Para imprimir este artigo sem cortes clique no ícone da impressora >>>
 
 

PSICOPEDAGOGIA EM GRUPO, NO GRUPO E COM O GRUPO - PARA ALÉM DA PATOLOGIZAÇÃO

Laura Monte Serrat Barbosa


De 09 a 11 de Julho acontecerá na UNIP o 8˚ Congresso Brasileiro de Psicopedagogia em São Paulo, você falará sobre “Psicopedagogia em grupo, no grupo e com o grupo - para além da patologização” . O que a prática psicopedagógica em grupo se diferencia da individual?
Ao meu ver a Psicopedagogia é uma só. O que diferencia é o âmbito ao qual ela está sendo aplicada. Neste sentido a prática psicopedagógica voltada para um grupo é diferente por ser aplicada a um número maior de pessoas, ao mesmo tempo, e contar com mais conexões do que a conexão sujeito \ psicopedagogo, sujeito \ conhecimento, sujeito \ tarefa objetiva e subjetiva, sujeito \ grupo interno. Num grupo temos, além de todas as relações que ocorrem no atendimento individual, uma relação grupal com o conhecimento; as relações que se estabelecem entre os participantes do grupo; a relação do grupo com o seu coordenador e do coordenador com o grupo; a relação com os medos que surgem do exercício de aproximar idéias diferentes, percepções diferenciadas, sentimentos distintos diante de uma tarefa. Por tudo isto me parece que a Psicopedagogia no âmbito da instituição é muito mais complexa do que no âmbito do atendimento individual, pois as articulações a serem realizadas formam uma rede de combinações mais intrincada e de maior dificuldade na leitura do que está ocorrendo e na intervenção. Infelizmente os cursos de especialização em Psicopedagogia não possuem esta compreensão e diminuem a importância da aplicação da psicopedagogia no âmbito grupal, dedicando menos discussão e aprendizagem a este respeito.
 

A linha de pensamento da qual você utiliza é a da Epistemologia Convergente de Jorge Visca?
Sim, a minha entrada na sistematização dos conhecimentos psicopedagógicos foi realizada por esta via. A formação psicopedagógica fundamentada na epistemologia convergente veio ratificar minha prática anterior a qual denominava Pedagogia Terapêutica e veio, também, mostrar alguns caminhos, os quais, estava me debatendo para encontrá-los. Buscava maior segurança profissional, voltada à aprendizagem lenta, como chamávamos na época.
O fato de nossa formação ter sido desenvolvida em grupo, no grupo e com o grupo, deixou em todos nós, que participamos dela, uma forte marca para a aprendizagem realizada de forma grupal, e para a construção de novos conhecimentos utilizando a prática da discussão. A reelaboração em grupo e a convivência para realizarmos tarefas conjuntas, enfrentar novidades e outros estudos nos tornou mais cooperadores do que competidores.
Uma fundamentação importante que tivemos na formação psicopedagógica fundamentada na epistemologia convergente foi a teoria de Pichon-Rivière, a qual levou, muitas de nós, a cursarem a formação em Teoria e Técnica de Grupos Operativos, ferramenta importantíssima para a realização de uma psicopedagogia no âmbito grupal.
 

A psicopedagogia em grupo é aplicada somente em trabalhos institucionais ou também podemos utilizá-lo no atendimento clínico?
A psicopedagogia aplicada ao grupo pode ter objetivos diferenciados. Pode objetivar a otimização do processo de aprendizagem; ser utilizada para a resolução de conflitos que impedem ou obstaculizam a aprendizagem; servir como instrumento de prevenção às dificuldades de aprendizagem; agrupar pessoas em torno da tarefa de estudar, aprender um determinado tema; tomar decisões; selecionar pessoas; e tantos outros que possam surgir. Muitos objetivos são melhores atingidos no âmbito das instituições e outros podem ser metas no espaço da clínica com um foco mais terapêutico ou preventivo.
Com isto quero dizer que no espaço da clínica o atendimento grupal pode ser utilizado sem problemas, pelo contrário, em nossa prática temos testemunhado a grande eficiência do atendimento grupal para lidar com as dificuldades para aprender e dificuldades com a aprendizagem.
Um dos maiores ganhos tem sido a despatologização dos problemas para aprender. Nesta experiência todos experimentam facilidades e dificuldades, potências e impotências e passam a sentir-se como aprendizes enfrentando toda a sorte de situações necessárias para aprender, tanto nas tarefas subjetivas, quanto objetivas.
 

Quais a vantagens dessa modalidade?
A vantagem desta modalidade de trabalho está no fato de que ele pode ser utilizado nas escolas como uma alternativa de trabalhar com grupos de aprendizagem. Fundamentada na visão de aprendizagem que possuo a mudança na prática pedagógica teria um grande aliado no conhecimento reelaborado em grupo; no entendimento dos papéis que os alunos desempenham no grupo de aprendizagem; nas formas de intervenção que despertam o desejo de aprender, que valorizam o saber do aluno, que entendem o processo de aprender como um movimento dinâmico no qual as pessoas não ficam sempre no lugar do não saber e nem sempre no lugar do sabedor.
Outra vantagem é que a tarefa sendo coletiva, a patologização não toma assento, todos vão se movimentar para realizar a tarefa; acertos e erros são bem vindos desde que todos possam ser canalizados para a solução de um problema que é de todos.
Considero uma vantagem, também, o fato do aspecto individual da aprendizagem não ser negado, pois a construção da tarefa é grupal, mas a assimilação do que está sendo aprendido é individual, é um movimento interno, pessoal que pode ou não ser colocado a serviço da aprendizagem grupal. O grupo é trabalhado para que os esquemas de aprendizagem individuais sejam colocados a serviço da construção dos esquemas de aprender grupal.
O que é importante deixar claro é que esta modalidade de trabalho não elimina outras formas de se trabalhar com a aprendizagem, ela pode ser uma ferramenta a mais para o profissional da psicopedagogia.
 

Os avanços tecnológicos trouxeram benefícios à sociedade, porém, junto veio à indústria da medicalização, procedimentos médicos e rotulação para as diversas patologias. Que prejuízos estão sendo causados a esta geração quando falamos de aprendizagem?
Aprender é um percurso e não pode responder ao tempo do instantâneo. Crianças podem ser treinadas para aprender coisas, como ler e escrever quando muito pequenas, mas o que não está sendo considerado é que ao aprenderem coisas distantes das suas possibilidades outras funções podem ficar prejudicadas. Por exemplo: uma menina foi alfabetizada aos cinco anos com muitas dificuldades, mas, como é inteligente e teve uma boa estimulação conseguiu aprender a ler de forma adequada e a escrever de forma alfabética, porém ainda, já aos seis anos, não consegue escrever uma história. Está, então, apresentando agora, transtornos de atenção e a escola encaminhou para o neurologista e para a psicopedagogia.
Os pais chegaram ao consultório com um discurso patologizante, repetindo o que a escola lhes falou: “Nossa filha está apresentando um distúrbio de atenção, ela já teve muita dificuldade para se alfabetizar o ano passado, hoje ela lê super bem, mas escreve apenas o começo de uma história e não consegue continuar.” Os coleguinhas desta criança já conseguem fazer o que ela não consegue e este fato deixa o pai extremamente preocupado. A mãe consegue perceber qualidades na flha mas, fica preocupada com a desatenção e o excesso de fantasia. Discutimos um pouco e descobri que a menina que não escreve histórias aos seis anos, fará sete apenas em dezembro, enquanto que seus amigos estão completando já no primeiro semestre esta idade. Por isto aprendem e ela não?
Me pergunto - com quantos anos você que está lendo este artigo se alfabetizou? Com quantos anos você tinha uma leitura fluente? Com quantos anos você escreveu história mais longa?
Por que os pais não chegam ao meu consultório dizendo: Você sabe que minha filha, antes mesmo dos sete anos já sabe ler com fluência e já consegue escrever histórias curtas? Não é de orgulhar uma filha que se alfabetizou aos cinco anos? Por que olhamos apenas para o que falta, em nossas crianças hoje? Por que precisamos tornar doentes crianças criativas, capazes, inteligentes e sem distúrbios específicos de linguagem? Estará a escola contribuindo para o sucesso da indústria bioquímica no mundo capitalista?
Quanto mais crianças desatentas, agitadas, ansiosas por terem que realizar tarefas acima de suas possibilidades, mais remédios podem ajudar a girar a roda do consumo.
Para aprender é preciso aprender, ainda não inventaram uma pílula que ajude fazer isto de forma mais rápida.
 

Você observa por parte dos profissionais da saúde e educação preocupação e maior conscientização com este cenário?
Com certeza! Particularmente tenho me dedicado a divulgar esta visão por meio de publicações, entrevistas, palestras que falem da importância de nos voltarmos à formação do ser humano e não do ser consumidor. Uma de minhas palestras, a qual denominei: “Como ajudar a pensar em um mundo que ensina a consumir” - discuto os mecanismos utilizados para formar o ser consumidor e entre eles está o mecanismo de tornar doentes as pessoas que não estão, para fortalecer o consumo de medicamentos, de atendimentos especializados, de metodologias mágicas e tudo que pode, supostamente, ajudar alguém a aprender.
 

Em sua opinião, está ocorrendo patologização da educação?
Por tudo que já falei sobre isto, minha resposta é afirmativa, pois muitos mecanismos utilizados para formar dificuldades para aprender são construídas no processo de educação dos aprendizes de hoje.
Uma das grandes falhas da educação neste sentido é estimular a dependência, a “sovivência”, a passividade e o individualismo, ao mesmo tempo em que se exige que as pessoas desenvolvam-se muito mais rápido do que conseguem. O estímulo da dependência inibe o pensamento e os pais precisam pensar por seus filhos, pois muitas vezes não acreditam que seus filhos poderão resolver seus problemas (possíveis para sua idade) sem eles; a ”sovivência” capacidade de só viver ( regido pelo prazer) e de viver só, é estimulada pelo excesso da utilização da tecnologia – cada um com sua TV em seu quarto, cada um com seu aparelho musical acoplado em seu ouvido, cada um satisfazendo seus desejos de forma imediata, sem considerar a existência do outro, nem a necessidade de compartilhar e de aperfeiçoar-se como ser humano, também inibe o pensamento; o incentivo à passividade é realizado pelo exagero da aplicação do verbo assistir – de forma passiva - na vida das crianças: assistir à TV, assistir à aula; assistir ao adulto trabalhando; assistir, assistir, assistir, não permite que o pensamento aconteça; o individualismo estimulado pela publicidade e pelas centrais de relacionamento com o cliente faz acreditarmos que somos seres especialíssimos e por isto não importa os outros o que cada um precisa é satisfazer o que sua majestade necessita e por isto também não é preciso pensar, somente ser satisfeito.
Ora, para consumir não é preciso pensar, pelo contrário, quanto menos crítica existir, mais se consome; porém para aprender é preciso pensar e se o pensamento está sendo inibido aparecem as dificuldades para aprender individualmente e quem dirá, em grupo.
 

Quem são os principais responsáveis? Pais, escola ou os profissionais da saúde?
Quando pensamos fundamentados em uma psicologia social que foi composta a partir da inter-ciência; na epistemologia convergente e na visão sistêmica não trabalhamos e nem pensamos com a lógica dos culpados. O mundo estabeleceu uma dinâmica que precisa ser percebida por todos os seres humanos que nele habitam, pois somente a tomada de consciência e a mudança de atitudes é possível contribuir para uma transformação positiva.
O que sabemos é que quanto mais individualistas formos, pior ficará o mundo. A consciência planetária, a preocupação com a Terra e com todos os seres que a compõem, a co-existência com as mais variadas espécies, a vivência com os outros seres humanos só são possíveis a partir de uma aprendizagem, fundamental para este século, a convivência. Uma das modalidades da ação psicopedagógica que pode contribuir para isto é a Psicopedagogia no Âmbito Grupal.
 

Como a família e a escola podem atuar no sentido de mudar esse quadro?
Conviver em todos os âmbitos é fundamental. O trabalho nos dias atuais nos faz correr, nos afastar dos familiares; a TV nos deixa em situação de passividade exige um menor grau de comunicação; o computador nos conecta com o mundo e nos desconecta daqueles que estão próximos; os celulares, os aparelhos eletrônicos com fones de ouvido, são excelentes recursos da modernidade, mas também excelentes instrumentos de afastamento social e estimuladores de solidão. Como criar ilhas de convivência num oceano de individualismos que estão sendo alimentados por uma nova dinâmica mundial na qual o mercado passa a ser a instituição social predominante neste século? Ações em grupo podem ser um estímulo à superação do individualismo inibidor do pensamento e das relações humanas.
 

Que mensagem deixa aos congressistas, participantes e a todos os psicopedagogos?
Termino esta entrevista deixando como mensagem um trecho do texto que preparei para este Congresso. Espero que todos pensem sobre a importância do grupo, não só em nossa ação profissional, mas também em nossas vidas:

“Grupo, pessoas... pessoas, grupo... encontro que gera um movimento fantástico: uma idéia passa por outras mentes e outras bocas e de vagarinho vai transformando-se, tanto pelo passeio feito no interior do grupo, quanto pelas mudanças que ocorrem dentro de quem a lançou. Outras formas de ver são trazidas, novos ângulos de análise contribuem e, de repente, aquela idéia não é mais de ninguém em específico, é do grupo que trabalhou com ela, burilou, complementou e construiu algo que é de todos. O espírito do grupo é este, transcender o individual, oportunizar a percepção e a vivência de todos como parte de um todo, como representante deste todo, ao mesmo tempo como sujeito.
Mas, para esta transcendência faz-se necessário um percurso que não é suave, nem fácil, nem romântico. A vivência em grupo não é mágica, e sim exige muitas transformações e, portanto, muita dor.
Quando pessoas se agrupam, não se caracterizam um grupo apenas por este fato. Agrupar-se é o primeiro passo, mas para chegar-se à vida grupal o caminho é longo: é preciso superar a confusão que muitas pessoas juntas provocam no exercício de descobrir quem é quem; é preciso discriminar as características individuais, perceber semelhanças e diferenças entre idéias, gostos, formas de expressão, valores e muito mais; e sobretudo é necessário fazer articulações para que as características pessoais possam, como a exemplo de uma orquestra, harmonizarem-se para realizar a tarefa a que o grupo se propôs.
Aprender em grupo supõe troca de experiências, de idéias, de sentimentos e sobretudo, mudanças internas e externas pessoais e conjuntas; aprender no grupo supõe aprender a vincular-se passando pelos momentos de confusão, de dissociação e de integração, ou seja aprender no grupo, o que é grupo e o que se faz em grupo; aprender com o grupo nos leva a aprendizagens de novos conhecimentos e de novas formas de abordar a tarefa subjetiva e objetiva.
A psicopedagogia, neste caso, objetiva proporcionar aos aprendizes aprender a pensar, a tecer o saber, a transcender a dimensão individual para desenvolver a construção coletiva do conhecimento. Desta forma, aprender deixa de ser “todos fazendo a mesma coisa no mesmo momento, da mesma maneira” - o grupo possui uma tarefa comum e todos devem contribuir com o que sabem para sua efetivação.”

Publicado em 25/05/2009 09:34:00


Laura Monte Serrat Barbosa - graduação em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1972) e mestrado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (1993). Tem formação em Psicopedagogia (1993) e Teoria e Técnica de Grupos Operativos (1994) pelo Centro de Estudos Psicopedagógicos de Curitiba. Atualmente é professora convidada da Universidade Paranaense, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, da Universidade Católica de Goiás, da Universidade Católica do Salvador, da Faculdades Integrado de Campo Mourão, da Faculdade de Artes do Paraná. É sócia da Síntese - Centro de Estudos, Aperfeiçoamento e Desenvolvimento da Aprendizagem. É associada titular e conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Psicopedagogia, atuando principalmente nos seguintes temas: projeto de aprender, atuação psicopedagógica, dificuldade de aprendizagem, avaliação psicopedagógica institucional, instituição escolar, inclusão, relação professor/aluno, operatividade na aprendizagem e desenvolvimento simbólico no processo de aprender. É autora de livros e artigos na área de Psicopedagogia e Educação.

Dê sua opinião:

Clique aqui: Normas para Publicação de Artigos

Do mesmo autor(a):

artigos

.E o mundo não acabou