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A INFLUÊNCIA DA CULTURA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DA CRIANÇA DE ENSINO FUNDAMENTAL

Alexsandro Rosa Soares

Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar aos educadores de ensino fundamental a importância da cultura no processo de construção da identidade da criança de ensino fundamental e conscientizá-lo de sua importância como protagonista/expectador deste processo.

 

Palavras-chave: Pluralidade cultural, cultura, educação, sociocultural.

 

INTRODUÇÃO:

As culturas são produzidas pelos grupos sociais ao longo de suas histórias, na construção de suas formas de subsistência, na organização da vida social e política, nas relações com o meio e com os outros grupos, na produção de conhecimentos, nas atitudes a serem tomadas, enfim na vida cotidiana como um todo.

Especificamente falando, a sociedade brasileira é preconceituosa e discriminadora, o Brasil precisa aprender a conviver com as diferenças sem hierarquizá-las. De acordo com LOPES (2001, p.21-25) “o Brasil é, sabidamente, um país multirracial e pluriétnico, o que por conseqüência, implica a existência de diversidade ou pluralidade cultural, muito embora exista enorme dificuldade de reconhecimento dessa diversificação por parte de muitos brasileiros”.

Sabe-se que no princípio eram índios com suas diferentes etnias. Depois começaram a chegar os brancos, logo em seguida, foram trazidos, como escravos, negros africanos. Quer queiramos ou não, mesmo sem considerarmos as influências culturais, já somos um país plural, somos resultado da mistura de muitos povos, de muitas culturas diferenciadas.

Somos condicionados a aceitar pacificamente uma cultura branca ocidental, desconhecendo as demais manifestações ou considerando-as culturas subalternas, primitivas, sem valor maior para a formação da sociedade.

É possível observar a forma como os povos são culturalmente monopolizados, na carta que os governantes dos Estados Unidos, Virginia e Maryland enviaram aos índios das Seis Nações:

Há muitos anos nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os Índios das Seis Nações... Logo depois os seus governantes mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns dos seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes responderam agradecendo e recusando...Eis o trecho que nos interessa:

"... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.

Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos aos saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.

...Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou conselheiros.

Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores de Virgínia para que nos envie alguns de seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.(BRANDÃO, 1998, p.18-19)

 

Uma das principais tarefas do educador, enquanto influenciador social e mediador de conhecimento, são o de possibilitar com que os seus alunos compreendam a não existência de cultura superior ou inferior; certa ou errada, e sim culturas diferentes, que devem ser respeitadas.

 

DESENVOLVIMENTO

 

Para viver democraticamente em uma sociedade plural é preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem. Sabe-se que as regiões brasileiras têm características culturais bastante diversas e a convivência entre grupos diferenciados nos planos social e cultural muitas vezes é marcada pelo preconceito e pela discriminação. Acreditamos que o grande desafio da escola, enquanto instituição socializadora, é investir na superação da discriminação e promover o conhecimento da riqueza representada pela diversidade cultural que compõe o patrimônio sociocultural de qualquer sociedade. Nesse sentido, a escola deve ser local de diálogo, de aprender a conviver, vivenciando a própria cultura e respeitando as diferentes formas de expressão cultural.

Falar sobre influência cultural é como “mergulhar” num estudo aprofundado da vida de cada ser humano tendo em vista a influência que a cultura e a sociedade têm na sua personalidade e no seu modo de viver.

A influência cultural na educação deve ter como meta à formação da criança enquanto ser humano criativo, dotado de inteligência, proporcionando que o mesmo possa expressar-se e intensificar o relacionamento com outro indivíduo.

 

A criança, como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz de uma organização familiar que está inscrita em uma sociedade, com uma determinada cultura em um determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca.(LADEIA, 2001, p.19-21).

 

Sabemos que as pessoas não nascem prontas; é o meio em que vivem, que educa moralmente seus membros. A família, os meios de comunicação e o convívio com outras pessoas têm influência marcante no comportamento da criança. E, naturalmente, a escola também tem. A escola participa da formação moral de seus alunos. Valores e regras são transmitidos pelos professores, pela organização institucional, pelas formas de avaliação, pelos comportamentos dos próprios alunos, e assim por diante. Isso significa que essas questões devem ser objeto de reflexão da escola como um todo, ao invés de cada professor tomar isoladamente suas decisões.

De acordo com os PCN (1997, p.156) o entendimento do mundo é formado, fundamentalmente, a partir do cotidiano. O conhecimento das pessoas de maneira geral é rico em experiências vividas. Seus valores e crenças influenciam o comportamento no âmbito da família, da escola e do trabalho.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais enfatizam o ensino e a aprendizagem de conteúdos que colaboram para a formação do cidadão buscando que o aluno adquira um conhecimento com o qual saiba situar na sua própria vida as relações existentes entre os seres humanos (MEC. 1997), isso só será possível a partir da influência que a criança obtém no inicio de sua vida.

Segundo CORTELLA (2001, p.57) o ambiente escolar proporciona uma experiência sociocultural insubstituível, não apenas por ser um espaço de convivência, de formação e informação, mas também porque lá há lugar para os sonhos, tristeza, compartilhamento, desejos, enfim.

O convívio escolar refere-se a todas as relações e situações vividas na escola, dentro e fora da sala de aula. A busca de coerência entre o que se pretende ensinar aos alunos e o que se faz na escola é também fundamental.

Um dos pontos chaves da influência cultural enquanto tema pedagógico é o envolvimento que proporciona entrelaçamento da escola, comunidade e sociedade, o que faz com que amplie questões do dia-a-dia com relação às diferenças existentes entre seres humanos. Dessa forma a influência sociocultural oferece oportunidades aos alunos de conhecerem suas origens, sua história como indivíduo participante de grupos culturais, propiciando a compreensão de seu valor e a elevação de sua auto-estima enquanto ser humano digno e que merece respeito.

Através da escola a criança te,m a oportunidade de adquirir conhecimentos e vivências que ajudam a conscientizar os alunos quanto às injustiças e manifestações de preconceito e discriminação. Ela como pertencente ao sistema social, tem juntamente com outros componentes desse mesmo sistema, a tarefa de desconstruir essa hegemonia cultural que nos é imposta desde que o Brasil fora “descoberto”, dando oportunidade às demais de serem conhecidas e reconhecidas, também como construtoras da identidade cultural do nosso país.

Cabe a escola contribuir para que as pessoas e as instituições mudem a sua visão de mundo, onde os diferentes se reconhecem e se respeitam, onde as diferenças não são geradoras de desigualdades sociais, mas sim de respeito à individualidade do seu próximo.

É imprescindível que os educadores levem em conta, o tipo de cultura que o seu aluno recebe desde a sua origem, de sua condição cultural e a motivação que o mesmo tem para inserir-se no meio educacional-pedagógico-social proposto.

Devemos ter em mente que precisamos não de um adulto consciente no futuro e sim uma criança consciente hoje para que tenhamos esperança de um futuro melhor para todos.

Contribuir para a mudança de rumo da sociedade brasileira, para que ela seja mais justa e igualitária, é de fundamental importância, mas para isso precisamos de coragem, de falar em voz alta o que se procura ignorar.

Especificamente falando da criança de ensino fundamental, que está em fase de desenvolvimento e por isso tem facilidade maior em assimilar e apreender a influência do meio, o interesse em conhecer melhor esse ser humano é inevitável, pois os educadores que são responsáveis, participantes e protagonistas do universo cultural da criança podem ajudá-la a reconstruir a influência cultural monopolizadora que teve e a se auto-conscientizarem do valor de seus atos perante a outros indivíduos.

É comum ouvirmos de educadores que não é fácil educar uma criança nos dias de hoje, pois os pais não sabem como agir com os filhos de forma a proporcionar-lhe uma formação baseada na moral e nos princípios humanos. Os seres humanos são educados através de exemplos, dos tipos de culturas que lhes são apresentadas.

É evidente que as crianças tendem a repetir as atitudes que vivenciam, isso é transmissão de cultura.

As histórias de aprendizagem dos pais interferem na formação das modalidades dos filhos, já que estes são os primeiros ensinantes oferecendo possibilidades da criança vivenciar suas primeiras experiências com o mundo. Cabe ressaltar que os pais trazem as modalidades que sofreram também a interferência de seus ensinantes.A modalidade de aprendizagem dos pais intervém na forma como o sujeito se vê quando aprende, já que os pais ocupam o lugar do espelho onde a criança se vê.(apud LIMA, D.C; ROSMANINHO, M.S.R; 2002, p.7)

 

É interessante que sempre agimos semelhantemente como nossos pais e educadores agiam conosco, e que muitas vezes eram criticados por nós. Isso prova que a influência cultural da relação humana é a base do cidadão que teremos no amanhã.

Uma criança sem uma referência cultural baseada no respeito mútuo é dificilmente capaz de agir, progredir e relacionar-se como pessoa de bem.

 

CONCLUSÃO

Sabe-se que o Ser humano é o único animal capaz de construir e transformar uma civilização adequando-se e progredindo com ela. Vive-se a era do descomprometimento com a vida do ser humano, é possível verificar isto todos os dias, seja no abuso de poder ou na lógica de quem pode mais.

De acordo com Içami Tiba (1996, p.111), “para viver em sociedade, o ser humano não necessita apenas de inteligência. Precisa viver segundo a ética, participando ativamente das regras de convivência e encarando o egoísmo, por exemplo, como uma deficiência funcional social”.

Os educadores, enquanto mediadores da aquisição de conhecimento, devem resgatar através da reformulação da cultura pré-existente, o lado “humano” do aluno, respeitando o mesmo, sem rotulá-lo, buscando informações sobre o “eu” desse sujeito, tentando entendê-lo a partir do seu cotidiano.

Confirmamos a importância da influência cultural na vida da criança com as palavras de Paulo Freire (1997), dizendo que:

Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.

 

Essa educação transformadora que Paulo Freire menciona, com certeza, não é restrita a uma sala de aula, mas sim numa educação cultural que é transmitida a esses indivíduos, de forma humana e social a fim de cultivar-se grandes homens num futuro nem tão distante. Paulo Freire ainda complementa dizendo que “me movo como educador, porque primeiro me movo como gente”.

É preciso enfim que os educadores incorporem estas palavras de Paulo Freire para que possam educar culturalmente seus alunos a fim de que possibilitem a reconstrução dessa sociedade capitalista e monopolizadora, para uma sociedade mais justa e igualitária respeitando a individualidade de cada ser protagonista deste meio social.

REFERÊNCIAS:

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO.Pluralidade Cultural/ Orientação Sexual.Brasília: MEC / SEF, 1997.

BRANDÃO, C. R. O que é educação.In: PILLETTI, N. Estrutura e Funcionamento do Ensino Fundamental. Ed. Ática.p.18-19,1998.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Artes Visuais na Educação. Brasília, 1997. Disponível em:http://www.mec.gov.br / PCN em Ação Acesso em 20 de junho. 2002

TIBA, Içami. Disciplina, Limite na Medida Certa. 42ª ed. São Paulo: Editora Gente, 1996.

LOPES, V.N. Afro-descendência: Pluralidade Cultural precisa e deve abordar a questão do negro brasileiro. Em pauta – Revista do Professor, Rio Grande do Sul, n.67, p.21-25, 2001.

CORTELLA, M.S. A falta que ela nos faz: Direito à escola deve movimentar todos os que tenham um pouco de decência política. Em pauta – Revista Educação, São Paulo, n.239, p.57,2001.

LADEIA, Delia. O Eu criança na educação infantil. Em pauta – Revista Criança do professor de educação infantil, Brasília, n.35, p.19-21,2001.

LIMA, D.C. de S.; ROSMANINHO, M.S.R. Inversão de valores no contexto escolar o aluno dá a palavra final.Itaperuna, 2002.39 p. Monografia de Pós-Graduação em Psicopedagogia, Faculdade de Filosofia de Itaperuna, 2002.

Publicado em 18/02/2005


Alexsandro Rosa Soares - Pós-graduando em Docência do Ensino Superior pelo Centro Universitário São José de Itaperuna, Especialista em Administração Escolar pela Universidade Cândido Mendes, Graduado em Letras pelo Centro Universitário São José de Itaperuna e Graduado em Magistério nas séries iniciais do 1 segmento do Ensino Fundamental pelo Instituto Superior de Educação de Itaperuna. Foi subsecretário do Centro Universitário São José de Itaperuna, atualmente é funcionário da Fundação e Apoio a Escola Técnica do Rio de Janeiro, Colunista do Jornal Macaé News e colaborador da Revista Estilo Off.

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