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OLEANA - UM CASO CLÍNICO

Davy Litman Bogomoletz

Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.

Um filme, muitas vezes, vai além do que pretende. Óbvio, pois é esta a diferença entre o grande artista e o artesão esforçado. Digamos que, psicanaliticamente falando, o grande artista alcança maior intimidade com seu inconsciente que o cidadão comum, ou mesmo o artista apenas bom. Lá, desse oceano sem fundo que subjaz à consciência do homem, o grande artista tira com sua rede as criaturas primevas que habitam a alma humana, e por isso o que ele produz afeta a tantos – cuja rede pende em geral de uma corda bem mais curta, mas que nem por isso ignoram totalmente o que se passa nessas profundezas. A matéria prima da arte é a mesma dos sonhos – e todos sonham, mesmo que disso não se lembrem.

Um filme à primeira vista banal – e em muitos sentidos até mesmo chato – por vezes apenas espera que os que o assistem coloquem sobre os olhos aqueles óculos de ver em profundidade. É o caso deste "Oleanna", de David Mamet.

Não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Muita coisa levar a crer que não, mas a argúcia dos artistas já me driblou mais de uma vez. Ocorre que o filme é, entre outras coisas, uma aula de psicanálise, bem como – mais obviamente – de comunicação humana. Ver o filme com os óculos da psicanálise o torna infinitamente mais interessante – ao menos para mim. Como ignoro a cultura psicanalítica do autor, digo que não sei se o autor sabia o que estava fazendo. Se sabia, é um sábio. Se não sabia, é um gênio.

De início, o que parece apenas uma disputa acerba entre um professor – excelente, por sinal – e sua aluninha ranheta revela-se uma grande rapsódia épica sobre a questão da verdade. Quem tem razão: O professor lúcido e articulado, que muitas vezes diz coisas cujo sentido não é óbvio, contando sempre com a capacidade de sua aluna de get the message, ou seja, "pegar o espírito da coisa", deixando de lado o seu sentido literal? Ou a aluna que se sente humilhada pela demonstração esmagadora de brilho intelectual, quando na verdade ela queria justamente respostas simples e diretas, pois o sentido sofisticado das idéias do professor ela desde o início não havia compreendido, no livro que ele havia escrito?

Creio que, de um modo geral, o espectador medianamente intelectualizado, aquele que foi ver justamente esse filme, tendeu a identificar-se inteiramente com o personagem do professor. Dada a obtusidade inicial e a antipatia final do personagem da aluna, poucos teriam sido os que se identificaram com ela, creio eu. No entanto, colocando-se sobre o nariz os óculos da psicanálise, surge no filme um outro enredo, no qual a figura heróica é justamente a da mocinha desajeitada, e o belo professor passa para o lugar do vilão.

A meu ver, a verdadeira guerra travada no filme é, ao final de todas as contas, sobre quem tem o direito à palavra: aquele que melhor a domina, ou aquele que ainda não consegue utilizá-la? Dito de outro modo: Quem deveria ter a preferência, na hora de expressar-se – aqueles que possuem palavras em abundância, e podem até se dar ao luxo de usar sinônimos rebuscados para termos simples, como o professor, ou aqueles que, em matéria de palavras, podem se considerar despossuídos, aqueles cuja voz sai trêmula e cujas idéias não conseguem se articular?

Na primeira parte do filme, vemos como o professor brilhante e articuladíssimo dá um show de raciocínio e lucidez. Muito rapidamente, analisa a questão do fracasso escolar e da sua pertinência essencial ao contexto da escola, e o elemento trágico nele embutido. Depois analisa a questão do estudo universitário como uma demanda falsamente criada por uma sociedade que governa tudo, até os anseios de seus jovens cidadãos e seus sonhos para o futuro. Depois diagnostica celeremente o "complexo de inferioridade" de sua jovem aluna, mostrando como ela poderia estar presa à armadilha de, sentindo-se condenada ao fracasso, cumprir sem perceber a própria profecia. Além disso, ele se depara com a questão da verticalidade, decidindo no ato que é absurdo o professor julgar que os seus problemas estão acima do alcance dos alunos, e assim por diante, interminavelmente, até que a aluna, num paroxismo de ansiedade provocado pelo silêncio a que a reduz o professor, deixa cair – e quebrar – a xícara de chá que o professor tão "democraticamente" lhe havia preparado.

Na segunda parte do filme, a mocinha (que é a bandida – até segunda ordem) toma a iniciativa. Para ela não há justiça no fato de ter sido reprovada – apenas um exercício de poder, que do ponto de vista dela o professor manipula a seu bel prazer – exatamente como manipula as idéias e as palavras... Não "entra na sua cabeça" que os motivos da reprovação sejam abstratos, impessoais – a Lei! No mundo dessa moça, a Lei ainda não chegou – por enquanto (etapa da ruthlessnes, como diria Winnicott, há apenas a força com que se rejeita o outro. Portanto, ela não foi reprovada pelo professor – ela foi rejeitada!

Para vingar-se, ela inventa uma série de acusações, e "suja a barra dele" junto ao Conselho da Universidade. O qual, diga-se de passagem, toma as coisas por seu "face value", como se diz em inglês, por seu valor aparente, e nem se dá ao trabalho de verificar se a acusadora está falando de fatos ou de suposições. Não se trata, a meu ver, de um lapso. O autor do filme, sutil como se mostra, faz aqui uma acusação, uma denúncia da superficialidade com que as denúnicias muitas vezes são tratadas na sociedade ali esboçada. O que dizem outros alunos do mesmo professor, por exemplo, nem chega a ser mencionado como algo a averiguar.

As acusações revelam-se, todas, meras leituras literais de uma série de metáforas verbais e gestuais do professor (por exemplo, a mão sobre o ombro da aluna é visto como sedução – portanto odiosa.) Da forma magistral como o autor trama a trama e a põe na boca da aluna, cada gesto casual, cada afirmação do professor que pudesse ter mais de um sentido, é retirada de modo brutal de seu território original, das brincadeiras verbais, das amabilidades, da cordialidade ou da metáfora, e atirada para o lodaçal das intenções malévolas, dos preconceitos abjetos, das pretensões inconfessáveis.

É tamanha a veemência da aluna, ao sustentar suas convicções/difamações/delírios/maledicências (num primeiro momento é realmente difícil saber de qual se trata), que o professor perde o pé, seu raciocínio tão lógico vê-se lançado ao caos, e ele fraqueja. Não ante a idéia de talvez não ser inocente, mas ante a idéia – muito pior – de talvez não lhe ser possível defender-se desse discurso – essencialmente bárbaro.

Principalmente quando seu advogado lhe diz, por telefone, que a última acusação, a pior de todas, é a de tentativa de estupro. Nesse momento apossa-se do professor um verdadeiro estupor, tamanho é o absurdo com o qual ele é confrontado. A aluna infringe, de modo esmagador, a regra número um do mundo da lógica – a de que uma proposição deve relacionar-se a um objeto no mínimo abordável. Com isso, todo o paradigma existencial do professor é desestruturado, e ele se vê nu e impotente diante do que ele mais abomina – a selvageria, a barbárie, o ato de força puro e simples: justamente aquilo de que a aluna o acusa! E assim, ao final de uma história em que tudo se passava exclusivamente num mundo de palavras, idéias e representações, o puro simbólico, o sangue jorra.

No entanto, de fato houve um estupro, ou no mínimo um ato de violência. Não um estupro sexual, evidentemente. O estupro foi de natureza intelectual, ou mais especificamente, de natureza emocional: E aqui entramos, finalmente, na leitura psicanalítica do filme, prometida no início.

Em primeiro lugar, quanto ao tema central da história. Aparentemente, tratava-se de uma história sobre as dificuldades da convivência entre professor e aluno. Há a questão do superior-subordinado, ou seja, do princípio da autoridade. Há a questão do reprovador-reprovado, ou seja, a da Lei. Há a questão do julgamento e a questão da verticalidade e do poder. Tudo isso está lá, e realmente caracteriza as relações professor-aluno.

Mas a verdade é que não se trata de uma história entre um simples professor e uma simples aluna, e sim da história entre uma pessoa aparentemente sã e uma outra pessoa que está visivelmente doente – só que a primeira pessoa não o percebe, e com isso revela a sua própria doença. Portanto, trata-se de uma história muito mais psicanalítica que qualquer outra coisa. A história do problema emocional no seio da sociedade considerada "normal".

O professor, em termos de seu comportamento manifesto, não manifesta problemas emocionais. Sob quase todos os pontos de vista, ele funciona perfeitamente bem. Menos num: Não tem a menor capacidade de perceber a verdade emocional do outro – desse outro que está diante dele. Claro, ele a perceberia perfeitamente bem se isto lhe fosse relatado em sua (dele) língua. Devemos dizer, porém, que ele não perceberia a verdade do outro – ele apenas a ouviria, e passaria a interagir não com a pessoa em questão, mas com as mensagens verbais que ela profere. Ou seja, com as representações. Com os conceitos. O professor não se relaciona com pessoas – relaciona-se com textos. O "outro", se não aprendemos com Buber, fica sempre reduzido a um "texto" – a ser compreendido em sua literalidade ou em sua metáfora, mas não em sua verdade enquanto sujeito.

Isto é o que fazem todos a maior parte do tempo, dirá você, e terá inteira razão. É verdade que assim funciona a maioria absoluta das pessoas em condições normais de temperatura e pressão, inclusive eu. Mas aí está a história essencial do filme: a história de duas pessoas que não falam a mesma língua justamente porque uma delas não está em condições normais de temperatura e pressão, e porque a outra renega (ou denega) miseravelmente esse fenômeno fundamental.

Era óbvio, desde o começo, que o personagem da aluna não conseguia compreender praticamente nada do que dizia o professor. Este era um fato inteiramente visível. Menos para o próprio professor, que não conseguia conceber a existência de um ser humano que NÃO falasse a mesma língua que ele.

Por incrível que pareça – e este detalhe é mais uma prova da genialidade do autor – o professor em dado momento tropeça justamente com esse fato – de que ele e a aluna não estavam falando a mesma língua. Mas em vez de compreender que este era o fenômeno central em questão, ele o descarta rapidamente, "consertando" a situação e mostrando para a aluna que dois seres humanos podem – e devem – perfeita e facilmente falar sim a mesma língua. Esta é, na verdade, a grande característica de todo o comportamento desse personagem – o professor: Ele crê na razão. Ele acredita na lógica. Ele não é um tapado, um idiota da objetividade, como dizia Nelson Rodrigues, e por isso ele alcança a lucidez necessária para enxergar até mesmo os dois lados da lógica e da razão. Mas ele não enxerga, ou não admite – e esse é o seu pecado capital – que há mais que razão e lógica no interior da comunicação entre dois seres humanos, e – mais grave ainda – no interior de um dado ser humano.

Quanto a este ponto específico, o brilhante professor se comporta de modo tão ignorante e incompetente quanto a aluna se comporta em relação às idéias e aos raciocínios. E por esta razão, o professor acaba pagando – pelo supremo pecado de se haver tornado des-humano. Curiosa e espantosamente, é precisamente esta a grande acusação que lhe faz a aluna, só que ao contrário. Ela o acusa de ser um selvagem disfarçado, um bárbaro de terno e gravata, um monstro que se oculta sob o manto do professor e atrás de uma pilha de dicionários. Ela erra o alvo, mas acerta a mosca: o professor obviamente não é nada disso, mas ele se desfez de sua humanidade no processo de se tornar um computador inteligente. Ele é des-humano não por adorar ver sangue, mas justamente ao contrário, por haver esquecido que isso que chamamos ser humano é composto de mais coisas que apenas o cérebro e seus produtos intelectuais. Por incrível que pareça, o professor novamente tropeça em algo: em si mesmo, no passado, na época em que ele ainda não era professor, e conta para a sua aluna que ele também sofreu, quando criança, dessa doença que ele chama de "crença na própria incompetência". Ele não titubeia em reconhecer que, naquela época, também ele se acreditava incapaz de compreender o que os outros diziam e, principalmente, as suas "idéias". No entanto, uma vez "curado" desse problema, ele esqueceu (reprimiu, negou) completamente os seus sentimentos da época, e ficou-lhe apenas, a esse respeito, uma idéia vazia de emoções, como acontece com todo bom obsessivo. Por isso ele percebe a questão, e de modo bastante lúcido, mas não percebe a sua carga emocional.

Por esta razão, ele é incapaz de se relacionar com os sentimentos de sua aluna, que na sua frente se coloca inteiramente exposta, em termos emocionais. Mas ele não sabe mais ler os caracteres da linguagem emocional, a não ser que venham transliterados em caracteres "normais", isto é, intelectuais. Por isso, ao longo de todo o primeiro tempo da narrativa, em que o professor está no comando e a aluna, inteiramente (e quase visivelmente) desesperada, lhe corre atrás, o espectador sofre com a agonia da menina, mas o professor não a nota quase em momento algum. Quase, porque na verdade ele a nota sim, em dois ou três momentos cruciais, em que toda a história poderia ter mudado de rumo, mas – o eterno "mas" – nesses momentos cruciais... toca o telefone, e alguém interrompe a conversa, o contato, corta a comunicação que estava quase se estabelecendo, e estraga tudo. A culpa, porém, não cabe ao interlocutor oculto, ao terceiro, ao intruso, ao invasor da cena, e sim exatamente ao professor que, com seu brilho intelectual, apaga a própria sensibilidade (visivelmente imensa, mas inútil), e é o professor o responsável por que a invasão se faça, a interrupção se dê, a comunicação verdadeira – para além da troca de idéias – se perca.

O contato humano não se faz, e a aluna sai decepcionada. Aparentemente, com a pouca sensibilidade que o professor demonstra para com o seu "caso" – ele mantém a reprovação, embora sugerindo muito generosamente que eles refaçam o curso, para que ela aprenda tudo que não aprendeu nas aulas regulares. No entanto, uma percepção mais sensível mostra que a decepção da moça é com a perda da possibilidade da comunicação. Uma cena quase idêntica ocorre mais uma ou duas vezes – sempre o telefone tocando no exato momento em que algo importante (para ela) poderia vir a acontecer.

Na cena que antecede a briga final, o telefone novamente toca num momento crucial, e desta vez o professor – mostrando que, afinal, aprendeu a lição – decide não atender. A aluna, entretanto, que sabe bem quem deve estar do outro lado da linha – o advogado informando sobre a acusação de tentativa de estupro – insiste para que ele atenda, pois agora ela tem a ganhar com a interrupção. A imagem do telefone que toca nos momentos "certos" é um dos pontos chave da história: Incapaz de lidar com a camada emocional do diálogo, o professor não permite que se estabeleça o diálogo verdadeiramente pessoal, íntimo. Ele está preso do lado de fora da relação dual, como se, em vez de a ter superado, o que lhe daria o direito de transitar nas duas direções, ele na verdade a reprimiu, e por isso não pode mais voltar lá.

Exatamente porque seu "instinto" é extremamente aguçado, já que ela é muito mais um animal acuado que um ser humano "racional", a moça acusa o professor de todos os crimes de abuso da intimidade possíveis e imagináveis, culminando com a "tentativa de estupro", que seria o mais sério atentado à intimidade possível a um ser humano. Vemos, portanto, como a questão da intimidade (a marca registrada da relação dual) está o tempo todo presente como problema, um problema que, evidentemente, o professor não pode resolver, e por isso acaba pagando por um desastre que ele – apesar de nunca o cometer – permite que ocorra.

Numa outra perspectiva, temos nesse filme uma brilhante ilustração de como se comporta alguém não suficientemente desenvolvido para utilizar certos equipamentos culturais que, para todos nós, são absolutamente óbvios. A aluna não tem senso comum, nem senso de humor, nem qualquer senso de medida. Ela também não sabe brincar, e por isso não conhece o jogo "civilizado" das palavras, não distingue um lugar comum, proferido de modo crítico, de uma declaração deliberada. Ela não percebe o sentido por trás do sentido. Ela não conhece o simbólico, como diria Lacan. Na verdade, ela vive quase inteiramente no imaginário. Por esta razão, não lhe é possível compreender o livro escrito pelo professor, nem as suas aulas, nem as explicações que ele tão esforçadamente tenta formular e simplificar para fazer com que ela entenda.

Na verdade, ela não está ali com a intenção de ouvir, de aprender, de receber informações. Por esta razão, nada do que lhe é dito realmente "entra". A moça tem um desejo – ser aprovada – e no máximo se dispõe a colecionar as pistas que poderiam levá-la ao tesouro – a aprovação. Cuidadosamente, ela anota o que lhe parecem ser as palavras-chave do professor, e não percebe que este fala por metáforas, expressando-se no mais das vezes num discurso indireto que, para um bom entendedor, cobriria tanto a informação desejada, quanto a sua crítica e sua contrapartida, tudo numa frase só. Mas a moça não conhece esse jogo. Ela se sente agredida por ele, ela se sente roubada, roubada no seu direito de saber o que é preciso saber para passar e pronto. Ela quer respostas simples e diretas, não explicações, e não consegue entender que naquele nível de sofisticação intelectual não há mais respostas simples e diretas, como havia nos anos escolares anteriores.

Dir-se-á: a aluna não está intelectualmente preparada para ingressar numa universidade. Direi eu: esse é o grande erro de avaliação denunciado no filme pelo autor-diretor. O problema não está nem de longe na imaturidade intelectual da moça, e sim em sua imaturidade emocional. É disto que o filme trata, afinal: da distinção entre conhecimento e vivência, entre inteligência operante e estrutura emocional; da capacidade de discriminar entre uma dificuldade cognitiva de entender, e uma dificuldade emocional de digerir. A segunda metade do filme deixa claro que inteligência é algo que a moça tem, e de sobra. Sua argúcia em manipular as informações que lhe interessam é assombrosa. Sua memória e sua capacidade de articular o seu conhecimento particular deixam claro que, no nível da cognição, no nível intelectual de processar informações e resolver equações, ela não só não tem qualquer problema, como na verdade se revela uma esgrimista exímia. O que ela não pode, o que ela não consegue, é outra coisa: é compreender pensamentos não lineares, idéias paradoxais, metáforas e jogos de palavras. E o motivo pelo qual ela "empaca" nesse ponto não é cognitivo, é emocional. Para ela, com sua limitadíssima capacidade de tolerar a frustração, as coisas só fazem sentido se forem claras: Ou isto, ou aquilo. O que não é isto, tem que ser aquilo, e nada pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Ela está presa, como diria Melanie Klein, no mundo esquizo-paranóide onde as coisas se dividem em boas ou más, certas ou erradas, assim ou assado. Nesse mundo, quem não é nosso grande amigo é nosso terrível inimigo, não há meio termo. Nesse mundo as coisas podem ("podem") ser controladas, classificadas, devoradas ou rechaçadas. Nesse mundo não é preciso ter dúvidas – e não é possível ter dúvidas. Ela está está presa, dizendo-o em bom epistemologuês, no mundo da lógica formal primária, no mundo da aritmética: Nem mesmo a álgebra lhe seria compreensível. Só existe, para ela, a segunda fase da relação dual, a da ruthlessness, onde um mais um é um, pois não existe "outro", o terceiro, mas onde o que não é eu é a morte do eu, e portanto, o que não está comigo está contra mim. É o caso de dizer que ela está presa ao mundo da metonímia?

Já o mundo do professor é o da metáfora transformada em modo de vida. O professor, como bom intelectual, de tudo duvida, a tudo critica, a tudo analisa. Nada é o que parece, pois é sempre possível acrescentar um ponto de interrogação a qualquer proposição que seja. Nem que seja por mero exercício, para não perder a forma. Com isso, o professor garante que o cogito jamais se transforme num credo, supremo pecado do intelectual. Ele duvida até mesmo da legitimidade da instituição que o sustenta, e por meio da qual pretende até comprar uma casa – o supremo bem concreto (nada metafórico, sem nenhuma dúvida…) da existência humana. E ele não lamenta tal contradição: é desse tipo de contradição que ele, afinal, vive. O professor vive num mundo onde a onipotência da certeza foi substituída pela onipotência da dúvida: se ele pode duvidar de tudo, nada fica fora do seu alcance, e por isso ele fica tranqüilo: Não por haver renunciado à onipotência da criança, mas por haver trocado a onipotência infantil por outra, bem mais "adulta"...

Esta é a razão pela qual ele não pode prestar atenção (embora o perceba) no mudo desespero de sua aluna: Não que ele não o veja realmente, mas ele não pode enxergá-lo tal como é – uma emoção. Ele deve lidar com esse desespero pela via "correta" – a via intelectual. A moça vive uma terrível incerteza, uma incerteza radical e absoluta, fruto de sua estrutura emocional infantil: ela sequer acredita na própria capacidade de continuar viva. Por isso lhe é tão importante passar nos exames, conseguir o diploma. Para ela, esta é a única garantia de sobrevivência no mundo hostil em que seu eu de criança se sente vivendo. À mortífera incerteza em que vive a moça, motivo de seu apego desesperado à certeza cognitiva, o professor pretende contrapor as maravilhas do raciocínio lógico não linear, isto é, ele lhe oferece ingressar no paraíso da dúvida (não exatamente do paradoxo, no sentido winnicottiano) e com isso resgatá-la do inferno do pensamento concreto, rígido, burro.

Mas ele não entende que o pensamento dela ali está como defesa contra um mortífero caos interior. Ele não quer tomar conhecimento desse caos, ele se aliena desse caos. Ele não reconhece que a moça não está apenas buscando boas explicações, e sim buscando eludir a morte. E é por não se ver atendida em seu apelo por ser salva da morte que a moça lança sobre o seu não-salvador acusações que chegam muito perto da tentativa de homicídio. Por fim, por se verem ambos arrastados inexoravelmente adiante em seus posicionamentos radicais e inflexíveis (sendo que a inflexibilidade da aluna é admissível, e o do professor não), acabam por instaurar o reino da morte ali onde antes existia o olimpo do pensamento puro e angelical.

A moça é uma histérica (embora num grau praticamente psicótico): para ela, tudo o que há de bom está fora dela, e dentro, o caos. E o professor é um obsessivo: tudo que há de ruim está dentro dele, e o que há de bom, ele obterá graças ao esforço, ao trabalho duro e obcecado. Para ela, a salvação virá de fora, ela nada pode encontrar dentro de si mesma. Para ele, não há na verdade salvação alguma, a não ser que seja feito tudo o que é preciso – e naturalmente nada há a encontrar dentro de si mesmo, a não ser a capacidade de cumprir o dever e agir do modo correto. Ela acredita que só um outro a poderá salvar, ele acredita que só o próprio indivíduo pode salvar a si mesmo. Ela é o que ele desesperadamente evita ser. Mas ela, por fim, vence: todo o mal que o professor luta por negar no interior de si mesmo explode por fim, e extravasa as suas possibilidades de controle quando a provocação alcança o nível suficientemente elevado. Nesse momento, o nobre herdeiro de Descartes se descobre o bárbaro assassino que ela o acusava de ser. E em seguida ele murmura, derrotado, num tom inteiramente pré-filosófico: "Meu Deus!..."

Uma outra boa perspectiva de entendimento do que se passa nas entrelinhas dessa incomunicabilidade entre professor e aluna é a que nos foi legada por Winnicott, com suas noções de verdadeiro e falso selves, espaço transicional, paradoxo, etc. Os dois personagens do filme são verdadeiramente antológicos, em se tratando de ilustrar por um "caso concreto" as proposições de Winnicott. Em termos de verdadeiro e falso selves, vemos aqui dois indivíduos, um apresentando um falso self muitíssimo bem constituído, e o outro portando um verdadeiro self visivelmente mal desenvolvido, infantil. A figura do professor é complexa: está ali o seu verdadeiro self, ele não é um ser frio e impessoal – como seria se o verdadeiro self estivesse inteiramente reprimido. No entanto, ele não usa o verdadeiro self para se comunicar, e por isso não pode se comunicar com o verdadeiro self da aluna. O falso self do professor é perfeitamente suficiente para que ele leve a sua vida da maneira que lhe apraz – pensando, raciocinando, decifrando enigmas, processando informações. Digamos que a pior coisa que se poderia dizer desse professor é que o sonho dele sobre o que gostaria de ser quando crescesse seria: Um grande e maravilhoso computador. A moça não tem tais pretensões. O que ela quer ser "quando crescer" é "Um ser vivo", pois sua própria sobrevivência não lhe parece nem um pouco garantida. O professor usa o seu intelecto como uma identidade, não como a ferramenta (mesmo que privilegiada) de uma pessoa inteira. Por isso ele não percebe o profundo desespero da aluna, que está enfrentando não uma simples reprovação num dado curso, mas o fracasso total de sua existência inteira, e portanto vê sua própria vida colocada em perigo. Ele não percebe a aluna como pessoa inteira, a não ser quando é tarde demais – e por isso não percebe que ela não é, ainda, uma pessoa inteira, percepção essa que o levaria a relacionar-se com ela de um modo inteiramente diferente – e que poderia salvá-la (e a ele) da desgraça em que acabam metidos.

Durante todo o desenrolar do dramático confronto, ele toma como seu interlocutor o pensamento da aluna, exclusivamente. Já a aluna, embora aparentemente esteja ali para interagir com o professor como o "sujeito suposto saber", como diria Lacan, busca visivelmente entrar em contato com a pessoa total do professor, com o ser humano que há por trás dos raciocínios. Ela freqüentemente observa os seus gestos, tenta ouvir suas conversas ao telefone, pois o que ela procura – mesmo que não saiba disso conscientemente – é o contato direto pessoa-pessoa. Os conhecimentos são, para ela, apenas a escada que a levará ao mundo dos vivos, onde, então sim, ela poderá conversar e discutir apenas idéias. Mas para chegar lá ela tem que se sentir viva por direito próprio, e isto ainda não está acontecendo. Ela depende. É um ser em busca de alguém de quem depender, e se o professor não o percebe, e não acolhe o seu desejo de dependência, ela depende de seu "grupo", um desses grupos de jovens desgarrados que, mal ou bem, funcionam como muletas existenciais uns para os outros.

A aluna procura, portanto, duas coisas: No nível manifesto, ela procura a aprovação no curso, ou as respostas que garantam a aprovação, pois assim ela poderá prosseguir em sua trajetória que consiste em continuar viva, à espera de uma oportunidade para colocar o seu self infantil e frágil nas mãos (ou no colo) de alguém que dele cuide até ele amadurecer. Só aí ela se tornará uma pessoa inteira. Por enquanto, o seu falso self também é frágil e periclitante, e ela não pode contar com ele a não ser para o desempenho de tarefas intelectuais simples. Por isso, ela odeia o fato de o professor obrigá-la a lidar com questões tão complexas, as quais ela não se sente preparada para enfrentar, e as quais ela não deseja enfrentar – são problemas de "adultos", e ela ainda não é um "adulto". E no nível mais subjacente, mas perfeitamente visível no filme, ela procura no professor exatamente essa pessoa em quem confiar, essa pessoa com cuja ajuda (emocional) ela poderá se salvar. Ela está em busca de um terapeuta, e se o professor não pode sê-lo – coisa que a ela agradaria visivelmente – que ele ao menos lhe permita prosseguir buscando. Mas ele não o percebe, e por isso, aquilo que poderia se tornar um maravilhoso encontro acaba em desastre.

O professor vive – porque aprendeu a fazê-lo – no espaço dito transicional. Nesse espaço – idêntico ao espaço do simbólico lacaniano, não há significados: Há significantes, e significações transitórias, possíveis, cambiáveis. É o espaço da fruição da beleza e da poesia, e também da percepção paradoxal de que estamos vivos, apesar de que nada o garanta. O professor vive nesse espaço porque seu falso self estruturou-se com base num verdadeiro self suficientemente desenvolvido, mas não desenvolvido o bastante para funcionar diretamente. Ele preserva o seu verdadeiro self ao máximo, esconde-o da realidade circundante, e o acalenta e alimenta cuidadosamente – desde que este não se manifeste abertamente – e estrague tudo. O professor é um quase adulto. Falta-lhe apenas legitimar essa última parte de sua realidade interna – o ser infantil que há nele também. Não, essa legitimação não se dá. Por isso, quando a moça diz: "Eu sou má", abrindo claramente a possibilidade de uma comunicação de outro nível, o professor o percebe, mas prefere atender o telefone que nesse momento toca: A razão chama...

Para a moça, não existe ainda um espaço transicional. Ela vive no aterrorizante espaço da falta concreta, da falta do outro, da falta de um continente que garanta a sua sobrevivência não só contra os perigos do mundo, mas também contra os seus terrores internos. Ela sabe que não é mais criança, mas ao mesmo tempo sabe que não é muito mais do que isso. Por esta razão, ela teme. E anseia. E o professor – pobre professor – o percebe, o percebe claramente, mas nada pode fazer – pois isso o levaria a expor o seu próprio verdadeiro self. Que, aliás, ele até reconhece, e cita, e fala sobre ele. Mas apenas isso: Fala sobre ele. Racionalmente. Para o professor, então, o espaço transicional é construído de pensamentos – suprema ironia, pois nada é mais transicional que o pensamento... Ele confunde a infinita impalpabilidade do espaço transicional com a infinita complexidade do pensamento. E por isso joga fora o essencial juntamente com o que é dispensável – como disse Winnicott mais de uma vez – joga fora o bebê junto com a água do banho…

O filme trata não exatamente da derrota da razão, mas da derrota da razão cega, da razão onipotente, da razão arrogante. A aluna acusa o professor exatamente dessas três coisas, embora por motivos que não os verdadeiros: do ponto de vista dela, o professor não enxerga em momento algum a realidade de seus alunos, ambiciona devorar tudo que há de bom sozinho, e se relaciona com os demais com um desprezo condescendente, num paternalismo explícito que beira o racismo. Ela lhe lança essas três acusações com mortífera pontaria, embora em sua inadequação e confusão cognitiva as "provas dos crimes" por ela escolhidas sejam absolutamente insustentáveis.

Dizia Popper: Só é científico o pensamento que pode ser refutado. Na parte final do filme vemos o paroxismo dessa proposição, quando o professor é confrontado com uma enxurrada de acusações que, de tão absurdas, não podem sequer ser discutidas, quanto mais refutadas. A brilhante e sutil máquina de pensar enguiça. Ele fica mudo, paralisado de terror, o terror daquele que se vê ameaçado por uma fera num lugar absolutamente deserto e escuro. Pois a luz da razão lhe é roubada quando o pensamento selvagem da aluna o cobre de absurdos. A razão não opera em terreno pantanoso. Ela precisa do chão firme dos fatos e da lógica para funcionar. Sem tais pressupostos, o intelectual emburrece. E é nesse momento que o grande "criminoso" da história aparece: um amor secreto – inteiramente infantil – da aluna pelo professor, um amor tão violento e tão insensato, que ela tenta impedi-lo de chamar a esposa de "Baby". Nesse momento, e não em nenhum outro, o professor perde inteiramente o controle – e o animal (que carrega o intelectual nas costas) entra em ação.

É interessante, esse fato. Nem mesmo diante da acusação de haver tentado estuprar a aluna o professor reage com suas entranhas: sua razão não funciona mais, mas ele fica ali, imóvel. Seu espírito não consegue mais pensar, mas seu corpo ainda assim permanece à margem dos acontecimentos. No entanto, quando o comentário desastrado da moça sobre o "baby" dirigido à esposa o obriga a perceber não mais o pensamento atrapalhado da moça, mas o seu desejo, e melhor dizendo, o seu ciúme, ou melhor dizendo, a sua inveja, nesse momento o professor "quebra" – e o homem de carne e sangue entra em selvagem e brutal ação.

Dir-se-á: Por que justo nesse momento, e em nenhum outro? Ora, porque até então o intelectual evitava olhar para o lado das emoções, dos desejos. Iludia-se com a idéia de que se tratava apenas de idéias, embora equivocadas. Até então, era fácil cegar-se para o desejo – mesmo que não para o mérito, ou demérito – da moça de ser aprovada no curso. Até então era fácil cegar-se para o ódio da moça, que transparecia inteiro por trás das acusações insensatas, e tratar as acusações apenas como isso mesmo, um monte de insensatez. Até então era fácil cegar-se para o desejo imenso da moça de se comunicar – comunicar-se num nível mais profundo, mais elementar que o das idéias e do pensamento. A este desejo chamou Freud de "amor de transferência", e é pena que o professor tenha lido tudo, menos Freud.

A aluna – ser frágil, incompleto, precisando desesperadamente de proteção – vê no professor um adulto capaz de salvá-la, capaz de ajudá-la a sobreviver e a tornar-se uma pessoa por direito próprio. Ela precisa intensamente de uma pessoa assim, e no professor ela enxerga alguém capaz de desempenhar esse papel. É ela que se sente um "baby", um bebê desamparado, e por isso quer ser o "baby" do professor. Obviamente, não caberia ao professor assumir essa tarefa. Ele não está preparado, e não pode mudar de função de um momento para o outro. Ele jamais poderia encarregar-se de realizar o desejo da aluna – e a idéia de que ele o tentasse poderia fornecer ao autor o roteiro para um outro filme (uma outra tragédia, na verdade.) Mas ao menos ele deveria saber que existe quem pode ajudar a moça – e não são os Estados Unidos da atualidade o país mais carente do mundo em termos de atendimento psicológico. Esta é a razão pela qual é possível dizer que o professor comete uma falha fatal – ao se comportar como se esse tipo de coisa não existisse. E esse é o verdadeiro estopim oculto que detona a bomba ao final do filme.

Num outro ângulo de visão, é possível dizer que o professor "vira bicho" – deixa de se comportar como um ser humano racional e inteligente – no momento em que, com o seu comentário sobre o "baby", a aluna rompe o perímetro do relacionamento profissional e invade o terreno da sua vida pessoal. Até então, ela era aluna, ele era professor. Agora ela é uma pessoa, e ele também: marido, um homem casado, um ser de carne e osso, não mais (apenas) um funcionário da Universidade cumprindo o seu dever profissional. É possível dizer – e os usos e costumes americanos autorizam tal análise – que no momento em que a aluna cometeu o supremo sacrilégio de tratar o professor como se ele fosse apenas gente – uma pessoa real, um "igual" – ele perde inteiramente as estribeiras, seu sistema de referências desaba, e ele parte para uma reação física, violenta, puramente animal.

Mas é possível dizer mais sobre este aspecto da história. É possível dizer, por exemplo, que o professor escondeu o seu ser infantil sob uma muralha de raciocínios. Ele se tornou "inteligente" – de acordo com a cobrança dos pais – "Como pode um menino inteligente como você se comportar de um modo tão estúpido?" (Qualquer semelhança com Zelig fica por conta da sensibilidade do percebedor…) Para defender-se da escandalosa – mas tão comum – insensibilidade dos pais, ele guardou o seu ser-criança numa fortaleza murada pelo mais sólido intelecto. Ele construiu um falso self sólido, de excelente desempenho, mas que ao mesmo tempo o faz impermeável – tanto de fora para dentro, quanto de dentro para fora. O verdadeiro self do professor existe, e está vivo e bem, mas vive apenas nos bastidores. Não se conecta com o exterior, e pela mesma razão o mundo exterior não se conecta com ele. (Não confundir este comentário com a questão do "núcleo do verdadeiro self", aquela parte incomunicável.) O seu relacionamento com a esposa o mostra com bastante clareza: A esposa, sempre do outro lado do telefone, dá a impressão de ser um tanto infantil, e o professor se relaciona com ela com a paciência suspirante do adulto que tolera uma criança. Ela parece (do outro lado da linha) uma chata, mas ele dá a impressão de tolerá-la bastante bem – afinal, ele é um adulto, e por isso pode, e deve, tratá-la como criança. Pode tolerar o fato de ela ser uma criança, e até faz sentido que ela o seja – assim ele pode melhor desempenhar o seu papel de adulto. Assim ele pode esconder a sua própria criança, e delegar à mulher o desempenho dessa função. A bomba explode quando a aluna interfere precisamente com este aspecto de sua vida – seu relacionamento adulto-criança com a mulher. Não é o "baby" que detona a bomba, mas o fato de que a aluna detectou – com seu faro de animal acuado – o "lado criança" do professor: a sua esposa. Nesse momento, em que a aluna denuncia, com seu "Não a chame de baby", a divisão interna na personalidade do professor, ele quebra. Sua fortaleza explode. Sua ideologia de vida é reduzida a farrapos. Seu falso self tão bem construído desaba – e ele vira um animal como todo o mundo, e como ele sempre fez o possível para evitar. Foi por esconder o animal dentro de si – a criança – que ele se cegou para a realidade não-verbal, não intelectual, não cognitiva – da aluna. Foi por investir tudo no pensar – ao fim e ao cabo, um fazer, quando desvinculado do ser – que ele se cegou para o ser.

Por essa cegueira, por essa negação obstinada da carne e do sangue, por sua insensata ideologia de que as relações entre professor e aluno – entre pessoas – podiam se passar exclusivamente no plano das idéias, como se houvesse ali apenas dois espíritos pairando no ar, é por tudo isso que o professor acaba pagando. A infantilidade selvagem e desarticulada da aluna (in-fans, lembremo-nos, é "aquele que não fala") é mais forte que a sofisticação sutilíssima do professor. O corpo mudo é mais forte que a alma articulada, quando a alma nega a existência do corpo. O verdadeiro self é mais poderoso que o falso, quando os dois entram em confronto direto. E o desejo (a emoção) é mais forte que o pensamento, quando o pensamento esquece que nasceu no útero do desejo, e do seu sangue foi alimentado. Por renegar suas raízes terrenas, infantis, o maravilhoso pensamento do professor é engolido pelo vulcão estúpido mas indomável da aluna. E, devemos concluir, BEM FEITO.

Eu diria que o filme questiona não só as relações entre professor e aluno, quando aquele se finca na cega negação do que não é racional e adulto, mas também os pressupostos fundamentais do processo educacional. Uma educação baseada na idéia de que não há mais que conhecimentos, de que o homem pode ser reduzido ao cogito, é uma educação não apenas fadada ao fracasso, e por isso mesmo destinada a suscitar a violência, a violência incontrolável do sum quando este último, desesperado por não possuir as ferramentas adequadas do agir para preservar a sua continuidade, age por puro instinto.

Mas mesmo isto ainda não é suficiente, e é necessário dizer mais. Por tudo o que vemos ali, trata-se de um filme sobre a tragédia de toda a civilização ocidental. Em outras palavras, o filme questiona o modo de produção de existências e de relacionamentos na civilização ocidental. E não há dúvida: quanto mais arrogantemente essa civilização se encastela nas fortalezas da razão, quanto mais violentamente ela pisoteia o verdadeiro self para melhor construir o falso self da razão "pura", mais violentamente ela será sacudida pelos telúricos movimentos dos que, por não possuírem razão, forem por ela despossuídos de tudo o mais. Toda a civilização ocidental se comporta como o professor do filme: Não existe mais que o conhecimento, e a capacidade de processá-lo de modo inteligente e racional. É perfeitamente possível alcançar o conhecimento, diz a civilização ocidental (e também o professor), e é perfeitamente possível processá-lo de modo racional e inteligente. Portanto, quem não usa a cabeça, não tem outra chance na vida. Por extensão, quem não trabalha "corre-tamente" no que é "importante", não merece compaixão. E isto significa: quem não consegue um bom emprego ou uma boa profissão – graças ao falso self, que seja, já que este pode funcionar muito bem mesmo contra o verdadeiro – até enguiçar, está condenado.

O próprio professor, muito inteligentemente, sabe que que estas "máximas" não são tão simples e unívocas, de modo que ele próprio as põe em questão. Mas não em termos do valor da inteligência e da razão, isto nunca. Ele duvida apenas da necessidade de um estudo na universidade – a instituição em que a razão alcança seu o nível máximo – para garantir a sobrevivência na sociedade. Ele duvida das instituições instituídas para gerenciar essa razão. Ou seja, o professor é tão racional, que lhe é fácil perceber inclusive os limites da razão – e as falácias que se constroem em nome dela. No entanto, ele não suporta reconhecer que o ser humano seja intrinsecamente constituído por algo mais que a razão, e por este motivo fica preso à armadilha que ele bem percebe, mas não tem meios para desmontar.

O embate entre a aluna e o professor é paradigmático, a meu ver. Ele simboliza toda uma (nem sempre) surda luta que se vem travando na sociedade maior, entre aqueles que, por terem as mínimas condições emocionais para fazê-lo, aderem provisoriamente às regras do jogo racional e, para além de qualquer consideração de ordem emocional ou existencial, trabalham no que podem; quando sobra algum tempo, às vezes até experimentam ser – e aqueles que suportam essa vida severina dos "peões do intelecto" – balconistas, funcionários, bancários, amanuenses em geral, operários (cada vez menos "braçais"), etc. (E lembrar que foi desse segmento que saiu a tropa de choque de Hitler...) Eles vivem e funcionam, desde que o ser não interfira com o fazer, desde que a psicologia não interfira com a economia. Esta é a lei máxima da nossa sociedade produtora de bens – e destruidora de pessoas. Talvez Marx tivesse mais razão se houvesse estabelecido uma aliança com Freud, em vez de (não sei se ele próprio, mas seus herdeiros com certeza) declarar a psicologia um ramo da decadência burguesa. O gigante marxista também procurou gerir-se pela razão, apenas pela razão, e por fim o "irracional" – a individualidade, a diferença, a desigualdade – rompeu-o em pedaços.

Não existe empreendimento humano mais racional na Terra que o kibutz, a forma de vida perfeitamente igualitária fundada e mantida em Israel. No entanto, hoje em dia o kibutz é quase peça de museu, não por não mais funcionar, mas porque parou de crescer já há mais de trinta anos. E nunca foi escolhido, como forma de vida, por mais que cinco por cento da população israelense. Repetindo, o embate entre a aluna e o professor, no filme "Oleanna", é paradigmático. Ele mostra o quão inteligente e forte pode ser o verdadeiro self i-racional, e o quão cega e incompetente pode ser a racionalidade, quando sua infra-estrutura é o falso self e não o verdadeiro.

O mundo caminha, ao que tudo indica, para um teste decisivo no qual essa razão burra será confrontada com a violência do desejo i-racional. O fundamentalismo que se alastra como furacão pelo planeta não representa outra coisa. A violência urbana – selvagem e impiedosa – também não. São manifestações, ainda que patológicas, do verdadeiro self primitivo e mal articulado. Em vez de ajudá-lo a crescer, como deveria ter feito o professor no filme, (nem que fosse encaminhando a aluna para uma terapia confiável), os "inteligentes" se limitam a esmagá-lo com violência crescente sob catadupas cada vez maiores de "razão". Em breve veremos se os "inteligentes" conseguirão controlar os desesperados. E não tarda muito o confronto, por tudo que se tem visto até aqui.

Publicado em 01/01/2000


Davy Litman Bogomoletz - Psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro-Tradutor para a Imago Editora dos títulos: Natureza Humana D.W.Winnicott O Filho Ilegítimo Gérard Haddad Freud - Um Judeu sem Deus Peter Gay

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