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PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL UMA VISÃO SISTÊMICA

Maria Cecília Castro Gasparian


Como psicopedagoga institucional sistêmica devo ser parceira da professora, tenho que entrar dentro da classe, construir junto com ela, detectar os nichos das crianças rejeitadas, das crianças atentas, das desatentas, das que faltam, etc., você constrói um perfil da classe.

Como surgiu a psicopedagogia institucional na sua vida?

A Psicopedagogia Institucional é uma atividade ainda nova. A minha formação foi na PUC no ano de 1995, foi o primeiro ano e a primeira turma, onde se instituiu a psicopedagogia voltada para a instituição.
Na época não tinha bibliografia para ser consultada, na realidade só havia a tese de doutorado da Profa. Neide Noffs para nos dar apoio, mas não existia uma teoria que falasse de psicopedagogia dentro da instituição. Existia a psicopedagogia clínica que era aquela que tirava o cliente de fora e seu habitat educacional e se trabalhava com ele dentro de um "laboratório".

Qual foi o percurso desta sua experiência e porque o olhar sistêmico?

Sou professora formada pela Escola Normal (de primeiro grau, de 1ª a 4ª série), fiz Pedagogia e por ter trabalhado por mais de 20 anos em escola queria sair fora dela, primeiro porque a escolas pagavam pouco e segundo meu trabalho não era reconhecido por ninguém ( e acho que nem por mim mesmo e nem pelo próprio pedagogo). Não pretendia ser psicopedagoga institucional, queria sair fora da escola. Mas descobri que trabalhar com psicopedagogia dentro da instituição requer um outro paradigma, não pode ser só embasado nos quatro alicerces da psicopedagogia: psicanálise, lingüística, construtivismo (que diga-se de passagem, é sistêmico) e a psicologia social. Teria que ter um outro ponto de apoio que seria o embasamento Sistêmico.
O embasamento sistêmico é o ponto que une os quatro alicerces, ele dava significado na minha vida como professora, não ainda como psicopedagoga. Foi a partir desse referencial que decidi fazer a psicopedagogia institucional na PUC e desenvolver o meu trabalho dentro do referencial sistêmico.
Nosso grupo resumia-se em seis pessoas divididas em três pares: uma fonoaudióloga, fazia par com uma psicóloga, uma professora de Português com formação em Semiótica comigo (pedagoga e a única com pensamento sistêmico), uma professora de História com uma outra pedagoga. Não tínhamos a menor noção de como um psicopedagogo entra dentro de uma escola, como se chega para um diretor de escola para oferecer seus serviços, não se sabia nem qual era o campo da psicopedagogia institucional, para que colocar um psicopedagogo dentro de uma escola. Naquela época era assim, vamos colocar um psicopedagogo dentro da escola para trabalhar com problemas de aprendizagem, crianças que não estão conseguindo aprender, que estão três anos na primeira série, não consegue ler e nem escrever, então tínhamos que trabalhar com eles fora da sala de aula. Sem contar que éramos constantemente confundidas com psicólogas, tanto por parte crianças, mas o que era pior pelos professores.

O que foi que chamou sua atenção neste início da psicopedagogia institucional?

Em primeiro lugar foi a falta total de um referencial teórico nesta área. Em segundo lugar eu achava que tinha que trabalhar com a pessoa que ensina, ou seja, como é que esta pessoa que ensina, está ensinando este ser, que não está aprendendo? Veja bem, aqui eu já estou delimitando o campo de atuação, fazendo uma grande diferenciação entre Psicólogo educacional, coordenador pedagógico e o psicopedagogo institucional. O campo de atuação do psicopedagogo institucional é o ser epistêmico ( basicamente, o ser que adquire conhecimento, que aprende), acho lindo este nome, mas no fundo eu não sabia o que queria dizer isso, portanto, nós trabalhamos com a aprendizagem, enquanto a Pedagogia atua no campo da ensinagem e a Psicologia no campo do desenvolvimento da psique humana.
Se todo sintoma é uma denúncia, isto significa que alguma coisa não está bem, o psicopedagogo, vai investigar a queixa, a denúncia. Temos que ter muito cuidado entre "queixa" e "lamento", mas isto é uma outra entrevista, certo?
E para entrar na escola tenho que entrar via um mandato, um pedido de socorro que é um sintoma que a escola apresenta, então pensei: para mim a psicopedagogia institucional é clínica, então não é mais a clínica clássica vinda de uma psicologia, mas preciso criar um campo clínico psicopedagógico institucional.
Havia uma divisão (se não estou enganada) que a Ana Maria Muniz fazia, que dizia que a institucional era preventiva, não penso desta forma, acho que a institucional é clínica e preventiva, e a clínica também é preventiva e clínica.
Eu me perguntava: como posso prevenir um problema de aprendizagem, se eu não sei se ele vai ocorrer? Então ela não pode ser preventiva. Literalmente falando, eu não posso prevenir uma coisa, que eu não sei se vai ocorrer ou não. Não é como uma doença, uma epidemia, tenho que me prevenir contra a gripe porque muita gente está morrendo com ela. Paradoxalmente, este exemplo que eu estou dando cabe bem na educação. Para prevenir futuros problemas de aprendizagem, neste ponto de vista teremos que trabalhar o problema de ensinagem, certo? Então tenho que trabalhar a pessoa do profissional que está criando indivíduos que não estão conseguindo aprender e/ou que estão tendo dificuldades em aprender. Não vamos tirar o lugar do coordenador pedagógico que vai trabalhar com os programas, grades curriculares e planejamento de ensino, vamos trabalhar a pessoa deste profissional em ativa relação com o seu saber adquirido no decorrer da sua vida, dando significado na sua prática.

Mas o preventivo aí não fica em outra esfera? Ter psicopedagogos acompanhando o processo ensino – aprendizagem, junto à escola?

Tudo é possível para o psicopedagogo sistêmico. Em primeiro lugar para eu defender a psicopedagogia institucional, acho que o psicopedagogo deve ser contratado pela escola, ele não é "funcionário" da escola, ele é um profissional liberal que vai entrar dentro da escola por um pedido dela, e se perguntar qual é o sintoma? O que é que eu quero? Não deve existir a história de vestir a camisa da escola, mas sim, a camisa da psicopedagogia que trabalha com dificuldades (em vária níveis) do aprender, tanto do aprender de quem ensina, como o do aprender de quem aprende.

O psicopedagogo como corpo docente da escola não funciona?

O psicopedagogo como membro da escola, fica envolvido, de certa maneira com a instituição, passa a estar engessado de forma que não há distanciamento necessário para intervir adequadamente no sintoma.
O psicopedagogo é um profissional liberal especializado em problemas de aprendizagem, e com as dificuldades de aprender em todos os níveis. Não vou entrar aqui na discussão entre problemas, dificuldade e distúrbios de aprendizagem. É um tema amplo e complexo.
O processo de aprendizagem fica muito preso dentro da escola e com isso comprometido e nós psicopedagogos aprendemos que: eu aprendo com você, você aprende comigo, eu aprendo quando no encontro com o outro, o que ele me passa, quando ressoa dentro da minha história de vida e a história de vida do outro, fazendo sentido. Eu é que autorizo você a me ensinar, você pode usar qualquer técnica, qualquer método, mas se não houver um vínculo eu não aprendo, (e Pichòn na Teoria do Vínculo fala muito bem sobre o Vínculo, apesar dele não ser explicitamente Sistêmico, ele o é implicitamente), é no encontro com o outro que se produz o ensinar e o aprender.
Por isso é que fica muito difícil situar a psicopedagogia num campo, ela fica na inter-relação da ensinagem e da aprendizagem.

Qual a diferença do psicólogo educacional, o pedagogo e o psicopedagogo?

A Psicologia Educacional, como área profissional específica, caracteriza-se, há muito tempo por atividades de treinamento de crianças com problemas de aprendizagem e comportamento baseados em teorias do comportamento, por exemplo. Hoje pode ter mudado um pouco, no campo teórico, nas no prático, tenho a impressão que continua a mesma coisa. A Psicopedagogia baseia-se nos quatro vértices citados acima, então é bem diferente um campo do outro.
A Pedagogia tem sua própria ciência e muitas das descobertas da Psicologia são utilizadas para definir métodos, técnicas e estratégias de ensino, mas parece que isso não está mais dando certo nas escolas visto o alto nível de reprovação e evasão escolar. A psicopedagogia se baseie em muitas das descobertas da psicologia, dos métodos, técnicas e estratégias da pedagogia cada uma dessas disciplinas tem seu campo específico, e o psicopedagogo se firmar num determinado encontro que não é nem pedagógico, nem psicológico, mas é um outro ser, uma outra entidade, que tem: personalidade, características, objetivos e destino próprio. Não vou também entrar aqui na discussão sobre os cursos de formação de psicólogos e de pedagogos que já estão defasados e sucateados e nos cursos de psicopedagogia que também não estão adequados aos novos tempos que se aproximam, isso fica para uma outra oportunidade.

Qual a diferença entre o enfoque da psicopedagogia institucional e a psicopedagogia clínica?

O enfoque psicopedagógico institucional é um outro universo, diferente do que eu chamo de "clínico clássico", aquele que tira o indivíduo de seu habitat educacional, do seu meio, da sua ecologia, onde ele está aprendendo, e leva-lo para um laboratório, ou para dentro de uma clínica, para mim como sistêmica, perde totalmente o valor, ou melhor, fica comprometido.
Como psicopedagoga institucional sistêmica devo ser parceira da professora, tenho que entrar dentro da classe, construir junto com ela, detectar os nichos das crianças rejeitadas, das crianças atentas, das desatentas, das que faltam, etc., você constrói um perfil da classe. Olhar, enfim, a dinâmica do que acontece naquele lugar específico de ensino e aprendizagem.

Por que é importante olhar essa dinâmica dentro da classe?

Minha experiência mostrou que a dinâmica da classe é muito parecida com a dinâmica familiar, e num sistema maior, a escola é muito parecida com o sistema familiar, como se organiza, como as crianças fazem as chantagens, como os pais e professores fazem as chantagens com as crianças e como circula este saber nos dois sistemas, seus mito e crenças, tanto da escola como de seus membros.
Comecei a desenvolver um olhar sistêmico, ao ver como é que o sistema funcionava, como os sub-sistemas dentro das classes se formavam, e formular hipóteses sobre para que crianças eram rejeitadas, qual era a função desses grupos dentro da classe.
Daí começava a valorizar a pessoa do estudante, assim como a pessoa do professor, acho importante se trabalhar a pessoa do profissional da educação, e essa não é a função nem do psicólogo e nem a do pedagogo, é a função do psicopedagogo institucional.

Qual a função do psicopedagogo institucional?

O psicopedagogo não vai dizer ao professor o que é que ele tem que ensinar, o professor sabe muito bem, e melhor do que qualquer profissional ligado à área, mas o psicopedagogo vai pontuar o "como" ele tem que ensinar, psicopedagogo questiona sempre como fazer, e para que fazer, qual é a função de tudo isso. No fundo o psicopedagogo vai auxiliar o professor a refletir sobre si e sobre a sua prática e como articula-las.
O psicopedagogo sistêmico não pergunta por que? Quando você pergunta por que, você fecha o quadro da resposta, quando você pergunta para que? Você amplia o seu quadro, e temos que estar sempre ampliando possibilidades, esta é a nossa função, é mostrar para o seu cliente as várias possibilidades que ele tem para sair daquela situação difícil e problemática. É se utilizar possibilidades criativas e eficazes, e só através da reflexão do professor e do seu aluno é que se conseguirá uma real transformação do indivíduo e isso é aprendizagem.
Dentro desta vivência, comecei "inventando" condutas para o psicopedagogo dentro da instituição, como ele faz o diagnóstico psicopedagógico dentro da instituição, que não é um diagnóstico psicológico da instituição, este tem regras básicas, tem maneiras, posturas diferentes de um psicólogo, tem que se criar vínculos com a instituição que não sejam vínculos empregatícios, mas vínculos afetivos com a instituição, têm que se acolher a instituição, e os seus vários sub-sistemas, mas no acolhimento pontuar o que nós poderemos fazer. O psicopedagogo sugere alternativas de condutas, não impõe.

Qual a importância deste vínculo, psicopedagogo institucional com a instituição?

Eu só sou alguma coisa, quando o outro me autoriza a ser, é assim que descobrimos como estamos no mundo.
Temos um nome que nos foi dado, ninguém nos pergunta como queremos nos chamar, dentro desse nome tem um contexto, a partir daí faremos uma história de vida, temos que fazer nossa biografia, nos localizarmos e criarmos uma identidade pessoal, tendo uma bagagem não só hereditária, mas uma bagagem psicológica e uma bagagem afetiva, social e cultural, e uma posição que temos dentro da família, que será diferente de todos.
A mesma coisa acontece dentro da escola, o professor não tem identidade, a auto-estima é baixa, o professor não é qualificado para ensinar, ele aprende muito mal dentro dos cursos de formação e das licenciaturas em geral, e o pedagogo também é mal formado. Aliás, todos nós somos muito mal formados. Não aprendemos a pensar, vivemos da maneira mais cômoda possível: paradoxalmente queremos fórmulas para ensinar. E como ensinar através de fórmulas indivíduos tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo? Isso é questão para a Psicopedagogia Institucional.
O estabelecimento de um vínculo positivo entre a instituição e o profissional irá facilitar a difícil relação entre o que é detectado pelo profissional e a disposição da instituição. O que realmente acontece nas escolas é como nas famílias: "quero que tudo mude, mas que tudo fique do mesmo jeito. Não quero perder o meu poder de decisão, não quero perder o meu prestígio, etc". Só um vínculo positivo, consistente e firme poderá ter sucesso nestas questões.

Quem dá esta estrutura?

A psicopedagogia me deu uma identidade, não nos modelos atuais baseados na psicanálise, baseie-me numa visão sistêmica, assim como eu fui influenciada pela minha família, como eu influencio minha família, dentro das nossas relações.
O psicopedagogo vai trabalhar em síntese, as relações, ele trabalha neste espaço entre eu e você, que é um "meta-lugar".
A psicopedagogia sistêmica leva em conta a estrutura, o contexto e o processo da aprendizagem e nunca desvincula esses três fatores.

Se fosse dada uma formação melhor para um pedagogo, para um psicólogo, precisaria dos psicopedagogos?

Acredito que a partir do próximo século, os cursos de pedagogia, de psicologia e de cursos de formação de professores em geral, terão uma nova dinâmica onde a interdisciplinaridade será implantada.
Estamos num momento histórico de transformação muito rápido, estamos num processo de aceleração de conhecimento, que foi muito grande no começo deste século, e foi se consolidando através de grandes descobertas da Ciência, mais o ser humano foi esquecido como pessoa.
O salto que ele tem que dar, não é o salto de quantidade, mas um salto de qualidade, ou seja, investir-se na pessoa, no ser humano.
É uma expansão da sua mente, e para isso terá que deixar o cueiro, e ninguém quer deixar de ser criança, a humanidade tem que deixar de ser infantil e adolescente para virar adulta e mais sábia.
A psicopedagogia será a primeira profissão regulamentada do próximo milênio baseada na interdisciplinaridade. Isto é um marco histórico.

Onde você vê o grande nó dos profissionais de hoje?

A humanidade ainda é muito primitiva, elitista, pré-conceituosa, segmentada em disciplinas e em "especialista" e depois dos "especialistas em especialista", mostrando a nossa fragilidade em não dar conta mais de todo o saber que existe hoje.
Se nos despojarmos das nossas "arrogâncias" de donas do saber, daríamos um salto tão desejado e esperado para humanidade que se baseia na humildade de sabermos frágeis perante o saber. A aprendermos a lidar e a conter as nossas angustias e ansiedades, e vermos no outro o nosso parceiro e não o nosso rival, só assim daremos um grande salto nas nossas relações inter e intrapessoais, este será o novo profissional.
Não devemos trabalhar com as perdas, mas sim com as trocas. A vida é um paradoxo, a hierarquia sempre irá existir, mas não como forma de poder e manipulação, mas como forma de parceria.
A vida como processo é conquistada a cada dia, entendo que temos dois grandes caminhos para seguir e conseqüentemente evoluir, ou você segue o caminho pela dor, pelo sofrimento, ou segue o caminho pelo amor, pela fraternidade, pelo companheirismo, pela parceria, pela cooperação.
Guardamos dentro de nossas mochilas, como proteção, a inveja, o desejo de estar no lugar do outro, a sua posição.

Esta é a visão sistêmica?

Atualmente o ser humano não consegue olhar sistemicamente, ainda não conseguimos olhar holisticamente, que é olhar o todo, ainda não temos instrumentos mentais para levar adiante, porque não temos palavras para definir as coisas, temos ainda que criar palavras.
Quando olhamos sistemicamente, olhamos como se estivéssemos vendo através de uma radiografia, você vê através, e vê o jogo de relações das pessoas.
O psicopedagogo sistêmico é um articulador das relações, ele tem que entender não só desses quatro pilares que consubstanciam a psicopedagogia, mas ele tem que entender da pragmática da comunicação tem que entender para que a pessoa está falando isso, qual a intenção de estar falando o que está falando. Tem que entender um pouco de semiótica, para entender o valor das palavras e o peso delas, tem que ser diferente do que é hoje. Muitos se intitulam psicopedagogos, mas não sabem situar o que fazem e para que fazem.
Viram meros professores de aula particular, fazem "joguinhos" nas clínicas, é muito primitivo, tem a hora do jogo onde ele observa, e faz o que com o que vê. Ele só vê o que ele aprendeu a ver, e o que acredita estar vendo, a nossa realidade é inventada com o outro que tanto pode ser um indivíduo medíocre ou ser uma pessoa com grandes potenciais, dependendo do nível de reflexão e de consciência que temos de nós mesmos.

Qual então sua visão da psicopedagogia como um todo?

Minha visão de psicopedagogia é ampla, é para um SER diferente, é para um SER que tenha qualidades éticas e morais, diferentes das que tem hoje, senão você não será um psicopedagogo.

Você é a favor de manuais?

Conheço métodos, técnicas e estratégias para se trabalhar com alguém, quanto mais métodos e estratégias eu tenho, tenho mais instrumentos para utilizar, para trabalhar com este ser.
Mas é como o cirurgião, pode ter só um canivete e ser extremamente criativo e curar o paciente, como ele pode ter os instrumentos mais sofisticados e matar o paciente, porque ele não sabe utilizar.
O profissional do próximo milênio deverá estar baseado na ética e na moral, se o profissional não mudar sua maneira de ver o mundo, de ver as pessoas e olhar as pessoas como parceiros, e colaboradores, que estão em processo de evolução, não iremos a lugar nenhum.
A postura tem que ser a mudança de ver o mundo, pegar outros óculos, olhar por uma outra ótica.
Começa numa postura de auto-reflexão, numa postura do tipo: "o que é que eu faço comigo; para que eu faço isso; o que estou fazendo comigo e com o outro, e como posso fazer cada vez melhor.

Qual o lugar da psicopedagogia?

Psicopedagogia está no lugar do três, onde um mais um é igual a três. Portanto ela não é uma disciplina. Ela é interdisciplinar. E o que vem a ser interdisciplinar? Só podemos falar de interdisciplinaridade na interlocução de duas ou mais disciplinas, de uma interlocução criadora, na qual se transcende o espaço da subjetividade para ir ao encontro de muitas subjetividades / disciplinas em diálogos.
É importante, entretanto, explorar com cuidado esta questão. A intersubjetividade, só é possível, ou melhor, ganha seu verdadeiro significado, quando se definem com clareza os sujeitos, as subjetividades, as disciplinas. Com freqüência, fala-se em interdisciplinaridade referindo-se a uma "mistura" de saberes, uma "soma" de enfoques, de abordagens, numa tentativa de ampliação do conhecimento. Ela é mais do que isso. Tentar ampliar o conhecimento é um desafio maior que se coloca ao homem, na aventura que é a sua vida com os outros, em sociedade. Vida que ele faz, acionando os instrumentos que dispõe - sua razão, sua imaginação, seus sentimentos, seus sentidos, mas também submetendo-se a condições que não são criadas por ele - e que o que determinam, de alguma forma. "trocando em miúdos", estamos falando de limites e possibilidades da vida humana - aventura partilhada, experiência que ganha seu significado na relação.
O saber humano há 300 anos atrás você podia dominar, hoje o conhecimento é impossível de se dominar, acho besteira você ficar criando disciplinas, ficou tudo tão compartimentado.
A psicopedagogia não é uma especialidade (porque especialidade é condição disciplinar), psicopedagogia é uma teoria de vida, de postura, é filosofia, é ciência que ainda está para ser estudada com instrumentos próprios, portanto é uma atividade surgida de uma demanda da própria escola que não conseguia resolver seus problemas.

Como funciona a psicopedagogia institucional nas empresas?

Nas empresas iremos trabalhar as relações hierárquicas, a parceria, como as pessoas se comunicam, o que elas dizem, e o que querem dizer. Trabalhamos o ser humano, sua relação consigo mesmo e com o mundo, visando a melhoria da empresa, a empresa como parceira, não como rival.
Nossa função é divulgar que você pode ser competitivo, agressivo, sem ser rude. Pode ser um Diretor de uma empresa sem pisar em cima de ninguém, pode ser melhor através de sua ética, de sua moral, da criatividade humana.
Mais uma vez, abrir a mochila e tirar aquilo que atrapalha a vida das pessoas. Tem que ter uma postura construtivista.
Na visão construtivista, você vai construindo com o outro, não a visão vulgar do construtivismo, que é colocar um tijolinho em cima do outro, mas o construtivismo dinâmico, uma rede, ele é abrangente, você cresce, o outro cresce e nós crescemos juntos numa espiral progressiva de evolução, que não é aritmético como colocar um tijolinho em cima do outro, mas é um crescimento geométrico. Crescimento ético e moral. Não podemos pensar a psicopedagogia institucional sistêmica que é interdisciplinar sem pensarmos na ética e na moral.
Atuar dentro de uma instituição escolar ou empresarial, o psicopedagogo não vai ser diferente, ele não vai trabalhar com métodos, estratégias de ensino, que é a área do pedagogo. Assim como os "distúrbios" serão trabalhadas pelo psicólogo.
O psicopedagogo vai trabalhar a pessoa do professor, do gerente, o que ele tem de melhor, o aqui e agora, é um trabalho bem gestáltico, é um trabalho de transformação.
Essa transformação deve fazer com que o professor não veja o seu aluno como inimigo, que o gerente não veja que o seu subordinado quer pegar o seu lugar, mas que veja como parceiro, trabalhar em parceria.

Dentro da realidade, hoje, o que você vê que possa ser feito, ou se já está sendo feito aonde, qual o caminho?

Em trabalhos psicopedagógicos muito recente, e em algumas monografias apresentadas no Encontro Cultural patrocinado pela Associação Brasileira de Psicopedagogia em São Paulo notou-se uma tendência a novas possibilidades de atuação em Psicopedagogia. São trabalhos que apontam para um nova a abordagem sistêmica.
Tem também o trabalho do Antônio Nóvoa, que está bem voltado para este campo da pessoa do professor, um olhar que não se intitula sistêmico, mas é implicitamente.
Sara Paín, é sistêmica. Alicia Fernandez é sistêmica embora ela não se intitule assim, tive a satisfação pessoal de fazer uma análise da primeira folha do livro "A inteligência Aprisionada", até a última página da bibliografia que ela sita, linha por linha, analisando com um olhar sistêmico, vejo o quanto Alicia é de uma criatividade imensa ao instituir a psicopedagogia com corpo, ela implicitamente fala sobre a teoria e olhar sistêmico, quando fala que o indivíduo é organismo, desejo e corpo.
O Piaget também é sistêmico, mas nada explicitamente.

Por que estes autores não se intitulam sistêmicos então?

Minha conclusão pessoal é porque eles talvez não vejam relevância no fato. Mas eu, como professora que fui de Didática, acho que devemos explicitar, ou melhor, tratar de assuntos relevantes de forma mais didática. Por exemplo, esta entrevista poderia ser mais didática, mais explicada, mais passo a passo, mas esse não é o objetivo desta entrevista, senão vira aula, certo?
Acho, também, que nenhum desses autores situou-se como sistêmico, porque existe uma dicotomia entre a teoria e a prática e porque existe um saber acadêmico, baseado numa ciência clássica de experimentação no qual, ainda, a ciência sistêmica embora tenha os seus próprios instrumentos de estudo, e por ser instrumento pessoal íntimo e subjetivo tem dificuldades de ser entendida de maneira objetiva como pode a ciência clássica.
A subjetividade agora está sendo discutida nas universidades, começou na década de 90. Está começando a se criar um movimento subjetivo, que nada mais é do que a incorporação do terceiro elemento, que é o observador, aquele que se coloca dentro do processo.
Olhar a subjetividade com mais objetividade, que são duas óticas diferentes, é muito complicado para as pessoas entenderem e colocarem no papel, mas é um salto que se dá, da quantidade para a qualidade.
Portanto, é muito mais fácil colocar a sua argumentação na linha acadêmica tradicional do que colocar numa linha sistêmica. Todo o embasamento sistêmico tem uma filosofia diferente de vida, é a maneira de como você vê o mundo, as pessoas, de modo completamente diferente.

Dentro desta sua visão, a regulamentação da profissão de psicopedagogo não seria precipitada?

Não. Quem pensa sistemicamente, não trabalha com erros, trabalhamos com situações no máximo inadequadas.
Como a vida é processo, tudo é válido, o ponto pode não estar aqui exatamente, mas você sabe que estará mais a frente, onde terá que fazer uma curva.
No meu ponto de vista estamos reivindicando um vir a ser que de fato já é, o que precisamos é ser autorizado perante a lei.
O importante é o caminho que percorremos para chegar lá, se eu ficar parada, não ando, e o que é pior, se eu ficar parada, eu estarei indo para trás, existe um processo do qual não podemos deixar de viver. Portanto tudo o que está acontecendo tem que acontecer e temos que ter responsabilidades desses atos. Não me preocupo, pois se a profissão não for regulamentada agora será mais tarde. Tudo que tem que ser tem força, portanto vamos esperar.
O psicopedagogo precisa ser mais reflexivo, e a regulamentação ajudaria a posicionar a busca pelo saber que é contínua, é muita reflexão sobre si mesmo.

Qual o foco do psicopedagogo?

O psicopedagogo tem que trabalhar dentro das diferenças, entrar de cabeça dentro de um paradoxo que faz parte de nossa vida, por isso tem que ter muita reflexão.
A questão da aprendizagem é uma questão central da psicopedagogia, existe milhões de teorias para se explicar à aprendizagem, mas nunca explicaremos totalmente a aprendizagem, porque nós fazemos parte da aprendizagem, a aprendizagem é processo, aprendizagem é vida, não é finito, ou melhor, só deixamos de aprender quando morremos, nossa última aprendizagem é aprender a morrer.
Nenhuma teoria de aprendizagem será abrangente para se trabalhar, então trabalhamos parte deste todo que pode representar o todo, mas não é o todo, porque o todo é muito mais do que a soma de suas partes.

Dentro da visão sistêmica, quando o homem começará a crescer?

A intuição é o próximo passo, se você não for um ser humano para o próximo milênio intuitivo, você estará perdido, você não pode ser mais medíocre.
A intuição é razão, se você colocar emoção no meio da intuição, você não faz mais nada.
Observando o comportamento humano de forma racional, podemos ajudar mais os outros do que colocando a emoção, seria utilizar mais o prolongamento dela, que é o sentimento e pode ajudar mais. Temos que ser mais responsáveis com o que fazemos e falamos. Uma palavra mal falada pode prejudicar toda uma vida. Não gosto e não uso rótulos. Aprendi na minha prática que o ser humano tem um potencial inimaginável, então não podemos usar rótulos para ninguém, isso é ser um profissional irresponsável.
Quanto mais você controla suas emoções, mais livre você é para sentir o que você quiser, a pessoa que é extremamente emoção é irracional. Na emoção você tem uma descarga de adrenalina, fica tudo preto e acabou, depois o que vem dela demora minutos, dias, meses, ou anos para ser digerido e o que é pior ser perdoado.

Como você vê a psicologia social neste contexto?

A psicologia social é fundamental para o psicopedagogo institucional, algo que ajuda muito na compreensão da postura do psicopedagogo, entender como os grupos se formam, como as pessoas interagem, mais interessantes do que olhar do ponto de vista psicanalítico, que também tem a sua importância para que você se instrumentalize, mas não para ser um psicanalista ou um psicólogo.
A psicologia social está muito mais próxima do trabalho psicopedagógico institucional, mas não é ela.
Repito que a psicopedagogia tem seu objeto de estudo o ser que aprende, é muito mais abrangente do que eu e você podemos hoje imaginar. Não sou ingênua a ponto de achar, por exemplo, que esta entrevista se encerra aqui, ela é mais do que as simples palavras que eu disse, ela é a psicopedagogia e mais que eu disse, ela é mais do que a soma das minhas parcas idéias sobre ela.
Quando alguém ler essa entrevista no futuro vai ver o quanto tudo o que está escrito está inadequado para o presente deles.
Espero que não tenha confundido mais as cabeças já tão confundidas do psicopedagogos.


Maria Cecília Castro Gasparian - Mestre e Doutora em Educação: Currículo PUCSP. Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional PUCSP, Terapeuta de Família, Membro da AMCE Associación Mundial da Ciências de la Educación, Pesquisadora do GEPI Grupo de Estudos e Pesquisa da Interdisciplinaridade da PUCSP

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