Para imprimir este artigo sem cortes clique no ícone da impressora >>>
 

PERFIL PSICOEDUCACIONAL REVISADO (PEP-R): ELABORAÇÃO DA VERSÃO BRASILEIRA

Viviane Costa de Leon, Cleonice Bosa

O Perfil Psicoeducacional Revisado (PEP-R), é um instrumento de avaliação da idade de desenvolvimento de crianças com autismo ou com outros transtornos da comunicação. Serve como alicerce para a elaboração de um planejamento psicoeducacional de acordo com os pressupostos teóricos do modelo TEACCH. Foi concebido para identificar padrões de aprendizagem irregulares e idiossincráticos, destinando-se a crianças cuja faixa etária vai de um a doze anos. As áreas avaliadas são: coordenação motora ampla, coordenação motora fina, coordenação visuo-motora, percepção, imitação, performance cognitiva e cognição verbal. Para cada área foi desenvolvida um escala específica com tarefas a serem realizadas (Schopler, Reichler, Bashford, Lansing & Marcus, 1990). Inicialmente, discutiremos os aspectos históricos sobre a construção desse instrumento. Em seguida descreveremos as vantagens do instrumento, as áreas avaliadas, os modos de aplicação e a aferição. Por fim, faremos algumas considerações sobre as etapas de adaptação do PEP-R para o português e sobra a sua aplicabilidade clínica.

 

Desenvolvimento do PEP e do PEP-R

Historicamente, crianças com autismo têm sido consideradas como “não-testáveis”, provavelmente pela pouca cooperação em situações de testagem, seja pela dificuldade em estabelecer contato com o examinador, ou seja, pela dificuldade deste último em compreendê-las. Kanner (1943) chegou a sugerir que essas crianças seriam pouco cooperativas, porém "secretamente inteligentes", entretanto contrariando a suposição de Kanner, a avaliação de crianças com autismo, utilizando testes padronizados, tem demonstrado que apenas um terço dessas crianças apresentam habilidades cognitivas dentro dos limites “normais”. Isso significa que 70% das mesmas funcionam em nível de deficiência mental, mesmo quando os comprometimentos na linguagem são considerados Asarnow, Tanguay, Bott & Freedman, 1987; Gillberg, 1990; Wing, 1976 citados em Bosa, 1999).

O PEP-R surgiu, justamente, como uma necessidade de se considerar as peculiaridades do comportamento de crianças com autismo, identificando tanto as áreas de habilidade quanto as deficitárias e foi desenvolvido como fruto de um modelo experimental, entre 1971 e 1976, no departamento de Projeto de Pesquisa em Psiquiatria Infantil na Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos (Schopler & Reichler, 1971). Sua aplicabilidade clínica tem sido demonstrada, continuamente, desde o seu desenvolvimento (Hvolbaek & Lind, 1991; Lam & Rao, 1993; Panerai, Ferrante & Caputo, 1997; Steerneman, Muris, Merckelbach & Willem, 1997; Van-Berckelaer & Van-Duijin, 1993), uma vez que serve como base para o planejamento psicoeducacional individualizado subseqüente adotado no modelo TEACCH (Leon & Lewis, 1995; 1997), através da avaliação de áreas do desenvolvimento e da conduta.

 

Áreas de Avaliação

Conforme dito anteriormente, o PEP-R avalia a idade de desenvolvimento em sete áreas do desenvolvimento: imitação, coordenação visuo-motora, percepção, coordenação motora ampla e fina, performance cognitiva e cognição verbal. Cada área tem suas provas específicas, totalizando 131 itens.

A área da imitação é composta de 16 itens, os quais avaliam capacidades de imitar através de atividades corporais, de manipulação de objetos e de linguagem. A capacidade de imitação tem implicações para as performances sócio-comunicativas, o que a torna especialmente significativa nos transtornos invasivos do desenvolvimento.

A área da coordenação visuo-motora envolve a integração olho-mão e habilidades motoras finas, que são essenciais para o desenvolvimento da leitura e escrita.

Já a área da percepção é composta de 15 itens que testam o funcionamento das modalidades sensoriais (visual e auditiva), necessárias para que a criança possa selecionar e organizar um estímulo recebido.

As áreas da coordenação motora fina e ampla avaliam, através de 16 e 18 itens respectivamente, habilidades que são pré-requisitos para as atividades de vida diária (AVDs), como, por exemplo, abrir uma tampa, subir escadas e pegar uma bola.

Por fim as áreas da performance cognitiva e da cognição verbal, intrinsecamente relacionadas no desenvolvimento do pensamento e da linguagem - são avaliadas através de 26 e 27 itens, respectivamente, envolvendo habilidades, por exemplo, para contar e nomear letras do alfabeto, de imitação, de compreensão de conceitos, etc.

O PEP-R leva em consideração não somente atrasos do desenvolvimento, mas também respostas e comportamentos consistentes com o diagnóstico do autismo, como por exemplo, a presença de ecolalia ou maneirismos. Tais comportamentos são avaliados quanto à peculiaridade, freqüência, intensidade e duração, com base naqueles itens descritos na Escala de Autismo Infantil (CARS) (Schopler, Reichler & Renner, 1988).

 

Vantagens do PEP-R e forma de avaliação

A cooperação das crianças durante a aplicação do PEP-R é possibilitada através da minimização da necessidade da linguagem e de controle do tempo, apresentação de material atrativo e resistente, e flexibilidade em sua aplicação (Mesibov, Schopler, Schaffer & Landrus, 1988, citados em Schopler & cols, 1990). Da mesma forma, não se utiliza cronômetro ou qualquer outro instrumento formal para gerenciamento do tempo, a não ser um controle do número de tentativas da criança para resolver cada tarefa, conforme explicitado em detalhes no manual do PEP-R.

O material do teste é padronizado e envolve materiais como encaixes de madeira coloridos, livro de imagens, fantoches, objetos com suas respectivas fotografias, bolinhas de sabão e massinha de modelar. A apresentação de cada item pode ser feita verbal ou gestualmente e, até mesmo, através de demonstração pelo examinador. O examinador observa, avalia e anota a resposta da criança durante o teste. Para cada resposta, há três possibilidades de registro: adquirido (a criança realizou a tarefa com sucesso), não-adquirido (a criança não conseguiu realizar a tarefa) e emergindo (a criança conseguiu realizar a tarefa com a ajuda do examinador).      

 

Adaptação do PEP-R para o português

Uma versão traduzida para o português do PEP-R já vinha sendo utilizada para fins clínicos, desde 1992. Entretanto, alguns cuidados são fundamentais quando utilizamos em nosso meio, instrumentos desenvolvidos em outros países.

Nesse sentido, realizamos um estudo piloto com dezessete crianças com desenvolvimento típico com idade entre cinco e seis anos a fim de verificar quais seriam as respostas das crianças ao material e demanda exigida no teste. A análise desse piloto, bem como a revisão de artigos sobre esse tema, indicaram a necessidade de alterações de alguns itens do instrumento. Essas alterações, as quais serão abordadas a seguir, foram realizadas com autorização do autor e envolvem aspectos como tradução de retorno, atualização e aculturação das figuras contidas no instrumento, de forma a adaptá-las à nossa realidade.

A acurácia da tradução deste instrumento foi verificada mediante o auxílio de um tradutor bilíngüe, “cego” à versão original, o qual realizou a tradução de retorno do instrumento do português para o inglês. Essa estratégia comprovou que a maioria dos itens em português correspondia à versão original em inglês. Os poucos itens que se apresentaram inconsistentes foram examinados por um segundo tradutor bilíngüe, alcançando-se assim uma “fidelidade” à versão original.

Com relação ao material do teste, observou-se que alguns deles eram pouco atrativos para as crianças. A partir disso, todos os desenhos do livro de imagens, utilizados para avaliar o desempenho cognitivo e a cognição verbal, os quais eram em preto e branco, foram então substituídos por desenhos coloridos a fim de despertar maior motivação nas crianças. Algumas figuras mostraram-se de difícil identificação em função de sua inadequação cultural. Citam-se como exemplos, a figura que mostra uma bola de beisebol, ou outra que retrata uma cena em que a criança paga a passagem de ônibus ao motorista, - situações tipicamente norte-americanas. Além dessas, outras imagens foram substituídas por serem provavelmente muito antigas, como o desenho de um ferro elétrico identificado por 88% das crianças do estudo piloto como sendo um telefone celular, ou ainda a imagem de um médico identificada como “apitador” (árbitro), conforme ilustrado abaixo. Isso ilustra o perigo de se interpretar essas respostas como resultando de dificuldades da criança.

 

FIGURA original e FIGURA substituída

Outra alteração foi quanto às letras do alfabeto que são apresentadas para atividades de emparelhamento e cópia, modificadas de acordo com a ordem da freqüência das respectivas letras nas línguas inglesa e portuguesa. Uma vez que é mais fácil reconhecer elementos familiares, passa a ser um problema a apresentação de letras que não fazem parte de nossa língua, como por exemplo, o “y”. Na construção do teste original, as letras não foram escolhidas ao “acaso”, mas sim em função de sua freqüência na língua inglesa. Portanto, obtivemos a média da ocorrência das letras em início e final de palavras, segundo estudo feito por Cavallo (1986). A comparação da ordem de ocorrência de letras em ambos idiomas permitiu que as letras E, S, H, Y, G, U, V, J, e Z fossem alteradas para A, O, M, U, L, J, H, Z, e X, respectivamente.

A verificação da validade e confiabilidade dessa versão em português foram realizadas através da avaliação de oitenta crianças distribuídas em três grupos distintos: crianças com desenvolvimento típico, crianças com síndrome de Down, e crianças com autismo, entre cinco e sete anos de idade. A análise dos dados foi realizada se valendo de conceitos e técnicas para a verificação das propriedades psicométricas da versão brasileira do PEP-R.

Em resumo, nesse artigo procuramos apresentar a utilidade do PEP-R, chamando a atenção, entretanto para a necessidade de cautela no uso dos instrumentos desenvolvidos em outros países. A adaptação de qualquer instrumento requer mais que a tradução, principalmente se envolver o exame de habilidades verbais. É necessário garantir que as propriedades do teste sejam preservadas, levando-se em consideração as possíveis interferências culturais nos resultados.

Publicado em 06/11/2003


Viviane Costa de Leon, Cleonice Bosa - Viviane Costa de Leon:terapeuta ocupacional, psicopedagoga e mestre em psicologia
Cleonice Bosa: psicóloga, phd em psicologia, Universidade de Londres.

Dê sua opinião:

Clique aqui: Normas para Publicação de Artigos