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DISLEXIA
Introdução
Em 1945, a Field Foundation recebeu verbas para uma pesquisa das características
neurológicas e perceptuais de quinze crianças que apresentavam dificuldades de leitura.
A pesquisa foi realizada na Mental Hygiene Clinic do Bellevue Hospital, e os seus
resultados foram apresentados pela Dra. Lauretta Bender na Seção de Neurologia e
Psiquiatria da New York Academy of Medicine, em 1950 e em Congresso da Orton Dyslexia
Society, em 1951.
Lauretta Bender era, conforme seus próprios relatos uma disléxica e, por isso dedicou-se
muito aos estudos que a auxiliassem a compreender o problema que ela diz ter sentido na
pele.
O parágrafo acima é histórico: a Orton Society realizará neste ano, o seu 43º
Congresso Anual (e logo veremos porque o seu título é Language and Literacy in the
l990 s); mas, em vista da quantidade de teorias e pesquisas científicas surgidas
desde então, poderia parecer pré-história. Levando ainda em consideração alguns
críticos do assunto talvez ficção científica.
Infeliz, ou felizmente, não é ficção científica. Estamos falando de uma pessoa que
existiu e faleceu em 1987 - e que declarou ter sentido essa dificuldade em escritos que
podemos ler ainda hoje, que possuía comprovada seriedade profissional e que nos legou
pelo menos um teste, ainda muito usado. Nada a ver com as teorias que citam Leonardo da
Vinci ou mesmo Thomas Edison; essas sim podem ter sabor de ficção científica, uma vez
que nada nos comprova os reais motivos da escrita espelha de Leonardo da Vinci. Aí sim
ficamos no campo do nada científico da mera especulação. A partir do título que me foi
proposto para este artigo pensei que seria útil trazer antes um breve resumo da
tendências diversas surgidas desde aquela apresentação de Lauretta Bender para em
seguida citar também brevemente algumas tendências e pesquisas atuais. Alguns leitores
já estudiosos e usuários de alguma teoria aqui exposta acharão partes conhecidas ou
mais do que conhecidas. Outros acharão que omiti justamente aquela teoria que eles seguem
ou seguiram em determinado momento.
Quero frisar que nem meu resumo do passado nem o das tendências atuais pretendem esgotar
o assunto que é muito vasto. Por falta de espaço nem falarei sobre as pesquisas
desenvolvidas na Bélgica e Canadá algumas das quais com analfabetos ou semi-analfabetos
brasileiros;das pesquisas francesas e inglesas; das alemãs e holandesas ou das que são
desenvolvidas no Instituto Weizmann de Israel. Seria uma pretensão; seria inclusive
impossível de realizar em algo menor do que um compêndio, tal a quantidade de teorias
que têm surgido em relação as dificuldades de leitura/escrita e suas causas enquanto
pertencentes ao campo da linguagem e, por conseqüência ao pensamento e aos processos
cognitivos.
Cito três exemplos:
Ajuriaguerra, em 1952, dizia: "a nossa experiência nos demonstra que não é
possível encontrar explicações unicausais aplicáveis a todos os disléxicos em geral.
Encontramos disléxicos com ou sem dificuldades de lateralização, com ou sem
dificuldades no desenvolvimento da linguagem, com ou sem dificuldades
espaço-temporais,
com ou sem problemas emocionais. Todavia, cada uma dessas disfunções pode influir na
organização léxica, e muito freqüentemente se trata de dificuldades conjuntas".
Ou como dizia F. Kocher da Universidade de Genebra: "as dificuldades de leitura às
vezes têm outra origem, que aliás pode se associar à dislexia, tais como: rebaixamento
mental, deficiências visuais e/ou auditivas, problemas na linguagem falada e
compreensão, plurilinguismo, transtornos motores, doenças freqüentes, trocas
freqüentes de escola ou professor etc., e, de resto, o termo dislexia evolutiva é usado
para se insistir no fato de que a dificuldade para aprender a ler desaparece completa ou
parcialmente no decorrer dos anos "
Conceito justamente oposto ao de Clarke, que considera o uso de termo dislexia específica
a de evolução ser devido ao fato de a criança não ser prejudicada pela dificuldade
até que entre a escola, sendo que o quadro evolui (piora) quando não tratado, e conforme
aumentam as solicitações...
Fica claro, antes de mais nada, que se formos entrar em detalhes de cada uma dessas
definições, a discussão pode ser longa e frustrante. Ou, como diria
Ochsner, professor
de didática preventiva em Zurique:
"as explicações continuam sendo, ou fáceis de entender erradas, ou difíceis de
entender e confusas"
Conforme Vellutino, em artigo publicado no Scientific American Ameriban em março de 1987
dislexia é um termo genérico aplicado a crianças de inteligência normal que têm
dificuldades para identificar a palavra impressa, como resultado de defeito
constitucional, cuja origem está provavelmente no sistema viso-espacial. É caracterizada
por versos e espelhamentos e indefinição da lateralidade.Diz ainda que a criança cuja
primeira língua de alfabética, ao invés de ideográfica ou pictográfica, é mais
suscetível de apresentar o problema. Diz também que a (dislexia pode ser corrigida por
um ensino muito estruturado ( highly structured) e treinamento viso-espacial.
Vellutillo da State University of New York at Albany, em 1989, apenas dois anos depois de
publicação do artigo, ponderou que cada um dos critérios ali citados deveria ser
atentamente revisto, já que a maioria das definições ali constantes era baseada em
teorias já comprovadamente superadas por pesquisa científica. Apenas dois anos depois,
sugeriu que deveríamos ter cuidado com critérios superados limitantes para o
desenvolvimento da criança.
Ainda citando Oshsner, "é mais atual termos uma visão global da criança do que
dividi-la em fraquezas parciais para depois tratá-la..." ( 1989)
Ninguém quer negar a existência nem o sofrimento daqueles que lutam para ler um
parágrafo ou um texto que seria simples para outros; ou dos que, após ler com certa
lentidão, perdem a noção do conteúdo, ou seja, sua preocupação com a decodificação
(aspecto parcial) faz com que percam o aspecto profundo e global - o sentido do texto, o
significado. Quem lida com estas crianças sabe que muitas, ainda que não todas, têm
muita dificuldade em compreender certos significados da linguagem oral não escolar, como
trocadilhos ou mesmo piadas. Mais importante do que o nome ou rótulo que se dê a este
conjunto de sintomas e poder compreendê-los a ao indivíduo que os apresenta. O caminho
é diferente para cada um; a solução também.
ASPECTOS HISTÓRICOS
Quase um século se passou desde as primeiras publicações sobre problemas de fala e
linguagem, aliás por Sigmund Freud, em 1891, ocasião em que criticava Broca e
Wernicke.
Para explicar os diversos tipos da afasia motora preferia deixar de lado os aspectos
topológicos e realçar os funcionais.
Mais tarde, com o conceito do inconsciente, Freud evoluiu para um paralelismo entre erros
de leitura e escrita com os lapsos de linguagem. Em Psicologia da Vida Cotidiana (1905) apontou
para o fato de os equívocos na leitura e na escrita se submeterem aos mesmos princípios
que governam os lapsos de linguagem, da estreita relação entre todos os empregos da
linguagem. "o que não é absolutamente surpreendente se nos recordarmos da relação
interna dessas funções, a saber. que a fala e a comunicação oral precederam a escrita
e com ela a leitura" Nesse mesmo trabalho (página 778), citou como oposto ao seu um
trabalho de Meringer & Mayer ( 1895) sobre Erros da Expressão Oral e Leitura. cujos
autores teriam Investigado as regras que regem estes erros, esperando poder deduzir destas
regras a existência de um determinado mecanismo psíquico, no qual estivessem ligados de
um modo especial os sons de uma frase ou palavra e também a palavras entre si, além da
descrição de trocas, omissões, substituições e contaminações, explicadas pelo valor
psíquico dos sons fonéticas.
Nos anos seguintes, houve intensas pesquisas, a maioria de cunho médico sobre as causas
desta dificuldade, além de um contínuo debate sobre a sua existência. Existência
enquanto entidade médica - qualquer que seja a área - ou conseqüência de
perturbações emocionais? Existência enquanto patologia ou apenas parte de um processo
normal de aprendizagem? Poderíamos citar mais uma dúzia de questões levantadas pelas
diversas especialidades profissionais que também foram surgindo durante o século.
Em 1930, o neurologista americano Samuel T. Orton chamou a atenção para a relação
existente entre as dificuldades de leitura em crianças na faixa de primeira a quinta
séries primárias e dificuldades que elas teriam na linguagem oral como um todo já nos
anos da pré-escola, chamando, assim, a atenção para um transtorno básico, anterior à
leitura, nas funções da linguagem.
Nos anos 50 e comício dos anos 60, houve uma onda de entusiasmo, apoiada também pelas
novas tecnologias surgidas no pós-guerra, pelas teorias que enfatizavam os aspectos
perceptuais. Naquele período, a distinção entre aprendizes visuais e auditivos deu
lugar ao anteriormente citado conceito lingüístico, levando à toda mais do que conhecida
gama de exercícios para treinar estes aspectos da percepção visual e/ou auditiva. Neste
período, surgem também as divergências causais - o "splitter" reconhece não
somente dislexia, mas também diversos subtipos; o Lumper" extremista considera que
todos os sintomas são rnanifestações de uma única e abrangente síndrome de
dificuldades de aprendizagem, controvérsia esta que permanece até hoje.
Em 1962, no clássico Reading Disability, e em 1964, em Developmental Dyslexia, MacDonald
Critchley definiu a dislexia da seguinte forma:"'dislexia significa leitura
defeituosa. Esta leitura defeituosa pode ser devida à incompetência em conseqüência de
lesão cerebral ou degeneração; ou pode representar um fracasso evolutivo para tirar
proveito das instruções de leitura" Che Kan Leong, da Universidade de Saaskatchewan
(Canadá), em artigo publicado no Annals of Dyslexia (1991 ), criticou certos termos desta
definição. Disse ele: "leitura defeituosa significa dificuldade apenas com a
palavra ou também com o discurso, além do nível da palavra? Se apenas da palavra,
significa decodificar, e SE, de que maneira? Se for a nível de compreensão, significa
"gramática funcional na sala de aula " e/ou compreensão geral? Além disso
qual o papel da capacidade de raciocínio na capacidade específica de leitura? Segundo
Leong, os conceitos ali citados - defeito dificuldade e/ ou diferença - estão entre
aqueles que continuam a atrapalhar os pesquisadores e os clínicos. É que na verdade,
estamos lidando basicamente com um processamento pouco eficiente da linguagem e do sistema
de escrita destas crianças. Considerou, ainda, que seria instrutivo e razoável comparar
estas definições com outra mais atualizada e neuropsicológica feita por Steven Mattis
(1978): "Dislexia é um diagnóstico de desenvolvimento atípico da leitura) quando a
criança é comparada com crianças de idade, inteligência, programa instrucional e
oportunidade sócio-cultural semelhante que, sem tratamento, deve persistir e é devida a
um defeito bem definido em qualquer uma das diversas funções corticais específicas .
Esta definição fica praticamente impossível de ser usada no Brasil, pela inexistência
de oportunidades sócio-econômicas-culturais semelhantes. Uma discussão mais completa
desse problema sócio-cultural-educacional é um tema vasto e atual que mereceria um
artigo à parte, pois é um quadro que não influi apenas na leitura/escrita. De qualquer
modo, é verdade que, em muitas regiões da periferia de São Paulo, maior centro cultural
da América Latina (!??!), ler e escrever se torna um artigo de luxo e de consumo quase
inútil: ler o que quando não se tem o que comer?
Voltando a Orton, convém assinalar que sua teoria sobre inversão de símbolos parece um
pouco limitada - a proporção de inversões visuais comparadas com a de segmentos
silábicos ou encontros consonantais é pequena. O que não evitou teorias sobre os
problemas de coordenação visomotora e de movimento dos olhos, havendo desde as teorias
que prescreviam treinamento ocular (Tinker, 1958) até os mais recentes e elegantes
estudos que consideram que o movimento dos olhos reflete processos de monitoramento
cognitivo (Rayner, 1978, e diversos outros autores alemães). Devem ser destacados os
resultados de Stein & Fowler (1982), que falam de uma dominância ocular instável
provocando problemas na visão binocular, levando Benton (1985) a notar que o fator visual
não deve ser totalmente descartado na dislexia.
Houve e há ainda diversas teorias neurologizantes que tentam estabelecer uma relação
causal entre problemas neurológicos menores e problemas de aprendizagem, inclusive os de
leitura/escrita, sendo muito duvidosa a relação causal entre estes sinais menores e a
capacidade de aprendizagem escolar. Atualmente, vem sendo levantada, nos Estados Unidos, a
bandeira do ADD (attention déficit disorder) ou dificuldades de atenção-concentração,
como uma síndrome causadora de muito mais problemas práticos do que na realidade se
verifica, e devendo, segundo seus defensores, ser tratada quimicamente com o metilfenidato
(Ritalina), mesma droga que serviria também para harmonizar a coordenação
cerebral-vestibular (que estaria relacionada com uma incoordenação visomotora).
Não quero entrar em maiores detalhes nesta área médica que não é minha, mas quero
lembrar que um ardoroso defensor americano desta teoria e medicação foi duramente
criticado por médicos brasileiros presentes no último Congresso da ABENEPI em
Blumenal/91. A mim, parece que, entre os leigos, o sucesso destas teorias ou rótulos de
cunho mais médico-neurológico, com a possibilidade de exames definitivos tipo
eletroencefalograma, tomografia computadorizada e outros, e com medicação no final da
consulta, seria devido ao fato de fornecerem aquela resposta rápida e tão desejada para
abaixar rapidamente a ansiedade em relação à busca de uma compreensão para o problema
do filho ou aluno.
Existem também, nos Estados Unidos, pesquisas interessantes, como as feitas com gêmeos e
na área genética. Outra, desenvolvida há anos no Dyslexia Unit do Beth-Israel Hospital,
coordenado pelo Dr. Albert Galaburda, professor de Neurologia em Harvard, faz uma
correlação com uma doença auto-imune da mãe, lúpus eritematoso que, mesmo quando não
se manifesta na mãe, poderia afetar o cérebro do feto durante a gestação através de
uma descarga de anticorpos, criando Utopias e displasias que afetariam a área da
linguagem. Estive visitando este centro e conversando com Galaburda, inclusive para saber
a incidência desta malformação nos cérebros estudados e qual seria o seu uso prático
dos resultados. Segundo ele, estas Utopias e displasias aparecem em cerca de 30% de todos
os cérebros, mas em 100% dos cérebros de disléxicos, e o objetivo da pesquisa seria
conseguir uma espécie de vacina ou outra intervenção ainda intra-útero, ou seja,
preventiva.
São muitas as teorias e causas, muitas delas conflitantes entre si, muitas ainda a serem
confirmadas, e parece-me que o cuidado maior que deve ter o profissional a lidar com o ser
humano é estar atento e não embarcar em modismos que poderiam prejudicar, ao invés de
ajudar uma criança. E nunca esquecer que todas estas teorias estão, na verdade, direta
ou indiretamente, colocando a causa ou o problema na criança, o que é outro ponto que
nunca podemos perder de vista, principalmente em um país onde o ensino é o que é.
Não há diferenças significativas em termos causais entre as teorias e estudos
americanos e europeus. O que prejudica, no meu ponto de vista (endossado por diversos
pesquisadores americanos com os quais discuti esta questão), na visão americana, é o
excesso de pesquisas que devem ser feitas por causa do sistema de ascensão acadêmica e
de distribuição de verbas que existe nos EUA. Esta forma de trabalho acaba dissecando
tanto os problemas que faz com que os próprios pesquisadores percam de vista a questão
global, o indivíduo e os aspectos psicodinâmicos, mais respeitados e considerados na
Europa. De qualquer modo, ambos priorizam hoje os estudos no campo da psicolingüística
e
neuropsicologia.
A visão atual
O antigo enfoque para dificuldades da leitura como um déficit visoperceptual foi
desmontado por Vellutino já em 1979, quando reviu as evidências e enfatizou o papel das
habilidades verbais ou lingüísticas da dislexia. A teoria de Vellutino sugere que maus
leitores (poor readers) tem dificuldades em usar códigos semânticos (apreensão do
sentido de uma frase ou de um conjunto de frases/ texto), sintéticos (a estruturação
gramatical) e/ou fonológicos (associações som-símbolo, significado-significante),
tanto para armazenar como para resgatar informações.
Mais recentemente, pesquisadores como Siegel & Stanovich (1988, 1989) propuseram que
habilidades lingüísticas gerais (por exemplo, semântica) são importantes componentes no
conceito de inteligência, mas que a dificuldade de leitura independe da inteligência,
sendo considerada mais como um déficit fonológico específico do que como uma
deficiência lingüística geral (Wagner e col., 1987).
Wagner e col. (1987) examinaram três grupos de pesquisas que se desenvolveram
independentemente, todas, porém, relacionando as habilidades fonológicas com a leitura:
(1) a consciência Monológica (consciência de e acesso ao sistema Fonológico ou de sons
da língua); (2) recodificação Monológica para obter acesso léxico (conseguir ir de
uma palavra escrita ao seu referente léxico pela recodificação dos símbolos escritos
num sistema baseado em sons); (3) recodificação fonética para manter a informação na
memória.
Embora haja evidências que apontam para uma habilidade lingüística geral, Wagner e col.
( 1987) fornecem bases para uma distinção entre consciência fonológica e
recodificação Monológica na memória, e apresentam uma relação causal entre
consciência Monológica e aprendizado da leitura. Tanto Stanovich quanto Frank Duff,v e
col. ( 1991 ) confirmam o fato de que os testes gerais de inteligência nada têm a ver,
pois medem as tarefas cognitivas verbais, o mesmo podendo ser dito para os testes de
prontidão, que não medem habilidades de leitura especificamente, mas apenas dificuldades
ou habilidades globais, em que se podem identificar os maus leitores tipo garden variety e
em que a dificuldade de leitura se associa a outras dificuldades globais, enquanto que o
disléxico tem uma dificuldade específica a nível da consciência fonológica. Sugerem
eles que a dislexia deveria ser definida por uma tarefa Monológica, mais especificamente
a leitura de logatomas, ou seja, uma tarefa de recodificação Monológica para acesso ao
léxico. Há ainda, segundo eles, evidências de que a consciência Monológica e o
processo de leitura sejam recíprocos: o fato de ler melhora a consciência fonológica,
mas sem ela a leitura fica muito dificultada, gerando assim um círculo vicioso. Recentes
estudos de Liberman e col. (1991) trazem a dislexia como uma deficiência da consciência
fonêmica, teoria amparada por uma variedade de pesquisas anatômicas, psicofisiológicas
e neuropsicológicas.
Esta pesquisa também ajuda a entender certos dados clínicos que antes confundiam os
estudiosos: o fato da descodificação fonológica ser uma habilidade muito específica
explicaria o fato de algumas crianças terem dificuldades nesta tarefa - portanto
disléxicos para esses autores - e terem bom desempenho verbal em testes ou serem
lingüisticamente hábeis de outras formas.
O fato de ainda existirem dúvidas sobre a existência da dislexia, segundo Rosenberger,
do Massachusetts General Hospital de Boston, reside em que a maioria das pesquisas são
feitas com crianças pré-selecionadas, por serem população de clínicas; quando as
mesmas pesquisas são realizadas com população não selecionada - grupos aleatórios -
de alunos, surgem dúvidas sobre a relevância de todas estas variáveis como fatores de
má leitura em geral.
Conforme Shaywitz, assume-se geralmente que o fracasso em aprender a ler representa uma
entidade ou síndrome específica, distinta da distribuição normal de maus leitores. Ao
invés de representar o final de um continuum composto por bons e maus leitores, a
dislexia é vista como uma desordem biologicamente coerente e distinta de outros
problemas menos específicos de leitura. Esta teoria de bolo que os disléxicos formariam
no final da curva normal de leitura é sustentada inclusive por Rutter & Yule, que
consideram estas dificuldades específicas de leitura como uma discreta entidade
específica, teoria que serve de base para uma série de pesquisas sobre a neurobiologia
de dislexia, seu diagnóstico e tratamento. Esta teoria tem ainda muitos seguidores, pelo
menos nos Estados Unidos.
O próprio Shaywitz coordenou talvez o mais recente e bem controlado estudo longitudinal
com população de comunidade regular, o Connecticut Longitudinal Study, no qual foram
avaliadas crianças de escolas públicas durante os anos de 1983-84. Foram escolhidas
crianças representativas da comunidade de forma aleatória, sendo o critério de
exclusão apenas a presença de dificuldades sensoriais marcantes e de problemas
psiquiátricos graves. Participaram 445 crianças (235 meninas e 210 meninos) divididas da
seguinte forma: 84,3% brancos não-hispânicos; 11,2% negros; 2% hispânicos; 0,9%
asiáticos; 1,6% de raça ou grupo étnico desconhecido. A dificuldade específica de
leitura foi definida como sendo um inesperado fracasso para leitura em função da
discrepância entre o nível previsto de leitura - em função do nível de inteligência
avaliado pelo WISCR e o nível real de leitura. Este estudo permitiu discordar da crença
geral de que a dislexia é uma entidade diagnóstica específica, pois os dados não
confirmaram esta hipótese. Antes sugerem que a dislexia ocorre ao longo de um continuum
que se mistura imperceptivelmente com a habilidade normal de leitura. Isto significa que
não há um ponto de corte exato que possa distinguir crianças disléxicas de outras com
dificuldades normais de leitura (poor readers), mas que os disléxicos simplesmente
representam a porção final deste continuum de habilidades para leitura.
Shaywitz, finaliza considerando que esta dificuldade para leitura ocorre em graus de maior
ou menor severidade, assim como a hipertensão, e que a variabilidade inerente ao
diagnóstico de dislexia pode ser tanto quantificada como prevista com a aplicação da
escala ou curva normal de distribuição.
Considerações Finais
Apesar da citada divergência entre os que defendem fatores pluri ou unicausais, fica
patente que a maioria das pesquisas é voltada para a busca de soluções unicausais, que
já Ajuriaguerra descartava. Claro que isso é também uma decorrência do próprio
procedimento de pesquisa, que deve ter uma hipótese a confirmar, principalmente as do
campo biológico, neuroquímico etc. Na verdade, a prática clínica nos mostra uma
predominância de fatores pluricausais, incluídos aí, além dos individuais, os
familiares, sociais e psicodinâmicos. Isto sem falar da qualidade do ensino no Brasil e
da incongruência de, no Brasil, sermos obrigados a nos apoiar em dados e pesquisas
estrangeiros - predominantemente - uma vez que o aluno que nos vem sai do sistema
educacional e social brasileiro.
De qualquer forma, a conclusão de Shaynvitz, citada acima, permite uma abertura talvez
sugerida pelo próprio título da próxima Conferência da Orton Dyslexia Society Language
and Literacy-, termo mais amplo que dislexia. Ou talvez uma outra tradução do termo
dislexia, conforme cita Drake Duane, da Arizona State University: "Dislexia pode ser
derivado do termo puramente grego "dys") pobre ou inadequado) "legein"
(falar), portanto palavras no sentido léxico ao invés de gramatical, e, portanto,
linguagem em geral. Linguagem em sentido amplo, mais do que um conjunto de símbolos
gráficos, mas mesmo a nível de discurso do sujeito, envolvendo aspectos inconscientes e
culturais profundamente arraigados de visão do mundo". Como diz Mannoni:
"...importante não é suprimir o sintoma, e sim procurar decifrá-lo, entender sua
causa, entender o que a criança procura dizer, de maneira ruidosa, numa linguagem sem
palavras". ou numa linguagem alterada.
Certo que essa escuta não satisfaz pais e escolas numa sociedade competitiva, onde o
objetivo principal é passar de ano, e não o bem estar da criança. Só este bem estar
poderá torná-la sujeito do desejo, sujeito da ação que transforma o significaste em
significado. De qualquer forma, parece que temos muitas teorias, nada de definitivamente
conclusivo, e muito a pesquisar. Se, neste vai e vem de teorias, conseguirmos enriquecer
nosso trabalho com uma ótica isenta de pré-julgamentos e abrangente, no sentido de uma
visão multidisciplinar, o ser humano visto por nós será apenas beneficiado.
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