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FAMÍLIA GRUPO SISTEMICO EM RISCO - O PROFESSOR COMO AGENTE DE INTERVENÇÃO PODE MUDAR ESSA REALIDADE?

Sônia Ferreira Lima Salgado

RESUMO
Este artigo é parte de uma reflexão do processo de alfabetização infantil, no século XXI, a partir de estudos de pesquisa feita por Emilia Ferreiro e Ana Taberosky, com crianças na Argentina na década de 70, de onde o resultado possibilitou novas intervenções nas práticas de ensino. No momento em que um novo olhar reconhece a criança como um sujeito pensante e tendo contato alfabético antes de entrar na escola, nasce a questão do que esta faltando neste processo para que as crianças possam ter melhor aproveitamento em sala de aula e como o professor pode contribuir com intervenções e práticas que possibilitem um resultado mais adequado, diante a ausência da família que acaba gerando carência e conseqüentemente dificuldades no processo de ensino aprendizagem.

Palavras chaves: alfabetização, carência, família, professor e intervenção.

Refletir sobre o processo de alfabetização infantil é sempre muito enriquecedor, porque traz à tona a possibilidade de análise das bases que o regem, bem como novos olhares, que direcionam novas estratégias para uma reconstrução das práticas de ensino.
Na década de 70, o trabalho de pesquisa realizado por Emilia Ferreiro e Ana Taberosky, com crianças de 4 a 6 anos na Argentina, revolucionou o processo de alfabetização de toda América Latina, onde o professor passou a exercer o papel de mediador na construção do saber  da criança.
Conforme demonstra os estudos, a criança é um ser pensante e tem contato com a leitura muito antes de chegar na escola. Essa criança já traz uma bagagem considerada importante no contexto de sua educação escolar, advinda dos meios sociais e de comunicação de massa, como jornais e revistas entre outros.
Contextualizar essa realidade da criança no seu processo de sociabilização tem sido o grande desafio do professor a partir de então. Este desafio traz ao professor a necessidade de rever suas praticas de ensino, e seu papel de protagonista social do saber. O professor torna-se assim, além do detentor do saber, o principal agente, de intervenção, que facilitará ao seu aluno a liberdade de expressão sem pré-julgamentos, com o principal intuito de entender o conteúdo trazido pelo aluno, à visão de mundo dele, à maneira como ele elabora textos escritos.
A sociabilização somente acontece, quando existe um relacionamento entre pessoas, que neste caso é focado no professor e o aluno e que se edifica através das linguagens. É através da troca de experiências que o conhecimento é alicerçado.
Partindo do princípio de que a criança tem autonomia de pensamento, ensinar sem contextualizar perde o sentido, o bê a bá sozinho não tem significado.
“As crianças não aprendem simplesmente porque vêem os outros ler e escrever e sim porque tentam compreender que classe de atividade é essa.
As crianças  não aprendem simplesmente porque vêem letras escritas e sim porque se propõem a compreender porque essas marcas gráficas são diferentes de outras.
As crianças não aprendem apenas por terem lápis e papel à disposição, e sim porque buscam compreender o que é que se pode obter com esses instrumentos. Em resumo: não aprendem simplesmente porque vêem e escutam, e sim porque elaboram o que recebem, porque trabalham cognitivamente com o que o meio lhe oferece.”
(Emília Ferreiro, in como se aprende a ler e a escrever ou Prontidão – um problema mal colocado, de Telma Weisz)
É necessário que o professor entenda como a criança lida com a leitura e a escrita, identificando então os caminhos que favoreceram a mediação no processo de ensinar para que esta criança tome posse de seu saber.
Ferreiro e Taberosky utilizaram como agente facilitador princípios como: não identificar leitura como decifrado, não identificar a escrita como cópia de um modelo e não identificar progresso na conceitualização com avanços no decifrado ou na exatidão da cópia, levando em consideração as influências sociais e metodológicas.

Além disso, elas levantaram hipóteses que, fundamentaram a estruturação da Psicogênese da Língua Escrita, onde a nivelação do processo da aprendizagem ficou assim estabelecida:
a) Nível 1:  Hipótese pré-silábica
Neste nível a criança costuma trazer na escrita reprodução de traços, que identifica como sendo forma básica de escrita.
b) Nível 2:  Intermediário I
Neste nível a criança traz um grafismo que é mais definido, ou seja, aproxima-se mais das letras, nesta fase tem-se uma leitura de maiores significados.
c) Nível 3: Hipótese silábica
Neste nível a criança já dá um valor sonoro a cada letra que compõem uma escrita, a evolução está presente, sendo que cada letra é igual a uma sílaba.
d) Nível 4: Hipótese silábica alfabética ou Intermediário II
Neste nível é de suma importância a interpretação do professor, por que a criança deixa a fase da hipótese silábica e descobre a necessidade de ampliar sua análise que passa a ser diante a quantidade mínima de grafia.
e) Nível 5: Hipótese alfabética
Este nível dá a criança à compreensão de que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores sonoros menores que a sílaba e realiza sistematicamente uma análise sonora dos fonemas das palavras que vai escrever.     

Diante desse desafio, o professor passa a não somente professar seus conhecimentos, ele parte para um jogo dual, onde o relacionamento entre ele e seu aluno interagem com o objeto de estudo em um rico processo de conhecimento e reconhecimento,  a partir do conteúdo aprendido através  do meio social da  criança e o conhecimento metodológico e didática do seu professor mediador.
É a partir do lúdico que a criança é conduzida pelo seu professor a se apropriar da aprendizagem interagindo diretamente com o objeto de estudo que é a própria escrita.
Olhando para o processo de estruturação da família e o aprendizado da criança diante de seu processo de alfabetização, temos a certeza de que os experimentos e as pesquisas realizadas na área estão cada dia mais voltada para a questão de dar liberdade à criança, a fim de que ela através da autonomia de pensamento tenha condições de externar seus conhecimentos e habilidades. No entanto, não podemos deixar de ressaltar que para a criança se sentir segura e amparada, nesta fase de suas vidas, elas precisam do apoio da família, na questão do acompanhamento e na cumplicidade  do desenvolvimento das atividades aprendidas  extra-classe e principalmente no apóio psicológico diante de  suas dificuldades.
Por isso, não podemos deixar de entrar no mérito da questão da inter-relação família e escola para que as crianças não venham ter prejuízos no seu processo de alfabetização.
Século XXI temos na grande maioria famílias em condições sociais de grande vulnerabilidade social diante à pobreza, circunstância como pais com papeis trocados por falta de emprego, mães e pais assumindo os dois papeis pela ausência  de um dos sujeitos, que por motivos como: não existência, morte, prisão, entre outros, assim ficando responsável pela educação das crianças avós, filhos mais velhos, vizinhos e creches.
Estas famílias acabam tendo como provedor dos sustentos a mãe ou o pai, que sem ter mais a quem recorrer delega à escola, a responsabilidade de dar sustentação à educação moral dos princípios e valores que deveriam ser aprendidos em casa.
De acordo com os estudos de natureza do vínculo, a criança precisa do cuidado especial na sua primeira infância, a criança tem que ter estímulos para ativar os sistemas já predispostos em seu organismo, que vão aprimorar seus padrões motores auditivo, gustativos, visuais, olfativos e táteis, além de criar o vínculo da afetividade e da confiança, é neste processo que a criança se prepara para interagir com segurança fora do cerco familiar.
“Numa criança, o complexo de sistemas comportamentais mediadores do apego torna-se o que é porque no ambiente familiar comum em que a grande maioria das crianças é criada, esses sistemas evoluem e se desenvolvem  de um certo modo relativamente estáveis...Desses derivam todos os sistemas altamente discriminatórios e refinados que ao longo da infância – na verdade, pelo resto  da vida – serão mediadores do apego com determinadas figuras”.(Bowlby, p. 329 e 330, 2002)
É importante ficar registrado que situação como a descrita acima não é generalizada, existem também pais ausentes por opção de trabalho liberal, que financeiramente encontra-se em condição privilegiada e que delega seus filhos a terceiros, sendo que essas crianças também apresentam dificuldades no processo de aprendizagem.
Por isso é importante que numa reflexão sobre os caminhos que deverão ser trilhados para a educação no século XXI, seja considerado e avaliado como o papel da família é importante e necessário para que as metas de alfabetização das crianças, e conseqüentemente adultos alfabetizados estejam verdadeiramente interagindo de acordo como os princípios e fins da educação nacional, que reza  no Art. 2º da Lei nº 9.394 de 20 de Dezembro de 1996, onde as diretrizes e bases da educação nacional estabelece o seguinte:
“A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos idéias de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
No momento que temos o papel do Estado suprido em consonância com o que determina a Lei, encontramos deficiência no papel dos pais através das ausências.
É preocupante quando em encontros denominados “reunião de pais e mestres”, a presença de pais é inexpressiva, a grande maioria justifica a ausência por falta de tempo, porque normalmente não podem deixar de comparecer no trabalho não delegando a responsabilidade para ninguém, esta ausência é principalmente sentida pela criança, que fica com o vazio do cuidado, refletindo diretamente no resultado de seu aproveitamento diante as atividades desenvolvidas.
Como citado anteriormente, a criança é um ser pensante e atuante e sente sim essa ausência de cuidado, e muitas vezes suas dificuldades no processo de aprendizagem estão diretamente ligadas a este “esquecimento”, e para chamar a atenção ela se rebela e muitas vezes é rotulada como indisciplinada.
O que fazer diante dessa situação de reestruturação da família, para que a criança não fique em contexto de risco diante ao seu desenvolvimento sócio-intelectual?
Penso que em eventos como simpósios e seminários temos oportunidades de discussões a partir de vivência do dia-a-dia das escolas em salas de aula, para trocarmos experiências de como Professores/Educadores podem como agente de intervenção lidar no cenário de carência emocional das crianças, colaborando para que esta criança sujeito pensante possa participar diretamente do seu processo de alfabetização sem o ônus do prejuízo da ausência familiar.
Penso ainda, que as estratégias advindas dos anos 70 com a reformulação da visão metodológica do processo de alfabetização, precisa hoje ser incrementada com práticas concretas que possibilitem uma interação entre escola e família que gere segurança para a criança que é o ator principal dentro do contexto social da educação.

Bibliografia
BOWLBY,J. Apego a natureza do vínculo. Martins Fontes, 2002.
FERREIRO, E. e TABEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Artmed. Porto Alegre, 1999.
RUSSO, M. de F. e VIAN, M. I.A. Alfabetização um processo em construção. Saraiva, 1999.
Lei de diretrizes e bases da educação nacional. Ed. Brasil, 1998.

Publicado em 27/11/2007


Sônia Ferreira Lima Salgado - Instituto de Psicopedagogia da Universidade de Santo Amaro, Mestranda do Curso de Psicopedagogia - Orientanda da Profa. Dra. Eliana Malanga

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