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A PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO DO EDUCADOR INFANTIL

Rita Melissa Lepre

RESUMO:
Neste breve artigo relataremos um extrato de uma pesquisa realizada com educadoras infantis que teve como tema as contribuições da Psicologia da Educação para sua formação. Por meio de um questionário aberto, que também pesquisou outros temas, abordamos a importância da disciplina Psicologia da Educação na formação das educadoras, assim como os conteúdos estudados e sua relação com os demais componentes curriculares. Encontramos que a disciplina Psicologia da Educação cursada por essas educadoras, nos cursos de Pedagogia, deu ênfase, senão exclusividade, à dimensão cognitiva do aluno em detrimento das dimensões afetivas e sociais.  Concluímos que seja qual for o paradigma orientador dessa disciplina ele deve estar vinculado ao objetivo da Educação que é o de formar cidadãos críticos comprometidos com a transformação social.

Palavras-chave: Educação, Formação de educadores, Psicologia da Educação.

A relação entre Educação e Psicologia data do reconhecimento dessa última enquanto ciência, no século XIX. Desde então essas duas áreas do conhecimento humano estabelecem diálogos íntimos, que ganham contornos diferentes de acordo com o contexto no qual se desenrolam.
Na área da Educação Infantil o contrato inicial estabelecido com a Psicologia pregava a definição de normas de comportamento, o estabelecimento de parâmetros de classificação e as condições de normalidade relacionadas ao desenvolvimento humano, elegendo a Psicologia como uma área “dona de um saber específico” imprescindível à Educação. Essa Psicologia inicial, de cunho inatista, trazia uma visão naturalizante, individualista e elitista de homem.
Ao focar as diferenças individuais e estabelecer os parâmetros de normalidade, a Psicologia estabeleceu uma parceria ideológica com a Educação ao reforçar a idéia de um indivíduo isolado do meio social, a-histórico e dotados de características naturais próprias da sua espécie.
Alguns momentos na evolução da relação Psicologia-Educação podem ser facilmente detectados. Um primeiro momento revelou uma relação que propunha um olhar diagnóstico para o aluno. Foi o primado da psicologia das diferenças individuais, pautada na visão inatista de desenvolvimento e aprendizagem. Na escola os testes psicométricos (Q.I.) revelavam gênios, medíocres e incapazes profetizando o futuro escolar das crianças. Tal futuro se auto-realizava a partir das crenças suscitadas pelos números obtidos nos testes e aceitos pela escola como sentenças de sucesso ou fracasso. A Psicologia apoiava a escola na culpabilização do aluno pelo não-aprender e as questões institucionais não eram discutidas e nem, ao menos, tocadas. Termos médicos como hiperatividade, dislexia, déficit de atenção e outros invadiram o cotidiano escolar e rotularam comportamentos e dificuldades de aprendizagem.
A Educação, endossada pela Psicologia, passou a lidar mais facilmente com questões como indisciplina, desmotivação e dificuldades de aprendizagem, uma vez que tais questões estariam diretamente ligadas a fatores médicos, localizados no indivíduo. A relação pedagógica, o papel da escola e as relações sociais estabelecidas dentro dela ficavam, portanto, não passíveis de análise, já que as explicações sobre o “mal” comportamento e a “não-aprendizagem” encontravam-se na própria criança. Os rótulos livravam a escola de uma análise mais comprometida e a poupavam de ter que enfrentar questões nas quais o óbvio não é dado à priori e as explicações não se encontram nos consultórios médicos, mas sim numa revisão do cotidiano escolar.
Um segundo momento caracterizou-se pelo olhar diagnóstico para a família e para as diferenças de classes sociais. A teoria da “carência cultural” ganhou espaço na escola, culpabilizando a condição social das crianças e suas famílias pelo seu fracasso escolar. A psicologia pautava-se na visão ambientalista de desenvolvimento e aprendizagem, defendendo a idéia de que o ser humano nasce como uma “folha em branco” que será impressa graças às pressões do meio.
Tal crença propunha aos professores ações extremamente diretivas, uma vez que esses deveriam planejar e executar planos de ensino com objetivos claros e pré-definidos. Nesta concepção não havia espaço para a espontaneidade da infância: sua capacidade de imaginação, fantasia e criação.
O momento seguinte, após a década de 70, revelou uma Psicologia crítica que buscava realizar um olhar diagnóstico para a sociedade e as instituições escolares. Houve forte influência das teorias crítico-reprodutivistas (Althusser, Bourdieu e outros) que entendiam a escola como um “aparelho” ideológico do Estado, reproduzindo a desigualdade de classes e mantendo os membros de classes inferiores nos patamares educacionais mais baixos. A atuação psicológica estava vinculada à psicologia institucional, atuando na crítica à produção escolar.
Atualmente a Psicologia busca um diálogo com a Educação tentando fazer parte de seu cotidiano, para que possa entender seu funcionamento a partir de dentro. A Psicologia não pretende colocar-se como a ciência que determina o que é normal ou patológico e que define critérios de avaliação do desenvolvimento infantil. Construir objetos de pesquisa com a Educação (e não para a Educação) e entender o contexto educativo como um microssistema social é o que deve buscar a Psicologia em sua relação com a Educação.
Na Educação Infantil a parceria propõe esforços no sentido de alcançar o objetivo dessa modalidade de ensino que é o desenvolvimento integral da criança num ambiente socializador, considerando a infância em suas especificidades.

Método
A pesquisa foi realizada com educadoras de uma instituição de Educação Infantil ligada a uma Universidade do estado de São Paulo.  Aplicamos um questionário aberto que buscou caracterizar, entre outras temáticas, a importância da disciplina Psicologia da Educação na formação das educadoras. As perguntas relacionadas a esse tema foram as seguintes: - No seu curso de formação, você cursou a disciplina Psicologia da Educação? Qual a carga horária? – Quais os conteúdos que estudou nessa disciplina? Cite alguns. – Qual a importância da Psicologia da Educação para a sua formação? – No estudo da psicologia da Educação houve alguma relação com a aprendizagem da matemática? E em relação a outros componentes curriculares?
No questionaria havia, ainda, algumas questões de caracterização do participante que buscou levantar a idade, o gênero, a formação acadêmica, e o tempo de atuação na Educação Infantil. Tais questionários foram respondidos pelas educadoras na própria instituição em um espaço de tempo reservado para esse fim.
É importante relatar que a pesquisa teve caráter qualitativo caracterizando-se como uma pesquisa-ação uma vez que a aplicação dos questionários faz parte de um trabalho maior realizado nessa instituição de educação infantil há mais de um ano.
Segundo Thiollent (1994), a pesquisa-ação tem duplo objetivo: um prático, que envolve a resolução de problemas e um de conhecimento, que envolve a tomada de consciência sobre determinadas situações que seriam de difícil acesso por meio de outros procedimentos.  Ainda segundo esse autor, os aspectos metodológicos que caracterizam a pesquisa-ação são os seguintes:
a) a situação investigada envolve uma ampla interação entre os agentes envolvidos;
b) tal interação permite a definição dos problemas a serem investigados e as ações concretas a serem tomadas;
c) os objetivos da pesquisa são definidos pela situação social e pelos problemas encontrados a partir dessa situação;
d) resolver ou esclarecer o problema é o objetivo maior da pesquisa-ação;
e) durante o processo deve haver o acompanhamento das decisões e ações dos atores da situação e
f) a pesquisa não se limita a uma ação e envolve a tomada de consciência dos agentes envolvidos.
Neste breve artigo relataremos um extrato da pesquisa que teve como tema específico “Psicologia e Educação Infantil” e que foi devolvido às educadoras depois de tabulados os dados para que pudéssemos realizar uma discussão conjunta dos mesmos.

Resultados e discussão
As sete educadoras que responderam ao questionário são do gênero feminino. Esse dado reforça a enorme discrepância, já relatada na literatura, entre o número de mulheres e de homens envolvidos no magistério.
Na história recente, quando pensamos na docência, os olhos e a fala de nosso pensamento se inclinam a associá-la à imagem feminina, sobretudo quando o alvo é o exercício dessa profissão em salas de aula do ensino Infantil e do primeiro segmento do Ensino Fundamental. A denominada “feminização do magistério” tornou-se problemática das “ciências” da educação, de pesquisas de viés historicista, elencando, quase sempre, as causas, motivos e implicações de tal fenômeno (FERRAZ, 2007, p. 1)

Na história da Educação Infantil o número de homens, exercendo a função de educadores, é mínimo.  Associa-se, quase sempre, à imagem de educador infantil, uma mulher, mãe, que cuida e provê de afeto. Tais representações sociais influenciam escolhas e determinam a docência na Educação Infantil como uma profissão eminentemente feminina.
A idade das participantes variou entre vinte e quatro e quarenta e três anos. Pesquisas revelam que a idade e a relação que as educadoras infantis estabelecem com as mudanças de seus corpos é um aspecto importante ao trabalho desenvolvido. O trabalho com crianças pequenas exige alguns esforços e certa disponibilidade física, o que faz com que essas mulheres revejam o modo como se relacionam com seus corpos.
Segundo Postali,
As experiências com as professores da Educação Infantil têm mostrado que, por mais que seja importante repensar a prática pedagógica destinada às crianças, é necessário também discutir como o fazer pedagógico se relaciona com suas experiências de vida. Tal relação, fundamental na compreensão da atuação do profissional da educação, tem como um de seus aspectos cruciais as vivências e as percepções do corpo dessas mulheres, justificado pelas evidências de seu desejo pela busca do tempo perdido, ou seja, a busca pelo vigor físico. (p. 03)

Em relação à formação acadêmica, seis educadoras têm o curso de Pedagogia completo e dessas quatro fizeram também o magistério. Uma das educadoras está cursando a faculdade de Pedagogia.
O tempo de atuação na Educação Infantil é de vinte anos para a educadora que atua há mais tempo e de um ano e meio para a que atua há menos tempo.
As sete educadoras afirmam ter cursado a disciplina de Psicologia da Educação em seus cursos de formação com duração média de dois semestres. Em relação aos conteúdos trabalhados na disciplina apareceram: - Desenvolvimento Infantil, - Psicogenética de Piaget, - Estudos de Vygotsky com ênfase na Zona de Desenvolvimento Proximal, - Concepções de aprendizagem na prática pedagógica e – Psicologia Cognitiva e suas aplicações à Educação. Segundo o relato das educadoras é possível notar a ênfase da disciplina em trabalhar com as teorias e os temas relacionados à questão cognitiva, em detrimento de questões sociais e afetivas. Entender o aluno como um ser eminentemente cognitivo parece ser a proposta da disciplina “Psicologia da Educação” cursada Poe essas educadoras.
Quando questionadas sobre a importância dessa disciplina para a sua formação as educadoras afirmam que a mesma teve “grande importância”, “suma importância” ou “grande importância” pois oferece as bases para entender o desenvolvimento infantil e acompanhar as evoluções da criança.
A relação da Psicologia da Educação com outras disciplinas ou conteúdos curriculares foi tida como nula para quatro educadoras que afirmaram não ter havido nenhum tipo de relação com a Matemática, por exemplo, ou qualquer outro componente curricular. Três educadoras afirmam ter havido relações pois ao oferecer conhecimentos sobre o desenvolvimento humano, a Psicologia da Educação trabalha o homem como um todo.
A Psicologia da Educação é uma disciplina presente na maioria dos cursos de formação de professores. Classicamente essa disciplina trabalha com os conteúdos da Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem e suas relações com o processo de ensino-aprendizagem, pressupondo sujeitos historicamente situados.
A psicologia da Educação, apesar de ser uma das áreas pela qual a psicologia foi introduzida no Brasil e na qual há grande quantidade de produções de pesquisa, ainda carece do reconhecimento social e do desenvolvimento necessário à participação na qualificação da educação brasileira. Teorias que naturalizam o desenvolvimento das crianças e o próprio processo de ensino-aprendizagem são responsáveis pelo lugar frágil que a Psicologia tem na educação. Contribuições para a superação destas perspectivas existem, no Brasil, no entanto, tem sido bastante difícil mudar as demandas e as expectativas que a escola tem acerca da contribuição dos psicólogos.  (Jornal do Federal – 08/2005)

Seja qual for o paradigma orientador dessa disciplina ele deve estar vinculado ao objetivo da Educação que é o de formar cidadãos críticos comprometidos com a transformação social.

Conclusão
Acreditamos que a disciplina Psicologia da Educação seja importante nos cursos de formação de professores mas que essa deve ser pensada e proposta a partir de uma concepção histórica e crítica de homem e mundo para que suas relações com os objetivos de uma educação emancipadora, libertadora e transformadora sejam estabelecidas e resultados, nessa direção, possam ser alcançados.
Na Educação Infantil os conteúdos estudados na disciplina Psicologia da Educação devem possibilitar ao educador uma práxis que considere as especificidades da infância e do meio social e cultural em que ela se desenvolve.

REFERÊNCIAS
CARRAHER, T. N.; SCHLIEMANN, A. L.; CARRAHER, D. Na vida dez, na escola zero. 9.ed. São Paulo: Cortez, 1995.
COSTA, D. A. F. Fracasso escolar: diferença ou deficiência. Porto Alegre: Kuarup, 1993.
FERRAZ, R. C. Gênero, masculinidade e docência: visões de alunos de Pedagogia. Disponível em://
www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/R/Raimundo_Cassiano_Ferraz
JORNAL DO FEDERAL. Psicologia da Educação nas escola públicas: a intervenção necessária. www.pol.org.br. 08/2005
PIMENTA, S. G. Pesquisa-ação crítico-colaborativa: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Educ. Pesq. , v. 31, n.º 03, São Paulo. Set./Dez., 2005.
POSTALI, T. C. M. C. Corporeidade e temporalidade na experiência docente de professoras da educação infantil.
www.unilestemg.com.br/revistaonline/volumes/01/downloads/artigo_05.doc
THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1994.

Publicado em 24/08/2007


Rita Melissa Lepre - Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação pela Unesp Docente universitária no curso de Pedagogia

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