O SOFTWARE EDUCATIVO – SEM MEDO DE ERRAR
Cristiane ScattoneA preocupação em evitar o erro prejudicava a sua disponibilidade para o processo de aprendizagem
Objetivos
Considerando a motivação e o interesse como aspectos essenciais para o processo de ensino-aprendizagem, esta pesquisa teve como objetivos analisar até que ponto o software educativo pode favorecer esses aspectos frente ao ato de aprender e investigar como os educandos encaram seus erros no processo de aprendizagem.
Fundamentação
O presente trabalho surgiu a partir da minha prática psicopedagógica.
Os educandos chegam ao consultório com baixa auto-estima, sem autoconfiança, desmotivados para aprender e apresentam comportamento de resistência e má disposição frente ao processo de aprendizagem. Na maioria das vezes, demonstram aversão à leitura, à escrita e/ou ao raciocínio lógico matemático recusando-se a executar as atividades propostas.
Nos atendimentos psicopedagógicos, foi evidenciado que a preocupação em evitar o erro prejudicava a sua disponibilidade para o processo de aprendizagem. Mas, afinal, o que faz um educando resistir às situações de aprendizagem?
É interessante lembrar que talvez esta reação esteja diretamente ligada a um histórico de sucessivos erros, à vergonha e ao receio de errar novamente. E outra questão emerge: Será que eles evitam as atividades e o errar por causa das conseqüências, isto é, dos castigos?
No consultório, os educandos relatam que são repreendidos e até de certa forma ameaçados, quando erram e tiram notas baixas. O que eles escutam é que: vão repetir o ano, vão ficar de reforço escolar, vão ficar uma semana sem televisão, vão apanhar, não vão ganhar presente no Natal e etc. Além, é claro, de ficarem privados do recreio ou de atividades mais lúdicas na escola para refazerem uma tarefa que estava incorreta, terminarem as tarefas de classe, ou fazerem a lição de casa. Eles também reclamam que não são elogiados quando se esforçam para superar uma dificuldade, ou que seu esforço foi ignorado.
Weiss e Cruz (1999) lembram que a instituição escolar muitas vezes não se apercebe que pode paralisar ou mesmo deturpar o processo de construção do conhecimento do sujeito, quando forma vínculos inadequados com os objetos do conhecimento, quando rotula, estigmatiza ou até mesmo exclui os educandos. E Hübner (1998) ressalta que o sistema de punição pode conduzir à revolta, à agressividade, ao desânimo ao desinteresse, e lembra que, ao longo do tempo, isso pode tornar-se numa atitude de oposição à escola e um anti-saber. Então, o educando começa a evitar expor suas produções e até expressa raiva quando o educador, pais ou amigos corrigem seus erros. E é neste momento que pode emergir o comportamento de resistência ao processo de aprendizagem.
Segundo Bruner (1968), o saber é um processo, e uma das funções do ensino é permitir o erro instrutivo. O erro é instrutivo quando o educando adquire a compreensão do que está errado em seu ato para não repeti-lo novamente, ou seja, deve ser possível utilizar o erro para torná-lo compreensível. O autor comenta que o problema é encontrar instrumentos que desafiem o bom aluno sem destruir a confiança e o desejo de aprender daqueles que apresentam dificuldades. A motivação é muito importante para que ocorra a aprendizagem. Fiamenghi (2001) esclarece que os estímulos externos podem aumentar ou diminuir a força do motivo, mas lembra que o processo é interno - organizado pelo indivíduo.
Observou-se dentre os recursos psicopedagógicos utilizados nos atendimentos que, quando o educando errava computador, ele não ficava constrangido e nem resistia às atividades propostas pelos softwares educativos. Weiss e Cruz (1999) afirmam que o erro é menos frustrante ao ser apontado pela máquina e não pelo educador, e foi esta assertiva que norteou este trabalho.
O software educativo ameniza a má disposição frente ao processo educacional, pois desafia e desperta a curiosidade do educando. Freire (1996) comenta que o exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, às emoções, a capacidade de conjecturar e de comparar.
Vale dizer que o software permite um trabalho mais personalizado, pois o educador pode adequar o programa às necessidades e ao ritmo do educando. Além do mais, o feedback imediato possibilita a organização e a comparação das informações e das idéias, estimulando a capacidade de concentração e de percepção do educando. E como mediador entre o educando e o computador, o educador propicia a construção significativa do conhecimento. É dessa forma que os softwares educativos favorecem a aprendizagem. Diante deste fato, seria possível o computador desmistificar a correção? Seria o software educacional um recurso adequado para mediar o acerto?
Sujeitos
Participaram desta pesquisa alunos de uma classe da quarta série do ensino fundamental. A pesquisa ocorreu em um colégio de médio porte da rede particular de ensino.
Método de Investigação
A pesquisa foi realizada através de um estudo de opinião. Os educandos deram os seus pareceres sobre o uso de softwares educativos em seu próprio processo de aprendizagem. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário individual, composto por perguntas fechadas e abertas. O procedimento de aplicação foi por contato direto e coletivo, entre a autora e os alunos. A aplicação do questionário teve a duração de trinta minutos em média e foi realizado no período escolar, em novembro de 2001.
As respostas do questionário foram comparadas e organizadas em categorias pré-determinadas de acordo com os objetivos dessa pesquisa. Para o tratamento dos dados, optou-se pela análise percentual das respostas fechadas e pela análise qualitativa de todos os dados.
Resultados e Conclusão
A partir da análise dos questionários foi possível identificar o que os educandos pensam sobre os uso dos softwares educativos e a contribuição desse recurso no processo de aprendizagem.
De modo geral, a maioria dos alunos pesquisados assinalou:
os aspectos que os estimularam a estudar mais foram: alcançar a nota estabelecida pela escola como média, ser (ficar mais) inteligente, o material pedagógico, a afetividade quanto ao conteúdo escolar e ao professor, e o reconhecimento social - reação dos pais e educadores frente o seu desempenho escolar;
ao errarem na prova e tirarem nota baixa sentiram-se surpresos, decepcionados, com medo de errar novamente e envergonhados dependendo da reação do meio social; ao errarem no computador, não desistiram da atividade, não sentiram-se incapazes, não tiveram medo de errar novamente, não sentiram vergonha e consideraram que é divertido aprender. Sentiram-se desafiados para o ato de aprender;
os sentimentos que acompanharam a correção pelo computador foram que este recurso não conta para ninguém e não dá bronca como o professor que ainda fica nervoso e o aluno envergonhado;
o aspecto lúdico dos softwares educativos favorecera a vontade de aprender e a compreensão mais rápida dos conteúdos escolares, tornando o processo de aprendizagem mais atraente.
Para concluir é possível afirmar que os erros cometidos pelos educandos podem interferir no processo de ensino-aprendizagem e que com os softwares educativos a resistência pela aprendizagem é amenizada mesmo diante das dificuldades. Este é um recurso apropriado para mediar o acerto e, por que não, desmistificar a correção. Vale dizer que a interatividade e o feedback imediato dos programas contribuem para este fator.
Diante do que foi exposto, evidenciou-se que o uso dos softwares educativos otimizou o interesse e a motivação dos educandos pelo processo de aprendizagem.
Este trabalho propôs a utilização desse recurso psicopedagógico para educandos com baixo rendimento escolar e com transtornos de aprendizagem.
Artigo publicado: “O software educativo-sem medo de errar”, em Condições para Aprender, organizadoras: Elcie F. S. Masini e Elena E. Shirahige, p. 313, São Paulo: Vetor, 2003 .
Referências Bibliograficas:
BRUNER, J. S. Orientações para a Aprendizagem. As funções do Ensino. Em Morse, W. C. e Wingo, G. M. (org.). Leituras de psicologia educacional. p. 271–282. São Paulo: Companhia Editora Nacional – USP, 1968.
BRUNER, J. S. A cultura da educação. Porto Alegre: Artmed, 2001.
FIAMENGHI, G. A. Motivos & emoções. São Paulo: Editora Memnon: Mackenzie, 2001.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Coleção Leitura. São Paulo: Editora Paz e Terra S/A, 1996
HÜBNER, M. D´O. Analisando a relação professor-aluno: do planejamento à sala de aula. Coleção Ensinando Aprendendo: Cadernos Brasileiros de Educação. 2ª ed. Sâo Paulo: CLR Balieiro Editores Ltda, 1998.
MASINI, E. F. S. (org.). O Ato de Aprender: I ciclo de estudos de psicopedagogia Mackenzie. São Paulo: Ed. Memnon: Mackenzie, 1999.
SCATTONE, C. O software educativo no processo de ensino-aprendizagem: um estudo de opinião de alunos de uma quarta série do ensino fundamental. (Dissertação de Mestrado em Distúrbios do Desenvolvimento). Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo: 2002.
WEISS, A. M. L. e CRUZ, M. L. R. M. A informática e os problemas escolares de aprendizagem. 2ª ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1999.
Publicado em 28/03/2004 11:01:00
Cristiane Scattone - Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
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