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ADOLESCÊNCIA E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE

Rita Melissa Lepre

Acredita-se que as mudanças corporais, ao nível físico, são relativamente universais, com algumas variações. Um exemplo disso é a menstruação nas meninas, não se conhece cultura em que esse fato não ocorra; podem-se variar as datas mas nunca deixar de acontecer.

RESUMO:  Este artigo tem como objetivo refletir e analisar o processo de construção da identidade do adolescente em nossa sociedade. Para tanto, faremos um resgate histórico da questão da adolescência no intuito de esclarecer qual o sentido que esse termo possui nos dias atuais. Pretendemos, ainda, apontar diferenças entre os adolescentes das sociedades modernas e aqueles de outras culturas, com outros costumes e outro tipo de desenvolvimento.  A teoria do psicanalista Erick Erikson será nosso referencial teórico, sobretudo, suas análises sobre a crise de identidade própria da adolescência.

A construção da identidade é social e acontece durante toda, ou grande parte, da vida dos indivíduos. Desde o seu nascimento o homem inicia uma longa e perene interação com o meio em que está inserido, a partir da qual construirá não só a sua identidade, como a sua inteligência, suas emoções, seus medos, sua personalidade, etc. Apesar de alguns traços desenvolvimentais serem comuns a todas as pessoas, independente do meio e da cultura em que estejam inseridas (como é o caso, por exemplo, da menstruação nas meninas ou do nascimento dos pelos nos meninos), há determinadas características do desenvolvimento que se diferem em grande escala quando há diferenças culturais. A construção da identidade é um desses fatores relacionados ao desenvolvimento que tem íntima, senão total, dependência da cultura e da sociedade onde o indivíduo está inserido.

Em alguns momentos podemos observar certas crises de identidade durante o desenvolvimento da mesma. É o que acontece, por exemplo, com a maioria dos adolescentes das sociedades atuais, que precisam resolver essas crises para solidificarem aspectos de sua identidade pessoal e social. Vejamos.

 

 

Um resgate histórico da adolescência

O foco de nossa reflexão são os “adolescentes”. Esse termo não causa espanto ou novidade nos dias atuais; palavra simples (conceito nem tanto) que permeia os discursos tanto da ciência como do senso comum e aparentemente bem definida: fase que se segue à puberdade (aproximadamente entre 14 e 21 anos). Mas, nem sempre foi assim. Nem sempre a adolescência foi uma fase supostamente conhecida, estudada e valorizada como no século que acabamos de ultrapassar: o século XX. Para que possamos entender, exatamente, o conceito atual de adolescência e a conseqüente crise de identidade relacionada à mesma, pensamos que seja necessário um resgate histórico do termo pois esse é, sem dúvida, derivado de movimentos da história.

Todo termo adquire melhor sentido quando embasado historicamente, pois a história lhe oferece a base conceitual e evolutiva, legitimando-o.  Há inúmeras pesquisas, na área da Educação, que pecam por carecer de bases históricas que introduzam o assunto contido no problema de pesquisa e dão a impressão de estar falando de algo que se encerra em si mesmo; que sempre existiu ou que surgiu em determinada época remota (não se sabe qual) mas que isso não influencia o seu conceito. Não pretendemos correr o mesmo risco.

Iniciaremos nosso resgate focando nosso olhar sobre um dos mais ricos impérios (em todos os sentidos)  de que se teve notícia: o romano (ou helênico), que corresponde ao período do século I d.C. ao ano 476. Teremos, portanto, um foco exclusivamente ocidental (por opção e não preconceito).

O nascimento de um romano não era o suficiente para que esse ocupasse um lugar no mundo. Era necessário que o pai o quisesse e o recebesse para que, então, iniciasse  sua educação e conseqüente colocação na aristocracia romana. Tão logo nascia a criança era entregue a uma nutriz que ficava responsável pela educação da criança até a puberdade, educação essa que era extremamente rígida, tendo como objetivo a formação do caráter. Somente aos 14 anos o jovem romano abandonava as vestes infantis e passava a ter o direito de fazer o que um jovem gostava de fazer; aos 17 anos podia entrar para  a carreira pública, como o exército. Não havia um marco que separasse  a criança do adolescente pois isso era decidido pelo pai, quando esse pensava ter chegado à hora do impúbere abandonar as vestes de criança e tomar as vestes de homem.

Durante a Idade Média também não se viu nascer nenhum período de transição entre a infância e a idade adulta, o chamado jovem era o recém entrado no mundo adulto, o que era feito através da barbatoria, cerimônia que se seguia ao primeiro barbear do rapaz, sendo que o pêlo era a prova de que a criança tornara-se homem e, então, a qualidade da agressividade poderia ser cultivada, objetivando a boa formação do guerreiro. A “noite da alta idade média”  foi marcada  pelo monopólio da Igreja e pela ascensão da violência pois só essa permitia a sobrevivência e o jovem adulto era preparado para exercer sua virilidade através da habilidade em matar e da disponibilidade para morrer, se assim fosse preciso. Ainda que já houvesse uma classificação dos diferentes períodos da vida (infância e puerilidade, juventude e adolescência, velhice e senilidade), não havia lugar para a adolescência que era confundida com a infância.

Embora um vocabulário da primeira infância tivesse surgido e se ampliado, subsistia a ambigüidade entre a infância e a adolescência de um lado, e aquela categoria a que se dava o nome de juventude, do outro. Não se possuía a idéia do que hoje chamamos de adolescência, e essa idéia demoraria a se formar.  (Ariès, 1981: 45)

 

É no século XVIII que aparecem as primeiras tentativas de se definir, claramente, a adolescência. Mas é somente no século XX que vimos nascer o adolescente moderno típico exprimindo uma mistura de pureza provisória, força física, espontaneidade e alegria de viver, o que tornou o adolescente o herói do século XX – o “século da adolescência”. A partir de então, passou a haver interesse sobre o que o adolescente pensa, faz e sente. Definiu-se claramente a puberdade e as mudanças psíquicas, para que tivéssemos a imagem do adolescente atual.

É importante lembrarmos, no entanto, que abordaremos neste artigo o adolescente das sociedades modernas, que apresenta toda uma caracterização própria dessa sociedade. Há estudos que nos mostram que a grande maioria das questões ligadas à adolescência está diretamente relacionada ao funcionamento da sociedade em que esse adolescente encontra-se inserido.

A antropóloga Margareth Mead, realizou estudos de 1925 a 1933, sobre alguns povos primitivos dos Mares do Sul, entre eles os nativos da ilha de Samoa. Para divulgar suas descobertas Mead escreveu o livro “Adolescencia y cultura en Samoa” (1939) onde foca a adolescência samoana fazendo comparações com os adolescentes de nossas sociedades modernas.  Para Mead, o que marca uma diferença profunda entre nossos adolescentes e os de Samoa é a quantidade de escolhas que se permite a cada indivíduo.

Nossos adolescentes se encontram com um mundo de escolhas que se deslumbram aos seus olhos. São livres para escolher entre as mais variadas religiões, deparam-se com diversos códigos morais e encontram-se frente a uma série de grupos diferentes, que têm crenças diferentes e proclamam práticas diversas. Aos adolescentes de Samoa essas questões não se colocam, sendo que as escolhas que são possíveis aos jovens samoanos são completamente diferentes. Não é possível, por exemplo, fazer qualquer escolha que implique em transgressões de normas de seu grupo social, como pode acontecer em nossas sociedades modernas, onde a filha de um católico pode ser protestante ou o filho de um defensor das políticas de direita ser um socialista defensor dos direitos do povo.

As escolhas em Samoa apresentam razões práticas: escolhe-se uma residência para morar ao invés de outra porque  as condições de dado lugar são melhores, tem-se uma amante na aldeia ou havia entrado em conflito com alguém da outra. A falta de opções para escolha é própria de uma civilização primitiva, simples e homogênea que caminha muito lentamente sem grandes transformações. No pólo oposto encontram-se as civilizações modernas que são heterogêneas, variadas, diversas e marcadas por profundas transformações que as gerações podem experimentar, devendo se reequilibrar até  que outra mudança se coloque.

O adolescente que abordaremos nesse trabalho é, pois, aquele próprio das sociedades modernas, que tem a sua frente um grande rol de possibilidades, que vive conflitos afetivos, sociais e morais por terem que escolher em uma sociedade onde as opções são muitas.

 

A conceituação da adolescência

A primeira idéia que nos surge quando pensamos em adolescência é “transformação”. Alguns autores sublinham as transformações corporais, a chamada puberdade, marcada pelo estirão (crescimento rápido), surgimento de pêlos pubianos, mudança na voz dos meninos, aumento dos seios nas meninas, ebulições hormonais levando à explosão da sexualidade, etc. Outros autores frisam as transformações comportamentais, tais como uma suposta rebeldia, um certo isolamento, um apego exagerado ao grupo, adoção de novas formas de se vestir, falar e se relacionar, além de episódios de depressão, tristeza ou euforia. Tal metamorfose inclui idéias megalomaníacas: crença de que pode mudar o mundo e perda de algumas referências, como a de seu lugar no mundo.

Acredita-se que as mudanças corporais, ao nível físico, são relativamente universais, com algumas variações. Um exemplo disso é a menstruação nas meninas, não se conhece cultura em que esse fato não ocorra; podem-se variar as datas mas nunca deixar de acontecer.

Já no nível psicológico (principalmente comportamental), há uma vasta diferença de características no que tange às mudanças. Acredita-se que não há nada de universal nas transformações psicológicas que variam de cultura para cultura (como, por exemplo, o caso de Samoa), de grupo para grupo e de indivíduo para indivíduo. O que há de interessante em nossa sociedade é que, com certeza, a adolescência faz nascer um novo referencial, é como um novo nascimento: só que agora é o “recém-nascido” quem deve escolher o nome!

Como afirma Becker (1997),

Então, um belo dia, a lagarta inicia a construção do seu casulo. Este ser que vivia em contato íntimo com a natureza e a vida exterior, se fecha dentro de uma “casca”, dentro de si mesmo. E dá início à transformação que levará a um outro ser, mais livre, mais bonito (segundo algumas estéticas) e dotado de asas que lhe permitirão voar. Se a lagarta pensa e sente, também o seu pensamento e o seu sentimento se transformarão. Serão agora o pensar e o sentir de uma borboleta. Ela vai ter um outro corpo, outro astral, outro tipo de relação com o mundo.     (Becker, 1997:14)

 

 

A crise de identidade própria da adolescência

 O período da adolescência é marcado por diversos fatores mas, sem dúvida, o mais importante é a tomada de consciência de um novo espaço no mundo, a entrada em uma nova realidade que produz confusão de conceitos e perda de certas referências. O encontro dos iguais no mundo dos diferentes é o que caracteriza a formação dos grupos de adolescentes, que se tornarão lugar de livre expressão e de reestruturação da personalidade, ainda que essa fique por algum tempo sendo coletiva.

Essa busca do “eu” nos outros na tentativa de obter uma identidade para o seu ego é o que o psicanalista Erik Erikson chamou de “crise de identidade”, o que acarreta angústias, passividade ou revolta, dificuldades de relacionamento inter e intrapessoal, além de conflitos de valores. Para Erikson, o senso de identidade é desenvolvido durante todo o ciclo vital, onde cada indivíduo passa por uma série de períodos desenvolvimentais distintos, havendo tarefas específicas para se enfrentar. A tarefa central de cada período é o desenvolvimento de uma qualidade específica do ego. Para esse autor, dos 13 aos 18 anos a qualidade do ego a ser desenvolvida é a identidade, sendo a principal tarefa adaptar o sentido do eu às mudanças físicas da puberdade, além de desenvolver uma identidade sexual madura, buscar novos valores e fazer uma escolha ocupacional.

Segundo Erikson (1972)

Em termos psicológicos, a formação da identidade emprega um processo de reflexão e observação simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em comparação com os demais e com os tipos que se tornaram importantes para ele.   (p.21)

Portanto, a construção da identidade é pessoal e social, acontecendo de forma interativa, através de trocas entre o indivíduo e o meio em que está inserido. Esse autor enfatiza, ainda, que a identidade não deve ser vista como algo estático e imutável, como se fosse uma armadura para a personalidade, mas como algo em constante desenvolvimento.

Como vimos, entre os aspectos importantes no desenvolvimento da identidade está o controle vital, ou seja, as fases ou períodos da vida que o indivíduo atravessa até chegar à idade adulta, que são marcados por crises apresentadas como situações a serem resolvidas.  Como afirma Erikson (1972),

Entre as indispensáveis coordenadas da identidade está o ciclo vital, pois partimos do princípio de que só com a adolescência o indivíduo desenvolve os requisitos preliminares de crescimento fisiológico, amadurecimento mental e responsabilidade social para atravessar a crise de identidade. De fato, podemos falar da crise de identidade como o aspecto psicossocial do processo adolescente.  (p. 90)

Desta forma, o grande conflito a ser solucionado na adolescência é a chamada crise de identidade e essa fase só estará terminada quando a identidade tiver encontrado uma forma que determinará, decisivamente, a vida ulterior.

É importante entender que o termo crise, adotado por Erikson, não é sinônimo de catástrofe ou desajustamento, mas de mudança; de um momento crucial no desenvolvimento onde há a necessidade de se optar por uma ou outra direção, mobilizando recursos que levam ao crescimento.

É no período da adolescência que o indivíduo vai colocar em questão as construções dos períodos anteriores, próprios da infância. Assim, o jovem assediado por transformações fisiológicas próprias da puberdade precisa rever suas posições infantis frente à incerteza dos papéis adultos que se apresentam a ele. A crise de identidade é marcada, também, por uma confusão de identidade, que desencadeará um processo de identificações com pessoas, grupos e ideologias que se tornarão uma espécie de identidade provisória ou coletiva, no caso dos grupos, até que a crise em questão seja resolvida e uma identidade autônoma seja construída.

É exatamente essa crise e, conseqüente confusão, de identidade que fará com que o adolescente parta em busca de identificações, encontrando outros “iguais” e formando seus grupos.  A necessidade de dividir suas angústias e padronizar suas atitudes e idéias, faz do grupo um lugar privilegiado, pois nele há uma uniformidade de comportamentos, pensamentos e hábitos.

Com o tempo, algumas atitudes são internalizadas, outras não, algumas são construídas e o adolescente, paulatinamente, percebe-se portador de uma identidade que, sem dúvida, foi social e pessoalmente construída.

ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2ª edição. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1981. BECKER, Daniel. O que é adolescência? São Paulo: Brasiliense, 1997. ERIKSON, E. H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1972. GRAVES, Robert. Deuses e heróis do Olimpo. Trad. Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Thex, 1992. P.27. GRÜNSPUN, Haim. Autoridade dos pais e educação da liberdade. São Paulo: Almed, 1983. LEVISKY, D. L. Adolescência: pelos caminhos da violência. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999. MEAD, M. Adolescencia y cultura en Samoa. 4ª edición. Buenos Aires: Editorial  Paidós, 1973. PUIG, J. M. A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática, 1998. SPITZ, Christian. Adolescentes perguntam. Tradução de Sônia Goldfeder. São Paulo: Summus, 1997. VOLPI, M. Adolescentes privados de liberdade. São Paulo: Cortez, 1998.

Publicado em 11/02/2003


Rita Melissa Lepre - Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação pela Unesp Docente universitária no curso de Pedagogia

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