O OLHAR DE REICH PARA A EDUCAÇÃO: O PAPEL DA FRUSTRAÇÃO E DO DESEJO
Juracy Machado PacíficoResumo: Pretendemos neste trabalho, refletir sobre as contribuições de W. Reich para o campo da educação. Uma das grandes características deste autor foi o otimismo conceitual, pois acreditava que a miséria social pudesse ser superada. Esse seu otimismo conceitual tem raízes na filosofia de Giordano Bruno (1859-1941). Antes de Freud foi Bérgson quem influenciou Reich no assunto sexualidade. Sua entrada na psicanálise deve-se a este seu interesse anterior pelo assunto. Reich faz uma ligação da psicanálise e educação, buscando naquela, contribuições para esta, no que se refere ao bem estar das pessoas, a saúde.
Palavras-chave: saúde, educação, compulsão, sexualidade e desejo.
Introdução
Wilhelm Reich foi médico e psicanalista. Nasceu em 24 de março de 1897 na Áustria e faleceu em 1957 nos Estados Unidos. Foi aluno de Sigmund Freud e inicialmente aceitou as teorias freudianas, porém, após alguns anos começou a contestá-las. Wilhelm Reich esteve sempre preocupado com a felicidade humana e também foi indiscutivelmente muito coerente em suas teorias.
Uma das questões que angustia pais, mães e educadores é: qual é o melhor modelo de educação? Será que as formas de educar poderão influenciar decisivamente o rumo de vida do indivíduo? A esse respeito, a Psicanálise demonstra que muitos conflitos psíquicos que surgem, principalmente nas crianças, podem sim influenciá-las no futuro. Em função disso, Reich procurou, através de suas teorias, refletir sobre as formas educativas que são adequadas e outras que são inadequadas ao processo educativo da criança.
Para estes estudos, parte do conceito dos desejos tornados conscientes. Freud designa três destinos a estes desejos: julgamento de condenação, sublimação e satisfação direta. É este último que produz maior grau de descarga dos desejos e Reich, por este motivo, dá maior ênfase a ele. Para Reich, o mais importante é não perder o desejo, em seus vários sentidos, pois o estado prolongado de melancolia levará à doença.
1. A saúde para Reich
Como já foi dito anteriormente, Reich dava grande ênfase à satisfação direta, pois em suas experiências pode perceber que os pacientes que iam conseguindo estabelecer uma vida amorosa mais intensa e satisfatória, mais prazerosa, apresentavam melhoras mais significativas em seus quadros clínicos. Com base nesses dados Reich desenvolve a teoria do orgasmo que postula que a satisfação sexual direta consegue descarregar maior quantidade de libido e evitar a formação de acúmulo de energia. Esta energia acumulada, dependendo do individuo, se não conseguir sublimá-la, ocasionará seu afastamento da realidade.
Assim, a saúde psíquica de um indivíduo estaria ligada a uma boa economia energética. Seria o equilíbrio satisfatório entre as quantidades de energia disponível e de satisfação alcançada. Se não existe na vida a realização dos desejos, há sem dúvida a probabilidade da formação das mais variadas patologias. Percebemos também que esta visão em, mais ou menos, 1908, era bem psicanalítica.
O filósofo Bergson, nesta mesma linha de pensamento, dizia que as espécies que tiveram as maiores evoluções tinham grande flexibilidade. Desta forma acreditava que a saúde estaria na alternância; relaxamento e contenção. É dentro desta visão que Reich vai definir o que vem a ser a “couraça”.
Esta seria uma defesa que não sai, ou seja, a contenção sem relaxamento. Um exemplo seria uma pessoa que com grande carga de energia sexual a ser liberada, não encontra como fazer isso ou acha (por preconceito ou qualquer outra razão) que não deve. Então permanece em estado de contenção formando uma estrutura encouraçada. Cronifica-se então a defesa, chegando ao ponto em que o indivíduo não consegue tê-la mais. Seguindo essa lógica, para se ter saúde deve-se minimizar ao máximo a fixação.
Porém, saúde não significa só relaxamento. A contenção em excesso vira doença e, da mesma forma, relaxamento em excesso, ou seja, a cronoficação do relaxamento, também é doença. A saúde representa, desta forma, a alternância entre conter e relaxar. Reich procura mostrar que para vivermos em sociedade é preciso reconhecer a existência do outro. Faz parte também da vida em sociedade harmonizar ritmos. Ele fez medicina e, consecutivamente, sua preocupação com a saúde deveria realmente ser acentuada. Como estava diretamente ligado à psicanálise, procurou a solução de problemas ligados às questões sexuais. Podemos perceber que Reich alimentou esta preocupação até o fim de sua vida. Em 1932, Reich escreveu O Combate Sexual da Juventude que procurava levar, em linguagem mais simples, orientações aos jovens2:
“O mais importante na prevenção das doenças venéreas é evitar o álcool, pelo menos durante a puberdade. Com efeito, sob sua influência, estabelecem-se muito mais facilmente relações sexuais com pessoas que não se conhecem bem. É também importante, quando se muda de companheira, utilizar regularmente preservativos”.
Percebemos que este fragmento dá pistas da importância do aspecto educativo, onde Reich apresenta, através de um texto, a prevenção à saúde. Podemos concluir esta parte dizendo que esta saúde a que Reich se refere é perfeitamente possível.
É evidente que a satisfação sexual não é uma questão tão simples, exatamente pelo que o próprio Freud escreveu que é a “Moral Sexual Civilizada” – a contemporânea – que muito proíbe, (embora saibamos que os tempos estão mudando, o que em 1940 era proibido, hoje, por exemplo, mudou para não aconselhável, etc.). Nesta visão sobre a saúde, Reich já (e necessariamente) trilha pelo caminho educacional.
2. A Educação para Reich
Reich circulou por várias áreas do conhecimento e, em todas elas, defendeu com confiança a possibilidade de maior felicidade humana. Na área educacional procurou sempre contribuir, usando seus conhecimentos médicos, indicando formas apropriadas de educação. Reich sempre lutou contra a educação coibidora e autoritária e seus escritos deixam este argumento evidente, haja vista sua tese da teoria do orgasmo, que defende uma sexualidade livre de preconceitos e obrigações.
Desde o início de seu ingresso na psicanálise, Reich já demonstrava um grande interesse pelas questões sociais (Albertini, 1997). Foi com essas preocupações com os problemas sociais que ele começou a olhar para a área educacional. Suas preocupações estavam intimamente ligadas com a psico-profilaxia, ou seja, “(...) procura discutir, alertar e, sugerir procedimentos que possam ser utilizados por qualquer pessoa envolvida na ação educativa” (Albertini, 1997, p.65).
Reich se defrontava com a tese freudiana da inevitabilidade da neurose e, talvez por estas razões elaborou propostas educacionais com o objetivo de, pelo menos, minimizar as dificuldades humanas. Portanto para Reich, a boa educação deveria conseguir colocar limites sem inibir completamente a vida pulsional da criança. Em seu livro O Caráter Impulsivo (1925) descreve quatro possíveis maneiras de educação infantil a partir da relação entre frustração e satisfação pulsional.
1º) – Ocorrem frustração e satisfação pulsional parciais. Esta seria a forma educacional infantil mais apropriada, pois colocaria limites sem inibição.
Vejamos o que Reich disse em “Os pais como educadores: a compulsão a educar e suas causas” (1926: p.205 e 206): “Nem a total inibição dos instintos, nem a frustração tardia, por conseguinte necessariamente brutal, demonstram por parte dos educadores, a menor compreensão do conflito Criança-Mundo”. E continua argumentando esta forma de educar dizendo que:
A solução óptica pelo menos em teoria – é uma educação que permita aos instintos alcançar primeiro certo grau de desenvolvimento, para em seguida – sempre num ambiente de boas relações com a criança – introduzir paulatinamente as frustrações. Se nos dois primeiros anos de vida da criança se cometerem erros de gravidade, dificilmente será possível corrigi-los mais adiante. As tarefas da educação começam logo com o nascimento”. (p.205 e 206).
E mais, falando das frustrações necessárias, da coerência entre necessário e o desnecessário, Reich diz:
“Não ceder quando uma criança não quer sair do parque ao anoitecer ou quando se nega a tomar regularmente as refeições, faz parte das frustrações necessárias. Estas frustrações necessárias distinguem-se das desnecessárias por servirem não só aos interesses da sociedade, como também os da própria criança. Se a criança continuasse a ser tal como nasceu, ou seja, primitiva, egoísta, só preocupada com a obtenção do prazer, mais tarde sucumbiria na luta pela vida. A criança tem de aprender que não está só no mundo”. (p.205 e 206)
Então, especificamente sobre as frustrações necessárias:
“As frustrações necessárias serão somente aquelas que tem por objetivo controlar e canalizar os instintos da criança que representariam um impedimento para a sua adaptação à sociedade. Por exemplo, a crueldade natural da criança terá de converter-se, parte em sentimento de compaixão, parte em atividade social”.(p.206)
2º) – Frustração excessiva. Segundo Reich, esta forma educativa cria condições para a organização de caracteres inibidos. Muita frustração e pouca satisfação pulsional trará como resultado pessoas especialistas em contenção.
Reich vai dizer então que “... o exagero educativo acaba por tolher boa parte da expressividade da criança”. (Albertini, 1997, p.67).
3°) – Atitude permissiva extremada. Esta forma de educação infantil é caracterizada por um grau mínimo de frustração e grande satisfação pulsional e, conseqüentemente, geraria indivíduos sem capacidade de adiar satisfação, ou seja, com pouca capacidade de autocontenção.
4°) – Atitude permissiva seguida por frustração intensa e traumática. Para Reich, esta forma de educar é responsável pelo surgimento de caracteres impulsivos.
Observamos que “Reich define a boa ou má educação a partir do prisma quantitativo: grau de satisfação/ frustração pulsional”. (Albertini, 1194, p.62).
O que este autor pretendia era encontrar a forma certa, a medida exata de uma boa educação que pudesse harmonizar frustração e satisfação pulsional. D esta forma, seria erro educativo tanto excesso quanto a falta de frustração pulsional da criança decorrente, de práticas educativas.
Outro ponto interessante a ser destacado na parte teórica de Reich é o que se refere à compulsão a educar. Ele procurou descrever a psicologia do educador, como este deve ser e reagir, e, quando reagi de uma forma ou de outra – porquê reage. Parece mesmo procurar compreender as motivações inconscientes capazes de implicar uma prática educativa repressora. Reich então fala três formas de compulsão a educar que seriam:
A patologia do educador: Dependendo desta, produzirá frustrações desnecessárias no educando.
Afirmando esta compulsão diz que:
(...) os pais, diante de qualquer manifestação instintiva da criança, “recordam” os seus próprios desejos infantis reprimidos, e as instâncias instintivas das crianças representam um perigo para as subsistências das próprias expressões. Ora, esse perigo é impedido à custa de proibições educativas que exigem claramente os traços característicos da compulsão para educar. (Albertini, 1994; p.63).
Ambição insatisfeita. Este seria outro motivo da compulsão a educar. Sobre isso Reich diz:
A ambição insatisfeita dos pais constitui um dos motivos essenciais da compulsão para educar. Para nos convencermos disso basta observar o comportamento de uma menina qualquer com sua boneca no parque, ou o comportamento de uma mãe no consultório medico. Não é possível evitar a impressão de que o educador se julgue obrigado a fazer alguma coisa, a educar, ainda que nada haja a educar, e que sente como ofensa pessoal, como um testemunho negativo da sua arte educativa, que a sua vitima não se comporte de modo “adulto”. “Senta-te direito”, “não sejas tão mal-educado diante do medico”, “está quieto”, “olhar para o senhor doutor”, “dá bom dia”, “tira-te daí”, “não sujes as mãos”, e assim sucessivamente, sem pausa não nem descanso. Nenhum adulto, submetido a semelhante bombardeiro educativo, seria capaz de mostrar a heróica indiferença que manifestam certas crianças – aliás, já neuróticas. Não há razão para espanto se crianças saudáveis reagem violentamente diante desse tipo de tratamento (Albertini, 1994; p.63).
A experiência vivenciada de frustração infantil. Esta seria, para Reich, uma terceira fonte geradora de compulsão a educar. Estaria ligada à infância do próprio educador, com a possibilidade de este estar querendo reparar algo que não tenha sido bem.
Quanto a isso Reich diz que:
O desejo de corrigir a própria infância é provavelmente um dos motivos mais típicos da vontade de educar. Mais para a mentalidade primitiva, inconsciente, corrigir a própria meninice só pode significar vingar-se, de modo que a vontade educativa comporta em si uma compulsão sádica para educar fundamentalmente no inconsciente (Albertini, 1994; p. 64).
Percebemos então que Reich procura combater e denunciar todo tipo de educação ligada a uma frustração desnecessária: toda educação repressora e autoritária. Deixa claro também que é preciso certo grau de frustração em qualquer forma de organização social e nas práticas educativas, contanto que isso seja feito de forma inteligente, sem o peso da compulsão a educar.
Reich também enfatiza que a vida já se encarrega de educar, que já tem a medida certa e que muitas interferências só atrapalhariam. O que ele quer garantir é a saúde das pessoas e, esta se consegue com boas formas educativas. Não nos esqueçamos de que Reich é um médico que, preocupado com a saúde, investe suas teorias em questões educacionais, procurando meios educativos que minimizem a neurose. Ele chega a afirmar que é a interferência inadequada do agente educador que gera a patologia.
Ao nosso ver, o que Reich quer mostrar é que a vida sendo sábia é capaz de encontrar, por si só, as respostas mais adequadas e que, a interferência externa do pai, da mãe, do professor, tenha apenas o papel de facilitar a promoção de circunstâncias para o exercício desse funcionamento.
Percebemos que Reich está trabalhando com fatores intimamente ligados – saúde, educação e sexualidade. Sendo assim, a saúde depende de um bom desenvolvimento e do desempenho sexual, a educação tem o dever de contribuir para tal.
Portanto, podemos dizer que Reich também acreditou e postulou uma educação com base na infância. Nesta, deve-se respeitar o desenvolvimento natural da criança. Nada de repressão. É natural toda criança procurar tudo que lhe dê prazer, pois no inicio tudo é id. Com o tempo, a boa dosagem educativa, a criança vai controlando o instinto e irá transformando-o em atividades culturais socialmente aceitáveis.
Reich então coloca todo o seu conhecimento clínico a serviço da área educacional. Assim, em textos desse período – que podem ser encontrados na publicação Children of the Future (1950/1984), Reich propõe o treinamento de pais e educadores em intervenções educacional-terapêuticas no que chama de primeiros socorros orgonômicos. A seu ver, essas pessoas, por conviverem diuturnamente com suas crianças, deveriam ser preparadas para intervenções rápidas que incluiriam o toque corporal para tentar evitar a cronificação de bloqueios.
Um relato detalhado de quem passou por esse tipo de intervenção terapêutica na educação (exercida pelo próprio Reich) pode ser encontrado no capitulo 5 do emocionante e poético livro de Ensueños (1973/1978), escrito por Peter Reich, seu filho com Ilse Ollendorf.
Para o adequado emprego dessa proposta educacional, Reich considera essencial o bom estado emocional do educador – pré-requisito fundamental para o contato sensível e sintonizado com a criança. Em Children of the Future (1950/1984), ao abordar esse fator, afirma:
Não há dúvidas que os professores ou educadores de maternais que sofrem de ansiedade genital não serão capazes de lidar com uma única fase dos problemas emocionais infantis. A estrutura daqueles que prestam os primeiros socorros infantis é muito importante. Se uma pessoa é emocionalmente bloqueada, ela estará propensa a desenvolver toda espécie de idéias errôneas sobre como a criança deveria ser, ou sobre o que fazer na ocorrência de bloqueios emocionais (p.65).
Assim, uma educação que promova a saúde é coerentemente definida por Reich visando à alegria e o bem estar das pessoas. “A um potencial criativo interno, a educação deve apenas proporcionar condições para que esse potencial seja exercido em sua plenitude”. (Albertini, 1997; p.66). Essa é, segundo Albertini, a tese fundamental que embasa o que Reich chamou de “auto-regulação”, sendo esta uma competência biológica espontânea e criativa da própria vida.
Referências Bibliográficas:
ALBERTINI, P. Reich: História das idéias e formulação para a educação. São Paulo: Agora, 1994.
___________ A Sexualidade e o processo educativo: uma análise inspirada no referencial reichiano. In: Aquino, JG (Org.) Sexualidade na Escola: alternâncias teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1997, p.53-70.
REICH. W. Os pais educadores: a coação a educar e as suas causas (1926) In: Reich. W. e Schmidt, V. Psicanálise e Educação. Lisboa, Bragança: Livraria Ler, 1975. p.195-217.
___________ Os jardins de infância na Rússia Soviética (1936) In: Conselho Central dos Jardins de Infância Socialistas de Berlim; Shimidt, V; Reich, W. Elementos para uma pedagogia antiautoritária. Porto: Escorpião, 1975, p.39-52.
____________ O Abraço Genital. In: Reich. W. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1982-cap III.
Publicado em 17/02/2004 12:02:00
Juracy Machado Pacífico - Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Professora do Curso de Pedagogia da UNIPEC – Faculdade de Porto Velho - Rondônia, ministra as disciplinas Teorias da Aprendizagem e Metodologia da Alfabetização.
Clique aqui:
Normas para
Publicação de Artigos