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“PUXAR OU EMPURRAR A PORTA DE UM BANCO"

Edmilson José de Sá

UMA ANÁLISE SOBRE AS DUAS FACES DA TRADUÇÃO

RESUMO:

Este artigo tem como finalidade propor uma reflexão a cerca dos perigos que estudiosos de língua estrangeira têm que enfrentar na hora de traduzir um texto. Ele procura informar fatos que ocorreram em sala de aula e oferecer sugestões contidas em uma bibliografia apropriada. Vê-se que muitas vezes o tradutor se baseia sempre pela semelhança que a palavra ou expressão tem em sua língua materna ou pela tradução literal e não percebe que isto não é possível em todos os textos. Assim, foi realizada a pesquisa com subsídios teóricos e práticos sobre o tema e possíveis conselhos para ter mais sucesso em traduções.

PALAVRAS-CHAVE: língua, tradução, compreensão.

 

ABSTRACT: 

This article has as purpose to propose a reflection about the dangers that learners of a foreign language have to face in order to translate a text. It tries to inform facts that happened in classroom and to offer suggestions contained in an appropriate bibliography.  We often realize that the translator always works based for the likeness that the word or expression has in his mother tongue and and he doesn't notice that this is not possible in all the texts. So, the research was accomplished with theoretical and practical subsidies about the theme and possible advices to be more successful in translations.

KEY-WORDS: language, translation, comprehension.

 

INTRODUÇÃO

Este trabalho está comprometido com minha experiência como professor de inglês, vinculado a meu desejo de entender as questões relacionadas à dificuldade de tradução e ao desejo de contribuir para construir não soluções, mas caminhos, possibilidades de superação de dificuldades relacionadas à compreensão de textos em língua inglesa.

Considerando que o texto escrito constitui uma teorização do real, a compreensão significa uma experiência que leva os sujeitos a processarem um novo modo de reflexão através da análise crítica da linguagem, produzindo um redimensionamento de suas relações com a cultura mundial. Além disso, e inclusive por isso, torna-se evidente a importância da compreensão para inserção dos alunos como cidadãos atuantes e em condições de exercerem seus direitos de participação em uma sociedade letrada. Portanto, visando contribuir para a formação de leitores-tradutores-críticos e diante da constatação de que os sujeitos acham-se cada vez mais expostos e vulneráveis à compreensão puramente metódica de um texto em inglês, tomei como objeto de investigação a compreensão crítica de expressões em inglês e os perigos que uma tradução literal podem trazer.

 

A ORIGEM DA TRADUÇÃO FACE A SEU VERDADEIRO USO

Se você já teve dúvida se precisava puxar ou empurrar a porta ao entrar num banco quando se deparou com a palavra push, não foi a primeira pessoa agir por engano. Por outro lado, ao encontrar um extintor de incêndio na entrada de um hotel, você deve ter pensado em pular para que ele caísse e não puxar a alavanca. Ora, você viu a placa pull ao seu lado. Nada mais normal de se pensar das pessoas que, por algum motivo ainda não descoberto, não atentam para os seus inimigos mortais, chamados de falsos cognatos e se limitam a fazer sua correspondência materna de forma livre.

A própria palavra “tradução”, que vem do latim traducere, se mantém nesse patamar de caminhos suntuosos, uma vez que seu próprio sentido original é de conduzir alguém de um lugar para outro, apesar de que, para chegar a esse caminho, não se está livre de passar por alguns obstáculos nada insignificantes.

O próprio Bocage mostrou que uma simples vírgula dá um sentido duplo como ocorreu na frase "Matar o rei não, é crime!". Observa-se que um simples esquecimento condena um rei à execução, ao mesmo tempo em que a falta de compreensão de qualquer termo desconhecido pode lhe fazer matar alguém sem que essa pessoa tenha sequer aparecido na história.

 

TRADIÇÃO x MUDANÇAS, UMA PERSPECTIVA PARA A REALIDADE

É certamente verdade que evitando, ou até mesmo ignorando, L1 na sala de aula tem sido uma tendência e a tradução tem há muito tempo se consumido como uma pobre relação na família de técnicas de ensino de idioma. Este fato pode ser atribuído a uma reação forte contra o método de tradução e gramática desde que apenas a tradução, embora uma necessidade nesses dias, resultasse em pouquíssimo uso comunicativo do idioma alvo, com uma escassa oportunidade para os estudantes praticarem isto. O 'balanço do pêndulo' afastou a tradução, para a extensão que alguns professores ignorariam sua possível utilidade na sala de aula. Não obstante, a pessoa deveria considerar os dois lados da moeda.

 

TEXTOS LITERÁRIOS E EXPRESSÕES QUOTIDIANAS – O QUE SE FAZ PARA COMPREENDÊ-LOS?

Inicialmente admito que foi-me difícil compreender, por exemplo, um trechinho da obra ‘A Pair of Blue Eyes’ de Thomas Hardy, famosíssimo escritor da Literatura Inglesa do século XIX em que ele menciona “... I’d ever have lowered my dignity to marry, or there's not bread in nine loaves”, com o dificílimo sentido de que “algo é tão certo como dois e dois são quatro”. O mesmo processo ocorreu no poema de Elizabeth Barret Browning ‘If thou must love me’ no qual ela relata “... neither love me for thine own dear pity's wiping my cheeks dry” e eu a traduzi para o sentido de ‘não me ame por ter pena de ver minha face enrugada pelo tempo’.

O que seria de mim se, ao ver a versão americana de Leaves of Grass de Walt Whitman, “Unscrew the locks from the doors! Unscrew the doors themselves from their jambs!” não fizesse a correspondência como Liberte-se! Liberte as suas próprias vidas de suas pressões, ao invés do original “Desatarraxe as travas de suas portas! Desatarraxe as próprias portas de seus umbrais!”. Seria um desastre, não?.

Como se vê, o uso do dicionário não é um mecanismo único para se chegar à perfeita compreensão. Imagine quantos dias alguém passaria para colocar uma expressão do tipo ‘perdido feito cego em tiroteio’ para o inglês, quando existe a forma simplória like a bull in a china shop ou para colocar a expressão inglesa “when two Sundays come in the same week” que em português poderia simplificar dizendo “no dia de São Nunca”.

As peripécias mentais que um estudioso de línguas precisa fazer para traduzir uma expressão do português para o inglês não são poucas. Há inúmeras palavras polissêmicas, ou seja, há vários sentidos diferentes como os da palavra “ponto” que poderia se perder nos contextos de ponto de ônibus, ponto de bolo, ponto de cruz ou na expressão de surpresa "a que ponto chegamos?”.

Deve-se, assim, levar em conta a cor local do povo nativo que tem sua própria cultura, sua própria maneira de pensar e de agir e nós estamos aprendendo a sua forma de vida, sintetizada em seu idioma, mas não estamos pensando como eles. Há que se fazer uma adaptação de expressões tão corriqueiras para eles, mas tão confusas para nós. Quem já imaginou que a expressão “before you can say Jack Robinson” poderia significar “antes que o diabo esfregue o olho” ou que o simples go and eat cake! não é um convite a um lanchinho mas uma expressão de raiva, mais ou menos do tipo "Vá para o inferno!"?

Não deixemos de lado as dificuldades que supostamente devem ter os nossos vizinhos do outro lado para dizer em inglês, saudade, sertão, cafundó dos judas, etc...

Uma vez me pediram para colocar em inglês uma alusão francesa que Edmond Rostand faz ao beijo em seu livro Cyrano de Bergerac. O trecho que diz "c'est un point rose qu'on met sur l’i du verb aimer foi colocado em inglês como It’s a pink point we put on the i of the life I give you”, graças a uma leitura que eu fiz da versão que o tradutor Carlos Porto Carrero fez em português, definindo o beijo como um ponto cor de rosa que se põe sobre o i do lábio que se adora. Se ele não pôde defini-lo como um ponto colocado no i do verbo amar, que não tem esta vogal em português como tem em francês, tive também que fazer uma adaptação, trocando amar por vida que em inglês é life e tem i na sua escrita.

 

ARGUMENTOS CONTRA TRADUÇÃO

Não obstante, se for muito usada, a tradução pode conduzir os estudantes a acreditar que este é o único meio que eles têm para entender sentenças ou eles poderiam ficar dependentes dela para gramática e áreas léxicas que eles acham mais difícil de assimilar, opinião de Zeny, com certeza seguida por muitos orientadores. Além disso, ela pode interferir ou até mesmo dificultar o processo de desenvolvimento de sua cultura interior de modo que seu raciocínio pode ficar altamente dependente em associações que poderiam ser desnecessárias dependendo da área ou assunto. A este respeito, estudantes podem não desenvolver a estrutura necessária para estabelecer relações de sentido em L2 devido a dependência da estrutura na L1. 

 A tradução também não é mais do que uma dos infinitos caminhos para lidar com gramática ou vocabulário. É necessário valer-se de outras atividades enquanto estiver trabalhando com vocabulário, por exemplo, para promover habilidades importantes como procurar sinônimos, antônimos e definições em L2, treinar os estudantes para parafrasear e usar aproximação que são alternativas úteis para recorrer. Se a tradução é muito usada, estas habilidades podem não ser desenvolvidas bem. 

 

CONCLUSÃO: QUE PASSOS DEVO SEGUIR?

É traduzindo que se aprende a traduzir assim como só se aprende a nadar, nadando, afirmam alguns. Vejam, pois, alguns conselhos práticos para o trabalho de tradução, recomendados por Geir Campos, a partir de um estudo feito por Karl Dedecius:

a) Traduza unicamente o que você mesmo descobrir na língua do original;

b) Traduza apenas obras originais...e evite os textos de moda: o que tem valor impõe-se em todos os tempos;

c) Não comece a traduzir antes de ter pleno conhecimento da obra;

d) Dê preferência aos contemporâneos;

e) Trabalhe devagar;

f) Sinta-se sempre inseguro; não confie em qualquer dicionário, questionando-se e reexaminando-se permanentemente.

g) Jamais considere perfeitamente acabada uma tradução sua;

h) Não se preocupe em demasia com a remuneração de seu trabalho;

i) Não traduza por escolha de outrem; só traduza o que for de seu agrado;

j) Habite-se ao papel de ator, interpretando cada vez mais.

 

Contudo, o fato de que os estudantes têm uma língua materna e que ela também molda sua aprendizagem de um segundo idioma, não pode ser ignorado. Adequadamente, parece ser visto em novos olhos. Tal aplicação pode ser encontrada em materiais atualizados, publicados para o trabalho de classe e como exemplos estão recentemente alguns livros ou cursos publicados que defendem o uso cuidadoso e seletivo de tradução e equivalência.  

Por que não dar uma olhada neles?  Temos que ser fiel ao momento e à situação em que encontramos a expressão de qualquer idioma que seja.  Devemos, pois, atentar aos interesses lingüísticos que nos mostram as origens léxicas dos idiomas e nos levam a mundos distantes e, ao mesmo tempo, tão presentes em nossas vidas. Para a nossa sobrevivência, precisamos adquirir interesse e familiaridade com as línguas e, portanto, com o ponto de vista cultural de nossos vizinhos do planeta TERRA.

Referências bibliográficas

CAMARGO, Marisis Aranha, Basic Guide to American Literature, Editora Pioneira, São Paulo, 1986.

CAMPOS, Geir, Como Fazer Tradução, Coleção Fazer, Editora Vozes, Petrópolis, 1986.

DUFF, Allan, Translation.1989, Oxford University Press.

SANTOS, Sebastião dos, Manual Prático para o ensino de Inglês, Edições de Ouro, 1980.

WALLACE, Michael. Teaching Vocabulary. 1982, Heinemann.

ZENY, Maria Edvirgem, Translation: two sides of the coin, New Routes, Disal, Janeiro 2002.

Publicado em 05/07/2006 15:06:00


Edmilson José de Sá - Mestre em Lingüística pela UFPE, professor de Português e Inglês em escola pública e professor de Literatura Língua Inglesa e Norte-Americana e Prática de Ensino no Centro de Ensino Superior de Arcoverde, em Pernambuco.

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