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SAÚDE DO TRABALHADOR E PROFISSÃO DOCENTE

Flavia Luiza Nogueira Santos

‘Falsas’ são aquelas [necessidades] superimpostas ao indivíduo por interesses sociais particulares (...): as necessidades que perpetuam a labuta, a agressividade, a miséria e a injustiça. (...) A maioria das necessidades comuns de descansar, distrair-se, comportar-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam, pertence a essa categoria de falsas necessidades. (Marcuse, 1969, p.26)

Uma profunda transformação no papel do trabalho está em andamento. Esta mudança, que vem se intensificando a partir das três últimas décadas do Século XX, procura aumentar a utilidade e produtividade do trabalhador por um lado e, por outro, diminuir sua potência e sua energia políticas. O modo de produção capitalista e, em particular, sua variante flexível moderna se fundamenta no fato de que a um aumento da utilidade e da produtividade do corpo deve corresponder um aumento da docilidade e da obediência. Somando-se a isto, fatores sócio-políticos, avanços científicos e tecnológicos, ambientes altamente competitivos, instabilidade econômica, diminuição do valor intrínseco do trabalho dando lugar à busca de recompensa extrínseca, vem exercendo influência na sociedade e cenário profissional com conseqüências pessoais para os trabalhadores de diversas áreas.
Esta diminuição do valor intrínseco está na realidade associada ao processo de precarização do trabalho em curso, sobretudo a partir dos anos de 1970, no contexto das políticas de caráter neoliberal em que ocorrem movimentos de redução e perdas de direitos sociais e trabalhistas conquistados à época do estabelecimento do Welfare State. Por outro lado, em decorrência de mudanças nas bases físicas e organizacionais do processo de trabalho, ocorre também um movimento de mudanças na composição qualitativa e quantitativa da força de trabalho, caracterizado por uma crescente tendência à diversificação, heterogeneização e complexificação da classe trabalhadora.
É importante destacar que este processo de mudanças, mesmo que de modo não uniforme e com deslocamentos temporais entre nações e continentes, veio se desenvolvendo ao longo do século XX, em particular a partir de sua segunda metade, à medida que a ciência e tecnologia foram se incorporando de modo intenso aos processos de trabalho, produzindo, em decorrência sensações de mal-estar de diversas ordem e natureza sobre o cotidiano das pessoas que trabalham. Nesse sentido, conforme destaca Trivinho,

Já nos anos 50 e 60, Marcuse discorria sobre o novo princípio de realidade da sociedade tecnológica, o princípio do desempenho, que exigia dos indivíduos uma repressão adicional da satisfação da libido em prol de um dispêndio maior de investimentos sublimado tanto na esfera da produção, marcada pela instabilidade e norteada por valores de competição extrema, quanto na esfera do tempo livre, articulada igualmente por todos os vetores que organizam o universo da produtividade (Trivinho, 2001, p 105).

Prosseguindo no seu raciocínio, Trivinho observa que esta tendência ao longo dos anos, acentou-se, no sentido do pior, caracterizando-se, na atualidade, pela predominância de estruturas mentais, libidinais e corporais submetidas ao fardo das tensões diárias, resultantes do agravamento das sobrecargas de pressões (tanto mais endógenas, quanto exógenas) em função das necessidades de todo tipo de cuidado ou alerta, formal ou informal, relacionado à esfera do trabalho, ao espaço doméstico e ao que vigora nas ruas. (TRIVINHO,2001,p.106)
 
Atualmente, observa-se um crescimento constante por questões relacionadas a ligação entre trabalho, saúde e doença mental, fato este relacionado com o aumento de transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho, indicados em pesquisas. Transtornos mentais relacionados ao trabalho são a terceira causa de afastamento do trabalho, concessão de auxílio previdenciário e aposentadoria por invalidez nos trabalhadores formais brasileiros.
O mal estar relacionado ao trabalho pode estar ligado a condições externas, como economia, medo de perder o emprego, falta de recursos materiais e condições de trabalho ou de exigências culturais de sucesso profissional. Porém os aspectos mais importantes do stress ocupacional são a insatisfação profissional e dificuldade de relacionamento interpessoal.
Freud (1974) deu ênfase a expressão “mal-estar” na sua obra “ O mal-estar na civilização” e nos incita a reflexão, conforme destacado  nas linhas que se seguem, em que fala da sua investigação sobre felicidade e indica as possíveis causas do sofrimento humano:
“... três fontes de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. Quanto às duas primeiras fontes, nosso julgamento não pode hesitar muito. Ele nos força a reconhecer essas fontes de sofrimento e a nos submeter ao inevitável. Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e realização. Esse reconhecimento não possui um efeito paralisador. Pelo contrário, aponta a direção para a nossa atividade. Se não podemos afastar todo sofrimento, podemos afastar um pouco dele e mitigar outro tanto: a experiência de muitos milhares de anos nos convenceu disso. Quanto à terceira fonte, a fonte social de sofrimento, nossa atitude é diferente. Não a admitimos de modo algum; não podemos perceber por que os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam, ao contrário, proteção e benefício para cada um de nós. Contudo, quando consideramos o quanto fomos mal sucedidos exatamente nesse campo de prevenção do sofrimento, surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer, por trás desse fato, uma parcela de natureza inconquistável — dessa vez, uma parcela de nossa própria constituição psíquica. Quando começamos a considerar essa possibilidade, deparamo-nos com um argumento tão espantoso, que temos de nos demorar nele. Esse argumento sustenta que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas. Chamo esse argumento de espantoso porque, seja qual for a maneira por que possamos definir o conceito de civilização, constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização.

Com o advento do capitalismo, ocorre a socialização do corpo como força de produção, passando a ser visto como força de trabalho, como mercadoria a ser consumida, derivando daí as interpretações que relacionam o consumo da força de trabalho ao processo saúde-doença do trabalho.
A palavra trabalho vem do latim “tripalium”, referindo-se a um instrumento de tortura para punições dos indivíduos que eram submetidos ao trabalho forçado quando perdiam o direito à liberdade. Podemos verificar em outras línguas que a palavra trabalho pode expressar fadiga, tortura física e intelectual, ganhos e reconhecimentos. Nesse sentido, o trabalho poderia ser visto como castigo, entretanto, valores culturais passaram a estruturar um sentido pessoal e único que se situa entre a obrigação e o prazer de trabalhar. Percebe-se o homem moderno definindo-se pela sua profissão e encontrando dificuldade em dar sentido à vida se não for pelo trabalho, o que passa a ter significado de razão e necessidade de vida.
Além do caráter da sobrevivência, é pelo e no trabalho que o homem é valorizado e sente-se útil à sociedade, que por fim o valoriza (ou pelo menos deveria valorizar). Na medida em que o homem busca suprir as necessidades de sua existência, mediante o ato social e coletivo do trabalho, transforma a natureza, a si mesmo e a sociedade em que vive, pois há uma intencionalidade nesta ação, que faz do homem um ser criativo que por meio desta ação procura satisfazer seus desejos subjetivos. Isto posto, podemos acreditar no trabalho como fator necessário para a sociedade e indispensável ao ser humano.
No entanto, sob a hegemonia do modo capitalista de produção o trabalho assume uma característica específica e a capacidade de trabalhar, como condição ontológica, é reduzida à condição de força de trabalho, uma mercadoria, como as demais, dotada de valor de troca.
A valorização/mercadorização do corpo como instrumento/força de trabalho estabelecida no contexto histórico das relações dominador e dominado típicas do capitalismo, mantém as pessoas ansiosas e pressionadas, sendo que nesse processo, o homem moderno está sendo acometido de diversos distúrbios comportamentais e psicossomáticos, sendo que o principal deles, o estresse que é gerado muitas vezes pela insegurança social e profissional.
Nesse sentido, o trabalho passa a ser encarado como um dos determinantes do psiquismo humano e do prazer ou sofrimento.
A respeito do sofrimento, Freud (1974) tece seu comentário:

O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens (grifo nosso). O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.

 Extrapolando sua análise a todo o campo das relações sociais, vale dizer culturais, Trivinho, recorrendo a Baudrillard, observa que o processo de mudanças na contemporaneidade assume “a forma de um mais-mal-estar, portanto, de um mais-mal-ser, cuja reversibilidade anômala recai, de forma daninha, virulenta, sobre as bases da alegria do viver, comprometendo-a na mesma proporção em que entrega o ser à hipertelia. (Trivinho, 2001).
No início dos anos 80, ao enfocar a psicopatologia do trabalho, DEJOURS, traz o tema posicionando-o na própria dinâmica em que se insere a organização do trabalho. Para DEJOURS, o sofrimento mental resulta da organização do trabalho sob o modo de produção capitalista, designado por divisão e conteúdo da tarefa, relações de poder e responsabilidade. DEJOURS propõe que os trabalhadores elaboram defesas individuais e coletivas contra o sofrimento, ocultando-o; para conhecê-lo, é necessário conhecer essas defesas. Ainda segundo DEJOURS, uma das descobertas mais surpreendentes da Psicologia do Trabalho é a existência da construção coletiva de sistemas defensivos, que possuem mecanismos diversos em cada determinada coletividade, desse modo, o indivíduo exposto ao sofrimento também pode se tornar criativo, e através de uma inteligência astuciosa subverter ou transgredir a prescrição da organização do trabalho. A respeito da fadiga - tanto mental quanto física - seu acúmulo gera um estado chamado ‘fadiga crônica’ ou patológica, cujos sintomas, incluem distúrbios do sono, irritabilidade e desânimo. Outro tipo de dano possível ao trabalhador é o desgaste da identidade, atingindo seus valores e crenças e afetando a sua dignidade.
 Segundo DEJOURS, a organização do trabalho é potencialmente patogênica, porém este autor pode constatar em suas pesquisas que existem trabalhadores que conseguem reduzir/evitar o sofrimento no trabalho: “o reconhecimento de certo sofrimento não é incompatível com um prazer obtido na relação com o trabalho. Prazer e sofrimento podem resultar de lógicas relativamente independentes” (DEJOURS,1994).
Este autor afirma que executar uma tarefa sem envolvimento material ou afetivo exige esforço de vontade que em outras circunstâncias é suportado pelo jogo da motivação e do desejo.
Distinguindo os dois tipos de sofrimento, DEJOURS nos fala do sofrimento criador e do sofrimento patogênico, sedo que o último surge quando todas as possibilidades de transformação, aperfeiçoamento e gestão da forma de organizar o trabalho já foram tentadas quando somente pressões fixas, rígidas repetitivas e frustrantes configuram uma sensação generalizada de incapacidade. Como válvula de escape, este sofrimento pode utilizar-se da descarga da energia pulsional, permitindo assim o equilíbrio do aparato psíquico.
Corroborando com o exposto acima, CODO, SAMPAIO e HITOMI (1993), afirmam que a organização do trabalho exerce, sobre o homem, uma ação específica, cujo impacto se dá no aparelho psíquico. Em certas condições, emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual e uma organização do trabalho que os ignora. Esse sofrimento, de natureza mental, começa quando o homem, no trabalho, já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme as suas necessidades fisiológicas e a seus desejos psicológicos, isto é, quando a relação homem-trabalho é bloqueada. Ainda conforme CODO, SAMPAIO e HITOMI (1995), do choque entre um indivíduo, dotado de uma história personalizada e a organização do trabalho, portadora de uma injunção despersonalizante, emergem uma vivência e um sofrimento que determinarão a saúde na organização e seu funcionamento.
CODO (1993), analisando a questão do trabalho, coloca que: "quando trabalhamos em condições gratificantes, gostamos do produto realizado, alguns até se apaixonam por eles, como os escritores, por exemplo, mas quando trabalhamos subjugados, imprimimos raiva ao produto". A relação do homem com a organização do trabalho é origem da carga psíquica do trabalho.
Todo relacionamento é permeado por histórias individuais e sociais dos envolvidos, o que determina a estrutura do relacionamento da pessoa consigo, com o outro, com seu trabalho e com o meio. Podemos assim dizer que o mal estar psíquico envolve condicionantes individuais e determinantes sociais.
Do trabalhador atual, exigi-se a capacidade para mudar do “saber fazer” para o "saber fazer, saber ser e saber pensar”. De acordo com o DELORS, a educação necessária ao século que se inicia poderia ser sintetizada em um de seus parágrafos:
Para poder dar respostas ao conjunto de suas missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta. (DRJ).

A esse respeito, SENNETT (2004) tece seu comentário sobre a flexibilidade do capitalismo atual, e nos fala sobre a dificuldade de definição das qualificações necessárias para uma função. O desenvolvimento acelerado da tecnologia e as constantes inovações no setor de maquinários industriais, somados a uma informática de fácil acesso e utilização, removeu aos poucos a necessidade do conhecimento de “como fazer”, característico do produtor artesanal. E isso serve perfeitamente ao capitalismo flexível: possibilita a mão-de-obra a um custo extremamente mais baixo e funcionários facilmente substituíveis. Um outro tipo de ilegibilidade diz respeito às próprias pessoas: sua compreensão a respeito do trabalho que desempenham é fraca, inconsistente; as pessoas perdem, também, identificação com seus cargos.
A saúde mental relacionada ao trabalho tem sido investigada sobre variadas denominações: estresse laboral, tensão decorrente da vida laboral, fadiga mental, fadiga psicológica, síndrome neurótica do trabalho, neurose do trabalho, burnout. Abordaremos neste trabalho o Burnout, síndrome que acomete os chamados “care givers” ou “doadores de cuidado”, profissionais que têm atenção particular de ajuda com seus clientes e que tem sido vista como uma síndrome da desistência do educador (CODO, 1999). Tomando por base alguns autores que tratam a respeito das conseqüências pessoais do trabalho, procuraremos entender as relações entre trabalho e saúde mental.  O levantamento teórico nos demonstra que existem três modelos teóricos em saúde mental e trabalho: teorias sobre estresse, a psicodinâmica do trabalho e o conceito de desgaste mental.

Publicado em 27/09/2006


Flavia Luiza Nogueira Santos - Licenciada em enfermagem e obstetrícia, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – PPGTE/UTFPR.

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