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A RELEVÂNCIA DOS ASPECTOS FÍSICO E TEXTUAL DO LIVRO INFANTIL

Maria Aparecida de Almeida

Introdução:

Nos inúmeros discursos sobre a literatura infantil e sua importância para o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, muitas vezes é colocado de maneira preconceituosa a ênfase dada pelas editoras ao formato físico dos livros infantis, sabendo que são inúmeros os consumidores desse material que se atêm principalmente a esses aspectos no momento da escolha para aquisição.  Muitos equívocos são cometidos nesse sentido, pois, uma vez conhecida toda a gama de possibilidades que o texto literário e imagético oferecem, deve-se considerar também as possibilidades oferecidas pelos aspectos físicos dos livros.  O texto de qualidade não corre riscos com os valores agregados pela riqueza do formato de seus portadores. Há que se observar é se em uma rica elaboração de um portador de texto não se encontra um texto sofrível e insuficiente.

 

O Livro e a Literatura Infantil:

È muito interessante observar o poder de atração e sedução que a literatura infantil exerce sobre as crianças.

Denomina-se literatura infantil os contos de fadas, as fábulas, as lendas e poesias e suas histórias maravilhosas, que trazem em si muitos dos dilemas existenciais experimentados pelo homem no decorrer de sua vida. Esses problemas se dão através do embate entre o positivo e o negativo, o bem e o mal, o feio e o belo; através da vivência da perda e rupturas, como a morte e as separações; as carências e privações materiais, as injustiças e as relações de poder.

Nos contos o herói sai de uma situação de equilíbrio, enfrenta um dilema apresentado passando por diversos obstáculos e, ao final vence, voltando ao equilíbrio, mais forte, maduro e valente.

O mesmo ocorre nos contos de fadas, onde, ao vencedor é oferecida a mão da princesa. Porém, nessa modalidade, quando as soluções não podem derivar de negociações e tomadas de decisões, entram em cena os seres fantásticos e imaginários e resolvem tudo da maneira mais desejável, ou ainda são aos próprios homens que adquirem poderes maravilhosos e mágicos e rapidamente vencem todas as dificuldades, desafiando as leis naturais, consolando os leitores sequiosos por respostas às suas próprias elaborações mentais e emocionais.

A princesa, por sua vez, também enfrenta os obstáculos que influenciarão em sua equilibração. Ao final estará pronta para merecer o belo príncipe e se casar com ele, sendo feliz para sempre. Em ambos os casos, o príncipe ou a princesa como prêmio para o vencedor, simbolizam a vitória, com a superação das adversidades, atingindo o fim objetivado.

A leitura deste tipo de literatura é, indubitavelmente, muito recomendável para as crianças. Ao entrar em contato com narrativas delicadas, bem elaboradas e que certamente despertarão o imaginário, a criança projeta um cenário todo próprio, particular, construído com as ferramentas informacionais de que dispõe e ao mesmo tempo construindo outros conhecimentos que já se encontram em sua zona proximal, auxiliando também o desenvolvimento de habilidades como a imaginação, a criatividade, a criticidade, a tolerância, a prontidão para a socialização, a apreensão e a compreensão do mundo. Delineiam também seus conceitos éticos e valores, além de encontrar subsídios para a compreensão dos seus conflitos internos.

A literatura infantil é, portanto, importante referencial para as crianças no auxílio ao seu desenvolvimento cognitivo e emocional.

Porém, a literatura infantil não cai no gosto exclusivamente das crianças, agradando também aos adultos, quer pela sua própria graça, quer pelas reminiscências da infância.

As marcas deixadas pelas sensações provocadas por um bom texto literário são indeléveis e ressurgirão sempre, todas as vezes que o texto for lido. Mesmo quando o sujeito atingir a fase adulta, ao reler o texto, as lembranças deste período ainda despertarão as boas e profundas emoções da infância.

Atualmente, além dos clássicos, o público conta também com a moderna literatura infantil, que agrega inúmeros autores e ilustradores em um acervo fascinante e de igual importância.

Quem trabalha com bibliotecas ou em bibliotecas e tem o privilégio de lidar com os livros de literatura infantil pode observar a riqueza de cores, formatos e tamanhos que eles apresentam. É uma festa para os olhos. A formatação e a diagramação dos livros, seu aspecto físico, a cada dia ganham mais ênfase pelas editoras, autores e ilustradores.

Mas é necessário avaliar todos os aspectos de tudo aquilo que envolve a educação e o aprendizado da criança e que ajudará a compor o universo que integra o suporte para sua formação como sujeito no e com o mundo. 

A leitura que a criança faz dos aspectos físicos do livro não é menos importante que a leitura do texto verbal, pois ela fará assim, a abstração de suas propriedades observáveis e signos visuais.

Para Vygostky, os signos visuais exercem função semelhante aos instrumentos de trabalho elaborados pelo homem para a realização das suas atividades, permitindo sua intervenção na natureza de uma maneira intencional, o que não ocorre com os animais. Elaborado o instrumento, o homem ainda tem a capacidade de aperfeiçoá-lo, conservá-lo e transmitir os conhecimentos relativos à sua construção e utilização a outros membros de seu grupo. Os instrumentos psicológicos auxiliam o homem em suas atividades psíquicas. Com eles o homem pode controlar suas atividades psicológicas, além de ampliar sua capacidade de atenção, memória e acúmulo de informações.

Ao discutir a importância dos modelos para que a criança desenvolva um comportamento de realização de signos visuais, Wilson & Wilson (in BARBOSA, 2002), afirmam que a criança cria sua arte a partir dos modelos que lhes são apresentados para representar signos verbais ou objetos.

Os signos visuais podem ser apresentados nas mais diferentes formas, cores e estilos, desde que remetam ao objeto ou ao signo verbal representado, como, por exemplo, uma flor, um carro ou uma nuvem. A partir da observação da possibilidade de representar um mesmo signo de diversas formas e cores a criança tem a oportunidade de escolher seus próprios modelos ou ainda fazer uma releitura dos modelos escolhidos, desenvolvendo sua capacidade psicológica e criando sua arte.

Além disso, ao fazer a leitura imagética do livro, mesmo sozinha a criança reconhecerá a representação de objetos pertencentes ao seu universo cultural, desprezando ou ignorando o que não lhe faz sentido, ou seja, a leitura sempre terá significação para ela.

Alguns artistas plásticos dedicam-se à ilustração de livros, impregnando-os de sensibilidade e elevando seu valor artístico, o que transforma o simples manuseio do livro em um deleite para o leitor, mesmo o ainda não alfabetizado.

O livro de literatura infantil agrega, portanto, a riqueza e importância do texto verbal e do texto imagético, além do próprio formato físico, como tamanho, peso, recortes diferenciados, cores, textura, que proporcionam a abstração de suas propriedades observáveis. Nesse sentido, podemos avaliar a grande importância do apelo visual do livro infantil.

Obviamente o mercado editorial não está alheio a esse novo filão mercadológico e não deixa por menos, investindo cada vez mais em publicações infantis, enchendo as prateleiras das livrarias, causando sensação entre os consumidores e leitores, obrigando bibliotecas que atendem ao público infantil a constantes aquisições.

Pais e adultos responsáveis pela criação de crianças também são atraídos pelo apelo visual do livro infantil e é aí que surge a discussão sobre o tema, pois, muitas vezes, esses adultos não têm o hábito de leitura e nem lêem para suas crianças, delegando à própria criança essa função. É justamente nessa hora que o texto verbal é relegado ao segundo plano.

Ao escolher um livro para a criança, geralmente o adulto o manuseia, observa-o atentamente, corre os olhos pelo título e pelo texto escrito e opta pelo que considera mais agradável aos olhos, e pelo que julga que agradará mais à criança, segundo o critério do aspecto físico. Dificilmente atém-se ao texto literário.

Com isso, ao acompanhar de perto as novas publicações voltadas para o público infantil, é possível observar a queda na sua qualidade literária, o que, além de lamentável é preocupante.

Quem está atendo ao texto literário às vezes se sente traído ou subestimado. Por trás de uma super produção no que concerne às ilustrações, cores e formas, é possível ser surpreendido por textos não tão elaborados.

Algumas publicações focam as histórias da literatura clássica infantil, mas muito pouco preocupadas ou comprometidas com a narrativa da história, com os meandros dos contos, com o encantamento que as palavras tocadas pela arte podem oferecer. Elas apenas informam a história, de maneira clara, objetiva e sucinta. Assim, quando é perguntado à criança que teve acesso a uma história da literatura infantil por meio de uma publicação nestes moldes, se ela conhece a história, ela diz que sim, que conhece. Porém não demonstra grande entusiasmo, como se fosse apenas mais uma informação a que ela teve acesso.

Diferentemente agem as crianças que ouvem as mesmas histórias, ou as lêem, a partir dos textos elaborados de forma mais comprometida com a literatura. Elas são capazes de recontar a história descrevendo detalhes dos lugares onde ocorreram, descrevendo os cenários, as características físicas dos personagens, os figurinos, seus sentimentos e emoções e os aspectos da personalidade e do caráter dos protagonistas e antagonistas. Mais facilmente elas elaboram seus julgamentos de valores, clarificando o bom e o mal, o certo e o errado, o positivo e o negativo. A assimilação da problemática descrita, dos conflitos narrados e a conclusão de que para tudo existe uma solução, seja ela a mais desejável ou não, ajudarão a criança a compreender o mundo e a buscar soluções para seus conflitos internos.

Alguns textos são escritos em forma de rimas. Não que sejam poesias, pelo menos não parecem ter a pretensão de ser, tão longe estão dessa forma literária; apenas são escritas de maneira que as frases terminem com um verbo no infinitivo. Estes, por sua vez, são colocados de forma tão forçada, que a frase parece ficar meio pelo avesso.

Depara-se também com as publicações que são proclamadas como literatura infantil ou infanto-juvenil, mas que têm o objetivo de trabalhar conteúdos das disciplinas escolares. Trabalha-se a higiene corporal, comportamentos, ciências, o reino animal, conceitos matemáticos, dificuldades da língua portuguesa, biografia de pintores famosos, conflitos familiares e sociais, afetividade e sexualidade, etnia e diferenças, o folclore e seus personagens, enfim uma gama de temas. Essas publicações objetivam auxiliar o professor no seu trabalho educativo. A leitura desses livros geralmente está vinculada ao trabalhado desenvolvido em sala de aula, visando ilustração e diversificação na abordagem do conteúdo. Porém, como possuem uma ficha técnica organizada na editora que os classifica como literatura – infantil ou infanto-juvenil - ocasionam equívocos entre os adultos, educadores ou não, pouco informados sobre os paradigmas educacionais e entre aqueles que não têm noção do verdadeiro conceito e dimensão da literatura infantil.

Não pode ficar aqui subentendido que não existe a possibilidade de se trabalhar pedagógica ou didaticamente a literatura infantil. O que não é possível é classificar como literatura infantil os textos didáticos.

A literatura que carrega a marca da obra de arte oferecerá diversos níveis de leitura, pois é marcada pela plurissignificação. Desta forma, inúmeras informações podem ser obtidas através de sua leitura, entrando em contato com o universo da criança, sendo transformadas, assimiladas e apropriadas por ela. Desta forma pode-se trabalhar pedagogicamente a literatura.

Já o texto didático não oferece flexibilidade em sua leitura, sendo rígido em sua forma e direcionando o leitor para um ponto já estabelecido e objetivado, dando a ele uma única interpretação.

É comum encontrar também pequenas publicações vendidas a um preço bem acessível, o que as torna um grande sucesso de vendas. São encontradas em supermercados, lojas de departamentos, enfim, muitos lugares onde pais circulam com as crianças e cedem aos impulsos do consumo. Curioso é que geralmente as crianças menores gostam muito dessas publicações, exatamente pelo estilo simples, direto e colorido de suas ilustrações.  Sendo fiéis ao texto escrito, ilustram de maneira evidente a idéia central do texto contido em cada página, de maneira que, quando a criança decodifica o texto ou alguém o faz para ela, ela tem uma fácil compreensão da sua mensagem mais óbvia. Apesar das ilustrações assim apresentadas oferecerem a possibilidade de serem modelos de representações de signos visuais e verbais para as crianças, serem atraentes e de fácil compreensão, sem dúvida irão tolher a capacidade da criança de fantasiar e desenvolver seu imaginário. 

Conclusão:

Assim colocado, fica evidenciado o alcance da obra de arte literária como um todo e daí a necessidade de uma atenção especial na avaliação e escolha dos livros que são ofertados às crianças, uma vez que, ao fazer a leitura de um bom livro, a criança não está desenvolvendo uma tarefa simples e superficial. Durante o breve momento da leitura ela se ausenta do mundo a que pertence e se apropria do mundo e da realidade que lhe é apresentada no texto literário e no texto imagético e estes ainda são auxiliados pelas oportunidades de fantasia que a formatação física do livro oferece. Ao regressar dessa viagem ela já não é a mesma, pois suas elaborações mentais foram influenciadas pelo próprio contato com o livro e pelas experiências vividas pelos personagens da história. E, espera-se, da mais bela história.

Referências:

ABRAMOVICH, F. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1991.

WILSON B.; WILSON M. Uma visão iconoclasta das fontes de imagem nos desenhos das crianças. in BARBOSA, A. M. (org). Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 2002.

FERREIRA, Norma S. de A. Literatura infanto-juvenil: arte ou pedagogia moral? São Paulo: Cortez, 1982.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se complementam. 2. ed. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1982.

VYGOSTKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

Publicado em 21/06/2006


Maria Aparecida de Almeida - Ex-professora na Rede Pública Municipal de Educação de Belo Horizonte; ex-professora 
Na rede Pública Estadual de Educação de Minas Gerais; Graduada em Biblioteconomia  pela UFMG; especialista em Psicopedagogia pela UCB-RJ; especializando em Educação Especial para super dotados e talentosos pela UFLA-MG; atuando como auxiliar de  Biblioteca escolar na Rede Pública Municipal de Educação de Belo Horizonte – (escola  Municipal Vereador Antonio Menezes). Gestora de Cultura/Bibliotecária e atuo na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte/Minas Gerais.

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