, que Winnicott percebeu uma coisa que outros
psicanalistas não viram, e que é a espontaneidade e tudo aquilo que gira em
torno dela ou de sua ausência. Que diferença há, por exemplo, entre um aluno
que aprende bem porque é submisso e outro que aprende bem porque é espontâneo?
Eu diria que a diferença está em que o aluno espontâneo talvez não tire
notas tão boas quanto o submisso, mas terá muito mais curiosidade, terá muito
mais idéias próprias, fará muito mais ligações entre as várias coisas
aprendidas, e assim por diante. Conseqüência: ele usará bem melhor os
conhecimentos adquiridos quando estiver fora da escola.
Na minha opinião, essa diferença não era muito
apreciada, até pouco tempo atrás. E então as escolas começaram a se
preocupar com a espontaneidade e a não-submissão, mas acho que houve muita
confusão nessa área, e muita gente meteu os pés pelas mãos tentando entortar
para o lado de lá o que antes estava torto para o lado de cá. Winnicott
discute tudo isso, mas a partir das próprias bases iniciais do desenvolvimento
emocional da criança, e esse conhecimento a meu ver é fundamental para quem
quer ter realmente uma boa noção de como funcionam crianças normais. (E também,
obviamente, as que precisam de ajuda para chegar à normalidade ou ao menos
perto dela.) E falo aqui de crianças porque elas são o “público alvo”
disso que chamamos educação, não porque o que ele disse só é importante em
termos de crianças.
Última pergunta: E essa questão do brincar, que
importância tem para o processo da aprendizagem?
Como eu disse antes, Winnicott deu grande importância
ao fenômeno da espontaneidade. É como se até então a psicanálise
considerasse que o indivíduo age a partir do esquema estímulo – resposta, e
ele foi o primeiro a dar importância ao comportamento que na verdade não está
respondendo a estímulo nenhum. Por isso ele fala da diferença entre agir e
reagir, e o que sabemos é que muita gente – criança ou não – quase nunca
consegue agir, em geral fica esperando que ocorra um estímulo para então
reagir a ele. (Muita gente não sabe o que fazer nos fins de semana, por
exemplo, ou num feriado. Fica perdida.) Winnicott percebeu que o indivíduo
humano é naturalmente criativo desde o início, e que o bebê inventa
brincadeiras espontaneamente. Disso todo o mundo sabe, é claro, mas até então
ninguém percebeu o quanto isso era importante. Ora, justamente por isso essa
espontaneidade poderia ser reprimida, impedida, e isso acontece muitas vezes
desde muito cedo na vida do bebê. Quando esse desastre não acontece, a
espontaneidade e a criatividade da criança naturalmente agem no sentido de
fazer coisas, e de aplicar a fantasia (o “produto” da criatividade) aos
movimentos e à manipulação de objetos – aquilo que chamamos de
‘brincar’. Com isso, a criança age sobre o mundo à sua volta, descobrindo
coisas e inventando outras, pelo puro prazer de fazê-lo. Ela se sente agente,
sujeito, ou outro nome que se dê a isso, e isto cria a capacidade de aprender
como conquista, como exercício da própria vontade, o que é muito diferente de
aprender como submissão à vontade do outro. E é justamente essa atividade –
o brincar – que permite a esse processo de aprendizagem como conquista
instalar-se e transformar-se na base de tudo aquilo que nós adultos chamamos de
aquisição da cultura. O conhecimento, a cultura, portanto, do ponto de vista
de Winnicott, podem ser algo de que a gente se apossa, ou algo que se apossa da
gente. E qualquer pessoa (inclusive os professores) sente na própria pele a
diferença entre essas duas possibilidades. É claro que não é possível a
aprendizagem dentro da pura liberdade – não sei que fim levou, afinal, a
famosa escola Summerhill, mas não parece ter feito tanto sucesso assim... Uma
coisa, porém, é a liberdade apenas relativa, não total, e outra a ausência
quase total de liberdade. É desse tipo de coisas que Winnicott fala, e a meu
ver é até urgente que as pessoas voltadas para a educação e a aprendizagem
prestem-lhe um pouco mais de atenção.
Obviamente, cada um dos pontos de que falei acima é apenas
uma breve simplificação, e não deve ser considerado “toda a
verdade”. Mas para falar das complicações precisaríamos de vários livros,
de modo é melhor ficarmos por aqui, e terei muito prazer em responder às
perguntas que os leitores vierem a formular.
Muito obrigado.
Davy Litman Bogomoletz - Psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro-Tradutor para a Imago Editora dos títulos:
Natureza Humana D.W.Winnicott
O Filho Ilegítimo Gérard Haddad
Freud - Um Judeu sem Deus Peter Gay
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