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PREVENÇÃO DE DROGA NA ESCOLA
Rosa Maria S. Santos |
Como psicopedagoga, encontrei no Psicodrama muitos pontos comuns, ambos partem da visão holística do homem; do entendimento que a "relação" é o princípio de todas as ações; de que o processo de aprendizagem não se reduz a aspectos puramente racionais, mas também cognitivos, afetivos e sociais e também que a espontaneidade, a sensibilidade, a intuição, a criatividade são elementos chaves para o ser em processo de construção do conhecimento, o ser cognoscente. O que a levou a escrever este livro:
"Prevenção de droga na escola: uma abordagem psicodramática"?
Em 1988 eu era agente multiplicadora em prevenção de drogas
pela UnB (Universidade de Brasília). Concomitantemente com a formação em
Psicodrama, dei vários cursos, sociodramas e treinamentos em diferentes
escolas. Quando da especialização em Psicopedagogia em 1994, escolhi este tema
para meu trabalho de campo. Investiguei como que os orientadores educacionais
concebiam e realizavam prevenção. Daí descrevi minha intervenção para
planejamento e implantação de um projeto de prevenção às drogas, numa
escola particular de Brasília.
O que mais oferece o livro?
Ele procura trazer algumas informações essenciais para a
compreensão do tema "droga", "adolescência" e "prevenção
na família e escola" e oferece subsídios para que os profissionais das
escolas possam montar um projeto de prevenção. Mostra a concepção educativa
de prevenção de droga na escola, trazendo a contribuição do Psicodrama e da
Psicopedagogia.
Como o Psicodrama contribuiu para o trabalho
de prevenção de drogas nas escolas?
Os profissionais preparados através da abordagem psicodramática
sentem-se mais mobilizados e sensibilizados para uma ação preventiva,
possibilitando uma mudança na práxis, conforme depoimentos de que "agora,
utiliza-se mais vivência, menos apostila, menos texto e mais ação".
O Psicodrama é isso, coloca o profissional em contato consigo mesmo, com a
droga e com situações concretas. Ele encontra através de "insigts",
não só subsídios para sua prática, como também troca de papel com o jovem e
pode entender melhor seu anseio, limites, possibilidades e opções.
Numa vivência grupal o profissional pode se ver diante de sua verdade seus
medos e fantasias. Pode repensar sua postura, trocar de papel com seu aluno,
viver o "como se", compartilhar com seus colegas, assumir diferentes
papéis, construir o conhecimento e propor alternativas, planos e projetos de
trabalho.
Durante uma vivência psicodramática ocorre uma forte mobilização afetiva que
cria um clima de compromisso, dificilmente conseguido por vias verbais. O
diretor congela a cena, propõe técnicas diferentes e conduz a ação para o
"insight dramático" que leva à obtenção final da "catarse de
integração". Esta nada mais é do que uma compreensão integradora dos
fatos revelados na ação dramática.
Qual contribuição Jacob Levi Morena trouxe
em seu trabalho como psicopedagoga?
Moreno era uma pessoa extremamente criativa, era um visionário
e um vanguardista. Ofereceu aos homens uma teoria psicológica que se origina na
espontaneidade e na criatividade para possibilitar encontros genuínos e
significativos. Para ele o homem é alguém em relação a outros alguéns, é
um ser de relação constante.
Como psicopedagoga, encontrei no Psicodrama muitos pontos comuns, ambos partem
da visão holística do homem; do entendimento que a "relação" é o
princípio de todas as ações; de que o processo de aprendizagem não se reduz
a aspectos puramente racionais, mas também cognitivos, afetivos e sociais e
também que a espontaneidade, a sensibilidade, a intuição, a criatividade são
elementos chaves para o ser em processo de construção do conhecimento, o ser
cognoscente.
Qual seria o papel eficiente da escola na
prevenção do uso de drogas?
Prevenir o uso de drogas é, antes de tudo, uma decisão política
determinada por uma filosofia e um projeto integrado. Implica em falar de
valores, educação de filhos, adolescência, relacionamento interpessoal,
convivência afetiva e projeto de vida.
Acreditamos que a escola seja um espaço para desenvolver atividades educativas,
visando qualidade de vida e educação para a saúde. Portanto, ela tem a
responsabilidade da prevenção primária e secundária.
Quais as etapas de um trabalho de prevenção
dentro da escola?
Um projeto de prevenção na escola passa por três etapas,
envolvendo, respectivamente, os profissionais da escola, pais e alunos.
Na primeira etapa, chamada "Escola", realiza-se estudos, debates, vivências
e sociodramas com o corpo técnico-administrativo e docente.
A segunda etapa envolve "Pais", tem o objetivo de fortalecer mais o
contato com as famílias.
A terceira etapa "Alunos" compreende um trabalho de formação humana,
atividades culturais, artísticas e esportivas, como também, diversas formas
sutis de abordar o assunto, desde o espaço de discussão aberta oferecido pela
Orientação Educacional ao espaço interdisciplinar.
Como você usa o sociodrama para o
aprendizado sobre a droga?
O Sociodrama da droga busca realizar a terapêutica social
dos grupos. O grupo é o protagonista do drama social, mostra uma sociedade em
miniatura e a platéia representa a opinião pública do mundo. Partindo deste
referencial sociodramático, o aprendizado sobre drogas é feito através de um
processo ativo e vivencial, cujo ponto de partida é a subjetividade. O
Sociodrama permite ao grupo no "aqui e agora" viver seus próprios
dramas e buscar, no momento da imaginação e do simbólico, as respostas
alternativas, os "insigts" para sua própria vida, possibilitando ao
grupo se tornar um agente terapêutico.
Como os professores reagem frente ao
trabalho preventivo?
De modo geral percebemos três posturas diferentes:
Nenhuma disponibilidade interna e indiferença: relatam que
estão cansados, querem dar seu conteúdo e ir para casa. Atribuem à família
toda a responsabilidade pelo processo preventivo. Representa uma grande parte.
pouca disponibilidade interna: geralmente associado a
motivos pessoais (droga na família, extremo preconceito,etc). Possuem ojeriza
de tocar no assunto "droga", quando o fazem exarcebam, adotam
atitudes extremistas e de desespero, como o desejo de expulsar o usuário da
escola ou a fantasia de resolver ou eliminar todos os envolvidos em droga, a
partir de uma intervenção. Representam uma minoria dos educadores.
Muita disponibilidade interna: acreditam que a escola
precisa parar, refletir e preparar seus profissionais para o trabalho
preventivo. Atesta a força do amor, diálogo, crença em Deus e acreditam na
sua intervenção para a formação do aluno. Relatam que querem deixar de ser
expectadores e se tornarem co-autores do processo preventivo. Querem vencer a
barreira da acomodação pessoal e da rigidez institucional. São excelentes
colaboradores nos encontros, treinamentos e consultorias. Candidatam-se como
voluntários para pertencerem à equipe de montagem do projeto em sua escola.
Não são muitos, mas são os verdadeiros educadores no sentido profundo da
palavra.
Como as escolas estão reagindo frente ao
grande consumo de drogas?
Existem diferentes tipos de escolas, algumas querem ainda
acreditar em "escolas sem drogas", ou pelo menos querem que as famílias
acreditem isso. Outras procuram se mobilizar, sem bem saber como começar, mas
organizam grupos de estudos sobre assunto, adotam algumas iniciativas isoladas.
Outras escolas recebem modelos importados e adaptam para sua realidade. Outras
recebem cursos de órgãos estaduais e uma pequena minoria opta por chamar
profissionais especializados para trabalharem com sua equipe e montar um projeto
coletivo de prevenção às drogas, sexualidade e outros temas emergentes
atuais, buscando uma abordagem interdisciplinar.
Como as famílias podem praticar a prevenção
às drogas?
Em primeiro lugar tratar o assunto sem terrorismo, falar a
verdade, o jovem está vendo seus colegas usarem e não estão mortos. Em
segundo lugar dar o exemplo, não abusar do álcool, não fumar e nem tomar
medicamentos sem prescrição médica.
A prevenção se inicia desde a gestação da criança, num clima de aceitação,
amor e respeito. Desde a mais tenra idade o espaço para o diálogo é cultivado
e assuntos sobre sexualidade, drogas e outros temas fazem parte do cotidiano
familiar. Não existe tabu e preconceito. Ao mesmo tempo a criança é educada
para a autonomia, para ter senso crítico, tomar pequenas decisões. Quando
crescer esta criança crítica e segura saberá lidar com todas as drogas nas
prateleiras. A droga nunca vai ser eliminada da sociedade, a grande diferença
está na opção do jovem, ele fortalecido em sua auto-estima, com um projeto de
vida saberá resistir às tentações dos colegas, à curiosidade e ao modismo.
Como a família deve reagir quando descobre
que seu filho abusa do álcool, está fumando ou usando drogas ilegais?
A primeira atitude é de calma, sem desespero, conversar,
melhorar o canal de comunicação com o jovem, procurar ajuda espiritual, ler,
buscar ajuda e o mais importante, realizar uma revisão geral nas relações,
procurar conversar sobre os sentimentos verdadeiros, trabalhar as diferenças e
os conflitos com equilíbrio e maturidade. Precisa verificar o grau de
comprometimento do jovem com a droga, o tipo de droga que usa e, conforme o
caso, buscar ajuda especializada. Tenho visto excelentes resultados com terapia
familiar, todos os membros da família fazem parte do problema e da solução,
muitas vezes o usuário é o bode expiatório da família, carrega a culpa e a
depressão de todos. Os pais precisam compreender que, quanto mais neutra e
apagada for à relação do jovem com eles, mais a droga vai completar sua
personalidade e fazer parte integrante de sua vida.
O que você gostaria de concluir para os
pais e educadores?
Pais e educadores precisam encontrar uma dimensão
espiritual, precisam refletir sobre seus valores; filosofia de vida e suas relações
com a droga lícita ou ilícita.
A família precisa focalizar sua preocupação não só com o trabalho e o
dinheiro, mas com a convivência afetiva, exercitando seus filhos a conviverem
com as frustrações, com limites, a saberem lidar com as figuras de autoridade
e a desenvolverem sua autonomia e responsabilidade por suas opções.
A escola necessita de uma decisão política corajosa da direção, arrumar
"tempo" para lidar com questões de formação humana, precisa
envolver toda a equipe em cursos, treinamentos, estudos e trocas de experiências.
Se sentir necessidade, precisa buscar ajuda de um especialista no assunto para
montar e executar um projeto coletivo de prevenção.
Rosa Maria S. Santos - Pedagoga; Psicopedagoga; Psicodramatista; Agente multiplicadora em Prevenção de Drogas; Atendimento psicopedagógico; Orientação profissional; Consultora de Prevenção de Drogas; co-dirigente curso "Dinâmica e Jogos para Grupos"; co-dirigente curso "Escolinha" de Pais Obras já publicadas: Toxicomania Hoje, Gráfica SF, Brasília, 1990; Dependência Química Hoje, Gráfica SF, Brasília, 1992; Subsídios para um Programa de Prevenção Primária e Secundária ao Uso Indevido de Drogas, Gráfica SF, Brasília, 1992; Prevenção de Drogas na Escola: Uma Abordagem Psicodramática - Editora Papirus, 2ª ed.,1997.
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