Para imprimir este artigo sem cortes clique no ícone da impressora >>>
 

AS TEIAS DA RAZÃO

Cláudia Maria de Morais Souza

Como definir a razão? Hoje, como nunca, parece uma tarefa dificílima caracterizá-la de um modo claro. Para mim, neste momento, a melhor definição se encontra em Morin : A razão é a aplicação de princípios de coerência aos dados fornecidos pela experiência.

Como definir a razão? Hoje, como nunca, parece uma tarefa dificílima caracterizá-la de um modo claro. Para mim, neste momento, a melhor definição se encontra em Morin :


A razão é a aplicação de princípios de coerência aos dados fornecidos
pela experiência.


Esta definição vai harmonicamente de encontro à obra de Jean Piaget e de seus seguidores. Ora, Piaget dedicou sua vida a perseguir a razão pelo viés da construção do conhecimento. Em diversas obras podemos vê-lo interessado nas teias da razão, embora em sua epistemologia esta busca não seja óbvia. Mas na medida em que Piaget adota a dialética como referência e a psicogenética como elemento organizador, parece tarefa gratificante pensar a razão - e seus usos - sob a ótica do pensamento piagetiano, alinhavando-o às concepções do Pensamento Complexo.
A razão pode evoluir, transformar-se. Pode inclusive, como apontam Adorno e Horkheimeer , autodestruir-se. Para o propósito deste texto, que seria observar seus usos, nos interessaria o caminho de sua evolução. E para tal, seguiremos a rota proposta n'A Construção do Símbolo. 
Pensemos a razão enquanto objeto, portanto passível de uso. O Ser Humano, sistema aberto e dialogante com seu entorno, empreende sua razão no sentido de obter compreensão, do mundo e de si mesmo. E se o faz, é movido por forças intrínsecas absolutamente humanas: busca gratificação, equilíbrio, "majorância". Assim, a razão, como o pensamento, é posta em jogo.
Num nível inicial, encontraríamos a razão imbuída de exercício e de exploração. Trata-se de seus primeiros movimentos: os primeiros olhares que se lançam às coisas, olhares ingênuos e perplexos, repletos de individualidade.
Neste intervalo, a razão se traduz em impressões, sensações algumas vezes difusas e desordenadas, embora fortes e próximas do real. É o mais perto que conseguimos chegar de um estado de inocência, pureza e abertura à incompletude e à possibilidade de que sempre algo novo possa vir a nos modificar. 
Ainda não está inscrito o olhar-do-outro, no qual, mais cedo ou mais tarde, se pousará o próprio olhar; a alteridade/diferença ainda não foi incorporada. E o Ser pode lançar-se à investigação, estando sujeito às inúmeras resistências que o ambiente lhe ofereça, entre elas o acaso. 
Entretanto, aqui, tudo depende de como a razão lida com o acaso; se o nega, cai no exercício/repetição racionalista e estéril, que fecha seu contato com a experiência nova e a encerra em si mesma, transmutando racionalidade em racionalização. Recorramos mais uma vez a Morin para uma definição:


A racionalização é a coerência lógica que se constrói a partir de
premissas incompletas ou erradas e/ou a partir de um princípio
discursivo mutilador.


Muito do que temos observado no pensamento acadêmico ocidental moderno poderia ser identificado a este uso da razão. O dualismo cartesiano, o objetivismo e a neutralidade "científica" , a primazia do discurso/poder , poderiam ser listados como exemplos da razão/repetição-sobre-si-mesma. 
Este uso é arrogante, egocêntrico, acomodado no sentido em que não comporta o acaso dentro da causalidade, mas é sobretudo pautado pelo verbal: a linguagem sobrepõe-se à razão, domina-a, aprisiona-a em sua cadeia sem-fim e acaba por afastá-la afastando-se do real. O discurso passa a tecer-se em si mesmo, forma-se uma pseudo-razão reducionista e repetitiva. O Ser Racional não consegue libertar-se das exigências da razão/racionalização: a perfeição, o auto-controle, a recusa do erro, a auto-consideração ("Sou um Gênio"), a impossibilidade de interação e de trocas com o meio e muito menos com o outro. Torna-se então escravo da razão, lutando bravamente pela auto-superação. Está definitivamente rompida sua relação com a sabedoria que poderia advir daquela simples perplexidade inicial.

Citando uma vez mais Edgar Morin,...os inocentes, as crianças, os "pobres de espírito" têm, muitas vezes, sobre os problemas centrais de nossas vidas, a visão ingênua e imediata daquilo que escapa aos pensadores sofisticados e aos abstracionistas da quinta-essência.
Retornemos a Piaget e às teias da razão. No caminho de sua evolução, encontramos agora o nível da ficção/do simbólico.
No que poderíamos chamar de pólo negativo, a razão é posta em jogo a serviço do Ser, no intuito de preenchê-lo, completar suas lacunas, administrar suas próprias faltas. É então revestida de um caráter fantástico, mitológico surpreendente: desejando submeter o real a critérios raciocináveis, acaba por delirar. 
E por que motivo isto ocorreria? Aqui lançaremos mão do trabalho de Antônio Damásio . Segundo ele, que dirige um dos principais centros de estudos neurológicos dos Estados Unidos, 
as emoções e os sentimentos podem provocar distúrbios destrutivos
nos processos de raciocínio em determinadas circunstâncias.
Mais uma vez, uma condição determinará o curso da razão: se o Ser Racional é tomado por suas próprias emoções, se só aceita navegar ao vento de seu próprio desejo, produzir-se-á um flagelo de razão denominado misticismo. Este justificará tudo, projetará todas as necessidades do Ser, deformará o que quer que seja em benefício único de si próprio. Não me refiro apenas ao misticismo religioso; muitas outras modalidades podem ser engendradas dependendo do que ocupa o lugar de mito. Até a infância pode ser mistificada: com freqüência observamos pessoas que defendem com unhas e dentes a permanência da criança num "nirvana" imaginário, onde nada/o mundo real possa atingi-la...
Se, da mesma forma, as emoções são negadas como componentes indispensáveis da racionalidade, acontece a mais completa fragmentação: a razão igualmente enlouquece. Pois somos confrontados com a incerteza quando temos de fazer um juízo moral, decidir o rumo de uma relação pessoal, escolher meios que impeçam a nossa pobreza na velhice ou planejar a vida que se nos apresenta pela
frente. As emoções e os sentimentos, juntamente com a oculta maquinaria fisiológica que lhes está subjacente, auxiliam-nos na assustadora tarefa de fazer previsões relativamente a um futuro incerto e planejar as nossas ações de acordo com essas previsões. 
Já num suposto pólo positivo, teríamos a razão criativa, presente na Arte. 
A Arte é ficção/simbolismo/representação, não-mística. Nela, as emoções e os sentimentos não são "de todo intrusos no bastião da razão, podendo encontrar-se, pelo contrário, enredados nas suas teias, para o melhor e para o pior" . E aqui também caberia uma ressalva: não me refiro apenas à produção cultural artística, mas a toda manifestação da Arte em nosso cotidiano: as idéias brilhantes, as estratégias, o "fazer acontecer" , a alegria, a metáfora, o poema, o desprendimento. Trata-se de uma composição equânime entre ficção e verdade, tomada esta relativamente ao Ser Racional, em que uma desdobra-se e traduz-se na outra no sentido de representar-se/simbolizar-se mutuamente. É quando, em Piaget, o "Jogo Simbólico" clama pelo advento da regra.
E eis que chegamos a este momento crucial em que a razão pode, afinal, encontrar-se em seu nível mais complexo: através da construção e das transformações de regras, o Ser Racional é naturalmente convidado ao auto-exame. Piaget pontuou que, no processo de construção de regras,
sucessivas assimilações majorantes conduzem a assimilações reflexivantes, auto-reguladoras e por que não poderíamos dizer, usando a terminologia moriniana, auto-examinadoras. 
Ora, como enfatiza Edgar Morin em outra oportunidade , o modo de pensar da ciência clássica procurava excluir ipso facto o sujeito conhecedor e não dispunha de nenhum princípio de reflexividade. O Eu se encontrava excluído do discurso tanto do estudioso de ciências quanto do ideólogo. Morin propõe a comparação de duas frases idênticas, com a única diferença de um "eu" ausente de uma, presente na outra:

- "X tem uma inteligência traiçoeira".
- "Eu acho que X tem uma inteligência traiçoeira".

Segundo ele, ambas provêm efetivamente de dois universos mentais completamente diferentes e incompatíveis. Eu poderia acrescentar que a primeira frase provem de um universo mental que não passou pela regra (no sentido piagetiano do termo), já que construir regras implica necessariamente numa concepção de relatividade/reflexividade, a qual só pode ser materializada no constante auto-exame. Em toda vontade de conhecimento, está incluída a vontade de auto-conhecimento, assim como em toda construção de regras está incluída uma descentração.
Para Piaget, o sujeito só se descentra efetivamente após ser inscrito na regra. A razão da regra é a meta-razão, isto é, razão-sobre-si-mesma. Seria, portanto, a razão mais fecunda, mais profícua, já que preserva a ingenuidade e a simplicidade iniciais, a arte da razão/ficção e traz ainda a novidade de encontrar o olhar do outro na medida em que olha-se a si mesma. Pois "é preciso ver-se a si próprio para melhor ver fora de si" .
Neste âmbito, deparamo-nos com a autocrítica presente no auto-exame. A autocrítica, embora não possa eliminar seu componente masoquista (como dizia Nietzsche, "quem se despreza, se gratifica ao menos como crítico"), serve-se dele justamente como motor. 

Eu acho uma pena que a cada dia a autocrítica seja mais desvalorizada nos meios acadêmicos, identificada com fraqueza, insegurança e marginalidade. Segundo me parece, é ela que nos conduz a identificar nosso(s) lugar(es) no mundo, nos diversos campos (sócio-cultural, antropossocial, psicológico, etc). E ainda nos torna mais compreensivos em relação ao diferente que se encontra próximo de nós, aceitando a alteridade, trabalhando com ela. Dialogar é isso, como sinaliza Morin:
O Diálogo começa por si mesmo. Para discutir com os outros, é preciso discutir consigo mesmo. Para discutir consigo mesmo, é preciso ser capaz de discutir com os outros.

A modalidade de razão inaugurada no campo das regras propõe sucessivos desdobramentos. Torna-se cada vez mais necessário descentrar-se e distanciar-se em relação a si mesma. Precisa, portanto, do olhar do outro e do pensamento do outro. "A lógica do pensamento complexo necessita de um "ambiente" de confrontação, oposição e até discórdia (...), precisamos de comunicação e de diálogo com olhares diferentes dos nossos, e de modo geral precisamos de uma visão poliocular". 
O percurso da razão é, assim, da perplexidade diante do real à crescente inclusão do Ser Racional nele. Optando ou sendo conduzido, o Ser adota diferentes usos da razão, dependendo de sua história e de suas vivências. Apenas o auto-exame ofereceria a possibilidade de determinar-se o modelo adotado nas diversas circunstâncias.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, M.C. CASTRO, Gustavo. CARVALHO, E. A. (orgs). Ensaios de complexidade. Editora Sulinas, Rio Grande do Sul, 1997.
Coleção Os Pensadores: Adorno.
Coleção Os Pensadores: Horkheimer.
Coleção Os Pensadores: Nietsche
DAMÁSIO, Antônio R. O Erro de Descartes - Emoção, razão e o cérebro humano. Companhia das Letras, São Paulo, 1994.
MORIN, Edgar. Para Sair do Século XX. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1986.
Ciência com Consciência. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996.
Amor, poesia, sabedoria. Editora Artes Médicas, Rio de Janeiro, 1998.
PIAGET, Jean. A Formação do Símbolo na Criança. Editora Artes Médicas, Rio de Janeiro, 1976.
A Psicologia da Crianç
Seis estudos de Psicologia.
A Gênese das estruturas lógicas elementares.

Publicado em 01/01/2000


Cláudia Maria de Morais Souza - Psicopedagoga, consultora educacional, co-diretora do CLIC (espaço de brincadeiras e cultura para crianças) em Belo Horizonte, MG.

Dê sua opinião:

Clique aqui: Normas para Publicação de Artigos

Do mesmo autor(a):

artigos

.Mordendo para Conhecer
.A cultura da criança: por um uso lúdico da pedagogia

opinião

.Efeitos da violência assistida ou narrada em crianças
.O que fazer na educação de nossos filhos?
.Eu e a minha biblioteca