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SOCIOPSICOMOTRICIDADE RAMAIN-THIERS
Avaliação
O Programa de Avaliação Ramain-Thiers resulta da
experimentação e aplicação do Método Ramain-Thiers no trabalho psicoterapêutico
grupal e individual. Serve para a avaliação diagnóstica de crianças a partir de
seis anos de idade e de adolescentes. Como instrumento de avaliação
diagnóstica, segue os princípios básicos da Sociopsicomotricidade. As
atividades propostas no Programa de Avaliação envolvem, em uma seqüência
estabelecida, orientações para desenvolvimento e análise da entrevista inicial,
orientação e material para uma sessão de "hora livre", programa de
uma sessão de Trabalho Corporal e determinadas atividades de Psicomotricidade Diferenciada
compostas por Cópia, Recorte, Entrelaçamento e Memória. O caráter
projetivo do Método Ramain-Thiers é a principal fonte de sustentação,
funcionalidade e eficácia do Programa de Avaliação enquanto instrumento
diagnóstico.
São ao todo seis itens que compõem o material do Programa de
Avaliação:
1 - Caderno de Aplicação;
2 - Caixa Ramain-Thiers para crianças, contendo os materiais
básicos utilizados pelo Método e padronizados para o uso na sessão de
"hora livre" e uma família de bonecos feitos em arame;
3 - Pasta Ramain-Thiers para adolescentes, contendo os
materiais básicos utilizados pelo Método e padronizados para o uso na sessão de
"hora livre" e uma "Apostila de Assuntos Interessantes";
4 - Seis desenhos-modelo utilizados na atividade de Cópia
a) para crianças: o carro, o sol e a lua, o aquário
(AV.CR.01, 02 e 03);
b) para adolescentes: o sapo, o cachorro e o totem (AV.AD.
01, 02 e 03)
5 - Memória
a) para crianças: um jogo contendo 12 pares de peças com
desenhos coloridos;
b) para adolescentes : 1 desenho-mandala e um jogo com peças
para montagem do desenho-mandala;
6 - Um conjunto de linhas coloridas para a atividade de
Entrelaçamento.
O objetivo do Programa de Avaliação é levar o socioterapeuta
à compreensão da estrutura psíquica do sujeito através da análise dos elementos
psicodinâmicos que nele são observados: a personalidade, a adaptabilidade, a
integração, a imagem corporal, as estruturas do Id, Ego e Superego e, as
organizações psicopatológicas. É um material que deve ser utilizado como um
referencial para a construção do Perfil Sociopsicomotor do sujeito,
considerando seus aspectos emocionais, corporais e sociais.
O Perfil Sociopsicomotor resulta dos entrelaçamento dos
aspectos observados em cada uma das atividades desenvolvidas no decorrer da
aplicação do Programa: a recorrência de determinadas atitudes; a negligência em
relação a algum tipo específico de material ou de atividade, os diferentes
sentimentos que experimenta frente a determinadas atividades, reações
inesperadas. A análise destes aspectos leva, por sua vez, à percepção de quais
são os componentes ativos das dificuldades apresentadas, bem como a observação
das condições grafo-perceptivo-motoras do sujeito.
Aplicações
A Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers é também utilizada na
área de assistência social. O projeto "Assistência Global",
desenvolvido pelo Núcleo Ramain-Thiers de São Paulo, promove o atendimento
gratuito a estudantes de 1o. e 2o. graus da rede pública de ensino. A triagem é
feita pelas coordenadoras do Núcleo Ramain-Thiers na escola, juntamente com os
professores e orientadores educacionais. São aceitos para atendimento casos
cujo comprometimento emocional se evidencia no comportamento ou aproveitamento
escolar deficiente. O objetivo do trabalho é promover maior capacidade de
socialização e desenvolvimento das potencialidades do sujeito através do
contato com seus próprios limites e dificuldades, promovido pela ação
terapêutica do Método. Este projeto está em funcionamento desde 1995 e vem
alcançando resultados altamente satisfatórios, demonstrando a eficácia da
utilização da Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers nesta população.
Outro projeto, voltado à assistências de crianças carentes
em regime de internato e semi-internato, foi desenvolvido pela Dra. Sonia
Grubits na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul e adotado temporariamente
pela Promosul - Secretaria da Criança. O trabalho iniciou-se em 1993 e se
desenvolveu em três instituições, nas quais o atendimento foi feito a crianças
cuja faixa etária se situava entre os seis e nove anos de idade. O objetivo do
trabalho é o de verificar as possibilidades de desenvolvimento e reconstrução
da identidade infantil através da grupoterapia. Os resultados demonstraram
progressos no desenvolvimento intelectual, motor, cognitivo e evidente
crescimento emocional das crianças atendidas.
Método Ramain-Thiers
A
Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers é uma técnica psicoterapêutica grupal que
utiliza a psicomotricidade como instrumento para a mobilização psíquica e
afetiva do sujeito e do grupo em terapia, promovendo o desencadeamento e a
emergência de conteúdos psíquicos inconscientes, cuja leitura e compreensão é
feita pelo socioterapeuta à luz da psicanálise. Além da teoria psicanalítica,
fazem parte da estrutura teórica do Método, a psicologia social, a sociologia e
a antropologia, no que diz respeito à compreensão dos fenômenos grupais. A
teoria que fundamenta o Método estende-se ao estudo do movimento e percepção
corporal, entendidos como parte integrante do psiquismo, ou seja, como uma
extensão concreta dos conteúdos psíquicos simbólicos. Dentro desta visão, o
movimento se transforma em um ato psicomotor que pode ser lido, pontuado e
interpretado, pois tal qual a palavra, contém em si representações psíquicas
inconscientes.
Assim, a dinâmica terapêutica grupal Ramain-Thiers
estrutura-se a partir da compreensão do ser humano como um todo complexo,
composto pelo psiquismo, pela ação e pelas relações sociais que estabelece. O
objetivo da Sociopsicomotricidade, segundo Thiers, é promover a capacidade de
atenção interiorizada, desenvolver o potencial criativo e propiciar a busca de
autonomia, como elementos básicos para alcançar uma mudança de atitude.
Dentro da esfera psicoterapêutica, a Sociopsicomotricidade
visa atender grupos formados por crianças, adolescentes ou adultos. Em
Ramain-Thiers trabalha-se com grupos heterogêneos quanto ao tipo de
comprometimento apresentado pelos componentes do grupo terapêutico. O
atendimento psicoterapêutico grupal Ramain-Thiers tem se mostrado eficaz no
trabalho com deficiências na área da aprendizagem, patologias da fala,
distúrbios de comportamento ou desequilíbrios emocionais. Deste modo,
especificamente dentro da área da educação, a Sociopsicomotricidade
Ramain-Thiers pode ser utilizada como um instrumento facilitador para a compreensão
dos diferentes comprometimentos apresentados por estudantes nas salas de aula
ou no processo de um atendimento clínico psicopedagógico, bem como no
desenvolvimento de propostas de dinâmica de grupo que visem a integração e
sensibilização de grupos de pais ou professores.
A sessão psicoterapêutica Ramain-Thiers estrutura-se no
entrelaçamento de três tipos de atividades:
1) a de Trabalho Corporal;
2) a de atividades de expressão motora fina, denominada
Psicomotricidade Diferenciada
3) a de Verbalização.
Trabalho Corporal
O principal objetivo do Trabalho Corporal é desenvolver a
capacidade de atenção interiorizada (expressão utilizada por Simone Ramain). As
atividades corporais propostas favorecem a formação do esquema e imagem
corporal, facilitam a inter-relação do sujeito no grupo, liberam recalques
corporais, despertam e refinam a sensibilidade, fortalecendo a estrutura egóica
do sujeito através da ação consciente - o ato psicomotor - que realiza.
Materiais como bolas de diferentes tipos, cores e tamanhos,
sacos de areia, tecidos e fitas, bambolês, elásticos e cordas, esponjas e
bastões de madeiras são utilizados como instrumentos mediadores entre o sujeito
e seu corpo ou, entre um sujeito e outro. O manuseio destes diferentes tipos de
materiais possibilita a percepção de diferentes níveis de tônus muscular, de
diferentes sensações de peso em diferentes partes do corpo, de apoio ao solo,
de equilíbrio e a mobilização dissociada de segmentos corporais, promovendo
maior consciência do eu-corporal no espaço.
Em Ramain-Thiers os aspectos emocionais são considerados
fatores determinantes da qualidade das relações estabelecidas entre o corpo e o
ato psicomotor, sendo consideradas, portanto, determinantes do significado da
ação. De modo geral, no Trabalho Corporal Ramain-Thiers busca-se a
revivescência de situações primitivas experimentadas no contato corpo-a-corpo
com a mãe, em um estágio do desenvolvimento psicomotor anterior ao verbal. As
propostas de Trabalho Corporal são consideradas experiências facilitadoras para
a recomposição de lacunas psíquicas promovidas por falhas ambientais,
decorrentes de faltas vivenciadas na relação entre mãe-bebê.
Diferenciada
As atividades de Psicomotricidade Diferenciada encontram-se
detalhadas no material denominado Orientador Terapêutico Thiers. Há um
Orientador Terapêutico Thiers para cada tipo de grupo aos quais o trabalho
alcança: para crianças (OR.CR.), para adolescentes (OR.AD.) e para adultos (OR.E.). Cada Orientador Terapêutico Thiers é composto por uma série de
conjuntos - agrupamentos de tipos de propostas de atividades a serem
executadas. Em sua grande maioria, os materiais que compõem cada conjunto são
elaborados manualmente pelo socioterapeuta.
As atividades apresentadas nos Orientadores Terapêuticos
Thiers são várias e envolvem dobraduras, cópias, trabalhos com arame,
quebra-cabeças, texturas e recortes, atividades artísticas, representação de
símbolos, entre outras. Ao mesmo tempo em que a execução da atividade
desencadeia a projeção dos conteúdos emocionais do sujeito em seu próprio ato
psicomotor, trabalha-se também com a percepção visual e tátil, com a memória, a
atenção, a capacidade de discriminação de elementos e o controle motor. Nas
atividades que requerem o uso do lápis, a borracha não é utilizada. Utilizam-se
lápis de cores diferentes. Quando um erro é notado, do lápis grafite preto
inicialmente utilizado, passa-se para o lápis vermelho, do vermelho passa-se
para o lápis azul e, do azul para o verde. O erro é marcado para não ser
esquecido, não ser dissimulado. É a descoberta de que, trocando as cores dos
lápis, pode-se recomeçar e encontrar novos caminhos, novas saídas.
As instruções de orientação para execução das propostas de
atividades de Psicomotricidade Diferenciada são, geralmente, pronunciadas
somente uma vez para o grupo. Quando há a necessidade de se repetir a
instrução, isto é feito juntamente com o grupo, em uma tentativa de resgate ou
reconstrução da mesma através do grupo. A instrução dada, em Ramain-Thiers, é a
Lei. Ela não deve ser transgredida e tampouco dissimulada pois representa
simbolicamente a entrada do sujeito na cultura, na sociedade, como um
desdobramento da "proibição ao incesto", apresentada pela
psicanálise.
As atividades propostas nos Orientadores Terapêuticos Thiers
mobilizam e correlacionam-se a determinados aspectos do desenvolvimento
emocional do ser humano. As correlações existentes entre o ato psicomotor e os
conteúdos psíquico-afetivos surgem a partir da verbalização do sujeito em
relação ao que vivenciou e produziu. É através do modo como o sujeito realiza a
atividade proposta que o socioterapeuta pode analisar e perceber este tipo de
correlação. Observam-se alterações feitas durante a execução da atividade
proposta, como por exemplo inversões, ampliações ou diminuições feitas a partir
do desenho-modelo apresentado; uma execução parcial ou fragmentada; se a
atividade é feita e refeita várias vezes e, principalmente, se houve a
possibilidade de efetuar a troca das cores dos lápis ou utilizar o durex como
elemento reparador nas atividades que envolvem o recorte. O modo como o sujeito
manuseia o material também é fundamental: se é com facilidade ou com rudeza; se
o transforma em algo completamente diferente daquilo que foi solicitado ou não;
qual o tipo de material que escolhe para trabalhar; se há recusa em trabalhar
com determinado tipo de material, ou ainda, se o material é destruído.
A leitura psicoterapêutica feita pelo socioterapeuta com
base nas verbalizações dos componentes do grupo ou a partir da observação do
modo de execução da atividade, pode alcançar três formas:
1) a vertical, feita a cada componente do grupo,
especificamente,
2) a horizontal, que parte da percepção do movimento
psíquico grupal,
3) a transversal, feita quando situações da realidade
atravessam as verbalizações feitas pelos componentes do grupo terapêutico.
Os materiais que caracterizam o Método são:
1) o tipo de papel utilizado (quadriculado, pontilhado e
triangulado);
2) pranchas de madeira perfuradas, pranchas com pregos eqüidistantes, pranchas de feltro, pranchas de cartolina e isopor;
3) prancha vasada para tear manual;
4) os materiais elaborados a partir dos Orientadores
Terapêuticos Thiers
5) o lápis grafite preto, os lápis vermelho, azul e
verde.
Além destes, vários tipos de materiais são utilizados na
execução das atividades de Psicomotricidade Diferenciada. Utiliza-se muito
material plástico: papéis de diferentes tipos, cores e tamanhos (papel espelho,
laminado, camurça, celofane, crepon, cartolina, seda, craft etc), tinta guache,
tinta plástica, cola colorida, cola simples, tesoura, pincéis, lápis de cor,
giz de cera, caneta hidrocor, argila, lantejoulas, tecidos. Sucatas também são
muito utilizadas.
Verbalização
A Verbalização é o momento da sessão no qual o grupo,
através de cada um de seus componentes, fala livremente a respeito do que
vivenciou e executou. A postura de continência por parte do socioterapeuta, bem
como a qualidade de sua "escuta terapêutica" são fundamentais para o
bom desenvolvimento do grupo dentro do processo psicoterapêutico.
Informação e Bibliografia
NÚCLEO RAMAIN-THIERS DE SÃO PAULO
Coordenação: Ana Lúcia Mandacarú Lobo
Psicóloga, Terapeuta dos grupos de formação em Sociopsicomotricidade,
Socioterapeuta Ramain-Thiers, Mestranda do Depto. de História Social da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Assistente de Coordenação: Beatriz Pinheiro Machado Mazzolini
Psicóloga, Psicopedagoga, Socioterapeuta Ramain-Thiers,
Mestranda do Depto. de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo.
Referências Bibliográficas
GRUBITS,S. A Construção da Identidade Infantil - A
Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers e a ampliação do espaço terapêutico. Ed.
Casa do Psicólogo, São Paulo, 1996.
LOBO, A.L. M. e
MAZZOLINI, B. P. M. Programa de Avaliação Ramain- Thiers. Ed. Casa do Psicólogo, São Paulo, 1997.
THIERS, S e cols. A Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers. Ed.
Casa do Psicólogo, São Paulo, 1995.
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