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VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES:PROMOÇÃO DA RESILIÊNCIA NO PROCESSO DE SUPERAÇÃO DOS TRAUMAS E DOS PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM

Katia Ferreira Lima Firmino

Monografia Monografia de Conclusão do Curso de Psicopedagogia do Centro Universitário do Norte Paulista – UNORP, apresentada para a obtenção do título em Especialista em Psicopedagogia. Orientadora: Profª. Maria Cecília B. Braga

Cora Coralina

Não sei

 

“Não sei... se a vida é curta ou longa demais pra nós,

Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,

se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

Colo que acolhe,

Braço que envolve,

Palavra que conforta,

Silêncio que respeita,

Alegria que contagia,

Lágrima que corre,

Olhar que acaricia,

Desejo que sacia,

Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta,

nem longa demais, mas que seja intensa,

verdadeira, pura...Enquanto durar.”

 

“Feliz aquele que transfere o que sabe

E aprende o que ensina.”

 

Introdução

Vivemos tempos em que a violência tem sido um fenômeno constante em nossa sociedade. Tem crescido dia-a-dia a ponto de fazer parte do cotidiano social. É o maior problema da atualidade, prova disso é que todos os meios de comunicação transmitem notícias cujo assunto principal é a violência.

Atualmente a infância brasileira está cada vez mais exposta a todo o tipo de violência, desde as formas mais aparentes tais como agressões físicas, sexuais, exposição da criança à prostituição e à delinqüência, até as formas que muitas vezes aparentam ser apenas “adversidades” com as quais a sociedade já se “acostumou” a conviver, como abandono, fome, pobreza, trabalho infantil, falta de condições de higiene e saúde, e ainda falta de estudos, lazer e um bom convívio familiar.  Temos como conseqüência, crianças com problemas físicos, problemas de convivência social, dificuldades de aprendizagem e principalmente, com sérias marcas emocionais, comprometendo todo o seu desenvolvimento e muitas vezes sua vida adulta. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, nossas crianças e adolescentes deveriam ter seus direitos de uma vida digna bem como uma boa formação bio-psico-social garantidos. Na verdade, não deveriam ser objetos de nenhuma forma de violência, por isso setor da sociedade tem se empenhado em promover o combate aos crimes contra a humanidade. Em meio a toda esta realidade, nos deparamos com as crianças e adolescentes marcadas de diversas formas e que precisam passar principalmente por um processo de reestruturação emocional para que consigam ser inseridas no contexto social e para que se tornem capazes de lidar com os traumas de maneira que estes não comprometam seu desenvolvimento. Seriam dessa forma, mais fortes do que a violência que sofreram. Seriam indivíduos resilientes.  

Este trabalho trata exatamente da promoção da resiliência. Abordaremos fatores individuais e ambientais que favorecem vítimas de violência, auxiliando-as a criar ou fortalecer condições de enfrentamento emocional no lidar com seus diversos traumas, sendo capazes de vencê-los. Nosso maior enfoque será voltado à área psicopedagógica, ou seja, nas formas de proporcionar condições para que crianças e adolescentes vítimas de violência possam superar problemas de aprendizagem gerados por seus próprios traumas. Nossa esperança é podermos contribuir com reflexões acerca da readaptação bio-psico-social dessas vítimas, desejando que no futuro sejam adultos equilibrados, dignos e realizados. Que apesar dos problemas que enfrentaram, sejam felizes e vencedores.  

 

Capítulo I

Relação emoção – aprendizagem

1.1 – Condições para a aprendizagem

Atualmente os aspectos emocionais da aprendizagem têm sido muito estudados. Anteriormente ignorados, pois antigamente somente os aspectos cognitivos eram valorizados no processo de aprendizagem, hoje sabemos que o papel do afeto na educação é importantíssimo e muitas vezes decisivo para que o processo seja bem sucedido.

Todo o estudante que entra em uma sala de aula já está em processo de desenvolvimento, pois já está inserido em uma determinada cultura, já domina valores, costumes, já possui convicções, habilidades e conhecimento. As emoções e atitudes também fazem parte deste universo e são em parte geradas pelas experiências em casa e em parte também são derivadas da interação dos objetivos da criança com aqueles da escola.

Partindo do ponto em que a educação também é um processo de formação de cultura, podemos dividir esse processo em dois componentes básicos: o primeiro é cognitivo e o segundo é afetivo, sendo este o guia da atenção de um estudante. É o determinante primário de desempenho na escola. (Olson e Torrance, 2000).

Falando de crianças consideradas normais, o preparo cognitivo para a aprendizagem é composto pela inteligência em seus diversos ramos tais como capacidades de leitura e escrita, raciocínio lógico, resolução de problemas, etc, somados ao acesso à escolarização e à cultura. Já o preparo afetivo é composto primeiramente em casa e posteriormente na escola.

Segundo José e Coelho (1996) “para que a criança se desenvolva bem ela precisa de um ambiente afetivamente equilibrado, onde ela receba amor autêntico e onde lhe permitam satisfazer as necessidades próprias do seu estado infantil”.

Algumas das características desse ambiente são:

- um ambiente familiar saudável

- bons vínculos parentais

- condições básicas de moradia, saúde, alimentação, educação e lazer

- auto-estima em constante estímulo

- aceitação, importância, apoio, demonstrações de afeto, respeito e amor

- educação voltada para o respeito aos valores, princípios, bons costumes e disciplina

A criança que recebe tudo isso em casa entra na escola mais segura de si mesma, mais autoconfiante e com a tranqüilidade necessária para se voltar aos estudos, focando toda a sua atenção e dedicação no processo de aprendizagem, ou seja, sua estrutura emocional é sólida o suficiente para fazer com que ela vença as dificuldades que encontrará durante sua vida acadêmica (Olson e Torrance, 2000). Ela se sente amparada por sua família e este amparo é um dos fatores mais importantes para um bom desempenho escolar.

Segundo DeVries e Zan – Revista Pátio – n.7, nov.1998/jan.1999, p. 13-15, a escola deve oferecer aos alunos uma atmosfera sócio-moral-construtivista. E ainda de acordo com Ceccon e Oliveira (1994), a escola deve apresentar diferenciais, atendendo a todos os alunos com igualdade.

A escola atual precisa oferecer aos seus alunos:

- professores bem preparados

- ambiente escolar tranqüilo

- boas condições de espaço físico e material pedagógico

- interação e coesão entre departamentos administrativo e pedagógico

- organização e disciplina

- participação da comunidade

- atendimento e encaminhamento adequado aos alunos que apresentam dificuldades

- metodologia condizente com a realidade, que desperte interesse e participação dos alunos

- formas de avaliação que valorizem realmente o conhecimento adquirido ao invés de assumirem caráter punitivo pela falta de determinados conhecimentos.

Na década de 1970, Comer em New Haven, Connecticut, nos Estados Unidos, realizou um projeto de intervenção em duas escolas primárias que apresentavam baixo desempenho acadêmico, problemas de ordem emocional entre os alunos, pouco interesse e baixa freqüência. A intervenção era extensa e multidisciplinar, mas foi bastante eficiente tanto que na década seguinte, o desempenho dos alunos melhorou de forma sensível e os problemas comportamentais foram diminuindo gradativamente. Tudo isso sem que houvesse mudanças no estado econômico das famílias dos alunos. Este é um testemunho de que escolas com um bom funcionamento podem ter efeitos realmente benéficos na saúde mental das crianças. (Olson e Torrance, 2000).

Apresentamos por enquanto as condições ideais, tanto em casa quanto na escola, que um estudante precisaria ter para ser bem sucedido em seu processo de aprendizagem. No entanto, como já foi mencionado anteriormente, nos deteremos no processo de aprendizagem dificultado pelos traumas causados em crianças e adolescentes vítimas de violência.

 

1.2 – Distúrbios de escolarização causados por traumas

Segundo a ABD (Associação Brasileira de Dislexia), distúrbios de aprendizagem são diferentes dos distúrbios de escolarização. Os distúrbios de aprendizagem abrangem indivíduos com problemas neurológicos; problemas psíquicos e de conduta graves; deficiência mental e indivíduos que apresentam uma lentificação ao transpor uma fase do desenvolvimento mental para a seguinte, segundo a concepção piagetiana do desenvolvimento do intelecto, ou que ainda não alcançaram a fase na qual se encontra a maioria dos indivíduos de sua faixa etária. Já os distúrbios de escolarização referem-se aos indivíduos que apresentam dificuldades no aproveitamento escolar com distúrbios de conduta menos severos. São estes os mais comuns dentro da escola, de acordo com Campos, Freitas, Sampaio e Sammarco (“Distúrbios de Aprendizagem ou Distúrbios de Escolarização” – Série ABD) Alunos considerados normais que por diversas razões não apresentam um bom rendimento escolar. Alguns ainda apresentam problemas comportamentais prejudicando o bom desenvolvimento das aulas. Neste grupo podemos encontrar a maior parte dos estudantes vítimas de violência, mas ressaltamos também aqueles que sofreram traumas profundos responsáveis por sérios comprometimentos psíquicos e de conduta.

O estudante vítima de violência apresenta na escola sinais de que algo em sua vida não está ocorrendo normalmente. Geralmente manifesta comportamentos estranhos, baixo rendimento e pouca freqüência. É vítima de um transtorno emocional.  Segundo a psiquiatria, este é um estado que interfere substancialmente na vida normal. Isso também significa que interfere no benefício que uma criança pode ter com a escolarização. Este estado pode durar meses ou anos e inclui o predomínio de algum humor. Em crianças são divididos em transtornos de exteriorização marcados pela agressão e baseados na raiva, e transtornos de interiorização, marcados pelo retraimento e baseados em ansiedade, tristeza ou ambos. (Olson e Torrance, 2000). Estudantes vítimas de violência podem apresentar problemas físicos (agressão ou negligência), psíquicos /emocionais, sociais e pedagógicos.

1.2.1 Físicos (agressão):

- lesões, ferimentos, lacerações e hematomas causados por cintas, fios elétricos, pedaços de madeira, objetos cortantes, perfurantes

- queimaduras causadas por líquidos ferventes, ferro quente, cigarro, ferro de passar roupa

- fraturas

- marcas de aprisionamento por correntes ou cordas

- machucados, dores, lacerações, inchaços, corrimentos, prurido na genitália externa e região anal. Doenças venéreas, AIDS e gravidez, nos casos das vítimas de abuso sexual.

1.2.2 Físicos (negligência):

- fome consistente

- baixo peso e pouco crescimento

- falta de vestimenta adequada

- falta de supervisão permanente

- falta de higiene e atendimento médico

- fadiga constante

- problemas físicos.

1.2.3 Psíquicos/ emocionais:

- agressividade ou apatia

- desinteresse

- rebeldia

- medo e temores incomuns

- choro

- carência de contatos físicos, afagos ou aversão ao toque

- olhar vago e triste

- maturidade precoce/ inapropriada ou comportamento infantilizado

- comportamento manipulador para chamar a atenção

- baixa auto-estima

- constante autodefesa

- mania de perseguição

- terror noturno

- insônia

- agitação/ falta de concentração/ hiperatividade

- depressão

- conhecimento sexual precoce

- comportamento ou conhecimento sexual bizarro, sofisticado ou incomum

- transtorno de hábitos (sucção, mordidas, etc)

- transtorno de ansiedade (histeria, obsessão, compulsão, fobias, hipocondria, etc)

- inibição e retraimento ou comportamento extrovertido ao extremo

- atrasos no desenvolvimento mental e emocional

- uso de álcool, cigarros e outras drogas

- delinqüência

- tentativa de suicídio.

1.2.4 Sociais:

- dificuldades de relacionamento

- busca de afeto inapropriada e indiscriminadamente (carência)

- isolamento

- transgressão das regras de um determinado grupo

- desafio às autoridades

- inibição e dificuldades de participar de brincadeiras ou jogos coletivos.

1.2.5 Pedagógicos:

Dificuldades em:

- atividades de expressão oral

- emitir as próprias opiniões escritas ou oralmente

- resolução de problemas

- raciocínio lógico-matemático

- interpretar textos com conceitos subjetivos, que exijam maior aprofundamento

- entender um problema e segmentá-lo de forma que possa resolver uma etapa de cada vez

- produzir textos organizados com uma seqüência de fatos e coerência

- baixa freqüência.

É muito importante que a escola possa enxergar seus alunos com um olhar realmente investigativo. É muito simples rotular um aluno indisciplinado ou com baixo rendimento como o “aluno-problema”. Infelizmente com o aumento da violência, muitos dos nossos alunos são vítimas das mais diversas formas de violência, e grande parte sofre os maus tratos dentro da própria casa, lugar onde julgamos ser o último a maltratar uma criança. Os valores da família já não são os mesmos, o alto custo de vida, o desemprego, a falta das condições básicas para o exercício da cidadania, colaboram para que haja um abalo severo na estrutura emocional familiar. Desta forma crianças e adolescentes ficam a mercê dos desequilíbrios de seus pais e responsáveis, sendo obrigadas a enfrentar sofrimentos terríveis e a amadurecerem antes do tempo.  As dificuldades comportamentais e de aprendizagem são as maneiras pelas quais essas vítimas manifestam seus problemas pessoais, é como um pedido de ajuda, de socorro. Se a escola for receptiva, compreensiva, calorosa, agradável e maleável poderá contribuir muito com os alunos-vítimas, tornando o processo de superação dos traumas menos doloroso.

 

CAPÍTULO II

Superando os traumas

– Resiliência

Segundo Pinto Júnior, o conceito de resiliência ainda está em formação e sua definição e classificação podem variar de acordo com o critério usado pelo pesquisador. Não há portanto um consenso sobre sua conceituação nem sobre as possibilidades de sua explicação. Em sua pesquisa – Revista Temas sobre Desenvolvimento – v.10, n.56, p.40-6, 2001, Pinto Júnior cita vários autores, bem como suas definições sobre o conceito de resiliência. Abaixo citamos alguns deles:

Liem e colaboradores (1997) afirmam que o termo resiliência define-se como a capacidade de prevalecer, crescer, fortalecer e até prosperar mesmo na presença de dificuldades.

Zimmermene Arunkumar (1994) dizem que a resiliência relaciona-se a fatores e processos que interrompem a trajetória de risco, tendo como conseqüência a adaptação bem sucedida, mesmo na presença de adversidades.

Rutter (1985) entende resiliência como uma capacidade pessoal para elaborar estratégias de ação, conforme objetivos próprios, mantendo a auto-estima, mostrando confiança e crédito na própria eficácia, além de habilidades para lidar com mudanças e situações sociais de forma adaptada.

Ainda de acordo com Pinto Júnior (2001), existe atualmente um consenso entre os teóricos de que a resiliência é um fenômeno dinâmico e relativo, pois as pessoas não são resilientes em todos os momentos e situações de sua vida.

Segundo Koller (apud Pinto Júnior, 2001), a “capacidade de resiliência depende das características individuais e ambientais que podem variar ao longo da vida.”

Falando especificamente sobre crianças e adolescentes vítimas de violência, podemos entender que resiliência é a ação positiva e transformadora estabelecida entre a vítima e o meio-ambiente adverso.

Trabalhos sociais foram desenvolvidos pelo SESI – Vl. Leopoldina (Serviço Social da Indústria), no Setor de Projetos Internacionais em parceria com a Bernard van Leer Foundation, com o objetivo de promover a resiliência entre crianças carentes no Nordeste. Com base nesse trabalho, o SESI distribuiu entre educadores o material de sua pesquisa. De acordo com o seu material (1999), são vários os fatores que caracterizam tanto o meio-ambiente adverso quanto o indivíduo em situação de risco.

– Caracterização do meio-ambiente adverso

Os fatores de risco possuem componentes biológicos, psicológicos e sociais e formam um conjunto propício para o desequilíbrio, expondo a criança à violência. Geralmente o ambiente familiar é confuso e pode apresentar algumas características, tais como:

privação materna

morte do pai ou da mãe

divórcio dos pais

novo casamento dos pais

doença psiquiátrica do pai ou da mãe (padrasto ou madrasta)

dependência química

ambiente familiar agressivo

violência e maus tratos

privação de cuidados pré-natal

desemprego

pobreza crônica

habitação precária

falta de alimentação adequada

mudanças freqüentes

– Caracterização do indivíduo em situação de risco

Geralmente a criança ou o adolescente em situação de risco pode apresentar algumas características, tais como:

dificuldades de estabelecimento de vínculo afetivo

insegurança

baixa-auto-estima

dificuldade de socialização

dificuldade na capacidade de resolução de problemas

comprometimento psíquico

baixo nível de compreensão

– Promoção da resiliência

Segundo Pinto Júnior (2001), os estudos sobre o tema apontam vários fatores que moderam a relação entre a violência e o possível desajustamento da vítima. São fatores que minimizam o impacto tornando possível o desenvolvimento da resiliência. São os fatores de proteção.

Normalmente os fatores de proteção são escolhidos tendo como base os fatores sumarizados por Werner (1989) e por Luthar e Zigler (1999), citados por Pinto Júnior (2001):

atributos temperamentais e disposicionais da criança

auto-estima

autonomia - independência

criatividade

humor

empatia

habilidades intelectuais

interesses múltiplos

controle emocional

capacidade de percepção e resolução de problemas

sociabilidade

capacidade de enfrentamento, etc.

disponibilidade de suporte extra-familiar

relação estreita com outra pessoa: modelo

relação de amizade e confiança com colegas, professores ou parentes

redes de suporte como instituições de serviço social, centros de atividades para criança, escola

compromentimento da comunidade, das redes de apoio em defesa da criança, etc.

De acordo com os trabalhos do SESI (1999), existe ainda a necessidade da promoção dos fatores de proteção também do ambiente. O trabalho junto às famílias das vítimas de violência é essencial para que a superação dos traumas possa acontecer. É preciso estimular alguns fatores no meio-ambiente:

estreitamento do vínculo afetivo

coesão familiar

atenção às necessidades da criança

proteção à criança

comunicação ampla com a criança

afeto

segurança dos pais

– O papel da escola na promoção da resiliência

De acordo com os mais modernos estudos pedagógicos, a escola deixou de ser somente uma instituição de ensino formal para integrar-se à comunidade e formar mais do que bons estudantes, bons seres humanos. Pessoas críticas, formadoras de opinião, capazes de exercer a cidadania, cumpridores dos seus deveres e conscientes de seus direitos. A escola já caminha em parceria com as famílias dos seus alunos bem como em parceria com todos os setores da comunidade que podem trazer benefícios para a formação plena de seus alunos.

Educadores lidam com vítimas de violência constantemente em suas salas de aula e como já foi citado neste trabalho, são crianças e adolescentes que geralmente apresentam problemas de aprendizagem em decorrência dos seus traumas.

A escola pode contribuir muito com a superação destes traumas tendo profissionais, desde o corpo administrativo até o corpo docente, capaz de estabelecer vínculos com os alunos. A escola deve estar interessada no bem-estar emocional do corpo discente. Deve ter um ambiente propício para relacionamentos de amizade, de confiança, de segurança, de afeto e principalmente para o estímulo positivo da auto-estima. Antes das notas e das provas a escola deve se preocupar em promover os fatores de proteção dos indivíduos em situação de risco, possibilitando a resiliência em cada um deles.

CAPÍTULO III

ULTRAPASSANDO AS BARREIRAS

Relato de uma vítima de violência em processo de recuperação

 

         “Tenho hoje 27 anos e gostaria de contar um pouco sobre a minha vida. Vou começar pelo que de fato mais interessa: aos 8 anos de idade sofri abuso sexual. Estava brincando num terreno baldio, próximo da minha casa e de repente apareceram alguns rapazes e me forçaram a ter relações sexuais com todos eles. Acho que eram cinco ou seis, não me lembro mais. O pior é que eles eram do meu bairro e eu os conhecia. Não preciso dizer que foi horrível e sofro ao me lembrar disso até hoje. Não contei nada a ninguém, nem aos meus pais. Sentia um misto de medo, ódio e vergonha. Fui crescendo e me tornando uma criança agressiva, briguenta, arredia. No fundo queria me esconder do mundo. Logo depois do ocorrido, tive um declínio bastante acentuado em meu rendimento escolar e fui reprovado na 2ª série.

         O que me deixava mais triste é que as pessoas que fizeram aquilo comigo, contaram tudo para outros garotos e rapidamente a coisa se espalhou. Todos riam de mim e me chamavam por nomes pejorativos, querendo dizer que eu era um homossexual. Isso me derrubava!

         Muitas vezes eu tinha vontade de sair para brincar, mas tinha também muita vergonha de sair de casa. Eu agüentava tudo isso quieto, nunca contei nada aos meus pais.

         Eu não via a hora de mudar daquele bairro para que tudo aquilo acabasse. Queria ir para um lugar onde ninguém me conhecesse. E esse dia enfim chegou! Foi um alívio! Minha família acabou precisando se mudar, mudei também de colégio, mas só isso não foi o suficiente para que meus problemas acabassem.  

         Com tudo o que sofri, fui me tornando cada vez mais agressivo. Na escola eu brigava muito, tinha dificuldades para me concentrar nas aulas e sempre que eu me deparava com uma dificuldade em qualquer matéria, eu simplesmente abandonava a idéia de me dedicar mais. Dizia para mim mesmo: Não sei e também não quero saber!

         Minhas notas eram sempre baixas e nunca consegui ser pelo menos um aluno regular. Minha mãe era chamada constantemente na escola por causa de tudo isso, até que ela resolveu me levar a uma psicóloga. Comecei a terapia e fiz durante algum tempo, mas eu não gostava de ir. Pensava que aquilo era coisa para “maluco” e acabei deixando o tratamento porque meus amigos zombavam de mim.

         Na 3ª série tive uma professora muito legal! Quando fiquei de recuperação no final do ano (e isso era muito comum), ela me deu aulas particulares na casa dela. Ela realmente queria que eu passasse de ano e fazia o mesmo com todos os outros alunos em situação igual a minha. Sempre guardei boas lembranças dela. Foi a única que me ajudou de verdade.

         Fui levando os estudos do jeito que dava. Nunca me apliquei, mas também pouca coisa me interessava. Dispersava-me com facilidade e nunca consegui me concentrar em nada. Até hoje, mesmo adulto, continuo assim.

         Fiquei mais velho e por volta dos 16 anos, voltamos novamente a morar no antigo bairro. Para a minha infelicidade voltei a estudar no antigo colégio. Foi um pesadelo! Reencontrei as pessoas que gostaria de esquecer que existiam. Tudo recomeçou.

         No colégio eu não saía da classe na hora do intervalo para que aqueles garotos que sempre zombavam de mim, não me vissem e ficassem fazendo comentários com os outros e principalmente com as meninas. Na adolescência isso seria a pior coisa que poderia acontecer comigo!

         Passaram-se mais alguns anos e aos “trancos e barrancos” eu consegui terminar o colegial (hoje ensino médio). Fui então para a faculdade. Ao longo da minha vida comecei três cursos superiores diferentes e nunca acabei nenhum deles por motivos que sempre tive e nunca havia procurado resolver. Tinha vergonha de ler em voz alta, não gostava de ler, de estudar, de pesquisar algo. Não gostava de fazer nada em grupo e pior: nunca fui persistente. Desistia diante de qualquer dificuldade por menor que ela fosse.

         Saía muito com meus amigos, bebia e fumava muito. Quando chegava em casa eu era o motivo do sofrimento dos meus pais. Chegava sempre muito tarde e bêbado. Minha mãe não conseguia dormir enquanto eu não chegasse e meu pai brigava muito comigo por causa disso.

         Eu trabalhava, mas também não levava nada a sério. Faltava quando queria e não me preocupava com as conseqüências da minha irresponsabilidade. Não gostava da rotina e dos ambientes fechados.

Sempre ia a muitas festas e conhecia muitas garotas. Inconscientemente achava que eu tinha que me relacionar com todas elas para provar para mim mesmo e para os outros que eu era homem de verdade. Aliás, minha grande vingança contra um dos rapazes que havia abusado de mim, foi nessa época, ter seduzido a irmã dele. Tive orgulho quando contei a ele e aos seus amigos que havia sido o primeiro homem da vida dela.

         Do álcool para as drogas a distância é curta e foi esse o meu caminho. Comecei num carnaval a cheirar lança-perfume. Depois veio a maconha e logo a cocaína. Que desastre! Usei por pouco tempo até que um dia passei mal na casa de um colega. Fiquei desesperado e na hora falei: Meu Deus, se eu melhorar nunca mais uso drogas.

         Deus me ouviu. Ele sempre ouve. Melhorei naquela noite e realmente cumpri o prometido. Parei com as drogas, o álcool e me afastei daqueles colegas. Conheci uma moça evangélica e começamos a namorar. Passei a freqüentar a igreja dela e gostei muito. Aprendi muitas coisas e passado algum tempo eu me converti. Mudei bastante, comecei a entender que Deus me amava e que poderia me libertar de todos os meus traumas. Cometia ainda meus deslizes. Continuava agitado, nervoso, depressivo, com o humor bastante instável. Tinha ainda pouca concentração nos estudos e nenhum trabalho me agradava. Mas o estudo da Bíblia era como um bálsamo nas minhas feridas. Começava então o processo de recuperação da minha auto-estima.

         Desmanchamos o relacionamento um tempo depois, mas continuei na igreja, convicto das minhas crenças. Meses depois conheci na mesma igreja, outra moça. Começamos a namorar e pela primeira vez senti confiança em alguém para abrir meu coração. Sentia ainda medo, vergonha e culpa, mas senti que para ela eu poderia contar tudo o que havia acontecido no passado. Ela percebeu então que todas as dificuldades que eu tinha nos estudos, no trabalho e no meu comportamento eram conseqüências do trauma que sofri. Ela conversava muito comigo.

Enfim nos casamos e tomei coragem para procurar um tratamento. Passei por acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico. Comecei um novo trabalho, como autônomo. Dessa forma me sinto mais livre, não fico preso a rotinas e horários. Nunca me adaptei bem aos escritórios e ao trabalho repetitivo, burocrático. Ainda hoje, sou muito agitado. Ao invés da faculdade passei a fazer um curso técnico, que é mais rápido e mais prático. Não sou um acadêmico, ainda hoje não gosto muito de estudar e tenho dificuldades de concentração, por isso optei por estudar e trabalhar em áreas mais dinâmicas.

Uma coisa muito boa aconteceu: comecei a estudar música e tenho conseguido me dedicar a isso! Para mim e para minha esposa isso é uma vitória! Estou gostando muito! Tocar um instrumento tem sido uma grande terapia.

Já consegui falar da violência que sofri para os meus terapeutas, além da minha esposa. Não consegui contar isso ainda aos meus pais e talvez nunca consiga, pois tenho pena do sofrimento que enfrentarão ao saber. O importante é que desabafei e que comecei a encarar o trauma de frente, para poder vencê-lo. Basta-me saber que eles estão contentes com a minha mudança de vida.

Continuo firme na igreja e lá tenho participado de grupos de teatro, superando assim meus problemas para falar em público. Sinto-me muito útil e importante quando confiam a mim alguma tarefa e posso dizer que não decepciono. Faço o melhor que posso e as pessoas gostam.

Foi importante reconhecer que eu precisava aprender a lidar com os meus traumas e ao invés de fazer deles a pedra de tropeço da minha vida, aprender a fazer deles um trampolim para saltos cada vez maiores.

Com o apoio da família, os tratamentos e principalmente com a ajuda e a força vindas de Deus, tenho superado meus traumas. Prova disso é que concordei em fazer esse relato! Penso na possibilidade de ajudar crianças e adolescentes vítimas de maus tratos contando a minha história. Profissionais da área educacional e clínica lerão este trabalho e quem sabe, poderão auxiliar melhor seus alunos e pacientes.

Quero concluir dando um conselho aos pais: que sejam amigos dos seus filhos, que participem da vida deles de modo que os filhos confiem nos pais a ponto de compartilhar suas dificuldades, angústias e decepções. Eles precisam ter liberdade para falar o que pensam sem medo de serem julgados. Isso é mais importante do que compartilhar somente os momentos de alegria. Os pais devem criar um ambiente de amor e acolhimento em casa prestando atenção a qualquer mudança de comportamento dos filhos, manifestando solidariedade e carinho ao invés hostilidade e julgamentos.

Aos professores aconselho que também fiquem atentos aos alunos chamados “problemas”. Eles manifestam comportamentos difíceis e apresentam dificuldades de aprendizagem. Antes de pensar que são “alunos sem solução” e abandoná-los à própria sorte ou ainda, antes de rotulá-los como alunos problemáticos, olhem com mais carinho para todas essas manifestações. Atrás de um mau comportamento ou de um mau desempenho, podem existir problemas e traumas sérios. Percebam que todos esses fatores são a forma desses alunos pedirem ajuda. Isso é realmente um pedido de socorro.   

É possível investir no chamado “mau aluno” e transformar sua vida. Quanto mais cedo um trauma é tratado, mais fácil é de ser superado. Não espere que o seu aluno ou filho se torne um adulto desequilibrado para então se lamentar e arrepender-se de não ter feito algo enquanto podia. Tratar um adulto é muito mais complicado. Sou um exemplo disso.

A superação total demora algum tempo, mas estou seguindo o caminho com a certeza de que serei vitorioso.”

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Atravessamos tempos de mudanças na educação. Cada vez mais estudiosos desenvolvem pesquisas a respeito da escola que não se limita à transmissão de conhecimentos formais, da escola que vai além do giz e da lousa. Fala-se cada vez mais da escola formadora de seres humanos plenos acima de tudo.

Aumentamos portanto as responsabilidades dos profissionais da educação, que não podem se contentar apenas em ser “professores”, mas que devem buscar cada vez mais serem “educadores” no sentido mais profundo e amplo da palavra. E para que um professor seja verdadeiramente um educador é preciso que exista amor. Amor pelo ser humano e amor pelo trabalho de transformar a realidade em que vivemos.

Embora seja esse amor algo subjetivo, é ele o responsável por transformar o relacionamento educador-aluno em um laço de confiança, afeto, respeito e valorização.

 

“Eu poderia falar todas as línguas que se falam na terra e até no céu, mas se não tivesse amor, as minhas palavras seriam como o barulho do gongo ou o som do sino. Poderia ter o dom de anunciar mensagens de Deus, ter todo o conhecimento, entender todos os segredos e ter toda a fé necessária para tirar as montanhas dos seus lugares; mas, se não tivesse amor, eu não seria nada. Poderia dar tudo o que tenho e até entregar meu corpo para ser queimado; mas se não tivesse amor, isso não me adiantaria de nada.

O amor é paciente e bondoso. O amor não é orgulhoso, nem vaidoso. Não é grosseiro, nem egoísta. Não se irrita, nem fica magoado. O amor não se alegra quando alguém faz alguma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. O amor nunca desanima, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência.

O amor é eterno. Há mensagens espirituais, mas durarão pouco. Existem dons de falar línguas estranhas, mas acabarão logo. Há conhecimento, mas terminará também...

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor. Porém o maior desses é o amor.”        ( I Coríntios 13: 1-8 e 13)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Campos, Maria Lygia A. de;  Freitas, Tânia Maria de C.; Sampaio, Luiz Carlos S. e Sammarco, Stella Maria M. (1989). Distúrbios de aprendizagem ou distúrbios de escolarização Associação Brasileira de Dislexia – ABD – série ABD – São Paulo. (mimeo)

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Publicado em 06/11/2003


Katia Ferreira Lima Firmino - Psicopedagoga 

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