Para imprimir este artigo sem cortes clique no ícone da impressora >>>
 

DISLEXIA

Dany Kappes, Gelson Franzen, Glades Teixeira, Vanessa Guimarães

Resumo
Estima-se que a dislexia acometa entre 10% e 15% da população mundial. Este transtorno da aprendizagem aparece claramente na escola, durante a alfabetização, e alguns dos seus sintomas, anterior a ela. É hereditária e congênita, sem causas culturais, intelectuais e emocionais, onde a criança falha no processo de aquisição da linguagem. Os disléxicos têm um nível de inteligência normal, muitas vezes superior, e grande habilidade em determinadas áreas, mas suas dificuldades de aprendizagem resultam em uma discrepância entre o seu potencial intelectual e seu desempenho escolar. As dificuldades na aprendizagem, causadas pela dislexia, podem causar implicações emocionais e problemas na personalidade, por isso, o diagnóstico e acompanhamento, adequado tornarão as implicações emocionais quase inexistentes e a criança mais confiante e segura frente a sua realidade e necessidades.
 
Palavras-chaves: dislexia, transtorno, aprendizagem.

Abstract
They is esteem that the dyslexia to attack between 10% and 15% of the world-wide population. This upheaval of the learning appears clearly in the school, during the alphabetizing, and some of its symptoms, previous it. She is hereditary and congenital, without cultural causes, intellectual and emotional, where the child fails in the process of acquisition of the language. The dyslexics have a level of normal intelligence, many times superior, and great ability in determined areas, but its difficulties of learning result in a discrepancy between its intellectual potential and its pertaining to school performance. The difficulties in the learning, caused for the dyslexia, can cause emotional implications and problems in the personality, therefore, diagnosis and accompaniment, adjusted will become the almost inexistent emotional implications and the child most confident and insurance front its reality and necessities.     

Word-keys: dyslexia, upheaval, learning.

O primeiro trabalho sobre dislexia foi citado em 1872, por Reinhold Berlin, seguido por James Kerr em 1897. James Hinshelwood, em 1917, publicou uma monografia sobre “Cegueira Verbal Congênita”, que encontrara pacientes com inteligência normal e com dificuldade para aprender a ler e escrever. Nesta época, a visão era de que esse problema seria orgânico e, possivelmente hereditário, sendo o predomínio maior em meninos, do que em meninas.

No início do século XX, os psicólogos e educadores deram pouca importância aos transtornos específicos da linguagem, se concentravam apenas no aspecto pedagógico do problema. Ao mesmo tempo, a classe médica negligenciava o problema na sala de aula, o que contribuía para estabelecer uma grande lacuna entre a recuperação das crianças e o seu problema.

Através de uma pesquisa realizada em unidades de saúde mental, nos Estados Unidos, em meados de 1925, mostrando a dificuldade de ler, escrever e soletrar se constituíam nas causas mais freqüentes dos encaminhamentos realizados. E foi a partir daí, que vários autores, começaram a estudar e descrever o distúrbio. Oftalmologistas, norte-americanos, ajudaram a identificar o distúrbio, alegando que: “Não são os olhos que lêem, mas o cérebro”.

Orton, entre 1928 e 1937, estudou famílias de disléxicos e encontrou algumas alterações, como escrita em espelho, e chamou a atenção para o aspecto genético. Sugeriu que o fenômeno era provocado por imagens competitivas nos dois hemisférios cerebrais devido a falência em estabelecer dominância cerebral unilateral e consistência perceptiva. Seguiram-se a ele vários outros estudiosos interessados no assunto. (Rotta, 2006)

No Brasil foi criada, no ano de 1983, a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), com o objetivo de esclarecer, divulgar, ampliar conhecimentos e ajudar os disléxicos em sua dificuldade específica de linguagem.  Se a dislexia for diagnosticada e tratada adequadamente, o paciente pode ter melhora de até 80%. 

Segundo Rotta (2006), a década de 1990 foi pródiga em trabalhos que tentavam desvendar os aspectos genéticos envolvidos na dislexia. Por outro lado, inúmeros autores, utilizando-se de exames complementares, provaram a possibilidade de malformações ou alterações funcionais cerebrais em crianças disléxicas.

Atualmente, os estudos mais recentes estão no campo psiconeurológico

1. O que é dislexia
A definição mais utilizada, segundo a ABD é a de 1994 da International Dyslexia Association (IDA): “Dislexia é um dos muitos distúrbios  de aprendizagem. É um distúrbio específico de origem constitucional caracterizado por uma dificuldade na decodificação de palavras simples que, como regra, mostra uma insuficiência no processamento fonológico. Essas dificuldades não são esperadas com relação à idade e a outras dificuldades acadêmicas cognitivas; não são um resultado de distúrbios de desenvolvimento geral nem sensorial. A dislexia se manifesta por várias dificuldades em diferentes formas de linguagem freqüentemente incluindo, além das dificuldades com leitura, uma dificuldade de escrita e soletração.”

Em 2003, o Annals of Dyslexia, elaborado pela IDA, propôs uma nova definição: “Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e por dificuldade na habilidade de decodificação e soletração. Essas dificuldades resultam tipicamente do déficit no componente fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas consideradas na faixa etária.” Tal definição contou com a participação de vários profissionais, entre eles: Susan Brady, Hugh Catts, Emerson Dickman, Guinenere Éden, Jack Fletcher, Jeffrey Gilger, Robin Moris, Harley Tomey e Thomas Viall.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV (1995) caracteriza a dislexia como comprometimento acentuado no desenvolvimento das habilidades de reconhecimento das palavras e da compreensão da leitura. O diagnóstico é realizado somente se esta incapacidade interferir significativamente no desempenho escolar ou nas atividades da vida diária (AVD’s) que requerem habilidades de leitura. A leitura oral no disléxico é caracterizada por omissões, distorções e substituições de palavras e pela leitura lenta e vacilante. Neste distúrbio, a compreensão da leitura também é afetada.

Fonseca (1995), coloca que a dislexia trata-se de uma desordem (dificuldade) manifestada na aprendizagem da leitura, independentemente de instrução convencional, adequada inteligência e oportunidade sócio-cultural. E, portanto, dependente de funções cognitivas, que são de origem orgânica na maioria dos casos.

Condemarim (1986), expressa seu pensamento sobre dislexia dizendo que é um conjunto de sintomas reveladores de uma disfunção parietal (o lobo do cérebro onde fica o centro nervoso da escrita), geralmente hereditário, ou às vezes adquirida, que afeta a aprendizagem da leitura num contínuo que se estende do leve sintoma ao severo. É freqüentemente acompanhada de transtorno na aprendizagem da escrita, ortografia, gramática e redação.

Conforme ressalta Myklebust (1987), a dislexia representa um déficit na capacidade de simbolizar, começa a se definir a partir da necessidade que tem a criança de lidar receptivamente ou expressivamente com a representação da realidade, ou antes, com a simbolização da realidade, ou poderíamos também dizer, com a nomeação do mundo.

Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira de Dislexia (ABD), em média 40% dos casos diagnosticados na faixa mais crítica, entre 10 a 12 anos, são de grau severo, 40% são de grau moderado e 20% de grau leve.

Atualmente observasse um fenômeno de “vulgarização”/generalização do termo dislexia, qualquer distúrbio de linguagem apresentado pela criança, logo é qualificado como dislexia, tanto pelos pais como pela escola. O problema nem sempre está na criança e sim nos processos educacionais, sob a responsabilidade familiar, ou nos processos formais de aprendizagem, sob incumbência da instituição escolar. Além dos problemas de ensinagem, temos também a alfabetização precoce, cada vez mais as crianças estão menos prontas para iniciar o processo e são identificadas dificuldades de aprendizagem que, na realidade, não existem.
 
Lima (2002), enfatiza que todo processo de aprendizagem está articulado com a história de cada indivíduo, e o ser humano aprende mais facilmente quando o novo pode ser relacionado com algum aspecto da sua experiência prévia, com o conhecimento anterior, com alguma questão que o indivíduo se colocou, com imagens, palavras e fatos que estão em sua memória, com vivências culturais.

Ao que parece, por trás desses problemas específicos de aprendizagem, existe sempre um fator biológico, hereditário, isto é, há uma disposição natural de a mesma dificuldade ocorrer em outros membros da família. Coll (1995), descreve isso dizendo que quando falamos de problemas de linguagem, não podemos nos esquecer de buscar no ambiente social da criança todos os dados que nos permitam compreender melhor as dificuldades que esta apresenta.

A neurologista inglesa Guinevere Éden, do Centro de Investigação Neurológica de Georgetown, fez uma pesquisa com cérebros de disléxicos na qual ela constatou que uma das características comuns às crianças disléxicas é a dificuldade em reconhecer em que direção os objetos se movem.  Por meio de exames de ressonância magnética funcional, foi possível verificar que o cérebro de um portador de dislexia é anatômico e fisiologicamente diferente de uma pessoa que não sofre do distúrbio.  De acordo com ela, ficou claro que o hemisfério direito do cérebro, não relacionado à linguagem, apresenta maior atividade do que o esquerdo.  Para superar essa condição é preciso aprender como compensá-la. (Fonte: http://www.medsys.com.br/ultimas_not/noticias.php?cd_noticia=577)

Rotta (2006), as diferenças estruturais entre o cérebro das pessoas com dislexia e o das pessoas sem dislexia concentram-se fundamentalmente no plano temporal. Além da simetria incomum dos planos temporais, o cérebro de leitores disléxicos tem alterações na citoarquitetura e alterações do cerebelo e suas vias. Isso ocorre provavelmente porque houve algum tipo de agressão nos primeiros estágios do desenvolvimento. Finalmente, os neurônios de tecido cerebral dos leitores disléxicos parecem ser menores que a média, pelo menos em algumas áreas de cérebro (por exemplo, o tálamo). O tamanho menor dos neurônios talâmicos pode muito bem estar ligado às anormalidades tanto do sistema visual quanto no sistema auditivo de indivíduos com dislexia. O estudo de Galaburda e colaboradores, em 2001, demonstrou experimentalmente que as alterações na citoarquitetura do córtex temporal e dos tálamos determinam um processamento lento dos sons.

Dentro do quadro da dislexia devemos estar atentos ao histórico familiar para parentes próximos que apresentem a mesma deficiência de linguagem. Também a aspectos pré, peri e pós-natal  se o parto foi difícil,  se pode ter ocorrido algum problema de anoxia ( asfixia relativa), prematuridade do feto (peso abaixo do normal), ou hipermaturidade ( nascimento passou da data prevista para o parto). Se a criança adquiriu alguma doença infecto-contagiosa, que tenha produzido convulsões ou perda de consciência, se ocorreu algum atraso na aquisição da linguagem ou perturbações na articulação da mesma, se houve um atraso para andar, e algum problema de dominância lateral (uso retardado da mão esquerda ou direita), entre outros.

Dentro da etiologia da dislexia sempre deverão ser considerados dois aspectos, que podem estar isolados ou relacionados, como também serem complementares: causas genéticas e causas adquiridas. A etiologia pode ser dividida em : genética, adquirida e multifatorial ou mista.

2. Tipos de Dislexia
A dislexia pode ser classificada de várias formas, de acordo com os critérios usados para classificação.

Alguns autores classificam a dislexia tendo como base testes diagnósticos, fonoaudiológico, pedagógicos e psicológicos.

Conforme Ianhez (2002), a dislexia pode ser classificada em:
 
2.1 Dislexia disfonética: dificuldades de percepção auditiva na análise e síntese de fonemas, dificuldades temporais, e nas percepções da sucessão e da duração ( troca de fonemas – sons, grafemas –  diferentes, dificuldades no reconhecimento e na leitura de palavras que não têm significado, alterações na ordem das letras e sílabas, omissões e acréscimos, maior dificuldade na escrita do que na leitura, substituições de palavras por sinônimos);

2.2 Dislexia diseidética: dificuldade na percepção visual, na percepção gestáltica, na análise e síntese de fonemas ( leitura silábica, sem conseguir a síntese das palavras, aglutinações e fragmentações de palavras, troca por equivalentes fonéticos, maior dificuldade para a leitura do que para a escrita);

2.3 Dislexia visual: deficiência na percepção visual; na coordenação visomotora (não visualiza cognitivamente o fonema);

2.4  Dislexia auditiva: deficiência na percepção auditiva, na memória auditiva (não audiabiliza cognitivamente o fonema).

2.5  Dislexia mista: que seria a combinação de mais de um tipo de dislexia.
    
Para Moojen apud Rotta (2006), é possível classificar a dislexia em três tipos:

2.1.1 Dislexia fonológica (sublexical ou disfonética): caracterizada por uma dificuldade seletiva para operar a rota fonológica durante a leitura, apresentando, não obstante, um funcionamento aceitável da rota lexical; com freqüência os problemas residem no conversor fonema-grafema e/ou no momento de juntar os sons parciais em uma palavra completa. Sendo assim, as dificuldades fundamentais residem na leitura de palavras não-familiares, sílabas sem sentido ou pseudopalavras, mostrando melhor desempenho na leitura de palavras já familiarizadas. Subjacente a essa via, encontra-se dificuldades em tarefas de memória e consciência fonológica. Considerando o grande esforço que fazem para reconhecer as palavras, portanto, para manter uma informação na memória de trabalho, são obrigados a repetir os sons para não perdê-los definitivamente. Como conseqüência, toda essa concentração despendida no reconhecimento das palavras acarreta em dificuldades na compreensão do que foi lido.

2.2.1 Dislexia lexical (de superfície): as dificuldades residem na operação da rota lexical (preservada ou relativamente preservada a rota fonológica), afetando fortemente a leitura de palavras irregulares. Nesses casos, os disléxico lêem lentamente, vacilando e errando com freqüência, pois ficam escravos da rota fonológica, que é morosa em seu funcionamento. Diante disso, os erros habituais são silabações, repetições e retificações, e , quando pressionados a ler rapidamente, cometem substituições e lexicalizações; às vezes situam incorretamente o acento prosódico das palavras.

2.3.1 Dislexia Mista: nesse caso, os disléxicos apresentam problemas para operar tanto com a rota fonológica quanto com a lexical. São assim situações mais graves e exigem um esforço ainda maior para atenuar o comprometimento das vias de acesso ao léxico.  

Entre as conseqüências da dislexia encontramos a repetência e evasão, pois  se o problema não é detectado e acompanhado, a criança não aprende a ler e escrever. Acontece também o desestímulo, a solidão, a vergonha, e implicações em seu autoconceito e rebaixamento de sua auto-estima, porque o aluno perde o interesse em aprender, se acha incapaz e desprovido de recursos intelectuais necessários para tal. Pode apresentar uma conduta inadequada com o grupo,  gerando problemas de comportamento, como agressividade e até envolvimento com drogas. Como podemos constatar  que as seqüelas são as mais abrangentes, em todos os setores da vida. Começa com um distúrbio de leitura e escrita e acaba com um problema que pode durar a vida inteira, como depressão e desvio de conduta.

3. A dislexia e a alfabetização
Lima (2002), coloca que é função da escola ampliar a experiência humana, portanto a escola não pode ser limitada ao que é significativo para o aluno, mas criar situações de ensino que ampliem a experiência, aumentando os campos de significação.

Do ponto de vista do desenvolvimento e da construção de significados, só pode ser significativo para a pessoa aquilo do qual ela possui um mínimo de experiências e de informação.

Por isso, o disléxico precisa olhar e ouvir atentamente, observar os movimentos da mão quando escrever e prestar atenção aos movimentos da boca quando fala. Desta maneira, a criança disléxica associará a forma escrita de uma letra tanto com seu som como com os movimentos, pois falar, ouvir, ler e escrever, são atividades da linguagem.

Fonseca (1995), retrata muito bem isso quando  diz que uma coisa é a criança que não quer aprender a ler, outra é a criança que não pode aprender a ler com os métodos pedagógicos tradicionais. Não podemos assumir atitudes reducionistas que afirmam que a dislexia não existe. De fato, a dislexia é muito mais do que uma dificuldade na leitura. A dislexia normalmente não aparece isolada, ela surge integrada numa constelação de problemas que justificam uma deficiente manipulação do comportamento simbólico que trata de uma aquisição exclusivamente humana.

Muitos autores tem defendido o método fonético como o mais adequado na alfabetização de disléxicos e não disléxicos. Os métodos fonéticos favorecem a aquisição e o desenvolvimento da consciência fonológica que é a capacidade de perceber que o discurso espontâneo é uma seqüência de sentenças e que estas são uma seqüência de palavras( consciência da palavra); que as palavras são uma seqüência de sílabas (consciência silábica) e que as sílabas são uma seqüência de fonemas (consciência fonêmica), o que auxiliaria muito nas dificuldades dos alunos disléxicos.

Para auxiliar o aluno disléxico em suas dificuldades, a escola deve dar encorajamento, atender e respeitar as capacidades e os limites da criança, estar informada, para amparar a criança em sua dificuldade, manter o professor da classe familiarizado e sensibilizado com a dislexia, para compreender e apoiar a criança, na sala de aula,  reconhecer a necessidade de ajuda extra e desenvolver um clima de paciência, para que as crianças possam ter tempo suficiente para cumprir suas tarefas e, até mesmo, repeti-las várias vezes para retê-las.

É importante, também, conscientizar toda a comunidade escolar que estas “facilidades”  dadas aos disléxicos, na verdade, representam a única forma que este tem para competir em igualdade de condições com seus colegas.

4. Sinais de dislexia na idade escolar
Para Ianhez (2002) estes são sinais importantes de dislexia na idade escolar:

•Lentidão na aprendizagem dos mecanismos da leitura e escrita;
•Trocas ortográficas ocorrem, mas dependem do tipo de  dislexia;
•Problema para reconhecer rimas e alterações (fonemas repetidos em uma frase);
•Desatenção e dispersão;
•Desempenho escolar abaixo da média, em matérias específicas, que dependem da linguagem escrita;
•Melhores resultados, nas avaliações orais, do que nas escritas;
•Dificuldade de coordenação motora fina (para escrever, desenhar e  pintar) e grossa (é descoordenada);
•Dificuldade de copiar as lições do quadro, ou de um livro;
•Problema de lateralidade (confusão entre esquerda e direita, ginástica);
•Dificuldade de expressão: vocabulário pobre, frases curtas, estrutura simples, sentenças vagas;
•Dificuldade em manusear mapas e dicionários;
•Esquecimento de palavras;
•Problema de conduta: retração, timidez, excessiva e depressão;
•Desinteresse ou negação da necessidade de ler;
•Leitura demorada, silabadas e com erros. Esquecimento de tudo o que lê;
•Salta linhas durante a leitura, acompanha a linha de leitura com o dedo;
•Dificuldade em matemática, desenho geométrico e em decorar seqüências;
•Desnível entre o que ouve e o que lê. Aproveita o que ouve, mas não o que lê;
•Demora demasiado tempo na realização dos trabalhos de casa;
•Não gosta de ir a escola;
•Apresenta “picos de aprendizagem”, nuns dias parece assimilar e compreender os conteúdos e noutro, parece ter esquecido o que tinha aprendido anteriormente;
•Pode evidenciar capacidade acima da média em áreas como: desenho, pintura, música, teatro, esporte, etc;

O estudo da dislexia, em sala de aula, tem como ponto de partida a compreensão, das quatro habilidades fundamentais da linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a escuta. Destas, a leitura é a habilidade lingüística mais difícil e complexa, e a mais diretamente relacionada com a dificuldade específica de acesso ao código escrito denominada  “dislexia”. (PINTO, 2003)

No caso da criança em idade escolar, a psicolingüística define a dislexia como um déficit inesperado na aprendizagem da leitura (dislexia), da escrita (disgrafia) e da ortografia (disortografia) na idade em que essas habilidades já deveriam ter sido automatizadas. É o que se denomina “dislexia de desenvolvimento”.

Para ensinar crianças com distúrbios de aprendizagem, é preciso conhecer os processos educacionais. Daí resulta a importância da pré-escola, que é a época propícia para desenvolver a capacidade cognitiva da criança normal ou mesmo disléxica, através de métodos ativos e baseados na psicologia, de Jean Piaget. É preciso então atender aos estágios de desenvolvimento mental da criança, sem pressa de alfabetizar, antes que ela esteja madura neurologicamente.

Para a criança disléxica, o método multissensorial surge com o objetivo de trabalhar a criança, para que aprenda a dar respostas automáticas duradouras (nomes, sons e fonemas) e desenvolver habilidades como sequenciar palavras. Na alfabetização, a introdução de cada letra, com ênfase na sua relação com o nome/som e com a importância em dar a sua forma correta, torna o ensino sistemático e cumulativo, e deverá ser avaliado regularmente, de forma a verificar a sua eficiência.

5. O  papel do professor
Coll ( 1995), propõem que os professores encontram-se normalmente, diante de um grupo de alunos com diferentes níveis , na área da comunicativo-linguística. Crianças que diferem quanto aos usos que fazem da linguagem, em função da procedência geográfica, social e cultural.

Os professores precisam estar atentos para esta realidade, e para as particularidades de seu grupo. Suspeitando dos sintomas, deve sugerir um encaminhamento clínico para a criança e após  diagnosticado, o quadro, é necessário que ele  se dedique muito ao aluno, em sala de aula, e ao longo do tratamento, que envolve em partes iguais a escola, a família e profissionais da saúde.

A primeira tarefa do professor é resgatar a autoconfiança do aluno. Descobrir suas habilidades para que possa acreditar em si mesmo ao se destacar em outras áreas.

O papel do professor é dirigir um olhar flexível para cada aluno que tenha dificuldade, é compreender a natureza dessas dificuldades, buscar um diagnóstico especializado, uma orientação para melhorar o dia-a-dia da criança, e se instrumentalizar, pois há  muitos professores que lecionam e não sabem o que é dislexia.

Somos de opinião que o professor primário deve ele próprio construir os seus instrumentos de diagnóstico pedagógico (diagnóstico informal) a fim de conduzir a sua atividade mais coerentemente... é do maior interesse o uso de instrumentos que permitam detectar precocemente qualquer dificuldade de aprendizagem, pois só assim uma intervenção psicopedagógica pode ser considerada socialmente útil, pois quanto mais tarde for identificada a dificuldade, menos hipóteses haverá para solucionar corretamente. ( FONSECA, 1995)

O professor que deseja ajudar seus alunos, sabe que é necessário encaminhá-lo para tratamento e colaborar nesse tratamento. Mas ele sabe também,  que o atendimento gratuito é sujeito a grande espera e que o nível econômico da maioria dos escolares, não permite tratamento particular. Só através de um trabalho paciente e constante, poderá prestar a ajuda, que a criança tanto necessita.

O ideal é trabalhar a autonomia da criança, para que ela não comece a sentir-se dependente em tudo. O professor deve acolher e respeitá-lo, em suas diferenças, sem cair no sentimento de pena.

Cabe ao professor recorrer a diversas atividades e técnicas de ensino e descobrir qual delas melhor se adapta a cada estudante e a cada situação.

É importante que o professor explique à criança o seu problema, sente ao lado dela, não a pressione com o tempo, não estabeleça competições com os outros, que seja flexível quanto ao conteúdo das lições, que faça críticas construtivas, estimule o aluno a escrever em linhas alternadas  (o que permite a leitura da caligrafia imprecisa), certifique-se de que a tarefa de casa foi entendida pela criança, peça aos pais que releiam com ela as instruções, evite anotar todos os erros na correção (dando mais importância ao conteúdo), não corrija com lápis vermelho (isso fere a suscetibilidade da criança com  problemas de aprendizagem), e procure descobrir os interesses e leituras que prendam a atenção da criança.

É de grande importância ressaltar, que a manutenção de turmas pequenas, com no máximo 20 alunos, ou menos, é de extrema relevância, para que o professor tenha oportunidade de observar de maneira adequada a todos os educandos, como também dispor de tempo para auxiliá-los.

6. Sugestões e recursos
A  ABD faz algumas sugestões visando a melhoria da AVD’s e qualidade de vida  da criança disléxica, tais como:
•Estabelecer horários para refeições, sono, deveres de casa e recreações;
•As roupas devem ser arrumadas na seqüência que ele vai vestir, para evitar confusões e preocupações à criança (simplificar usando zíper em vez de botão, sapatos e tênis sem cordão e camisetas);
•Quando for ensinar a amarrar os sapatos, não fique de frente para a criança, coloque-se ao seu lado, com os braços sobre o ombro dela;
•Marque no relógio, com palavras, as horas das obrigações. Isso evita a preocupação da criança;
•Para as crianças que tem dificuldades com direita e esquerda, uma marca é necessária. Isso pode ser feito com um relógio de pulso, um bracelete ou um botão pregado no bolso do lado favorito;
•Reforçar a ordem das letras do alfabeto, cantando e dividindo-as em pequenos grupos;
•Ensinar a criança a “sentir”  as letras através de diferentes texturas de materiais, como areia, papel, veludo, sabão, etc;
•Ler histórias que se encontrem no nível de entendimento da criança;
•Instruir as crianças canhotas precocemente, para evitar que assumam posturas pouco confortáveis e mesmo prejudiciais, como encobrir o papel com a mão ao escrever;
•Providenciar para que a criança use lápis ou caneta grossos, com película de borracha ao redor, e que sejam de forma triangular;
•A criança disléxica confunde-se com o volume de palavras e números com que tem de se defrontar. Para evitar isso, arranjar um cartão de aproximadamente 8cm de comprimento por 2cm de largura, com uma janela no meio, da largura de uma linha escrita e comprimento de 4cm. Deslizando o cartão na folha à medida que a criança lê, ele bloqueia o acesso visual para as linhas de baixo e de cima e dirige a atenção da criança da esquerda para a direita.
 
A motivação é muito importante para a criança disléxica, pois, ao se sentir limitada e inferiorizada, ela pode se revoltar e assumir uma atitude de negativismo. Por outro lado, quando se vê compreendida e amparada, ganha segurança e vontade de colaborar.

Existem também alguns recursos e alternativas para que a criança consiga acompanhar a turma, entre eles:
•Dar a ele um resumo, do programa a ser desenvolvido;
•Iniciar cada novo conteúdo, com um esquema, mostrando o que será        apresentado no período. No final, resumir os pontos-chaves;
•Usar vários recursos de apoio para apresentar a lição `a classe, além do quadro- negro: projetor de slides, retroprojetor, vídeos e outros recursos multimídia;
•Introduzir vocabulário novo ou técnico de forma contextualizada;
•Evitar dar instruções orais e escritas ao mesmo tempo;
•Avisar, com antecedência, quando houver trabalhos que envolvam leitura, para que o aluno, encontre outras formas de realizá-lo, como gravar o livro, por exemplo;
•Fazer revisões com tempo disponível para responder às possíveis dúvidas;
•Autorizar o uso de tabuadas, calculadoras simples, rascunhos e dicionários, durante as atividades e avaliações;
•Aumentar o limite do tempo para atividades escritas;
•Ler enunciados em voz alta e verificar se todos entenderam o que está sendo pedido;
•Usar gravador;
•Confecção, do próprio material para alfabetização, como desenhar e montar uma cartilha;
•Uso de gravuras e fotografias (a imagem é essencial);
•Material dourado (Material Curisineire);
•Folhas quadriculadas para matemática;
•Não deve ser forçada a ler em voz alta, em classe, a menos que demonstre desejo em fazê-lo;
•Uso de informática, como corretor ortográfico.

Entre alguns exemplos de atividades e técnicas aplicáveis ao disléxico, podemos destacar: colocar o aluno na primeira classe (para poder dar atenção especial a ele), repetir só para a criança o que disse para a classe, ler novamente um trecho do livro só para ela, corrigir atividades ao lado dela, dar um tempo maior para que faça o mesmo trabalho que os demais, substituir avaliações e outros trabalhos escritos por orais e  utilizar programas oferecidos no mercado para montar uma metodologia de apoio ao aprendizado .

7. Leitura e escrita
O enfoque da psicolingüística, ramo interdisciplinar da psicologia cognitiva e da lingüística aplicada, considera a leitura como uma habilidade complexa na qual intervém uma série de processos cognitivo-lingüístico de distintos níveis, cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação desse estímulo e sua compreensão. ( PINTO, 2003)

A dificuldade, na leitura, significa apenas o resultado final de uma série de desorganizações que a criança já vinha apresentando no seu comportamento pré-verbal, não-verbal, e em todas aquelas funções básicas necessárias, para o desenvolvimento da recepção, expressão e integração, condicionadas à função simbólica.

Coll (1995), diz que há uma série de requisitos para um desenvolvimento ideal da linguagem que são, em primeiro lugar, de natureza sensorial, motora e neurológica. Para um desenvolvimento harmonioso da linguagem, precisa-se da integridade anatômica e funcional de todos os órgãos que participam de seu processo de produção-recepção. Destacaremos, por sua especial importância, o aparelho respiratório, os órgãos fonatórios, o aparelho auditivo, as vias nervosas e as áreas corticais e subcorticais motoras e sensoriais.

Por isso, uma criança pode reconhecer as letras do alfabeto, de sua língua materna, mas se não souber os fonemas da fala, representados pelos signos gráficos, não vai conseguir ler um texto.

Entre alguns fatores ligados a incapacidade de ler, estão a capacidade intelectual, percepção visual e auditiva (boa visão e audição), noção de esquema corporal, orientação no espaço e no tempo, linguagem e conhecimento do código lingüístico e fatores emocionais que acompanham todos os outros.

Na leitura, notam-se confusões de grafemas, cuja correspondência fonética é próxima ou cuja forma é aproximada, bem como a existência de inversões, omissões, adições e substituições de letras e sílabas. Ao nível da frase, existe uma dificuldade nas pausas e ritmos, bem como revelam uma análise compreensiva da informação, leitura deficitária (muitas dificuldades em compreender o que lêem).

Pennington (1997), enfoca bem isso quando ele diz que os disléxicos têm um problema com o reconhecimento de palavras e este problema é devido a um déficit no uso dos códigos fonológicos para reconhecer palavras. Quanto mais lemos, mais precisamos traduzir seqüências de letras impressas em pronúncias de palavras. Para fazer isso, precisamos  compreender que o alfabeto é um código para fonemas, os sons individuais da fala na linguagem, e precisamos ser capazes de usar estes código rápida e automaticamente, de modo que possamos nos concentrar no significado do que lemos.

No que concerne a produção escrita, verifica-se a presença de muitos erros ortográficos, grafia disforme e ilegível, como também lacunas na estruturação e seqüenciação lógica das idéias.

Os processo básicos, isto é, que se voltam à decodificação e a compreensão de palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura inicial na educação infantil), e devem ser automatizados ou bem assimilados no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em algum deles atua como um gargalo que impede o desenvolvimento pleno e melífluo dos processos superiores de compreensão leitora. (PINTO, 2003)

Na leitura, encontramos três tipos de dificuldades, e a primeira delas é o atraso geral de leitura, ocasionado por baixa inteligência e que caracteriza-se pela dificuldade de leitura de palavras isoladas e pela dificuldade de compreensão de textos. A criança, que apresenta este problema, tem também atraso em todas as outras aprendizagens. Uma segunda dificuldade é o atraso específico de leitura, que compreende dificuldades na leitura de palavras isoladas e na compreensão do texto. Isso não significando que a criança não seja inteligente para outras aprendizagens, pois o seu atraso é apenas em leitura e escrita. E uma terceira dificuldade, é de compreensão, que apenas se refere à dificuldade para entender o texto, embora ela consiga ler textos ou palavras isoladas.

Por isso, é importante proporcionar a criança manusear o material de leitura, escrever e desenvolver o gosto pela leitura. Incentivando-a, através das seguintes sugestões: lendo todos os dias, bons livros, jornais, revistas, qualquer coisa que realmente a interesse, encorajando-a a ler todos os tipos de texto, permitindo o uso de marcadores para seguir a leitura, encontrando alguém que possa ler os textos  para ela, gravando os textos para  ajudá-la, dividindo a leitura de um livro de história com algum colega e usando canetas marca-texto, para ressaltar os itens a serem lembrados. E depois de ter lido o texto, a criança poderá reler o titulo e explicá-lo, observar as figuras e dar uma interpretação, rever o vocabulário das palavras do texto, desenvolver uma lista de palavras que ela erra constantemente, ler as perguntas, se houver, ou criar perguntas para testar sua interpretação, ler os títulos dos capítulos e comentá-los e desenhar a respeito do que foi lido.

Na dislexia, em geral, a dificuldade de leitura persiste até a idade adulta. A dificuldade de ortografia geralmente acompanha a de leitura, o que é compreensível por serem habilidades relacionadas. Muitas pessoas aparentemente normais, ou mesmo com grande capacidade de leitura, podem apresentar dificuldades de ortografia.

Os erros mais comuns de serem observados tanto na leitura como na escrita, são:

•Confusão de letras, sílabas ou palavras com pequenas diferenças de grafia: a/o, c/o, e/f, etc;
•Confusão de letras, sílabas ou palavras com grafia semelhante, porém com orientação espacial diferente: b/d, p/b, b/q, etc;
•Confusão de letras que possuem sons parecidos: b/d, p/q, d/t, m/b, etc;
•Inversão parcial ou total de sílabas ou palavras: me em vez de em, sol em vez de los, som em vez de mos, etc;
•Substituição de palavras por outras estruturas, mais ou menos semelhantes: salvou no lugar de saltou, sentiu no lugar de mentiu;
•Contaminação de sons: lalito em vez de palito;
•Adição ou omissão de sons, sílabas ou palavras: casa em vez de casaco, neca em vez de boneca, etc;
•Repetição de sílabas, palavras ou frases: mamacaco, paipai;
•Salto de linha, volta à linha anterior e perda da linha durante a leitura;
•Acompanhamento com o dedo da linha que está sendo lida;
•Leitura do texto, palavra por palavra;
•Problema de compreensão do texto;
•Escrita em espelho (em sentido inverso ao normal);
•Letra ilegível;
•Leitura analítica e decifratória. Quando lê silenciosamente a criança não consegue deixar de murmurar ou mover  os lábios, pois precisa pronunciar as palavras para entender o seu significado;
•Dificuldade em exprimir suas idéias e pensamentos em palavras;
•Dificuldade na memória auditiva imediata.
 
8. Problemas emocionais
Lima (2002), coloca que o jovem e o adulto em processo de alfabetização muitas vezes já trazem no corpo o sentimento construído socialmente de serem “não leitores” e/ou “não escritores”. Não saber ler ou escrever tem um “desapreço” social muito grande, e a pessoa traz este sentimento consigo. Esta tensão e esta visão de si mesmo como “não aprendiz” estão presentes quando a pessoa se senta para escrever, e se manifesta muitas vezes na rigidez do braço e mão, muitas vezes anulando o movimento do pulso (necessário para escrever). A experiência emocional da escrita também se manifesta em verbalizações como “não gosto de escrever”, “não quero aprender a escrever” ou “não sou bom para escrever”... Ela só se modificará  quando a criança se vir efetivamente “realizando” o ato de escrever. 

A criança disléxica, é geralmente triste e deprimida, pelo repetido fracasso em seus esforços, para superar suas dificuldades, outras vezes, mostra-se agressiva e angustiada. Estes intensos sentimentos de inferioridade, provocam frustrações, como a reprovação e a evasão, que são ocorrências comuns na vida escolar do disléxico. Existem, também, conseqüências mais profundas, no nível emocional, como diminuição do auto-conceito, reações rebeldes e delinqüências.

Em geral, a criança  é considerada relapsa, desatenta, preguiçosa e sem vontade de aprender, o que cria uma situação emocional que tende a se agravar, especialmente em função da injustiça que possa vir a sofrer. Seu  esforço de lutar contra as dificuldades, a censura e a decepção, às vezes, leva a criança disléxica a manifestar sintomas como dores abdominais, de cabeça ou transtornos do comportamento.

Em geral, os problemas emocionais surgem como uma reação secundária aos problemas de rendimento escolar. As crianças disléxicas tendem a exibir um quadro mais ou menos típico, com variações de criança para criança, cujas características são a reduzida motivação e empenho pelas atividades, recusa de situações e atividades que exigem leitura e escrita, sintomatologia ansiosa, perante avaliações ou atividades de leitura e escrita, sentimentos de tristeza e de culpabilização, reduzida auto-estima, insegurança, vergonha, incapacidade, inferioridade e frustração, comportamento de oposição e desobediência perante pais, professores, enurese noturna e perturbação do sono.

9. Diagnóstico
“A palavra diagnóstico provém de dia (através de) e gnosis (conhecimento). Se nos atemos à origem etimológica e não ao uso comum (que pode significar rotular, definir, etiquetar), podemos falar de diagnóstico como “ um olhar-conhecer através de”, que relacionaremos com um processo, com um transcorrer, com um ir olhando através de alguém envolvido mesmo como observador, através da técnica utilizada e, nesta circunstância, através da família.” (FERNANDEZ, 1991)

Para fazer um diagnóstico correto, deve-se verificar inicialmente, se na história familiar existem casos de dislexia ou de dificuldades de aprendizagem e se na história desenvolvimental da criança, ocorreu um atraso na aquisição da linguagem, pois as pessoas disléxicas pensam primariamente através de imagens e sentimentos, e não com sons e palavras, sendo bastante intuitivas.

O primeiro passo é excluir as possibilidades de outros distúrbios. Há problemas de origem neurológica, sensoriais, emocionais ou mesmo dificuldades de aprendizagem por falta de ensino adequado ou de um meio sócio-cultural satisfatório.
    
Segundo orientação da ABD, o diagnóstico só pode ser feito após a alfabetização, entre a primeira e a segunda série. Pois a escola alfabetiza precocemente, e a criança não acompanha porque não tem maturidade neurológica suficiente.

Como o diagnóstico é realizado por uma equipe multidisciplinar, a avaliação deverá identificar dificuldades e necessidades da criança, assim como suas potencialidades.

A avaliação tem seu início com o psicólogo entrevistando os pais, e enviando um questionário para o professor. Após, o psicólogo realizará uma bateria de testes, onde avaliará o nível de inteligência e aplicará testes visomotores, neuropsicológicos e de personalidade.

Seguindo a avaliação, o fonoaudiólogo e o psicopedagogo aplicarão testes de lateralidade (direita, esquerda, mista) e avaliação da aquisição das habilidades (organização espacial e temporal, discriminação e percepção visual e auditiva, memórias tátil e cinestésica, memória imediata e de longo prazo, organização de figuras e praxias orofaciais), teste de leitura (segmentação de palavras – sons unitários e em sílabas, grupos consonantais, dígrafos, vocabulário adquirido, leitura oral  e silenciosa, com compreensão e habilidade para a aquisição fonológica) e testes de linguagem escrita (ditado, cópia, escrita espontânea e material escolar).Também, são solicitados  parecer neurológico e testes oftalmológicos e audiométrico.
 
O diagnóstico final só acontece quando a equipe discute e direciona as suas necessidades, através da entrevista devolutiva, que é feita com os pais.
 
Se o disléxico não for submetido a uma instrução especializada, pode permanecer analfabeto ou semialfabetizado. Geralmente os disléxicos ficam excluídos das profissões e vocações que exigem uma preparação acadêmica.  A criança com dislexia precisa de acompanhamento para estudar.

Condemarin (1986), diz que o objetivo principal do tratamento re-educativo é solucionar as dificuldades localizadas no diagnóstico, que impedem ou dificultam o desenvolvimento normal do processo da leitura.

O tratamento inclui dinâmicas com exercícios auditivos, visuais e de memória. Há programas de computador desenvolvidos para isso.
 
É importante definir um programa em etapas e somente passar para a seguinte após confirmar que a anterior foi devidamente absorvida, sempre retomando as etapas anteriores. É o que se chama de sistema MULTISSENSORIAL e CUMULATIVO.

10. O papel dos pais
Os pais conhecem seus filhos melhor do que ninguém, por este motivo precisam ficar atentos a frustrações, tensões, ansiedades, baixo desempenho e desenvolvimento. É deles a responsabilidade de ajudar a criança a ter resultados melhores, e deve partir deles, a procura de profissionais para realizar um diagnóstico multidisciplinar a cerca das dificuldades da criança, porque quanto mais cedo for realizado o diagnóstico e  intervenção melhor, maiores são as oportunidades de sucesso.

O encorajamento, a ajuda, a compreensão e a paciência (pois o disléxico leva mais tempo para realizar algumas tarefas, e poderá ter de repeti-las várias vezes para retê-las), faz parte do papel dos pais, assim como ir em busca de uma instituição educacional que atenda da melhor maneira às necessidades da criança (por exemplo, estudar o currículo da escola e seu método de ensino).E ter uma relação de troca, fazendo um intercâmbio entre os acontecimentos em casa, na escola e com os profissionais envolvidos. 

Apesar de suas dificuldades o disléxico apresenta muitas habilidades e talentos, como a facilidade para construir, ou consertar as coisas quebradas, ser um ótimo amigo, ter idéias criativas, achar soluções originais para os problemas, desenhar e/ou pintar muito bem, ter ótimo desempenho nos esportes e na música, demonstrar grande afinidade com a matemática, revelar-se bom contador de histórias, sobressair-se como ator ou dançarino e  lembrar-se de detalhes.
 
Portanto, é importante que os pais focalizem sempre o que ele faz melhor,  encorajando-o a fazê-lo. Faça elogios, por ele tentar fazer algo que considera difícil e não o deixando desistir. Ressalte sempre as respostas corretas e não as erradas, valorizando seus acertos. Tranqüilize a criança, pois apesar das dificuldades de aprendizagem, ela é inteligente e esperta. E não deixe a criança sentir que o seu valor como pessoa está relacionado ao seu desempenho escolar.

É importante, a criança notar que as pessoas a sua volta estão auxiliando-a , isso deixa-a mais segura. O acompanhamento e/ou programas especializados na alfabetização também auxiliam. Os pais precisam mostrar para a criança que estão interessados na sua dificuldade, pois quanto mais ajuda, zelo, carinho, afeto e compreensão mais ela se sentirá capaz para evoluir.

Os pais podem auxiliar seu filho disléxico, programando o seu dia, através do horário do sono, incentivando a comunicação (falar e escutar são importantes), conversando bastante com a criança, expressando sentimentos, demonstrando interesse, tendo vocabulário e fala fluente e estimulando suas habilidades.

Para o disléxico organizar-se, é necessário dividir o tempo, para fazer as lições de casa, dividir trabalhos longos em partes menores, ter um lugar específico para fazer as lições e atividades, usar agenda, calendário visíveis e fazer planejamento diário para suas tarefas.

O fundamental é identificar o problema e dar instrumentos para a criança, apesar da dificuldade, levar vida normal do ponto de vista acadêmico, familiar e afetivo. Há indivíduos que vão depender sempre de um corretor de texto. Mas, muitos escritores famosos fazem isso sem constrangimento. Como eles, os disléxicos também podem escrever livros belíssimos, desde que corretamente orientados e incentivados.

Referencial Bibliográfico
AJURIAGUERRA, J. de e colaboradores. A dislexia em questão: dificuldades e fracassos na aprendizagem da língua escrita.  Porto Alegre,   Artes Médicas, 1984
ALLIENDE G., Felipe   A leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento.   Porto Alegre : Artes Médicas, 1987
BAUER, James J. Dislexia: ultrapassando as barreiras do preconceito.   São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997
COLL, César PALACIOS, Jesus e MARCHESI, Álvaro.   Desenvolvimento psicológico e educação: necessidades educativas especiais e aprendizagem  escolar.   Porto Alegre: Artes Médicas, 1995   vol. 3
CONDEMARIN, Mabel e BLOMQUIST, Marlys. Dislexia: manual de leitura corretiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986
FERNANDEZ, Alicia. A Inteligência Aprisionada – Abordagem Psicopedagógica Clínica e Sua Família . Porto Alegre: Artmed, 1991
FONSECA, Vitor da.    Introdução às dificuldades de aprendizagem . 2ª ed,  Porto Alegre: Artes Médicas, 1995
HOUT, Anne Van e ESTIENNE, Françoise. Dislexias: descrição, avaliação, explicação , tratamento. 2ª ed,  Porto Alegre:  Artmed, 2001.
IANHEZ, Maria Eugênia e NICO, Maria Ângela.  Nem sempre é o que parece: como enfrentar a dislexia e os fracassos escolares. São Paulo: Elsevier, 2002
JOSÉ, Elisabete Da Assunção e COELHO, Maria Teresa.  Problemas de aprendizagem .  10º ed,  São Paulo:  Editora Ática, 1999.
LEONG, Che Kang. Annals of Dyslexia. The International Dyslexia Association, 2003
LIMA, Elvira Souza.  Quando a criança não aprende a ler e a escrever.   São Paulo: Editora Sobradinho, 2002
PAÍN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985
PENNINGTON, Bruce F.  Diagnóstico de distúrbios de aprendizagem: um referencial neuropsicológico. São Paulo: Pioneira, 1997
PINTO, Maria Alice Leite (org) Psicopedagogia diversas faces, múltiplos olhares.   São Paulo: Olho d Água, 2003
ROTTA, Newra Tellecha…[et al.] Transtornos da Aprendizagem: Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed,2006
SELIKOWITZ, Mark. Dislexia e outras dificuldades de aprendizagem.  Rio de Janeiro:  Editora RevinteR, 2001
SMITH, Corinne e STRICK, Lisa. Dificuldades de aprendizagem de A a Z. Porto Alegre: Artmed, 2001
VALLET, Robert E. Dislexia: uma abordagem neuropsicológica para a educação de crianças com graves desordens de leitura São Paulo : Manole, 1989
Associação Brasileira de Dislexia (ABD)
www.dislexia.org.br
http://www.medsys.com.br/ultimas_not/noticias.php?cd_noticia=577

Publicado em 23/10/2006


Dany Kappes, Gelson Franzen, Glades Teixeira, Vanessa Guimarães -

Dany Kappes –  Pedagoga com habilitação em Orientação Educacional.
Gelson Franzen –  Bacharel em Ciências Contábeis, formação pedagógica licenciatura plena em Matemática, Estatística, Contabilidade, Direito e Legislação.
Glades Teixeira –  Graduada em Letras  - Português e Literatura.
Vanessa Guimarães - Pedagoga com habilitação em Orientação Educacional, Especialista em Educação Infantil.

Dê sua opinião:

Clique aqui: Normas para Publicação de Artigos