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(POR) UMA EDUCAÇÃO COM ALMA A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE NOS PROCESSOS DE ENSINO/APRENDIZAGEM

Beatriz Scoz


Os conhecimentos da Psicopedagogia nos permitem compreender a integração entre a construção do conhecimento por parte do sujeito - o sujeito epistêmico e a constituição do sujeito pelo conhecimento - seu desejo, sua história, sua singularidade

(POR) UMA EDUCAÇÃO COM ALMA, ACABA DE SER LANÇADO PELA EDITORA VOZES. TRATA DA OBJETIVIDADE E DA SUBJETIVIDADE NOS PROCESSOS DE ENSINO/APRENDIZAGEM. QUAL A IMPORTÂNCIA DA OBJETIVIDADE E DA SUBJETIVIDADE NESSES PROCESSOS?

A aprendizagem ocorre na relação entre a objetividade ( a realidade, o conhecimento, a lógica, o espaço, o tempo, o intelecto) e a subjetividade ( o simbólico, o desejo, as representações, os afetos). Nos processos de ensino/aprendizagem, o simbólico se transmite ao mesmo tempo que o conhecimento dito "científico", ou seja, a transmissão do conhecimento é também a transmissão de nossas formas de ser e de crer. É importante assinalar que os processos de ensino/aprendizagem são indissociáveis porque internalizamos modelos de aprender em reciprocidade aos modelos de ensino com os quais interagimos durante a vida nos grupos aos quais pertencemos. Sendo assim, é necessário a abertura de um espaço onde educadores e psicopedagogos possam repensar seus modos de ser e de fazer , construindo sua identidade pessoal e profissional, ou seja um trabalho onde a objetividade e a subjetividade estejam presentes.

COMO A PSICOPEDAGOGIA CONTRIBUI NESSE CONTEXTO?

O princípio norteador da Psicopedagogia é a integração entre a objetividade e a subjetividade nos processos de ensino/aprendizagem. Os conhecimentos da Psicopedagogia nos permitem compreender a integração entre a construção do conhecimento por parte do sujeito - o sujeito epistêmico e a constituição do sujeito pelo conhecimento - seu desejo, sua história, sua singularidade. Numa perspectiva psicopedagógica, para incorporar conhecimento e desejo nos processos de ensino/aprendizagem, existe o entrelaçamento de quatro níveis de estruturação: organismo, corpo, estrutura cognitiva e estrutura dramática e simbólica.

QUAL A IMPORTÂNCIA DESTE LIVRO PARA OS EDUCADORES E PSICOPEDAGOGOS?

Atualmente, nos meios educacionais no Brasil e em outros países as propostas para a formação dos educadores vêm sofrendo profundas transformações. É corrente
o discurso sobre a importância das interconexões entre os fatores externos aos educadores e suas característica pessoais. Esse movimento integrador se manifesta em alguns princípios norteadores, por exemplo, os da UNESCO que enfatizam em igual medida o domínio das disciplinas, a dimensão social e a dimensão pessoal, tendo como meta aprender a aprender, o que nos remete à integração da objetividade e da subjetividade nos processos de ensino/aprendizagem.
Este livro expressa uma dimensão de atualidade ao abordar e aprofundar reflexões em torno desse tema e, mais do que isso, é o prenúncio de algo inédito ao apresentar alternativas concretas de atuação que integram a objetividade e a subjetividade no trabalho com alunos, educadores e psicopedagogos, ou seja, 
- O regate de uma educação com alma
É importante assinalar que esse trabalho deve estar presente nos cursos de formação de psicopedagogos. Em primeiro lugar, para que exista coerência entre o princípio norteador da psicopedagogia e a prática psicopedagógica. Em segundo lugar, porque o profissional da psicopedagogia só poderá trabalhar com os educadores nessa direção, se antes tiver vivenciado esse trabalho.

ALÉM DE VOCÊ, AGLAEL L BORGES, EDA M CANEPA E ROBERTO GAMBINI CONTRIBUEM COM SEUS TRABALHOS NESTE LIVRO. COMO É O ENCONTRO DE DIFERENTES PROFISSIONAIS PARA TRATAR DA OBJETIVIDADE E DA SUBJETIVIDADE?

O encontro entre os autores deste livro, uma pedagoga/psicopedagoga, uma filósofa/psicanalista, uma psicóloga/educadora e um analista/cientista social, é de fundamental importância porque eles possibilitam olhar, de vários lugares, a relação do homem com o conhecimento, a partir de um eixo comum: a perspectiva integradora. Vencendo a preconceituosa barreira entre realidade interna e realidade externa, abrem canais de comunicação e possibilitam uma verdadeira travessia entre consciente/inconsciente, real/imaginário, objetivo/subjetivo, ensinante/aprendente - ou seja, uma ação psicopedagógica. 
Para isso, os autores aprofundam reflexões em torno dessa temática, oferecendo propostas vivenciais: o resgate das histórias de aprendizagem de psicopedagogos e educadores, a partir de cenas dramáticas e da técnica de miniaturas na caixa de areia; a história pessoal do sujeito como ponto de partida para a avaliação do currículo; a percepção dos talentos dos professores como resposta aos desafios educacionais; e os sonhos e as vivências das crianças retratados em seus desenhos e narrativas.
Os ensaios publicados neste livro apontam caminhos condizentes com as expectativas atuais dos educadores - o encontro dos processos cognitivos e dos processos vitais.

NO SEU LIVRO "PSICOPEDAGOGIA E REALIDADE ESCOLAR" - EDITORA VOZES - 1994, JÁ NA 7ª EDIÇÃO O FOCO É PROBLEMA ESCOLAR E DE APRENDIZAGEM. QUE LEITORES FORAM MAIS BENEFICIADOS, E QUAL A RAZÃO DO SUCESSO DESSE TRABALHO?

Esse livro beneficia educadores, psicopedagogos e pessoas que se interessam por processos de ensino/aprendizagem. Creio que há algumas questões primordiais que talvez justifiquem a razão de seu sucesso: 1. A partir de uma análise da concepção dos educadores acerca de problema de aprendizagem - o que pode ser ou não um problema para aprender; quais as estratégias que os educadores utilizam para lidar com os processos de aprendizagem e com os problemas deles decorrentes e quais os fatores que interferem nesse trabalho, este livro possibilita uma reflexão sobre o desempenho dos educadores frente aos processos de ensino/aprendizagem, vinculado ao universo de trabalho onde estão inseridos. 2.Oferece pistas para que surjam alternativas de atuação a partir dos conhecimentos da Psicopedagogia, sem perder de vista as condições reais de existência da escola e atendendo alunos e educadores em suas reais necessidades.

"PSICOPEDAGOGIA E REALIDADE ESCOLAR" É FRUTO DE SUAS EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS?

Trabalhei durante 25 anos como educadora da Rede Municipal de Ensino em São Paulo ( 1969/1994) onde ocupei os cargos de professora, diretora de escola, supervisora de ensino, técnica em pesquisas educacionais do Departamento de Planejamento e Orientação Técnica e Diretora da Divisão de Planejamento e Orientação Técnica do Ensino Pré- Escolar, este último, cargo de confiança atribuído pela Profa. Guiomar Namo de Mello, secretária municipal da educação ( 1983/1987). 
Em 1980 iniciei o curso de Psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae/SP e comecei a atuar como membro fundadora da diretoria da Associação Brasileira de Psicopedagogia . Em 1983 terminei o curso de Psicopedagogia iniciando minha atuação como psicopedagoga clínica.
Nessa época, instigada pela prática, uma questão me inquietava: COMO OS CONHECIMENTOS DA PSICOPEDAGOGIA PODERIAM AUXILIAR OS EDUCADORES NA MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE ENSINO/APRENDIZAGEM NAS ESCOLAS, PARTINDO DE SUAS REAIS NECESSIDADES?
A partir de uma pesquisa realizada no curso de pós-graduação - Programa de Psicologia da Educação PUC/SP aprofundei reflexões sobre essa questão, desvelando de um lado, as ações dos educadores na escola, de outro, buscando um melhor delineamento da ação psicopedagógica na realidade escolar. 
Assim, esse livro é fruto de uma dialética que não podemos perder de vista na construção do trabalho científico. Como diz Pedro Demo em Introdução á Metodologia da Ciência- ed. Atlas/SP - 1987: "... a teoria não substitui a prática e vice-versa. São níveis com certa autonomia, como pólos de um todo dinâmico. Assim, nada é tão proveitoso para uma teoria como uma boa prática e vice-versa."

EM SUA LONGA EXPERIÊNCIA COMO EDUCADORA, QUAIS SÃO OS MOTIVOS MAIS COMUNS PARA O APARECIMENTO DAS DIFICULDADES ESCOLARES?

Inicialmente é preciso que se faça uma distinção entre dificuldades escolares e problemas de aprendizagem. Partindo de uma perspectiva psicopedagógica, as dificuldades escolares fazem parte do processo normal de desenvolvimento da aprendizagem. Por exemplo, quando a criança comete "erros" - trocas, omissões de letras, etc. - que fazem parte do processo de aquisição normal da escrita. Já os problemas de aprendizagem dependem das estruturas internas do sujeito e afetam a dinâmica de articulação entre os níveis cognitivo, emocional e orgânico, redundando em um aprisionamento da inteligência cessando o desejo de aprender. 
Nas escolas, muitas vezes as crianças também apresentam problemas de aprendizagem reativos. Esses problemas ocorrem quando a escola não favorece o desenvolvimento dos processos de aprendizagem dos alunos. Nesses casos o fracasso está localizado no sistema escolar.

COMO A PSICOPEDAGOGIA PODE AJUDAR A ESCOLA E AS CRIANÇAS QUE APRESENTAM DIFICULDADES ESCOLARES E PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM?

Um trabalho psicopedagógico pode auxiliar os educadores a compreender os processos de ensino/aprendizagem a partir da integração de uma multiplicidade de fatores intervenientes: cognitivos, afetivos, orgânicos e sociais.
Um ponto importante a ser assinalado é que por vezes os sintomas das dificuldades de aprendizagem e dos problemas de aprendizagem são parecidos e em ambos os casos os alunos demonstram que não conseguem aprender.
Como a Psicopedagogia é uma área que estuda e lida com os processos de aprendizagem e com os problemas dele decorrentes pode auxiliar os educadores a fazer essa distinção, ou seja, as dificuldades de aprendizagem, que podem ser solucionadas pelos próprios professores, dos problemas de aprendizagem, que necessitam da intervenção de profissionais especializados. Essa distinção permite que os educadores das escolas façam uma triagem criteriosa dos alunos, abandonando posturas patologizantes ou indiferentes frente aos processos de aprendizagem, delimitando com maior clareza seus espaços de atuação. As crianças com problemas de aprendizagem necessitam de um atendimento psicopedagógico clínico, onde busca-se libertar a inteligência, mobilizar a circulação do conhecimento possibilitando a autoria de pensamento.

EM SUA OPINIÃO, QUAIS AS CONTRIBUIÇÕES QUE A PSICOPEDAGOGIA TEM OFERECIDO À EDUCAÇÃO.

Os conhecimentos da Psicopedagogia têm oferecido inúmeras contribuições à educação, justamente por tratar-se de uma área de conhecimento e de atuação que nos últimos vinte anos vem aprofundando questões na tentativa de compreender como os indivíduos aprendem. A Associação Brasileira de Psicopedagogia ocupa um importante papel frente à essas questões. Por tratar-se de uma instituição de cunho eminentemente científico/social, têm promovido nos últimos vinte anos, a abertura de espaços de discussão e de intercâmbio de conhecimentos com profissionais de várias áreas de atuação do Brasil e de outros países. A Associação já publicou cinco livros e publica uma revista científica bimestral - PSICOPEDAGOGIA, especializada em assuntos dessa área. A partir dessas atividades e da atuação dos psicopedagogos nas clínicas, nas instituições escolares, nas universidades e no campo da pesquisa científica, a Psicopedagogia construiu e continua construindo não só técnicas de diagnóstico e de atendimento psicopedagógico clínico e institucional, mas também um campo de conhecimentos especializados e avançados no que se refere aos processos de ensino/aprendizagem. 
No que se refere à instituição escolar sabe-se que, na maioria das vezes, o que aparece como problema de aprendizagem é muito mais um fracasso do sistema ensinante do que uma problemática do aprendente. No mundo atual, surgem novos conhecimentos e avanços tecnológicos de forma acelerada. Novos valores, representações e crenças se impõem. Por outro lado, percebe-se que as amplas discussões sobre o compromisso político e a competência técnica dos educadores não produziram o avanço que se esperava nas questões ligadas aos processos de ensino/aprendizagem. Hoje nos meios educacionais, ao lado de um trabalho com o conhecimento das disciplinas escolares e do contexto onde a escola se insere, enfatiza-se as características pessoais dos educadores: suas expectativas, suas convicções, suas vivências - o fator pessoa do professor. Ressaltar esse fato já significa um avanço, entretanto não se tem apontado alternativas de atuação para que essa integração ocorra.
Há vinte anos a Psicopedagogia vem construindo conhecimentos e possibilidades de atuação em torno desse tema. Como diz Alícia Fernandez, ela transita pelas fendas, pelos espaços entre objetividade/subjetividade, ensinante/aprendente e é aí que está a sua força. A Psicopedagogia tem muito a ensinar sobre o vínculo professor/aluno, professor/ escola e sua incidência na construção do conhecimento e na constituição subjetiva de alunos e educadores. A Psicopedagogia tem trabalhado com as relações entre as modalidades de ensino da escola e dos professores e as modalidades de aprendizagem de alunos e educadores. A Psicopedagogia oferece inúmeros conhecimentos e formas de atuação para a abertura de espaços objetivos/subjetivos onde a autoria de pensamento de alunos e professores seja possível e, conseqüentemente, a aprendizagem ocorra. Essas contribuições, dentre outras, estão publicadas como trabalhos científicos em periódicos e livros*. Além disso, alguns psicopedagogos têm realizado trabalhos com grupos de educadores resgatando suas histórias de aprendizagem, ressignificando seus modelos de aprendentes/ensinantes; têm proporcionado a abertura de espaços vivenciais para que os educadores reconheçam a própria autoria de pensamento, permitindo assim que seus alunos também sejam sujeitos pensantes. Espaços onde os educadores se conectam com a angústia de conhecer e de desconhecer redimensionando seus vínculos com os alunos. 


Beatriz Scoz - Psicopedagoga, coordenadora e docente dos cursos de Psicopedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Católica de Recife e da Universidade Pio Décimo de Aracajú. Mestre em Psicologia da Educação - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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